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sexta-feira, dezembro 11

O Paradoxo Cesar

 


De uma forma geral, o debate do Programa do Governo, que por estas horas se aproxima do fim, na lowryana cidade da Horta, foi uma penosa via sacra de vacuidade e pobreza, pontuado, aqui e ali, por iguais doses de cinismo e espuma na boca. De facto, das duas principais bancadas, Governo e Direita que o sustenta, o que saiu foi, quase sem excepção, um enorme rol de clichés e de pretensões pueris, vazias de qualquer concretização, calendarização ou objectivo. À imagem, enfim, do texto do próprio documento em discussão. Em harmonia, uma série de rounds de pugilismo político, dignos de um título mundial de pesos mosca. Bastos e Silva, no canto do Governo, foi o campeão desta táctica do soco abaixo da cintura no adversário que já está no chão com o triste e lamentável episódio SATA. E, na frente da bancada do vetusto PPD, Pedro Nascimento Cabral, sempre de faca na liga e mão na anca, qual varina da Ribeira, sempre pronto a enxovalhar o anterior Governo numa obsessão pavloviana com o seu próprio passado de oposição e tão, mas tão pouco com o futuro, o seu, o nosso e o da Região. Falhou, redondamente, a Direita na percepção de que, tomada a posse da governação, o que menos importa aos açorianos é o lavar de roupa suja político dos traumas da anterior maioria. Não se bate em quem já está no chão, fica feio e conspurca. Para além de que, o prazo de validade desse passa culpa, aos olhos do comum eleitor, é tão curto quanto a ponta do fósforo que se apaga à primeira brisa do próprio movimento que o acende.

Do outro lado, o Partido Socialista, sofre de um incurável mal a que chamaria o Paradoxo Cesar. Independentemente da inteligência e boa-vontade de Andreia Cardoso ou Miguel Costa, ou do esforçado empenho da restante bancada, a verdade é que os pesos pesados da sua representação parlamentar são, obviamente, Vasco Cordeiro e, não surpreendentemente, mas infelizmente, Francisco Cesar. Quem, mesmo que de passagem ou nos resumos noticiosos, tenha assistido aos debates não pode deixar de compreender as qualidades tribunícias de ambos e, em particular, de Francisco Cesar. De toda a secção do debate dedicada à pasta do Turismo a melhor intervenção, com mais conteúdo e articulação, foi sem sombra de dúvida aquela que o ex-líder de bancada socialista fez da tribuna. Embora, em face da inanidade da prestação do Secretário da pasta, tal não fosse difícil. Ora é aqui que reside o paradoxo, é que os melhores assets desta bancada parlamentar são exactamente aqueles que pior fazem ao Partido. Embora sejam os deputados mais bem preparados e com maiores qualidades políticas para o cargo são, tragicamente, os que impedem o PS de fazer uma oposição livre das amarras do passado governativo do Partido. E são, também, os que abrem o flanco aos ataques esganiçados da Direita, como se assistiu, à exaustão, nestes longos três dias de penoso combate, perdão, de debate. A mera presença de Vasco Cordeiro, Francisco Cesar e Sérgio Ávila, entre outros representantes da herança governativa do passado, no parlamento regional impossibilita que o foco do debate se fixe no actual Governo, permanecendo, tal como já percebemos que a Direita insistirá, ad nauseam, nos lugares obscuros, nas sobrancerias, nos autoritarismos, prepotências e arbitrariedades e em mais todos os pequenos e grandes erros dos 24 anos de governação do Partido Socialista, numa dolorosa passos-coelhização da vida política regional, que não terá fim enquanto o Partido não fizer essa imperiosa introspecção. O Paradoxo Cesar é essa circunstância inusitada de o melhor que o Partido tem no parlamento regional ser exactamente aquilo que o impedirá de regressar ao poder nos Açores.

domingo, novembro 8

A Gaiola das Malucas

Se a apresentação da Aliança Democrática Açoriana já fazia lembrar a Gaiola das Malucas, a confirmação do apoio parlamentar do CHEGA! e da Iniciativa Liberal ainda tornou esta gaiola mais histérica, insana e colorida. Para quem não viu, La Cage aux Folles é um divertidíssimo filme franco-italiano, de 1978, que conta as aventuras de um casal homossexual, dono de uma discoteca drag na atribulada e glamourosa Saint Tropez dos inícios de oitenta. Por cá Bolieiro é Renato, o dono da boite, Artur Lima é Albin/Zaza, travesti e principal atracção do estabelecimento, secundado pela piriquete Estevão que vem na esteira a segurar as plumas e as lantejoulas no desequilíbrio dos tacões altos. Quais três amigos, para usar o adjectivo de escolha de Bolieiro, escanchados na mesma cela, cujos estribos são a curvatura útil de IL e CHEGA!.

Não me passaria pela cabeça pôr em causa a legitimidade democrática do casamento de conveniência destas cinco direitas (embora mais à frente possa debater a questão do posicionamento da IL no compasso ideológico…). O contar dos votos é a única legitimidade necessária em democracia e, logo no dia 25 de Outubro, se percebeu que este era um cenário não só possível como, até, o mais provável.

Mas, alguns aspectos fundamentais, nesta nova solução governativa regional, causam-me alguma, para não dizer muita, angústia. Em primeiro lugar, o casamento em si e com ênfase reforçada no aspecto da conveniência. Não há, como é francamente percetível, absolutamente nada que ligue estes nubentes. Ao longo dos anos, estes três partidos, foram dizendo uns dos outros o que Maomé não disse do toucinho. E, o caso mais extremo é mesmo o CDS de Artur Lima, que sempre preferiu andar aos beijos na boca ao PS a dar a mão ao PSD. O próprio facto singelo de os três partidos serem incapazes de apresentar um esboço que seja do suposto acordo que firmaram, que indique quais as linhas programáticas e de actuação do seu governo, mostra bem como é frágil este pré-acordo nupcial. Temo, que a própria lua-de-mel seja passada em discussões sobre a casa de que sogros vão passar o seu primeiro natal juntos (se a Covid deixar..). Mas, enfim…

Depois, e este é o aspecto mais grave, a ligeireza, a facilidade e a desvergonha com que, ébrios pela sede de poder, partidos ditos democráticos venderam a alma ao fascismo com a rapidez e o estrondo de um relâmpago numa noite de estio. Trazer para a esfera de influência governativa o CHEGA! é abrir os portões de uma barragem cujo diluvio terá consequências imprevisíveis. Podendo mesmo colocar em causa a solidez e o futuro do regime. Há, a este respeito, uma nota importante. Simpatizar, ou não, com o regime venezuelano não é propriamente a mesma coisa que propor uma revisão constitucional que visa acabar com a Terceira República. Muito menos é aceitável que se queira culpar a geringonça por se assentir negociar com uma força política que é anti-humanista, racista, xenófoba, autoritária e, o mais grave de tudo, anti-autonomista. Aliás, ou muito me engano ou o verniz desta frágil cristaleira governativa vai estalar exatamente nas exigências do CHEGA! que, não só são inexequíveis, como vão contra os interesses da própria coligação. Uma redução de deputados, numa região arquipelágica como os Açores, é uma autêntica miragem no deserto. Qualquer método que se use irá prejudicar ou as ilhas maiores ou as mais pequenas, já para não dizer que coloca em sério risco a elegibilidade dos partidos mais pequenos, basta lembrar a composição da nossa assembleia antes do círculo de compensação. Quanto à redução do RSI é não só uma proposta irrealista, surrealista mesmo, diria eu, dado o momento de grave crise economia e social que vivemos, como vai potencialmente destruir o tecido social de muitas freguesias açorianas, nomeadamente algumas onde o PSD tem forte implementação, como é o triste e já famoso caso de Rabo de Peixe, a freguesia mais pobre da Europa. Quem me dera ser uma mosca para assistir ao Carlos Furtado a ir ao Bairro do Caranguejo anunciar o fim do Rendimento Social de Inserção. Basta imaginar…

Relativamente à Iniciativa Liberal, confesso, desde já, a minha surpresa por este desfecho. Num tempo político em que as dicotomias entre direita e esquerda são cada vez menos uma preocupação dos eleitores, o facto de a Iniciativa Liberal ter caído do muro para o lado da direita é colocar-se a si um rótulo que será, no futuro, muito difícil de tirar. Por mais que se agite o esfregão de aço e se gaste frascos de detergente a IL açoriana perdeu a sua capacidade de ser fiel da balança e de conquistar, pela equidistância das duas bancadas ideológicas, autonomia de fiscalização, reivindicação e propositura e perdeu, também, o reconhecimento de um eleitorado que acredita em causas e não em guerras e arranjinhos político-partidários. Por mais que o objectivo de retirar o PS do poder, aliás o ódio ao PS é a única cola que une estes cinco partidos, por mais que fosse uma ambição legítima, a forma como foi feito e o grupo de interesses que foi preciso unir, para não dizer os sapos políticos que foi preciso engolir, terá sempre tendência para esvaziar o potencial de crescimento da IL no futuro, tornando-a numa força política personalista, centrada na imagem do seu líder, o meu querido amigo Nuno Barata, o que, julgo eu, não só vai contra a matriz ideológica da IL como, até, à sua pratica política, veja-se a atitude, nobre, de Carlos Guimarães Pinto na noite das últimas legislativas nacionais. 

E as pessoas? Pergunta quem sobreviveu até aqui. Bem, nós, os eleitores, os que votam e os que não votam, cidadãos do dia-a-dia, para usar uma expressão americana, pagadores de impostos e cumpridores de confinamentos e recolheres obrigatórios ficamos a braços com uma sociedade profundamente polarizada e crispada. De um lado uma máquina partidária e governativa em estado de choque e do outro um bando de exércitos sequiosos de derrubar do poder instalado e substituí-lo por si próprios. A forma como esta transição for feita, talvez mesmo mais do que as escolhas políticas ou pessoais, ditará tudo sobre o futuro da região nos próximos anos e, nunca é de mais dizê-lo, é bom que todos tenhamos consciência que estes são tempos, pela gravidade e profundidade da crise que vivemos, de união fraternal e não de ódio fratricida. No meio, sempre no meio, é que se encontra a virtude e será na escolha entre a destruição do passado ou no aproveitar do que de bom e menos bom foi feito que se verá a nobreza de carácter e a firmeza de princípios de quem agora chega aos destinos da região.

Apenas um de entre tantos exemplos. Depois de tudo o que Paulo Estevão disse sobre o GACS será interessante perceber qual será a escolha deste governo relativamente ao futuro do mesmo. Apagá-lo. Melhorá-lo, fazê-lo evoluir como instrumento de informação e de apoio a uma comunicação social livre e plurar, comunicação social essa que está nos cuidados intensivos e em fase terminal, ou pelo contrário, qual Golem segurando o precioso anel, vai antes exponenciar a sua vertente de propaganda ofuscando assim uma sociedade que vai precisar, mais do que nunca, de pensamento livre…

Depois, ainda há o PS mas, isso fica para mais tarde…

terça-feira, setembro 1

A Alquimia dos Números


Lembram-se de Mário Centeno? Sim, esse, o que foi Ministro das Finanças e a quem Wolfgang Schäuble apelidou, não sem alguma dose de mordacidade alemã, de Ronaldo do Eco-Fin. No início disto tudo, quando o céu começou a cair-nos sobre a cabeça, Centeno apareceu numa conferência de imprensa, num dos salões pombalinos do Terreiro do Paço, com ar visivelmente combalido e ladeado por Siza Vieira, o Medvedev de Costa, a anunciar as supostas medidas de mitigação da crise económica, provocada pelas opções políticas de combate à pandemia. Entre elas estava essa medida fundamental de aumento do montante máximo de pagamento por contactless nos multibancos de 20 para 30 euros. Por essa altura o mesmo Centeno, esse Cezane dos balancetes, o Picasso dos Orçamentos, também previa que a queda da economia provocada pela pandemia não seria mais do que uns modestos 6%. Um par de meses depois o próprio António Costa e Silva admitia, na sua carta astrológica para o futuro do país, que esse défice dificilmente ficaria abaixo de 12%, contrariando assim oficialmente os 9% com que João Leão, o Messi das Cativações, se esforçava para fintar os deputados no parlamento. Ontem ficámos a saber que, no segundo trimestre, a queda do PIB foi de 16,3%! A política é isso mesmo, essa constante efabulação táctica, essa arte de ludibriar o essencial com o acessório, a mentira como construção do real. Portugal caminha vertiginosamente para uma desgraça, mas os nossos principais políticos entretêm-se alegremente a funambular com os ciclos eleitorais, as contabilidades parlamentares e a Festa do Avante.

Há dias, num jamboree de jovens socialistas, Carlos Cesar, o Don Vito Corleone da oligarquia socialista açoriana, aventou uma teoria absolutamente genial para contrariar as recorrentes estatísticas que colocam a região nos piores índices de pobreza. De acordo com Cesar essas estatísticas são erróneas porque na região existe uma elevada percentagem de “economia paralela” e que, portanto, as pessoas nos Açores vivem muito melhor do que dizem as estatísticas. Deixemos de lado a estatística, essa alquimia dos números, capaz de fazer de duas mentiras uma verdade. Duas perguntas ficam por fazer a Carlos Cesar sobre tão magnífica teoria. A primeira é se concorda com a própria existência dessa economia paralela, com todo esse imenso mar de cidadãos que se veem escorraçados para as franjas do Estado e a viver na marginalidade para sobreviver no dia-a-dia? E, se não acha escandaloso, que após 24 anos de governação socialista na região, a única forma de se viver uma vida digna seja com um taxo na função pública, o nome no Rendimento Social de Inserção ou na fuga permanente aos esbirros das Finanças?

A grande questão é, provavelmente, essa. É que para o Partido Socialista dos Açores a economia paralela é como a abstenção, pode não ser boa para as estatísticas, mas dá um jeito do caraças à governação. Isso e dois terços da população activa a viver directa ou indirectamente da teta do Estado. Em ilhas onde mais de metade dos eleitores não votam garantir que uns quantos votam em nós é meio caminho andado para ganhar eleições. É, digamos assim, a "economia paralela" do voto. Veja-se essa medida perfeitamente soviética de a dois meses das eleições se anunciar a “regularização”, eufemismo para taxo, de 402 precários da Função Pública. Será que essa regularização já vem com lugar marcado na carrinha de transporte para a mesa de voto?