segunda-feira, setembro 29

As Primárias do PS

I - O dia de primárias no PS foi, no essencial, uma vitória para o partido. A adesão em massa dos eleitores, a tranquilidade dos procedimentos e a expressividade dos resultados é disto prova inequívoca. A Comissão Eleitoral está de parabéns, tendo sido capaz de montar e acompanhar um processo complexo e a uma escala totalmente inovadora para um partido político com a dimensão do PS, correndo contra as adversidades que um calendário curto e a decisão improvisada de convocar este modelo eleitoral lhe colocava.

II – Costa teve uma vitória estrondosa e acaba por ter de agradecer à estratégia de Seguro, por lhe ter conferido uma legitimidade além das fronteiras do PS. Uma diferença de 70% (Costa) contra 30% (Seguro) é uma abada eleitoral em toda a linha. Embora continue a entender que as primárias representam uma irreversível desvalorização da militância, que ocorre à margem dos Estatutos e com reflexos inevitáveis no esbatimento ideológico do partido, o certo é que a estratégia de Seguro lhe saiu completamente furada e que Costa tem hoje uma legitimidade muito mais forte do que a que resultaria de um simples congresso extraordinário.

III – Apesar disto, temos de reconhecer que Seguro teve uma saída limpa. Admitiu a derrota, demitiu-se de Secretário-geral do PS, cumpriu a palavra dada e fica apenas como militante de base. Em democracia, tão importante como ganhar ou perder, é saber tirar as devidas consequências das derrotas e das vitórias. A clareza política não se compadece com “desculpas” e, de facto, Seguro, depois de ter exposto o PS da forma como expôs e durante tanto tempo, não tinha outra saída digna. Saiu como deve de ser.

IV – Porém, é um facto que emergem cicatrizes inquestionáveis destes últimos quatro meses. Apesar dos resultados de Costa e da saída irrepreensível de Seguro, não há como não reconhecer que a unidade e coesão do partido ficou tremendamente abalada com todo este processo, a sua delonga e a forma como ambas as candidaturas conduziram a campanha e os diversos debates televisivos. António Costa tem um ano para refazer a unidade no PS e terá ainda de concentrar-se no programa eleitoral, sem poder descurar-se de nenhuma. 

V - O maior derrotado da noite é o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas. Depois de desejarem à força toda o oponente eleitoralmente mais frágil, eis que não só lhes sai o candidato mais forte como, ainda por cima, vem revestido de uma prévia legitimidade extra-partidária, com expressivos resultados e com renovada energia. É caso para dizer, de facto, como disse António Costa, " este é o primeiro dia do fim deste Governo".

VI - Cá pelas nossas bandas, não há dúvida que esta é também uma vitória para Carlos César. Depois de ter sido designado mandatário nacional da campanha de Costa nas primárias; sendo amigo e parceiro de combate desde os tempos da JS; sendo quem, no Congresso do PS-Açores, lançou pela primeira vez o nome de Costa para a calha da liderança do PS; e com os resultados que obteve na federação de que é presidente honorário (87%, é obra), é natural agora que se transforme numa relevante peça no xadrez político nacional. Carlos César deixa, assim, Vasco Cordeiro definitivamente liberto da figura tutelar. Para Vasco esta é a derradeira oportunidade de cortar o natural cordão umbilical que lhe une ao histórico líder do PS-Açores. Na psicanálise política, para que as rupturas aconteçam, não basta que os protagonistas o desejem. Na natureza como na política, as rupturas só acontecem quando o ambiente lhes é propício. Este é o momento.

domingo, setembro 28

ao viés


Para Breyten Breytenbach, intelectual sul-africano (um dos maiores, dizem), entrevistado por Clara Ferreira Alves (Atual nº 2185|Expresso 13 Setembro 2014), “vivemos numa nova configuração tribal”. E “uma das piores tribos é a dos turistas. Matam tudo. (…) Os turistas são uma massa sólida pior do que o terrorismo, de certo modo”.
Ler esta fecunda e provocatória afirmação categórica, foi como ter sido atingido nos queixos por um forte uppercut (de esquerda, claro), resultando numa tal sensação de desnorte à qual se juntou a de náusea, provocada pela visão emproada e preconceituosa da claramente-intelectual-também interlocutora, lançada sobre a classe média, supostamente carregada de “mediania, indiferença estética. Mau gosto. Tédio”, como numa espécie de tentativa de extrapolação do raciocínio(?) do entrevistado.
Há coisas que nos deixam abananados, verdadeiramente perplexos, quando vêm de supostos vultos (seja lá o que isso for). Eu, que estava absolutamente crente nos testemunhos provenientes da O.M.T. e que se referem ao Turismo como a “Indústria da Paz” e uma das mais importantes para a preservação da memória colectiva das civilizações, tenho que dar a mão à palmatória: depois de alguns anos passados, a malta já se esqueceu das guerras mundiais e da silenciosa-mas-vibrante guerra fria, que fizeram com que todos quantos com elas sofreram aspirassem a uma nova ordem social mundial.
Ok! É verdade que a deliciosa aspiração depressa se tornou em algo talvez demasiado global e indiferenciado para qualquer intelectual que defenda acerrimamente a causa que o alimenta, ainda que, em alguns casos, o faça com um discurso de surdos. Não é, por isso, de estranhar que os aludidos possam dar-se ao luxo de assim falar, até porque, aparentemente, aquela “massa sólida pior do que o terrorismo” vem da “classe média, pilar dos regimes e da estabilidade”. Nada pior, para os intelectuais que querem continuar a poder fazer-se ouvir.
Não me sai da cabeça que, agora, talvez tenhamos que condescender alguns ataques terroristas, perpetrados contra turistas nos sítios do costume. Pelo menos os mais levezinhos, talvez. Mas o meu pior e verdadeiro receio é poder vir a ser obrigado a ter que compreender, verdadeiramente, as palavras destas duas alminhas que se podem ter perdido pelo mundo.


foto daqui




quarta-feira, setembro 24

Qual é o próximo?

O que importa é que tentaram. Não vale a pena andarmos à procura das razões para o encerramento do Ateneu Criativo, elas são por demais conhecidas. Os parabéns pelo esforço e persistência. Agora é tempo de pensar o próximo projecto!

domingo, setembro 14

Excelência, Sim. Mas não nos acomodemos!

Para os mais atrevidos, "A EXCELÊNCIA" poderá ser vista como o anti-herói das grande empreitadas que ainda esperam a humanidade. No entanto, se pensarmos como K. Sriram

"Excellence can be obtained if you:
... care more than others think is wise;
... risk more than others think is safe;
... dream more than others think is practical;
... expect more than others think is possible."

Conseguiríamos ser bastante melhores naquilo que fazemos e tudo seria bem diferente.

Entre outras coisas, não deixem, por isso, de ler o artigo de Ávaro Dâmaso no AO

segunda-feira, agosto 4

O canto da sereia neoliberal

Passei toda a minha vida a ouvir os sacerdotes do neo-liberalismo com a história de que "Estado é mau gestor por natureza" e que "os privados é que são bons". Pois o caso BES/GES, se dúvidas houvesse, vem provar à exaustão que isto não é assim nem por natureza, nem por princípio.

Fartavam-se os mesmos fanáticos de falar nas vantagens da privatização da Segurança Social. Pois nem quero imaginar as insónias que passaria um pensionista nas últimas semanas se a sua pensão estivesse a cargo de um qualquer fundo gerido pelo BES. Aliás, imagino o alívio dos pensionistas do Fundo de Pensões do BES por entretanto ter passado para a Segurança Social...

E os mesmos iluminados fartavam-se de sugerir a privatização da Caixa Geral de Depósitos, ávidos de abocanhar mais uns quantos milhões, com o argumento de que a Banca era coisa para estar exclusivamente nas mãos de privados. Pois bastou o BPN para irem todos “pedir pelas almas” para que o Estado os acudisse dos perigos da propalada “crise sistémica”. E julgámos todos que o gangsterismo bancário estava limitado aos "banqueiros" arrivistas e aventureiros, do tipo BPN e BPP, que se aproveitaram do laxismo trazido pelo thatcherismo nos anos 80 e do favoritismo político que as ligações partidárias permitiram; afinal, o caso BES/BESI mostra que a falta de escrúpulos atinge o círculo dos banqueiros de mais elevado pedigree e que as regras do jogo parecem ser aquelas. E lá ficou o contribuinte com o preço dos mandos e desmandos do BPN, como – provavelmente – acontecerá no fim das contas do processo BES.

São uns queridos…. uns fofos esta direita radical e estes banqueiros nacionais.

É certo que a coisa pública esteve longe de ser um exemplo de boa gestão todos estes anos nas mãos de quem esteve. É um facto. Mas para vermos "bons gestores privados" e as “virtudes da boa gestão privada” já nos bastam os exemplos que temos tido e preço que temos pago.

segunda-feira, junho 9

A utopia do Espírito Santo

Ao Sr. Amaro Matos que me acolheu em Sto. Amaro do Pico,
em dia de Espírito Santo.
Aqui a fraternidade dá esperança na Humanidade.
Vim a Sto. Amaro do Pico, a convite de Amigos, às festas do Espírito Santo. Houve crianças coroadas, houve sopas, houve festa e voltou a mim o bom e velho Agostinho da Silva.
Com fundações claras nas teses do teólogo místico Joaquim de Fiore, Agostinho da Silva constrói uma utopia já não mística mas eminentemente ideológica.
Fiore acreditava que a História se resumia a três tempos. O primeiro tempo era a Idade do Pai, do Deus barbudo e velho do antigo Testamento, cheio de relâmpagos e trovões, do “olho por olho, dente por dente”, de Quem a minha avó dizia ter medo que fosse Ele a abrir-lhe as portas do céu quando morresse... Depois veio o tempo do meio, a Idade do Filho, o nosso tempo, um tempo em que os Homens precisam de uma lei, de Governos, de trabalhar e de subsistir… à espera do paraíso, lá longe, no outro mundo. Na Idade do Espírito Santo, o terceiro tempo, os Homens irão construir o Paraíso na Terra, a Terra funde-se com o céu e não mais se saberá do ontem, do hoje ou do amanhã.   
Agostinho da Silva quer que a mística de Fiore possa ser transmutada para solução política: que o mundo possa ser construído como um projecto da humanidade em três tempos.
A prática religiosa e cultual do Espírito Santo nas ilhas dos Açores (e também no Brasil), e – mais do que ela – os fundamentos a ela implícitos, servem de substancia aglutinadora do seu pensamento. É, pois, assim que procura nas raízes profundas da nossa tradição três símbolos essenciais para evidenciar a sua ideologia sócio-política: Primeiro, a criança coroada, o menino imperador do mundo, o governo das crianças, como alusão a uma troca de valores metafísicos e ontológicos, cujas consequências em cadeia destronam a tradicional hierarquização dos saberes e dos poderes; Segundo, o prisioneiro liberto, como alegoria da libertação de todos os velhos cânones, das leis, dos Estados, das fronteiras… a assimilação completa do grande destino humano: a liberdade. Terceiro, o bodo, a fraternidade universal e plena, a partilha, a paz, a humanidade cônscia do bem no comum.
A utopia de Agostinho da Silva é muito bonita e paira sobre arquétipos da nossa História, buscando a universalidade no ecumenismo latente do paráclito, como única solução teleológica (e não teológica) de um futuro de paz, de fraternidade e de liberdade. 
Mas isto também nos dá uma espécie de grande tarefa: criar um mundo feliz para gozo dos Homens. Um mundo onde nos apeteça viver. Não vale a pena ter países, estados, regiões, leis e instituições se não for para isto.
Não nos podemos contentar em continuar apenas a colocar coroas na cabeça de meninos. Temos de evitar que crianças sejam maltratados como são, abandonados como são, vítimas de exploração como são… para que possam ser realmente imperadores do mundo quando vier esta futura Idade do Espírito Santo.
Não nos podemos contentar em dar um banquete a toda a gente de vez em quando. Temos é de fazer com que toda a gente coma realmente e todos os dias, tenha saúde, tenha educação e protecção na velhice.
Não vamos andar a libertar presos para que andem à solta um dia por ano. Mas temos de cuidar da liberdade como o único caminho de realização plena do ser humano.
Esta é a minha teimosa utopia... E a culpa, pelos vistos, é do Espírito Santo.


Santo Amaro do Pico, a 8 de Junho de 2014 

quinta-feira, junho 5

DA PAIXÃO

“li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?”

Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo, 2008

segunda-feira, junho 2

E AINDA SE QUEIXAM…

Na passada sexta-feira o Governo voltou a ver o Orçamento do Estado declarado inconstitucional.
Isto significa que este Governo ainda não fez nenhum Orçamento do Estado que não violasse a Constituição. Pior: tendo em conta que o TC fez sempre aproveitar os efeitos das inconstitucionalidades já produzidas, e que só decidiu a meio do ano das questões levantadas em sede de fiscalização sucessiva, temos que o país esteve sem Constituição em metade de todo o mandato deste Governo. Dito de outro modo, em metade do tempo que a TROIKA esteve no país, Portugal esteve sem Constituição.
Mas não satisfeito em se comportar como um delinquente reincidente, não satisfeito em ter conseguido aplicar normas inconstitucionais em metade de toda a execução dos seus orçamentos, este Governo ainda se dá ao desfrute de se queixar do Tribunal Constitucional…
Alevá...

quarta-feira, maio 7

Memórias


Nova edição da revista de bordo da SATA. Destaco sem hesitações a rubrica Memórias pelo prazer da escrita do Carlos Riley, um ex-:ILHAS e um amigo.

sexta-feira, abril 25

É a Liberdade, estúpido. A flor da temporada.

Todos querem celebrar o 25 de Abril mas, aparentemente, nem todos com a mesma intensidade e, sobretudo, não na mesma direcção.
A cada ano que passa e nos distancia desta importante data (mais para uns do que para outros), somos obrigados a fazer a mesma reflexão sobre a liberdade. Todos os anos nos sentimos obrigados (e se não, outros nos obrigam) a reflectir sobre a determinação e coragem dos ditos “Capitães de Abril” e a procurar, metafisicamente, a consequência que da revolução dos cravos, hoje, já não se retira.
Sou, também, face aos últimos acontecimentos protagonizados tanto pelo parlamento como pela Associação 25 de Abril, obrigado a acreditar que quanto mais longe estivermos e quanto menos forem os intervenientes presentes, melhor será esta importante celebração. Este facto (que para alguns será um sapo difícil de engolir) todos os anos se manifesta de forma absolutamente inusitada e que serve para dar palco às referidas figuras, absortas nas suas conquistas e a procurarem servir-se deste dia para que todos os dias sejam… o quê? 25 de Abril de 74? Quantas vezes? E para quê? Para que o poder não volte a cair na rua - pretexto utilizado para, em 74, entregar o poder ao então General Spínola que, curiosamente, entre outras obras, publica “Portugal e o Futuro” em 74 e “País sem Rumo” em 1978?
Não sou muito religioso e agradeço pouco a Deus (o que para muitos pode ser considerado uma heresia imperdoável) mas, todos os anos, a cada 25 de Abril, e cada vez com mais intensidade, agradeço a todos aqueles que ajudaram à Proclamação da República Portuguesa, transformando, então, indelevelmente a nossa realidade política e, por conseguinte, tornando possível o resto do nosso percurso de autodeterminação. Com altos e baixos, é verdade mas, a vida tem dessas coisas.
Acredito que os “Militares de Abril” e todos os que em seu torno gravitam (tal como a FLA nos Açores) teriam que se reestruturar (refundar, talvez) para conseguirem desempenhar um papel com a mesma substância doutrora, num contexto geopolítico completamente diferente, no qual, para desventura dos mesmos, os problemas económicos que comprometem cada vez mais seriamente o “Estado Social” e condicionam a “Liberdade de Expressão”, por sermos cada vez mais escravos do dinheiro, são, eventualmente, o denominador comum na história de uma democracia, afinal, estéril.
Infelizmente, esta lateralidade, considerada por muitas e pesadas figuras de 74 como necessária e verdadeira (palavras cada vez mais afiadas nas bocas conspurcadas), menoriza a essência da revolução, fazendo dela uma arma de arremesso contra o poder instituído – seja ele qual for – e uma coisa pequenina do Largo do Carmo, em Lisboa.
Pode ser que, para as celebrações do próximo ano, D. Sebastião regresse a tempo de por ordem na casa.
Viva a Revolução! Viva Portugal, este país de tanta vontade contrastante mas, cheio de tão grande e jeitosa resignação.


sábado, abril 19

A paz não NOS cai bem!





Era eu pequenino e queria ser grande para poder tratar das coisas que os homens grandes guardavam só para si.
Havia um certo mistério em tudo o que os grandes faziam. Eram grandes feitos. Coisas importantes. Estratégias consertadas com outros grandes vultos.
E eu, pequenino, sonhava ser grande e, com grande emoção, buscava ter o que julgava não ser, tal era a importância daquilo sobre o qual os homens grandes se orgulhavam nas suas ainda maiores conversas.
Hoje, todos os pequeninos do meu tempo de pequenino são já homens grandes e eu, amadurecido, atónito vivo porque ser grande é, afinal, nada daquilo que eu sonhei poder ser.
É verdade que esta vida de gente grande nos deixa pouco tempo para pensar sobre o que estamos realmente a fazer. É verdade também que, agora que somos grandes, não temos tempo para coisas de rapazes. Estamos, pois, preocupados com as coisas ditas de governo, por tão importantes serem as questões do poder.
Não são poucas as vezes que eu me arrependo de me ter tornado num homem grande. Contudo, como não posso, nem quero, voltar a ser pequenino - a mim, nenhum homem grande me apanha a querer ser como ele outra vez -, vou-me alienando de uma indeterminada-mas-determinante maneira de acontecer.
Diz-se que a “Globalização” veio tornar o Mundo mais pequeno. Se, por um lado, tal possa ser entendido como uma verdade fácil de aceitar por ter contribuído para aproximar as pessoas, os seus hábitos e critérios, por outro, é uma insana visão, pois, a “Globalização” tem contribuído – em larga escala – para que a nossa ideia de Mundo seja, hoje, imensamente maior.
Com a “Globalização”, caso curioso para esta pequenina reflexão, os homens grandes dos Açores passam o tempo todo a querer ser como os homens grandes que passaram a conhecer, na Europa, por exemplo. Se isto me deixa empolgado sobre o enorme potencial de evolução que tal postura representa para nós, fico com sérias dúvidas sobre a possibilidade de o sabermos aproveitar porque, no Turismo, hoje, vejo homens grandes a mostrarem aos agentes do sector (e a todos os interessados nestes assuntos) os bons exemplos da Madeira quando, num passado não muito distante, alguém discursava calorosamente sobre a nossa determinante recusa em cometermos os mesmos “erros” daquele arquipélago e que o nosso atraso relativo nos iria ajudar a afirmarmo-nos como um destino de qualidade (seja lá o que isso for).
Não me atrevo a perguntar o que se terá passado para uma mudança tão rápida de paradigma (tanto que estes bons exemplos agora dados já existiam na altura dos discursos inflamados), nem ouso questionar se é assunto relacionado com a umbilical força dos costumeiros envolvidos na edificante estratégia turística arquipelágica mas, não querendo ser mais um destes homens grandes, só nos resta esperar encontrar alguma pista nesta nova música deste pequenino clã.

segunda-feira, abril 7

Bastou decisão do Tribunal de Contas.

É o primeiro caso de devolução das verbas das senhas de presença da Associação de Municípios da Ilha de São Miguel, consideradas ilegais pelo Tribunal de Contas. Antigo vereador da Câmara Municipal da Lagoa devolveu, em cheque, a quantia recebida. Exemplo vem da Lagoa. Não é que importe muito mas, fico sensibilizado e manifesto a minha satisfação.

sexta-feira, março 7

segunda-feira, março 3

Genialidade Açoriana

Os Açores estão na moda. Diz-se nos "métiers du tourisme".

Mas, aparentemente, a verdade é outra.  É que, para além disso, numa certa lógica de integração num Mundo que transcende em muito os nossos limites costeiros, os ilhéus empresariais parecem seguir as pegadas dos ilhéus poetas e destacam-se perante o todo nacional.

Há já alguns dias, a notícia do Prémio Agricultura 2013 ter sido ganho pela FINANÇOR - Agro Alimentar, facto que enche de orgulho todos aqueles que sentem prazer com as vitórias dos seus.

Agora, a CYBERMAP na capa da EXAME (revista que, na minha adolescência, devorei mensalmente à procura dos exemplos a seguir), apresentando-se como a 43ª melhor empresa para se trabalhar em Portugal.

E se a surpresa acabasse por aqui, só me restava endereçar os meus parabéns ao Luís Melo e a toda a sua equipa. No entanto, ao follhear com interesse a revista para ver quem lhe ficou atrás, descubro um incontornável da restauração de Ponta Delgada em 65º lugar na mesma lista: o RESTAURANTE ALCIDES.

Voltando a parabenizar, agora o Pedro Melo - gerente do carismático empreendimento que também oferece um hotel -, ocorre-me agradecer a Alcides Cabral de Melo - pai de tão promissores jovens gestores -,o espírito com que os contagiou e desejar que outros exemplos da nossa genialidade se possam seguir.

terça-feira, fevereiro 25

domingo, janeiro 19

25 Places You Have To See Before You Die

Ao contrário de muitos milhões de habitantes no Mundo, bem posso dizer que me faltam apenas 24 sítios para ver antes de morrer.

sábado, janeiro 4

história de um "briefing"

Já sei que muitos verão nesta partilha mais um deliberado acto de pub institucional. A minha esperança reside naqueles que identificarem a profundidade do ser, num momento de grande reconciliação.

"11 horas. Reunidos em frente ao balcão da recepção, que agora ganha outra centralidade, estávamos todos: a equipa técnica responsável pela obra e a equipa nuclear do hotel que, com quase 80 anos de operação ininterrupta, voltava a nascer. O hotel era-nos devolvido após 7 meses de obra, da qual resultou uma remodelação profunda, originando o desejado reposicionamento. O calendário marcava o dia 1 de Junho de 2013.

No círculo, naturalmente criado, as emoções eram fortes. Parecíamos os “Cavaleiros da Távola Redonda”. À minha frente, João Mota Vieira, engenheiro responsável pela fiscalização da obra, ladeado pelos engenheiros Isabel Cordeiro e José Mendonça. Comigo, a Fátima, subdirectora; a Alice, chefe de recepção; a Goreti, nossa governanta; o António, chefe de bar; o Fernando, jardineiro chefe; o João, maître d’hotel; o chef Luís; o Luís, encarregado de manutenção e o Vítor, responsável pelo economato.

Apesar de exaustos pelo contributo que cada um foi chamado a dar para equipar o hotel na fase final da obra, a felicidade estampava-se nos nossos rostos, como se fossemos crianças deslumbradas com o seu brinquedo novo.

Na nossa memória, fresca como as ervas aromáticas do Parque Terra Nostra incorporadas nos nossos cozinhados e com que agora fazemos as nossas próprias infusões e outras bebidas refrescantes, a lembrança dos dias passados a afinar o conceito com os projectistas, as acesas discussões sobre as tendências a serem observadas na necessária reformulação da nossa proposta de valor e a identificação da “Tradição e Charme do Hotel Terra Nostra”, do “Parque Terra Nostra” e da “Sustentabilidade” como os pilares que a haviam de suportar.

Víamos, nos olhos uns dos outros, para além das lágrimas, a satisfação de quem ajudou a formular os grandes objectivos para a operação do renovado Terra Nostra e lembrei-me do inédito workshop que organizamos com todos os colaboradores, no dia 29 de Abril, do qual saíram doze compromissos que todos têm escrupulosamente honrado no seu dia-a-dia. Lembro-me que a alegria era imensa. Todos juntos pela primeira e última vez, já que tal cenário seria irrepetível, pensavam todos. Mas a alegria veio a repetir-se apenas 15 dias após a reabertura do hotel. Juntamo-nos todos novamente, para a “foto de família” e para revermos rapidamente algumas fotografias das obras, com o intuito de nos apropriarmos do nosso novo hotel.

Para a “foto de família” tínhamos como referência a fotografia da primeira equipa do hotel mas, tínhamos também um grande problema: como libertar todos os funcionários dos seus afazeres com um hotel cheio? Ocorreu-me escrever uma carta a todos os hóspedes, informando da cerimónia e confessando o nosso propósito: Queríamos honrar o passado e receber o futuro de braços abertos! Assim, informados que o hotel funcionaria apenas com os serviços mínimos assegurados por colegas de outros hotéis do grupo e convidados a assistirem a tão importante momento para nós, os hóspedes afluíram em massa e tudo parou nas Furnas. Eram mesmo muitas as pessoas que acorreram das imediações para verem a produção da foto e a rua encheu-se de carros. Uma imagem que guardaremos, para sempre, nos nossos corações.

As mãos, trémulas da comoção, começaram por receber as plantas de pormenor do hotel e, depois, as chaves das instalações dos respectivos sectores que comandavam. Cada um de nós saía do casulo ao qual se havia remetido durante o período da obra e retomava a sua condição de “Maestro” na difícil mas gratificante tarefa de desenhar atmosferas e experiências inesquecíveis para fazer com que os nossos hóspedes desejem voltar.

Hoje, a dar largas à reconhecida hospitalidade açoriana e movida pela paixão de criar momentos perfeitos, a nossa equipa manifesta a imensa vontade de receber todos aqueles que apreciam o bom gosto arquitectónico, a boa cozinha e o “SPA ao natural” que é o Parque Terra Nostra (considerado pela “Condé Nast Traveler Magazine” como um dos dez retiros verdes mais bonitos do mundo), com o seu famoso tanque de águas termais e a sua luxuriante vegetação.

Dizem, os que já cá ficaram, que a nossa equipa tem espelhado no rosto o orgulho de pertencer a tão interessante projecto hoteleiro. Eu, por outro lado, vejo na atitude de cada um de nós a gratidão para com todos aqueles que, do ponto de vista operacional, nos ajudaram a promover a mudança: o Pierre, a Dalila, a Ana Paula, a Teresa, o José e o Tiago da “Eurogroup Consulting”, que nos ajudaram a formular e a exteriorizar a “postura do colaborador TN” (formal e calorosa), focando-se determinantemente nos clientes e nas suas expectativas; a Conceição Castelo que nos ajudou a reformatar a nossa operação de housekeeping; o Manuel Moreira que promoveu a elevação do serviço de vinhos no restaurante; o Luís Domingos e o Dave Palethorpe da “Black Pepper & Basil”, que revolucionaram a nossa proposta de Bar e, por fim, o Daniel Frey da “Green Growth” que, falando a mesma linguagem, me havia ajudado a sistematizar toda a conceptualização.

Guardamo-los a todos no coração e todos os outros que tornaram este sonho realidade: a família Bensaude, a Administração do Grupo (com uma palavra especial para a Dr.ª Marta Sousa Pires que coordenou todo o projecto) e respectiva hierarquia, toda a equipa técnica (projectistas; empreiteiro e subempreiteiros), os colegas da direcção de recursos humanos, do departamento de Marketing, do departamento de comunicação e do departamento de contabilidade e controlo de gestão, todos os fornecedores de equipamentos, a Escola de Formação Turística e Hoteleira e mais alguém que esteja eventualmente a esquecer e a quem peço o favor de me perdoar.

Escusado será dizer que, desde então, o nosso briefing diário faz-se às 11 horas e todos os dias trabalhamos para aliar a magia da nossa natureza ao charme e tradição do Hotel Terra Nostra para alimentar a alma e acordar o corpo dos nossos hóspedes, não havendo dia que não me lembre daquele 1 de Junho de 2013 e do nosso primeiro briefing, no renovado Terra Nostra."

texto publicado aqui

quinta-feira, dezembro 26

Por estes dias

Lagoa das 7 Cidades, São Miguel, Açores, Dez' 2013
Instantâneo(s) em viagem - cá dentro - pela lente do Reporter.

terça-feira, dezembro 17

Luísa Sobral & António Zambujo

Nesta quadra, para todos aqueles que me têm no seu coração, mesmo os que mantêm um certo odiozinho de estimação.

segunda-feira, dezembro 2

"Conversas na Lagoa" - Arte e Arquitectura

A Lagoa continua a "dar que falar".

Já foi fabril e já "valeu a pena".
No entanto, com a sua "Costa Dourada" por explorar, dá-se, agora, a ares de cidade. E eu ainda acredito que Lagoa tem pinta para o vir a ser de facto.

Apesar de tal fato ser, por enquanto, de utilidade duvidosa, inegável é a importância relativa que o "Instituto Cultural Padre João José Tavares" vem assumindo no panorama actual.
Aqui fica mais uma iniciativa que merece atenção:



sábado, novembro 30

Sem papas de gaguejos

Aparentemente (porque as coisas nem sempre são como nós as pintamos), depois de comer, não faltam colheres. É o que diz o ditado popular sem, contudo, considerar o estranho facto das pessoas que passam a governantes se votarem, depois do respectivo processo eleitoral, a um fatal ensimesmamento intelectual. Fatal para eles no longo prazo mas, no imediato, fulminante para um considerável conjunto de pessoas que, privadas de poderem dar o seu contributo (que devia ser acarinhado e, sobretudo, incentivado pelas instituições públicas), acabam por ficar com o(s) investimento(s) às costas, arrastando um conjunto de outras pessoas para águas ainda mais agitadas, onde o naufrágio é cada vez mais temido.

(…) Ouvi que a ATA iria encomendar ou já terá encomendado outro estudo, quando existem dezenas de estudos feitos nos últimos 20 anos sobre o Turismo nos Açores. O diagnóstico está feito. E se as instituições públicas se sentassem com os privados à volta de uma mesa, numa verdadeira sessão de trabalho, o diagnóstico ficaria feito em meia dúzia de horas. Depois é preciso ir para o terreno fazer as ações necessárias para captar negócio. E isso tem falhado. Há alterações constantes ao longo dos diferentes governos e nas diferentes instituições, o que leva a que o trabalho não seja consistente. O que acontece na ATA é que não existe ali uma estrutura profissional, conhecedora do setor e que seja capaz de pegar no diagnóstico que, na minha opinião está feito e não é preciso fazer novamente, e implementar uma estratégia que resulte e que seja consistente. E por isso andamos aos “esses”. (…)

Apesar de perspectivar algumas coisas de um ângulo diferente, recupero a desassombrada entrevista do Rodrigo Rodrigues do passado dia 25, no Açoriano Oriental para relembrar que, apesar de muita coisa poder ter sido melhor feita, não nos podemos esquecer que o investimento dos operadores está intrinsecamente relacionado com a dimensão que a operação poderá vir a atingir e que, todos juntos, devemos trabalhar para que os Açores possam ganhar a massa crítica que muita falta lhes faz para que um determinado “desmame”, por cá e nos vários mercados emissores, possa ser uma realidade.


Quero ler na referida entrevista que não devemos sucumbir à tentação de pensar pequenino nas alturas de maior aperto, pois, é absolutamente crítico manter as coisas em perspectiva e trabalhar a não-conformidade, por forma a procurarmos combater as tendências redutoras em termos de natureza e escala dos investimentos ainda por fazer, para conseguirmos subir mais um degrau dos muitos que ainda nos faltam galgar no negócio do Turismo.

quinta-feira, novembro 28

Uma certa odisseia marítima açoriana

Há, compreensivelmente, no ar, um certo "look" de deslumbre. Parece que estamos todos a bordo de um sonho. É o sonho açoriano: poder navegar entre as várias ilhas e juntá-las todas num verdadeiro mercado interno.

O “Mestre Simão” é que há-de estar confuso,  a tentar perceber se, neste novo capítulo do mercado interno, navega pela Direita ou pela Esquerda.






foto daqui

Alexandra Lucas Coelho vence Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores



Diz a narradora que «as histórias felizes são relâmpagos».
Eu também acho.

Prémio justo. 
Alexandra Lucas Coelho é uma repórter de primeira linha, cronista ímpar, romancista de alma cheia. E uma apaixonada pelos Açores.

http://www.publico.pt/cultura/noticia/alexandra-lucas-coelho-vence-grande-premio-de-romance-e-novela-ape-1613888

quarta-feira, novembro 20

A mítica quinta-feira (uncensored)

Há dias assim.
Há coisas que acontecem e nos fazem pensar que são boas demais para ser verdade.
Recebi estas "notas" e confesso que não me foi possível lê-las até ao fim sem me emocionar (como, aliás, aconteceu com a grande maioria das impressões recebidas sobre a apresentação da nova carta Outono|Inverno no TN).
Tinha que as partilhar e pedi a devida anuência.

"Notas de um sonho…
O dia acordou em tons de outono, com nuvens altas no céu e o magnífico cheiro das manhãs que agora começam frias. Como pano de fundo as árvores do inigualável Parque. A caminho do aeroporto vejo uma lagoa por entre um vale verdejante, pouco depois deixo-me levar pela beleza das montanhas e do mar, ainda a dormir…
Estou a caminho do avião e sinto que ainda não acordei do meu sonho. Penso que dormi cerca de doze horas.
Não demorei muito a adormecer. O ambiente estava quente. As cores, o conforto e deixo-me levar pelas palavras… adormeci a beber um Gin Garden!
E comecei a sonhar…
Dom Perignon Vintage 1996!
A temperatura da sala a subir como a fineza das bolhas do néctar. Quase acordo com os primeiros aromas e com a complexidade, textura e profundidade de sabores.
O quê? Isto é um sonho! Fecho os olhos e deixo-me levar novamente pelos aromas e sabores que sobressaem da idade e do saber de gerações geniais da Região de Champagne.
Et voilá! A primeira surpresa da noite. É um carpaccio? Mas não consta do menu. São boletos do Parque, com azeite virgem extra e flor de sal. Perfeito! Simples, pleno de sabor e frescura, com total respeito pela natureza que ali ao lado cuidou desta preciosidade de outono.
Deseja mais um pouco de D. Perignon?
Pois claro! Estou a sonhar…
A harmonização com os boletos é perfeita, as notas de terra encaixam na perfeição.
Um brinde ao anfitrião e à sua renovada casa.

E volta um cheiro familiar. Estou na velha padaria próxima da casa de férias do meu avô. Não te faz lembrar nada Carlos?
Os sabores a terra e o azeite encaixam na perfeição com as notas vegetais e de gordura do champanhe.

A conversa vai animada, e o Parque é naturalmente o foco das atenções.
Começa então o desfile de sabores que o Chef escreveu e que têm correspondência em frases soltas escritas noutro papel e que para todos nós têm um significado ainda enigmático.

Carpaccio de Beterraba, Puré de Grão e Vinagrete de Avelãs.
Quase perfeito. A frescura dos ingredientes é ligeiramente tocada por um pouco de vinagre que poderia ser substituído por mais quantidade do citrino local.
Para harmonizar continuamos com D. Perignon. As notas cruas ligam com a beterraba... E com todos os restantes elementos do prato. Afinal com que é que champanhe não liga?

Segue-se um ceviche com rúcula. Uma travagem a fundo. Quase acordava do meu sonho. Apresentação a destoar (ou talvez não diz o Henrique...). E para além disso, o excesso de rúcula a seguir a um prato com... rúcula.
E continuamos no néctar francês. Afinal champanhe liga com tudo! Mas nem tudo liga com champanhe... Ou pelo menos com este vintage... Demasiada complexidade e textura para um prato tão simples e fresco.
Aqui um branco, fresco e mineral, funcionava na perfeição. Difícil voltar atrás depois de começar num registo tão alto!

Vamos passar agora para o vinho branco. Continuamos em França?
Não. Montevalle Branco 2009. É um vinho do Douro à base de Viosinho e com um pouco de Rabigato. Não chegava lá... Não muito aromático mas com boa textura e untuosidade. 

Partimos agora para um clássico da casa: A omelete. Veio guarnecida com boletos. Novamente? O prato estava fabuloso. Mas a ligação com o vinho nem por isso. Não é problema nem do vinho nem do prato. Simplesmente não se dão... Felizmente ainda tenho um pouco se champanhe no flute. Agora sim! Harmonização perfeita!! A gordura do ovo e o agora familiar sabor dos boletos do Parque são envolvidos pelas bolhas finas e pelo final longo do D. Perignon. Concordas Luís?

O prato seguinte é um regresso às tradições. Caldo azedo com Toucinho Crocante. Uma belíssima surpresa. Prato muito bem reinterpretado, pleno de sabores de outono. Agora sim percebo a escolha do vinho branco. A untuosidade do vinho consegue aguentar-se muito bem com a subtileza do feijão e faz a ponte com o vinagre que refresca o caldo.

E continuo a sonhar... Diga?!
Manuel Campolargo faz grandes vinhos. Extraordinário vinho branco de 2008. Com notas de uma evolução certa, complexo, frutado com um final longo a exigir um peixe forte e com alguma gordura.
E o lírio transformou-se em veja... Que pena! Vamos ver como se comporta o prato com o vinho. Batata e abóbora muito boas, e pimentos um pouco em exagero. Dispostos lindamente num prato fundo, regados já à mesa por um caldo menos bem conseguido. Aguado, pouco sabor a peixe e com falta de sal. Apesar de a veja estar muito bem confecionada, o prato era de intensidade menor do que o vinho e perdeu-se um pouco.

Mas o jantar já é memorável, pelo que os pontos menos positivos não ficam na memória por muito tempo.
E nem podiam!

Entramos já na carne. E que tal um tinto com mais de 40 anos?
Quase que acordava do sonho, tal era o exagero do exercício mental a que estava a ser submetido.
E que linda garrafa magnum... Romeira era o desafio da noite para o prato de carne.
Velhos são os trapos! Uf... finalmente a respirar oxigénio após tanto tempo dentro de uma garrafa. As notas de idade estão lá, no aroma e no sabor. Mas é pouco expectável um comportamento tão cheio de força e personalidade.
Para um vinho com esta história o prato tinha mesmo que ficar para a História. Um entrecosto a baixa temperatura extraordinariamente bem confecionado. Estaladiço por fora e tenro por dentro. Pleno de sabor com notas a alecrim
Entrecosto assado com crocante de pezinhos e cogumelos,
tarte de cebolas e puré de batata com alecrim
e acompanhado por um magnífico puré de batata,um croquete de pezinhos e boletos. Em excesso eventualmente a cebola caramelizada. Mas nada que retire ao prato a categoria de melhor da noite, ao nível de um restaurante com estrela Michelin!

A partir deste momento a refeição já é épica, o que quer que de menos bom pudesse acontecer a seguir. Mas tal não era previsível depois do patamar já alcançado.

E os 12 comensais continuam a aventura.
E como sonhar não custa, que tal abrir um Porto Vintage? Pode ser um Ferreira Vintage 1999?
Só não surpreende porque já estava à espera que fosse muito bom. Pleno de fruta madura, boa acidez... De encher a boca!

Agora passamos para os queijos. 3 Santos guardaram bem a tarefa de harmonizar com o Magnifico Vintage. Um prato simples que soube muito bem!

Estamos a chegar ao fim da refeição. Já se anunciam as sobremesas.
Primeiro um Pudim de Queijo Velho S. Miguel com Sorbet de Tomarilho. Este par funciona muito bem. A frescura de um para limpar o palato do excesso do outro elemento do prato. Execução correta num prato que só pecou por não harmonizar com o vinho. Não pelo pudim, mas pelo sorbet que tinha demasiada frescura e acidez para poder equilibrar com a doçura e intensidade do Vintage.

E por fim, a homenagem da noite, ao mestre que ensinou o Chef. Crepe rechedo e flamejado com ananás e gelado. Muito bem conseguido. Pena ser uma sobremesa tão pesada para terminar a noite. A retirar uma, seria a sobremesa anterior. Embora seja natural não harmonizar com um Porto Vintage, a escolha de um vinho licoroso local, que por ser mais seco perde numa boca já com bastante açúcar. Percebe-se se intenção foi cortar precisamente o excesso de açúcar. Resulta o efeito, mas o vinho não sobressai.

E depois desta refeição mítica, vou dormir…
E o dia acordou em tons de outono, com nuvens altas no céu e o magnífico cheiro das manhãs que agora começam frias. Como pano de fundo o vapor da água quente a subir por entre as árvores do inigualável Parque Terra Nostra. Vou a caminho do aeroporto e vejo uma lagoa por entre um vale verdejante, e pouco depois deixo-me levar pela beleza das montanhas e do mar, ainda a dormir… Acabo de sair do Terra Nostra Garden Hotel, no idílico vale das Furnas, na ilha de S. Miguel. Estou orgulhoso e com uma satisfação incontida, por saber que nos Açores já é possível viver uma experiência gastronómica de altíssimo nível, que valoriza os produtos locais e coloca a Região no mapa do que de melhor que se faz no país.

Obrigado ao Carlos Rodrigues ao Chef e a toda a sua equipa! Foi um jantar de sonho…
Filipe Rocha
Novembro de 2013"

Julgo que, naturalmente, o "sonho" do Filipe não se esgota na degustação desta carta Outono|inverno. Aliás, tenho a absoluta certeza que as suas "notas" transbordam esta experiência no idílico vale por, metaforicamente, configurarem a sua visão para o sector.

domingo, novembro 17

Sentado na parada a ver desfilar o generoso Moscatel


Pois é. Já fez nove anos A Vinha. Nove anos de pioneirismo nos Açores, em Ponta Delgada. Uma garrafeira, produto grande para pequeno mercado, a fazer o seu caminho. Zona franca de algumas grandes preciosidades que aos Açores também vão chegando mais paulatinamente.
Provamos o Moscatel de Setúbal ALAMBRE 2008, o Moscatel de Setúbal com Armagnac e o Moscatel Roxo – ambos COLECÇÃO PRIVADA DOMINGOS SOARES FRANCO. Provamos depois as preciosidades: ALAMBRE Moscatel de Setúbal 20 Anos, ALAMBRE Moscatel Roxo 20 Anos, MOSCATEL DE SETÚBAL Trilogia, BASTARDINHO DE AZEITÃO 30 Anos e, para o fim, o cartão reservava-nos uma “SURPRESA” que, à medida que a prova subia de tom, aumentava o entusiasmo.
No final, os convivas, em grande número e já a salivar com o anúncio do jantar que se seguia, preparado pelo Chef Mota e sua equipa, foram absolutamente arrebatados por um Moscatel Roxo com mais de 40 Anos, com a sua auréola esverdeada e com o tão estimado “vinagrinho”, que é como quem diz: só merece a cereja no seu topo o belo bolo.
Por delicadeza apenas e com muita tristeza, fui deixando uma réstea do belo néctar em cada copo. No final, já de pé, tive que me contentar com uma simples foto para memória futura.


Parabéns à Vinha Garrafeira e um agradecimento especial ao Luís Melo pela excelente organização, embora ainda me esteja a fazer confusão esta coisa de celebrar um 9º aniversário com tanto álcool.

quinta-feira, novembro 14

"Vem cá meu torresminho."

Que é como quem diz: do "colados com cuspo" ao "pés arrancados do chão".

"Às vezes estamos tão preocupados em falar da crise e a desdenhar o novo Fiat Punto do vizinho que nos esquecemos dos verdadeiros privilégios que a vida nos dá.
Ser açoriano, ou viver em São Miguel, e fazer uma viagem de carro de apenas 30 minutos para chegar ao Hotel Terra Nostra é uma dádiva quase tão grande como o nascimento do Cristiano Ronaldo. Muito menos estará ao fácil alcance da maioria dos comuns mortais que têm de viajar milhares e milhares de quilómetros para chegarem aonde nós chegamos. Sem stress. Sem trânsito. Sem complicações.
O Hotel Terra Nostra que reabriu em Junho após uma profunda remodelação e requalificação apostou também no melhoramento e modernização das suas cartas de bar e restaurante.
Aquando da minha primeira visita, logo em Junho, foi notória a mudança introduzida na carta. Chegaram novos conceitos, novas ideias que se entrelaçavam com alguns pratos icónicos como o cozido ou os filetes de abrótea. Tenho que ser sincero, como é meu apanágio, estava tão curioso, mas tão curioso que acredito ter ido cedo demais. Alguns pratos ainda estavam “colados com cuspo”. Sei que a observação estará correcta quanto mais não seja pela melhoria notória que senti quando lá fui a segunda vez já no fim do Verão.
Por ter esta tendência suicida para a verdade e para o desbocamento fácil confesso que quando o Carlos Rodrigues, o Director do Hotel, me convidou para participar no jantar de lançamento da Carta Outono/Inverno do Terra Nostra pensei que no fundo, no fundo, ele estaria a precisar de alguém que depois ajudasse a levantar os pratos e a lavar a loiça. E de boca calada e já agora fechada.
Porque mereceria eu tamanha distinção e honra? Mistério que até hoje está por resolver, diga-se, porém, o convite era mesmo para me sentar e comer como fazem todas as pessoas civilizadas.
Contado assim deste modo simplista fica complicado perceber a emoção e a comoção quando nos começaram por servir um flute de Dom Pérignon, vintage de 1996. Quase que se podia dizer que a partir daqui foi sempre a descer. E foi. Desceu um excelente Diga? da adega de Campolargo, um Romeira de 1970. Sim, 1970 e absolutamente maravilhoso. Um dos melhores tintos que já provei. E o Porto Vintage 1999, que se destacaram, obviamente. Com este cartão de visita não me admira que a carta de vinhos tenha recebido uma honrosa distinção na Revista dos Vinhos. É por demais evidente que o Terra Nostra tem uma das melhores garrafeiras do país. Até o Cristiano Ronaldo concordaria.
Já a subir foi o sentido que foi tomando a refeição propriamente dita, prato após prato num menu de degustação com 9 pratos.
Como vivemos na era do Twitter e ninguém está para ler mais que 140 caracteres seguidos, vou apenas sublinhar e destacar os pratos que mais me maravilharam, de uma carta que no seu todo dá uma nota evolutiva. Sente-se um enorme amadurecimento de ideias, e os conceitos muito mais bem trabalhados e explorando todo o universo de produtos regionais e produtos do próprio Parque.
É uma questão de patamares, a primeira ementa pós renovação colocou o Terra Nostra num patamar. Este patamar foi consolidado e trabalhado e agora com a carta Outono/Inverno evoluí-se de forma serena e tranquila para o patamar seguinte.
Quanto mais não seja por exclusão de partes, dificilmente haverá outro restaurante neste patamar.
Os meus pés foram arrancados do chão logo no amuse em que nos serviram um cogumelo Boletus, apenas com azeite extra virgem e flor de sal. “São cogumelos do parque Senhor”. Tratou-me por senhor porque deve ter percebido que eu estava no céu. Nenhum prato no mundo inteiro pode ser igual a este. E está tudo dito.
A omelete com queijo Castelinhos um prodígio técnico. Não sei se existem muitas pessoas que saibam fazer uma omelete, mas o Chef do Terra Nostra sabe e isso chega-me para já. Cremosa no centro e cheia de ar. O único reparo é em relação ao queijo que acredito existir melhor nos Açores. Jamais São Jorge, mas quem sabe ali para o Pico?
No seguimento, e numa das sequências mais fortes da ementa entra o Caldo Azedo, a minha némesis. O meu momento Anton Ego da noite, em que deixei cair a caneta de crítico e fui uma simples criança a comer o Caldo Azedo feito pela minha Avó.
Irrepreensível e escrito com uma estranha humidade a apoderar-se dos meu olhos. O entrecosto cozido a baixa temperatura, com pézinhos e boletus, mostra que os sabores de antigamente ajudam a credibilizar as notas de modernidade que podem ser dadas a um prato. Bolas, estamos aqui a falar de um torresmo. Já tinha ouvido falar na expressão meu torresminho, mas foi só ao provar este prato que compreendi esta expressão na sua plenitude.

Como gosto muito de aprender e usar expressões novas despeço-me com a seguinte consideração: O menu de Outono/Inverno do Terra Nostra está um torresminho. Ou é um torresminho? Não sei, mas creio que percebem a ideia."


quarta-feira, novembro 13

OS VERDES ANOS

Faz este mês, mais precisamente no vigésimo nono dia, 50 anos que estreou, em Lisboa, OS VERDES ANOS de Paulo Rocha, um dos mais significativos  filmes do chamado Novo Cinema Português. Novo porque, apesar da grande influência dos movimentos europeus (neo realismo italiano e nova vaga francesa) fugia aos cânones dos filmes convencionais de "fados, touros e pátios de cantigas" e rompia com a vinculação à ideologia vingente.

Segundo Jorge Leitão Ramos em 1989 "Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso sobre Lisboa do príncipio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema musical que ficaria célebre (...)."

Hoje, 50 anos depois, para se ver esta obra que muito influenciou várias gerações de realizadores portugueses ou se vai a uma sessão na Cinemateca (a quem Paulo Rocha doou todo o seu espólio) ou se encontra uma velhinha cassete VHS sem bolor perdida num qualquer caixote de "coisas inúteis".

Ou..., esquecemos todas as teorias das ilegalidades e enquanto não sai a edição prometida pela desapoiada Cinemateca Portuguesa aproveitamos a oferta do "Filmes Portugueses" abaixo.

Nota: OS VERDES ANOS teve estreia regional simultânea em três salas de Ponta Delgada (Vitória, S. Pedro e Solar) em 21 de Junho de 1964.



Por vezes rio mas, choro muito também.

Esta manhã, a bordo do avião da TAP que ligava Lisboa a Ponta Delgada, a fazer lembrar outros tempos, descobri Constantin Brancusi. Fiquei um pouco arreliado com a minha ignorância. Como era possível não o conhecer? Nunca ter ouvido dele falar? Se era assim tão importante figura (central do movimento moderno e um dos pioneiros da abstração). Para além de ter passado a valorizar um pouco mais as revistas de bordo dos aviões (esta bastante mais "gorda" do que a da SATA mas, de design muito "ruidoso"), fiquei contente por me sentir ignorante "in the grand scheme of things", por assim dizer. Afinal, o romeno Constantin Brancusi é o autor d'O Beijo e consta que foi de sua casa em Hobitza a pé para Paris, onde veio a falecer em 1957. Não sei porquê esta "ralação" mas, certo é que não fiquei indiferente. Talvez por cada um de nós ter, a dada altura, que fazer a sua caminhada e, não poucas vezes, por percursos sinuosos que nos fazem perder de vista os nossos horizontes. Celebremos, então, Constantin Brancusi com a sua intimidante simplicidade aqui esculpida para maldição dos pérfidos perfeccionistas, algo no qual tenho medo de me tornar.
                 
"O Beijo", aqui fotografada por autor desconhecido, foi realizada em 1907, tem 28cm de altura e pode ser apreciada no Museu de Arte na cidade romena de Craiova.

quinta-feira, novembro 7

para ajudar os amigos... a relativizar.

Índia lança primeira missão espacial para Marte terça-feira, 5 de novembro de 2013 07:35 BRST A Índia lançou nesta terça-feira sua primeira nave espacial para Marte, num teste para a tecnologia de baixo custo do país asiático que pode ajudá-lo a ingressar num clube seleto de nações que conseguiram explorar o planeta vermelho. A Missão Orbitadora Marte, que tem custo de 73 milhões de dólares, decolou da costa sudeste indiana na tarde desta terça (horário local). Se a missão for bem-sucedida, o satélite vai levar cerca de 300 dias para chegar a Marte e vai buscar metano na atmosfera marciana.