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sexta-feira, dezembro 11

O Paradoxo Cesar

 


De uma forma geral, o debate do Programa do Governo, que por estas horas se aproxima do fim, na lowryana cidade da Horta, foi uma penosa via sacra de vacuidade e pobreza, pontuado, aqui e ali, por iguais doses de cinismo e espuma na boca. De facto, das duas principais bancadas, Governo e Direita que o sustenta, o que saiu foi, quase sem excepção, um enorme rol de clichés e de pretensões pueris, vazias de qualquer concretização, calendarização ou objectivo. À imagem, enfim, do texto do próprio documento em discussão. Em harmonia, uma série de rounds de pugilismo político, dignos de um título mundial de pesos mosca. Bastos e Silva, no canto do Governo, foi o campeão desta táctica do soco abaixo da cintura no adversário que já está no chão com o triste e lamentável episódio SATA. E, na frente da bancada do vetusto PPD, Pedro Nascimento Cabral, sempre de faca na liga e mão na anca, qual varina da Ribeira, sempre pronto a enxovalhar o anterior Governo numa obsessão pavloviana com o seu próprio passado de oposição e tão, mas tão pouco com o futuro, o seu, o nosso e o da Região. Falhou, redondamente, a Direita na percepção de que, tomada a posse da governação, o que menos importa aos açorianos é o lavar de roupa suja político dos traumas da anterior maioria. Não se bate em quem já está no chão, fica feio e conspurca. Para além de que, o prazo de validade desse passa culpa, aos olhos do comum eleitor, é tão curto quanto a ponta do fósforo que se apaga à primeira brisa do próprio movimento que o acende.

Do outro lado, o Partido Socialista, sofre de um incurável mal a que chamaria o Paradoxo Cesar. Independentemente da inteligência e boa-vontade de Andreia Cardoso ou Miguel Costa, ou do esforçado empenho da restante bancada, a verdade é que os pesos pesados da sua representação parlamentar são, obviamente, Vasco Cordeiro e, não surpreendentemente, mas infelizmente, Francisco Cesar. Quem, mesmo que de passagem ou nos resumos noticiosos, tenha assistido aos debates não pode deixar de compreender as qualidades tribunícias de ambos e, em particular, de Francisco Cesar. De toda a secção do debate dedicada à pasta do Turismo a melhor intervenção, com mais conteúdo e articulação, foi sem sombra de dúvida aquela que o ex-líder de bancada socialista fez da tribuna. Embora, em face da inanidade da prestação do Secretário da pasta, tal não fosse difícil. Ora é aqui que reside o paradoxo, é que os melhores assets desta bancada parlamentar são exactamente aqueles que pior fazem ao Partido. Embora sejam os deputados mais bem preparados e com maiores qualidades políticas para o cargo são, tragicamente, os que impedem o PS de fazer uma oposição livre das amarras do passado governativo do Partido. E são, também, os que abrem o flanco aos ataques esganiçados da Direita, como se assistiu, à exaustão, nestes longos três dias de penoso combate, perdão, de debate. A mera presença de Vasco Cordeiro, Francisco Cesar e Sérgio Ávila, entre outros representantes da herança governativa do passado, no parlamento regional impossibilita que o foco do debate se fixe no actual Governo, permanecendo, tal como já percebemos que a Direita insistirá, ad nauseam, nos lugares obscuros, nas sobrancerias, nos autoritarismos, prepotências e arbitrariedades e em mais todos os pequenos e grandes erros dos 24 anos de governação do Partido Socialista, numa dolorosa passos-coelhização da vida política regional, que não terá fim enquanto o Partido não fizer essa imperiosa introspecção. O Paradoxo Cesar é essa circunstância inusitada de o melhor que o Partido tem no parlamento regional ser exactamente aquilo que o impedirá de regressar ao poder nos Açores.

sábado, novembro 28

da estagnação como escapatória política

 

The fault, dear Brutus, is not in our stars, but in ourselves.

William Shakespeare, Julius Caesar

Desde o dia 25 de outubro que o Partido Socialista dos Açores vive baloiçado entre um estado semi catatónico, de quem acabou de sair de um desastre rodoviário, e a denegação própria de quem se recusa a reconhecer uma realidade física, concreta e palpável. Perante este tortuoso tumulto interior o Partido, e principalmente a sua direcção, refugiaram-se no discurso da vitória moral, da usurpação do poder, da ilegitimidade parlamentar, da desconsideração institucional, dos “pecados capitais”, do “maior grupo parlamentar” e todo um outro conjunto de argumentários cujo denominador comum, por mais verdadeiros que sejam todos esses raciocínios, é a rejeição do reconhecimento que o cenário político regional mudou diametralmente desde esse dia até à realidade, que temos hoje, das direitas instaladas no poder.

Esta neurose psíquico-politica em que o Partido tem vívido, desde esse dia traumático, tem levado a, por um lado, uma estupefacção silenciosa da sua militância, remetida a uma espectativa hesitante e medrosa e, por outro, ao calculismo egocêntrico e autista da direcção do Partido, cujo distanciamento altivo e cobarde tem levado à renuncia de um prestar de contas lúcido, corajoso e transparente sobre as causas e as consequências políticas desse fatídico dia 25 de outubro.

Recorrentemente, ao longo destes dias, a pergunta mais repetida, quer nos megafones da comunicação social, quer no relativo recato das conversas entre militantes, foi sobre a continuidade, ou não, de Vasco Cordeiro na liderança do Partido. Após se ter confirmado o assumir de Vasco Cordeiro do seu mandato como deputado, eis que esta sexta-feira descobrimos o porquê da sua permanência. Vasco Cordeiro fica para poder assumir, no longínquo mês de julho de 2022, a Presidência do Comité Europeu das Regiões, cujos membros tem necessariamente que ser representantes eleitos de autoridades regionais ou locais.

Pois, a questão que agora se coloca é: quais as consequências para o Partido desta permanência? Em face do cataclismo eleitoral, Vasco Cordeiro e a sua direcção, optam pela continuidade despreocupada, quase ingénua não fora maquiavélica, ou então uma espécie de pausa, como que a pedir um time-out no jogo político, cultivando ainda uma vã esperança de que o adversário possa, por alguma razão, soçobrar a breve trecho, permitindo-se assim a sua sobrevivência institucional para, em última instância, assumir outros voos na rota Estrasburgo – Bruxelas e, também, deixar que a restante direcção possa passear a sua travessia do deserto no confortável regaço da imunidade parlamentar. Esta estagnação, este deixar como está político, fazendo de conta que os resultados eleitorais não representam uma derrota do Partido, querendo-nos fazer acreditar que não houve desgaste, exaustão e censura dos eleitores à governação do Partido, às escolhas individuais e aos desmandos pessoais e colectivos de 24 anos no poder, representa uma condenação do Partido, no médio e no longo prazo, ao cadafalso da irrelevância política. Não querer, por puro calculismo e egoísmo político fazer a devida catarse e a necessária ruptura com os resultados eleitorais e com a realidade do novo panorama político regional representa o total e completo claudicar da ideia de um Partido Socialista honrado nos seus compromissos, verdadeiro nas suas convicções e, acima de tudo, integro e desprendido, pondo sempre na frente da sua actuação política o futuro e os interesses de todos em lugar de apenas uns e dos Açores em lugar dos seus.

Ou Vasco Cordeiro compreende já a sua responsabilidade neste momento e assume-se como agente fundamental dessa ruptura, ou as bases e a militância exigem e demonstram essa verticalidade e essa coragem para cortar com o que de pernicioso existe no seu passado, ou o futuro do Partido Socialista dos Açores é a ruína e a irrelevância por muitos e bons anos, ou, pelo menos, os anos que os açorianos levarem a fartar-se, também, da governação desses que agora se vão apressar a entrincheirar nos imensos palácios do poder e da governação...

terça-feira, novembro 10

E agora PS?

 

foto André Kosters/LUSA

Os Açores são, por natureza, uma região conservadora. Talvez seja pela força do mar, do isolamento, da distância ou do sopro agreste dos ventos do Inverno e dos sulcos vincados do solo montanhoso das ilhas, feitos de grotas e ribeiros e escarpados veios vulcânicos. Ou, talvez, de séculos de luta contra esses mesmos elementos e da dependência dos senhores, dos donos das terras, do morgadio e da subserviência umbilical à voz do patrão. Do Divino e do Sr. Padre e das sopas de cavalo cansado depois da jorna de pé descalço pelas canadas de cascalho fino e a bênção do padrinho e o sonho americano, lá longe nas New Bedfords e Fall Rivers de abundância. Talvez seja disso tudo e de sermos ilhas cujos sonhos estão limitados por água por todos os lados apenas com mar como horizonte. Ao longo da história foram poucos os progressistas que vingaram nesta terra, nem mesmo nesse período áureo do Liberalismo insular. E, é talvez paradigmático que o Santo Antero se tenha acabado, com dois tiros no céu da boca, sentado num banco, vencido da vida, no Campo de São Francisco, no cinzento dia de 11 de Setembro de 1891.

Nas ilhas, toda a segunda metade do século vinte foi marcada pelo conservadorismo e nem o 25 de Abril conseguiu incutir liberdade nas mentes fechadas e suspeitosas destes ilhéus. Se não era já o atavismo intrínseco das gentes era o medo dos comunistas, a quem era preciso dar sovas no aeroporto e incendiar as casas e atirar carros da ponta da doca. A dificuldade de implementação dos ideários socialistas nas ilhas deveu-se não só à inexistência de uma classe operária per si como, também, à mentalidade do agradecimento. A mentalidade do assalariado rural, que o leva a agradecer ao senhor da terra deixar-lhe cultivá-la, da empregada de casa que se consola com comida e um tecto e trata os senhores timidamente por menino e menina. E, o facto é que, em grande medida, essa mentalidade ainda hoje existe. Com o 25 de Abril, nada disto mudou. A única diferença foi que a máquina da autonomia mota-amarelista se substituiu ao morgadio e criou uma vasta plebe de funcionalismo público que passou a ver nos directores e secretários regionais o émulo burocrático dos Câmaras e dos Cabrais e outros sobrenomes que tais…

Como tenho dito sobejas vezes, Carlos Cesar não ganhou as eleições de 96 por ser uma águia política. Cesar saiu vitorioso dessas eleições, com um empate de mandatos, porque as pessoas estavam fartas do mota-amarelismo, ainda para mais porque, nessas eleições, este era servido em versão requentada. O que se passou em 25 de Outubro passado é muito similar, foi pelo cansaço e pela incapacidade de perceber esse sentimento que o PS, tal como o PSD antes, soçobrou. Mas, a verdade é que nem os socialistas conseguiram alterar o conservadorismo mental dos açorianos. Não conseguiram desagrilhoar as esperanças e as vontades e a voz aprisionada das pessoas que se vestiram de socialismo, como quem veste um xaile para ir de romaria, no dia seguinte à queda do mota-amarelismo, tal como agora o irão fazer, sacudindo o mofo do fato conservador, para na próxima semana se apresentarem na reunião de zoom do serviço cantando loas à nova primavera florida da AD açoriana. Os Açores são, foram e serão sempre conservadores. E o PS do culto autonomista e do autoritarismosinho e da incontida arrogância tem imensa culpa nisso. Só que agora, quem manda é a coligação das direitas enlaçadas…

E agora PS? A sensação que perpassa pelas mentes socialistas neste momento é como a de uma gravidez abortada. Havia um plano gizado, que preparava o partido para lá de 2024, mais quatro anos de Vasco Cordeiro, Chico Cesar engatilhado e aguentar até lá, só que esse plano falhou. Pior, falhou com estrondo. O estrondo de menos 5 deputados e uma Gaiola de Malucas de direita com uma maioria parlamentar. A culpa do que se passou não é do Nuno Barata, ou do maquiavelismo dos irmãos Nascimento Cabral, nem sequer do travestismo do Arturito da terceira. A culpa desta debacle eleitoral, que deixou campo aberto para que Marcelo desse o golpe de misericórdia via embaixador Catarino, a culpa, dizia eu, foi exclusivamente do Partido Socialista e é essa catarse que é imperioso fazer agora. Neste momento, e mesmo correndo o risco de o partido ficar órfão, Vasco Cordeiro terá de se afastar e fazer a sua travessia do deserto até às europeias de 24. Ser líder da oposição exige agilidade e jogo de cintura e, principalmente, capacidade de decisão rápida. Vasco Cordeiro tem muitas qualidades, mas nenhuma das anteriores. O partido tem que rapidamente perceber que o seu papel neste momento é liderar a oposição e não deixar, como já deixou, esse papel nas mãos do Bloco de Esquerda, que ontem instou, e bem, o Sr. Representante da República a tornar públicos esses ditos acordos escritos que mais ninguém ainda viu a não ser ele. E ainda dizem que isto é uma democracia e que quem manda é o povo. O partido não precisa de uma choradeira trumpiana sobre legitimidades estatutárias entre parlamentos e dignatários da república. O partido precisa de fazer política e fazê-la na oposição. O partido precisa de, na sua nova liderança, mais do que encontrar um líder sebastiânico, que o salve da presente orfandade, fazer valer o valor do seu vasto capital de experiência governativa para constituir uma equipa dirigente, quase como um governo sombra, que possa não só compensar as claras fragilidades do seu grupo parlamentar, como, pasta a passa, dossier a dossier, fazer a fiscalização e a oposição constante a uma coligação de direitas que passada a epifania do ódio ao PS não terá mais cola que a una nessa imensa crise que ai vêm. Internamente é, também, imperioso que o partido faça as pazes com o seu passado. Isso passa pela alteração da norma estatutária que dá poderes executivos ao Presidente Honorário, retirando-lhe as competências que detém na Comissão Regional e na Mesa do Congresso, deixando-o apenas como honorário. Passa também por Francisco Cesar e Sérgio Avila reconhecerem que foi em São Miguel e na Terceira que o partido foi mais fortemente penalizado, tanto em perda de votos como de mandatos. Francisco Cesar é uma jovem promessa política, mas para efectivar esse capital terá de se saber autonomizar da figura opressiva do pai e demonstrar, mais do que qualquer outro, que esse capital político é legitimamente seu e não apenas uma emanação da autoridade paterna. Isso passa por fazer, também ele, a sua travessia do deserto, deixando o secretariado de ilha e, obviamente, a liderança do grupo parlamentar, quem sabe até por passar um período na capital, junto de Pedro Nuno Santos. Só assim se poderá revitalizar a democracia interna e a liberdade de pensamento do partido, que serão para o futuro fundamentais à sua vitalidade. Não o fazer já é hipotecar não só as próximas eleições autárquicas como dar por certo um novo ciclo de 20 e tal anos de políticas reaccionárias no arquipélago e um longo deserto de oposição tão ou mais doloroso do que aquele vivido até a semana passada pelo PPD/PSD.

Se a liderança não o souber, ou quiser, fazer é bom que a militância o faça, porque o amanhã já é tarde e para a frente é que é caminho…

quarta-feira, outubro 28

A Autonomia no seu Labirinto

 

foto André Kosters/Lusa

André Ventura é muitas coisas, mas se há dom que não creio que tenha são poderes premonitórios. No entanto, foi dele a declaração que adivinhou o resultado das eleições de Domingo passado. “Um terramoto”! Se calhar mesmo, um verdadeiro abalo tectónico na tessitura político-partidária da região.

Para o PS e para Vasco Cordeiro estas eleições começaram, provavelmente, a ser perdidas em 2012. A verdade é que Vasco Cordeiro nunca conseguiu afirmar plenamente uma identidade própria dentro do projecto socialista, tanto no Governo, como no próprio partido. A herança Cesarista, que no partido nem herança foi, mas antes uma presença e um dominio constante, nunca permitiram que Vasco Cordeiro marcasse uma liderança, uma estratégia e uma personalidade própria que lhe possibilitasse autonomizar a sua governação dos 24 anos de governação socialista. Isto pode parecer incongruente, mas essa ligeira nuance, a governação e o partido de Vasco Cordeiro, teria feito, certamente, toda a diferença. O PS e a governação socialista foram sempre de Carlos Cesar e nunca de Vasco Cordeiro. Isso viu-se na longevidade de Sérgio Ávila, na omnipresença de Carlos Cesar, na incompreensível e absurda telenovela da “Casa da Autonomia” e da sua Estrutura de Missão comandada à tripa forra por Luísa Cesar e na ascensão e autoridade desenfreada de Francisco Cesar. Ao mesmo tempo, causa igual tristeza e estranheza a forma como Vasco Cordeiro foi, sucessivamente, triturando figuras com gabarito, validade intelectual e política, competência e projecção na sociedade açoriana. Desde os Governos, às listas de deputados, às empresas públicas e tantos outros cargos com maior ou menor visibilidade, a fúria autofágica de Vasco Cordeiro criou um imenso exército de descontentes e de ressentimentos. Assim de cabeça lembro-me de nomes como Fagundes Duarte, Piedade Lalanda, Luís Cabral, Nuno Domingues, Pilar Damião, João Roque Filipe, Nuno Mendes, Miguel Cymbron, António Gomes de Menezes, Fausto Brito e Abreu. E, mais recentemente, os casos de Filipe Macedo ou da limpeza nas listas de deputados, que correu, sem apelo nem agravo, com Renata Botelho, Graça Silva e Sónia Nicolau, sem que se soubesse da mais pálida justificação. Ao mesmo tempo, que uma série de outras figuras eram candidamente protegidas e apaparicadas, fossem quais fossem, e foram muitas, as asneiras, para usar um termo suave, que cometessem. De que, para mim, o caso mais dramático e paradigmático foi a dupla Vitor Fraga e Francisco Coelho. Um mistério que só possivelmente a história elucidará…

O caso das listas de deputados merece um breve comentário. Não sei porque cargas de água criou-se uma ideia de que as ditas listas, em lugar de serem feitas por pessoas competentes, sejam militantes ou independentes, têm de ser espelhos mais ou menos turvos da diversidade geográfica e socioprofissional das ilhas. Em lugar de ter um grupo coeso de políticos, as listas de deputados tornaram-se numa sopa da pedra, feita de personalidades avulsas, cuja mais valia política é a fama na junta, no clube de futebol, na agremiação e no café da freguesia ou até, como nesta última, no Youtube… o resultado final e mesmo contando os lambe-botas e os vira-casacas são grupos parlamentares de fraquíssima qualidade, como é agora o caso do futuro grupo parlamentar do PS. Embora, diga-se que, neste particular, o PSD é igual…

Se juntarmos a isto tudo a Governação errante, os dossiers polémicos, as suspeições judiciárias e, piece de resistance, a debacle da SATA, ou a malfadada Covid, tudo estava lá para pressupor que a noite de 25 seria amarga para o PS, embora, nem mesmo eu acreditasse que podia ser tão amarga. Vasco Cordeiro chega assim ao seu último mandato, se é que o vai ser, e para usar a imagem do timoneiro, que ele próprio escolheu, como um naufrago, desidratado e andrajoso, lançado sobre a areia da praia, arfando por água, sombra e cuidado. Com menos 5 deputados, sem tábua de salvação à esquerda e com a direita enraivecida e salivante, silvando como hienas, pelo sangue socialista, as hipóteses de formar um governo estável são praticamente nulas. Tirando, obviamente, a possibilidade de, humildemente, propor um entendimento ao centro. Um governo de Bloco Central, com Bolieiro a Vice-presidente, mais uma ou duas pastas para o PSD, inclusive dando-lhes a presidência da ALRAA e estendendo esse entendimento à sociedade civil, numa grande coligação autonómica para navegar essa imensa tempestade económica e social que aí vem. Se qualquer dos protagonistas ou dos partidos que estão neste momento na contenda puser, de facto, os interesses da região à frente dos do seu partido ou dos seus pessoais, era isto que devia fazer. E daqui a quatro anos, queira Deus já sem Covid, quem tiver as melhores unhas tocará sozinho a guitarra. Qualquer tentativa de governar isolado ou em coligações negativas morrerá à primeira dificuldade que, ou muito me engano, será já a breve trecho com o borregar da SATA…

Quanto à suposta maioria de direita a verdade é que ela não existe. O que há, neste novo quadro parlamentar, é uma maioria anti-PS. Sendo que, para além disso, o CHEGA não é de direita. O CHEGA é de extrema direita! E, embora seja aceitável a sua presença no parlamento, é a vontade de 5% dos eleitores, não é já, de forma alguma, admissível que os restantes partidos se aproveitem do CHEGA, legitimando com esse gesto o fascismo latente do partido do Dr. Ventura, para assaltar o poder. Por outro lado, embora muitas das suas principais figuras venham do CDS e do PSD, é um erro pensar que a Iniciativa Liberal encaixa nas visões tradicionais de esquerda e direita. Tal como, também tenha as minhas duvidas, que o PAN possa ser entendido como um partido de esquerda. A haver um entendimento das direitas, não será uma maioria, nem tão pouco uma geringonça, será antes uma coligação negativa com o único intuito de tirar o PS do poder e acabar, de uma vez por todas, com o reinado da família Cesar. Embora, neste último particular, eu até possa estar de acordo com a necessidade política desse culminar, essa não será certamente a forma correcta de o fazer e seria, proverbialmente, deitar fora a região com a água do banho…

Quem tem, neste momento, a responsabilidade de fazer as pazes com o seu passado, deixando no passado o que lá deve estar, com o que de bom e de mau as suas lideranças tiveram, é o próprio Partido Socialista. Há uma democracia interna para conquistar dentro do Partido Socialista dos Açores, e essa libertação, se não for iniciada pela liderança tem que o ser pela militância. Figuras como Cristina Calisto, Rodrigo Oliveira, ou mesmo Andreia Cardoso, são hoje esperanças para um futuro PS, que seja mais solidário, mais aberto e mais justo.

Esperemos para ver. Os próximos tempos políticos destas nove ilhas serão certamente duros, mas indubitavelmente interessantes. Viva a Democracia! E, agora mais do que nunca, Viva o PS!

quarta-feira, setembro 30

a pandemia como estandarte eleitoral

 


Muito haveria a dizer sobre o debate da RTP-A de ontem e mesmo sobre os outros 8 debates anteriores, a começar, desde logo, por essa autêntica farsa insultuosa dos cabeças de lista por São Miguel não terem marcado presença, quando os próprios debates foram anunciados e promovidos pela RTP-A como sendo com os cabeças de lista por ilha, tal como foram os anteriores 8, e como deveria inevitavelmente de ser. Um momento que ficará na história como pináculo do desrespeito pela democracia, o regime parlamentar e a inteligência do povo açoriano. Mas, foquemo-nos no momento final, na fantabulástica declaração de apelo ao voto de Francisco Cesar. Nesses curtos segundos de retórica televisiva o secretário coordenador de ilha do PS, ex-líder da bancada parlamentar, número cinco da lista, suposto futuro secretário regional da economia, com tutela do turismo, e putativo candidato a líder do PS-A e a Presidente do Governo, reduziu 24 anos de governação e de propositura de mais 4, aos seis meses de gestão da pandemia. Para Francisco Cesar a razão para se votar no PS-A é “porque o Governo do PS foi eficiente no combate à pandemia”. Esta eleitoralização da doença, da dor, do medo é, também ela, mais do que um insulto, uma manipulação pérfida e maquiavélica da luta política e da transparência democrática. Já todos tínhamos intuído que seria este o caminho que o PS quereria percorrer, os sinais estavam todos lá, desde os idos de Março, e foram-se adensando à medida que o tempo ia e for passando até chegarmos ao dia 25. E, é precisamente por isso que é preciso desmascarar e combater esta estratégia. O PS-A e Vasco Cordeiro deveriam apresentar-se a estas eleições como o partido e o líder melhor preparado para continuar a governar os Açores num esforço para equilibrar o crescimento económico com a sustentabilidade e o desenvolvimento social. Criando riqueza e sabendo redistribui-la em benefício das populações, do Corvo a Santa Maria. Em lugar disso, o PS-A, opta por se agarrar à narrativa pandémica, pontilhada de pânicos, receios e outras veladas ameaças, querendo ser o contraponto para uma doença que ele próprio criou. À cabeça é preciso dizer, de forma clara e corajosa, que o PS-A e Vasco Cordeiro não geriram bem a pandemia. Limitaram-se a impor o pânico e o fascismo sanitário, destruindo com isso a economia e fazendo ao mesmo tempo retroceder em décadas a mentalidade e a abertura da sociedade açoriana. Por outro lado, a resposta à catástrofe económica, sempre a reboque de Lisboa, de mão esperançosamente estendida à espera das bem-aventuranças de Bruxelas, demonstrou à saciedade como o único objectivo das medidas era eleitoral e não um verdadeiro auxílio a empresas e trabalhadores. Mas, se o argumento pandémico é mesmo o estandarte eleitoral que o PS-A quer utilizar analisemos então a prestação do partido e da sua governação neste âmbito. Nos Açores as principais causas de morte são as doenças cárdio-vasculares (45,7%) e os tumores (24,5%). A montante destas causas de morte estão duas explicações profundas nomeadamente a diabetes e a obesidade. Ora os Açores têm não só 70% da população com excesso de peso como apresentam a pior incidência de morte por diabetes de todas as regiões da Europa, 74 por cada 100 mil habitantes, uma verdadeira epidemia contra a qual em 24 anos de governação muito pouco ou quase nada tem sido feito, nem consta que a Autoridade de Saúde a isto tenha dado relevância! Bastava isto para se perceber que em matéria de pandemias o PS-A tem tudo menos um bom registo governativo… Custa-me dizer isto e custa-me dizê-lo com esta brutalidade mas este PS, com esta estratégia, não merece ganhar estas eleições e, o pior, é que os outros partidos também não. Para usar um slogan antigo – “merecíamos políticos melhores”…


sábado, maio 16

Equivalente ao espaço entre as orelhas...




Ao nosso redor o Mundo todo está a desabar. Por força dos múltiplos confinamentos, isolamentos e tantos outros ditames da ditadura sanitária, a Economia, desde a mercearia de bairro à grande empresa multinacional, travou a fundo, projectando-nos violentamente pelo para-brisas, em direcção ao asfalto, como passageiros sem cinto, no lugar do morto, de um carro na iminência de colisão. Lay-off, desemprego, brutal perda de rendimentos e ausência absoluta de verdadeiras ajudas de Estado, transformaram-nos em meros corpos ensanguentados, entre metal retorcido, num acidente de estrada. No meio desta dantesca realidade, o PS Açores decidiu fazer humor, publicitando nas redes sociais, com bonomia e um sorriso, pequenos memes sobre distanciamento social. Confortavelmente abancados nos seus salários em dia, os jovens assessores da vida partidária, (muitos deles transitaram directamente dos recreios dos liceus para os corredores do poder) entretiveram-se a plagiar imagens anedóticas, para ensinar os açorianos a distanciarem-se convenientemente uns dos outros, com ícones da vida insular como vacas, queijos, hortênsias e atuns. Esta palermice do PS-A é triste e insultuosa, desde logo porque o PS-A não é uma associação de estudantes, nem um grupo de comediantes, numa qualquer sala das Produções Fictícias, à espera de se transformar nos Gato Fedorento, até porque, para isso é preciso talento. O PS-A é um partido político e é o partido que governa os Açores. A exigência de consideração, seriedade e de responsabilidade perante o momento que vivemos é ainda maior para o Partido Socialista dos Açores. O partido que suporta o Governo da região, no momento mais dramático das nossas vidas, não se pode comportar como um adolescente imberbe, fazendo pouco das centenas de pessoas que viram as vidas suspensas, ou até totalmente destruídas, por esta crise e, imperdoavelmente, das dezenas de outras que perderam entes queridos nesta pandemia. Esta idiotice é inadmissível porque não há piada, não há humor, não há sequer um pingo de riso no confinamento forçado e no espectro fúnebre da pobreza que paira hoje, como uma guilhotina, sobre a população. Esta verdadeira marie-anttoinetice é, também, um insulto parvo e é-o porque trata os açorianos como imbecis que precisam de desenhos para compreender a ideia de distanciamento social e este é, provavelmente, o aspecto mais grave de toda este lamentável episódio. É que, a ser assim, os responsáveis do PS-A, desde os seus jovens criativos, aos seus históricos militantes, passando por “ilustres” dirigentes, não percebem que se existem hoje nos Açores cidadãos que precisem deste tipo de mensagem para compreender a gravidade do momento ou a seriedade das medidas a adoptar, tal só se pode ficar a dever, única e exclusivamente, ao total e absoluto falhanço das politicas educativas, sociais e económicas do próprio PS-A que, ao fim de 25 anos de poder, o tempo de uma geração, não conseguiu puxar para cima uma grande fatia da população dos Açores, seja nos índices de pobreza como no nível de escolaridade, ou na civilidade própria da mais básica cidadania. Estes memes, estúpidos e fúteis, são como Nero, tocando a sua lira, enquanto Roma ardia…

sábado, abril 18

O Socialismo Agiota


Amanhã, o Partido Socialista Português, celebra 47 anos. Num email enviado aos militantes a actual direcção do partido cita um excerto de um discurso de Mário Soares no jantar do seu 80º aniversário: “Sou socialista porque acredito no progresso, incluindo o progresso moral. Porque acredito no desenvolvimento sustentado, com dimensão ecológica e social, nos Direitos Humanos e no Direito Internacional. Sou Socialista porque quero a paz, fundada no respeito pela diversidade dos Povos e das Culturas, no diálogo entre religiões e pessoas, independentemente das suas etnias, crenças, sexos, opções políticas e condições sociais e, finalmente, na Justiça. Para mim, o socialismo é indissociável da liberdade, do respeito pelos outros e pelo que é diferente de nós.”. Por alguma razão, que só o próprio saberá, José Luís Carneiro, o actual Secretário Geral Adjunto do partido decidiu terminar aí a citação. Porque, Soares continuava dizendo: “Sou socialista porque acredito na capacidade humana para transformar as sociedades, de modo a serem mais justas e humanizadas. Sou socialista mas não quero impor o socialismo aos outros, muito menos pela força. Acredito na persuasão e no voto como meio de dirimir pacificamente os conflitos. Sou socialista e a favor do mercado e da livre iniciativa. Mas o mercado não é, para mim, um Deos ex-maquina. Produz injustiças e desigualdades, que cumpre ao Estado corrigir. Por isso, não acredito no neo-liberalismo, como sistema universal, que tem dominado as sociedades, desde o colapso do comunismo e, através da globalização desregulada, está a produzir as maiores desigualdades e muita exploração no interior das sociedades, mesmo as mais desenvolvidas e entre os Estados ricos e pobres.” Hoje, 16 anos passados sobre este discurso, na véspera dos 47 anos do Partido, no epicentro da maior crise económica e social das nossas vidas, importaria, mais do que nunca, em louvor do Socialismo, continuar a citação até ao fim. Salientando, amplificando mesmo, a luta fundamental de todos os verdadeiros socialistas, contra a ditadura dos mercados, o neo-liberalismo selvagem e as múltiplas desigualdades que assolam a Europa e Portugal. Mas não, hoje António Costa, em entrevista ao Expresso, decidiu amplificar o sound byte  agiota criado pelo seu amigo Siza Vieira, e avisa o país de que “os apoios de hoje são os impostos de amanhã”. Não, esta direcção do PS, que acha que se deve apoiar a Banca em vez do Povo. Que se podem injectar directamente milhões de euros na TAP e nos media, mas não nas famílias. Que considera até legítimo reinstituir o serviço militar obrigatório. Esta direcção do PS, não é socialista! Esta direcção do PS não merece, sequer, citar Mário Soares!

#naoanormalidade