segunda-feira, dezembro 31

sábado, dezembro 29

e porque hoje é sábado, o último deste ano

Não duvido que 2012 fique marcado por muitas coisas. Muitas mesmo. Algumas desagradáveis e outras (menos) um pouco melhores, “all over this global village”.

Contudo, o meu 2012 fica marcado pela ética republicana, forjada agora em materiais sintéticos, muito em voga por estes tempos de amarga loquacidade, e com contornos relativamente diferentes que, relativamente (também) transbordada dos finais do ano passado, se abateu sobre todos nós, como um xaile negro, fazendo com que nos arrastássemos até muito mais à frente, para além das olheiras que correm, agora e seriamente, o risco de virem a transformar-se numa espécie de indicador, como o era o volume da pasta de Alan Greenspan – antigo presidente da Reserva Federal Norte-Americana – quando se dirigia para as reuniões com o todo-poderoso em Washington.

De arrasto, ou talvez não, o meu 2012 fica ainda marcado pelos muitos e múltiplos episódios das eleições legislativas regionais que, com um argumento majestosamente urdido e um resultado final que surpreendeu quase todos os profetas (até mesmo os mais fecundos), foi somando os vencidos e subtraindo os vencedores, deixando-nos a braços com uma conta que não conhecemos bem. A uma dúzia de anos do começo deste novo século, aqui nos Açores, a demagógica democracia desmanchou muitos arranjinhos. E, sem nada de novo, criou outros ainda. Tanto que mudou para que tudo ficasse igual, qual arranjo orquestral barroco merecendo que, ardilosamente também, se lhe tire o chapéu.

“Stressei” muito em 2012. Tanto que engordei uns quilitos valentes. Facto que veio – feliz ou infelizmente - dificultar a tarefa a tantos quantos tentaram trespassar-me o peito com as suas sibilinas balas e a outros, com os seus dissimulados punhais. Oxalá lhes consiga continuar a resistir a todos, por 2013 fora, ano em que se adivinham grandes desafios, também para a minha (que muitos querem humilde) pessoa.

Mas, «all in allbeingjust another brick in the wall », 2012 manifesta-se - inegavelmente - como uma verdadeira iguaria agridoce, pois, ao mesmo tempo que um pico de coisas ia atrapalhando a caminhada até aos 44 anos de idade (sem sequer o direito a uma banda sonora como habitual), o culminar de um processo de 10 anos de vida ia também, árdua e lentamente, acontecendo. Felizmente, com manifesta vantagem para a região e para a Dama que ardentemente tenho procurado defender. Espero sinceramente, numa espécie de vénia a quem teve a coragem necessária, ter a energia e a competência para fazer a diferença. São mais de 70 anos de existência que ganham agora outro fulgor.

video
   
Podemos dizer que esta é uma levada da breca, enviesada e egocêntrica visão de 2012 mas, não é curta de vista. E isso importa (!).

segunda-feira, dezembro 17

quinta-feira, dezembro 13

12.12.12

Eu sei que foi ontem. Mas é hoje também. E será amanhã.
E será ainda durante muito (quanto, oh deuses?) tempo.
O ano de 2012 ficou registado em imagens. Imagens que doem.
Fica aqui um desses registos, de um dos nossos fotógrafos maiores: José António Rodrigues.


quarta-feira, dezembro 12

Best of 2012


Na quarta-feira, no Metropolitano escolhemos os melhores discos do ano. Manda a tradição que a eleição seja feita com Alexandre Pascoal e Joao Nuno Almeida e Sousa, que se juntam a mim nesta tarefa já vai para uns seis anos. Este ano voltamos a ter um convidado extra. Trata-se de Paulo Vieitas, competente designer e selector de excelente som que se ouve e dança nas noites de Ponta Delgada. Herberto Quaresma
Em directo a partir das 22h00 na Antena 1/Açores.

domingo, dezembro 9

Em tempo real


O Skyside Project é um website de origem portuguesa de acesso gratuito que monitoriza em tempo real o tráfego aéreo em Portugal Continental, parte de Espanha e Marrocos.

» + aviões em FlightRadar24
» & navios em MarineTraffic

sábado, dezembro 8

Ambição desmedida?

Ontem, com alegria, completei 44 primaveras.
Quem me dera a mim, daqui a 20 anos, estar assim.


Mais ou menos, é claro: Mais cabelos, menos rugas :)

foto daqui

quinta-feira, dezembro 6

R.I.P. Oscar Niemeyer


Formas que nos tocam. Formas que nos remetem para universos desconhecidos mas, verosímeis.

Oxalá possamos embarcar no céu via uma das tuas "auto-estradas da forma"

“Sempre digo e insisto muito que o ensino da Arquitectura, de qualquer outra escola superior, devia ser seguido de conversas paralelas, literatura, de ciências sociais, Filosofia, não para transformar o arquitecto num intelectual, mas num homem familiarizado com a vida” Oscar Niemeyer.

quinta-feira, novembro 29

Biblioteca dos Rapazes

Um verdadeiro tesouro. 
Daqueles objectos raros, inteiros, que nos caem no colo e nos lembram que é bom, apesar do tanto que nos entristece, andar por aqui.
Um poema em BD, como alguém escreveu algures. 
Das coisas mais belas que tive entre mãos. 



Biblioteca dos Rapazes, Rui Pires Cabral, Lisboa, Pianola Editores, 2012.

domingo, novembro 25

Gastronomia e outras mordidelas


Por iniciativa (brilhante por sinal) do meu grande amigo Pedro Melo – homem em grande parte responsável pela preservação de um dos mais emblemáticos restaurantes dos Açores -, ontem, o jantar foi no Alcides. E, como não podia deixar de ser, o bife foi o grande eleito.



Uma delícia também, foi a companhia. Rivalizando fortemente com os enchidos regionais e fumados de outras paragens, todos trabalhados para gáudio dos convivas. Não eramos todos mas, eramos muitos(!) e do mesmo sector (amado em várias frentes, maltratado em surdina) o que, só por si, era sinal verde para um grande jantar.


Assim tantos, não nos víamos há muito tempo. Porventura há tempo demais. Até tivemos o privilégio da companhia do colega Carlos Pereira, apelidado de “Homem Montanha” por ser do Pico. O tema de conversa, como não podia deixar de ser, para além das habituais questões fracturantes, assentou nas qualidades gastronómicas açorianas, na excelsa qualidade das matérias-primas do nosso sector primário que, neste exemplar restaurante (com mais de cem anos de História e muitas histórias) e noutros (um pouco por todas as ilhas dos Açores), podem ser saboreadas, de acordo com o importante engenho das almas responsáveis pela sua transformação e adaptação ao nosso paladar.

Um jantar que, para além de reunir os amigos em torno da mesa e da certificação recentemente alcançada por esta “instituição gastronómica”, teve a faculdade de fazer muito mais pelo sector do que algumas magnas e tutelares reuniões.

Oxalá possamos todos navegar no mesmo barco e remar para o mesmo lado.

Obrigado Pedro.

P.S. Quando e se a Direcção Regional da Cultura der continuidade à relativamente recente iniciativa "Roteiros Culturais dos Açores - Personalidades" e eleger  Domingos Rebelo, talvez possa incluir uma visita ao Alcides, a pretexto de uma pintura de generosas dimensões e datada de 1956 que, ao fundo do restaurante, pontua o espaço com a história das nossas gentes, em jeito de apontamento etnográfico.

sexta-feira, novembro 23

Emanuel Jorge Botelho

Poeta por inteiro.

Banksters

Max Keiser é o comentador político americano que está a ponto de tornar-se o mais televisionado de sempre, com o seu Keiser Report a ser transmitido por uma corte internacional de estações televisivas – nenhuma delas americana.

A russa RT (450 milhões de espectadores, só aqui), a France 24 e a Al Jazeera estão entre as estações que transmitem o seu castigo trissemanal aos banqueiros  e aos políticos que os assistem. É com o termo “banksters”, contração de banqueiro com gangster, que Keiser apelida os primeiros; quanto aos políticos, Keiser não hesita em retratá-los genericamente como veículos do grande capital - “There is a revolving door for Goldman Sachs guys into and out of US government."
Nenhum canal americano arrisca dar tempo de antena ao Keiser Report, que vai um pedaço além da irreverência benigna do The Daily Show.


terça-feira, novembro 20

Dreams Never End

Há dias vi o "ET" numa comemorativa edição em DVD - baratíssima - com dobragem em português. Quis mostrar aos meus filhos o filme que vi no Cine Vitória. Acho que foi aí e não no Teatro que passou o filme de Spielberg (também vi nessa sala de cinema o "Gremlins" - disso tenho a certeza, até porque o meu avô Pereira havia morrido há pouco tempo, um marco na minha memória infantil). A pergunta que faz sentido perguntar à minha geração - resolvida que, felizmente, estava a questão da liberdade - é: onde é que estavas quando deu o "ET"? Uma outra forma de ser livre, se quisermos. O "diferente" já não vivia na Terra, mas chegava do espaço. A tolerância media-se perante uma galáxia distante. Um dos meus filhos ficou mais entusiasmado que o outro. Mas o filme está retrabalhado em termos sonoros, o que assusta até um adulto. Continuo a achar o momento final, com a rapaziada a voar com as bicicletas, um dos achados poéticos mais bonitos do cinema. Mesmo aquele que estava atento ao filme (já reproduz falas e tudo) adormeceu a meio. Era o cansaço. Só o pai é que ficou a ver o sonho até ao fim.

domingo, novembro 18

Mais programa, menos programa...

Lícinio Cunha, no seu livro intitulado Introdução ao Turismo, editado pela Verbo em 2001, escrevia: "A viagem responde à necessidade individual de evasão, isto é, constitui uma forma de romper com a rotina da vida quotidiana, com os constrangimentos da vida urbana e com as condições de realização do trabalho em ambientes fechados. A cada vez maior concentração populacional em grandes centros urbanos, afastados do ambiente natural, poluídos e geradores de tensões psicológicas e físicas, conduz à necessidade de evasão que origina as deslocações temporárias. Deste modo, o turismo é, para muitas pessoas, um acto de libertação dos constrangimentos da vida moderna.”


Apesar de considerar que outros argumentos poderiam justificar a viagem, como que em sentido inverso (se quisermos), importa perguntar em que medida estão os Açores preparados para a responder à dita necessidade de libertação de quem, naquelas condições, nos procura!

Vem isto a propósito do primeiro ponto do capítulo IV da Proposta de Programa do XI Governo dos Açores - uma autêntica Suite a 4 mãos para o nosso Turismo -, que, curiosamente, me fez compreender a profundidade da preocupação de um colega quando, instado por mim a circunscrever a posição da pasta do Turismo numa qualquer orgânica governativa, me dizia que o relevante não era a importância que os governantes dariam à pasta, mas sim, a importância que ela teria.

Pese embora o documento produzido dever ser alvo de melhoramentos significativos, até porque as dinâmicas conjunturais assim o irão determinar, importa afirmar que o mesmo denota, na generalidade, a compreendida necessidade de se afinar a rota e aponta alguns novos caminhos que, para além da perceptível eficiência (para bem de todos nós), oxalá possam trazer também a imprescindível eficácia.

Numa perspectiva ambivalente, gostaria de deixar três notas que me parecem importantes, tanto para governantes como para governados:

1. Não se pode falar de cadeia de valor sem que a mesma esteja associada a uma proposta de valor concreta e mensurável, aliás, no nosso caso, este tema tem sido um verdadeiro problema. Sem a definição concreta da proposta de valor que o Turismo nos Açores tem para oferecer a todos os interessados na sua afirmação (mercados emissores e mercado interno) e sem a correcta comunicação a todos eles (directos e indirectos), não se pode definir e valorizar com rigor a respectiva cadeia. Tudo isto, bem montado, assentará – forçosamente - nos compromissos que todos terão que assumir, para garantir que tudo funciona afinado como um relógio suíço (e já sabemos o que acontece no que toca a compromissos, quando a substância que os procura suportar não é facilmente compreensível);

2. A enviesada discussão sobre os hotéis açorianos assente na pleonástica alusão a uma dita indiferenciação devia dar lugar a uma discussão séria e centrada nas questões da segmentação e da qualidade, vertentes importantíssimas na gestão das expectativas de todos aqueles que viajam em busca de uma experiência memorável. Não obstante esta necessária tomada de consciência, a questão da indiferenciação deverá, sem dúvida, ser considerada, sobretudo, na medida em que os hoteleiros deveriam preocupar-se em procurar contrariar o processo de “comodatização” do seu produto, num jogo que é habilmente conduzido pelos operadores na tentativa de procurarem esmagar os preços, inviabilizando - a médio e longo prazo - a capacidade do hotel gerar os meios para se reinventar, inviabilizando também a sustentabilidade do próprio negócio para todos os agentes do sector.

3. Um eixo de actuação que a proposta programática para o Turismo nos Açores não torna evidente também nesta legislatura é o necessário envolvimento da população (e do sector primário, já agora). Talvez pelo facto da nossa economia não ser, ainda, uma "Tourism-Driven Economy", como fez crer quem procurou convencer os que tiveram que fazer os investimentos. E, talvez também, neste facto resida o grande problema do nosso Turismo.

Hoje


É a última noite do JAZZORES'12 no Teatro Micaelense.

sexta-feira, novembro 16

Ilha Natal

A Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo apresentou hoje a campanha “Terceira Ilha Natal”.
 
Na prática, a CCAH olhou com olhos de ver: os Açores possuem bons argumentos para serem um destino de Natal. Para vender, nada como ter um produto adequado logo à partida. E para vender ilhas em dezembro, os Açores oferecem um ambiente de Natal com uma genuinidade que simplesmente já não se encontra em muitos mais sítios no mundo, paisagens mágicas, um povo afável e amplamente reconhecido pela sua capacidade de se expressar em inglês (não, isso não é despiciendo) e um Natal com clima ameno na Europa. Para cereja no topo do bolo, não apetece praia no Natal – o nosso clima cheio de personalidade não tem que competir diretamente com Repúblicas Dominicanas e quejandas.
 
 “Este é o mote de partida numa ótica de que a CCAH tem de promover eventos em épocas que não a alta, para captar fluxo turístico para a Região”, referiu Sandro Paim. «Vamos divulgar junto das agências de viagens da região os eventos de Natal que iremos realizar para prepararem um pacote especial para os seus clientes» disse o presidente da CCAH.
As vozes críticas não primam por fazer-se esperar e, portanto, medir de relance a temperatura das atitudes dos açorianos perante este anúncio de intenções hoje da CCAH foi tão fácil quanto um salto ao Facebook. Que não faz sentido nenhum, que é por essas e por outras que não andamos para a frente, que a pouco mais de um mês do Natal andam atrasados.
Não sei se a CCAH está interessada em responder a essas ou outras críticas mais formais – estando porventura mais atarefada - espero eu - em fazer acontecer o tão desejado turismo, ao contrário de outras tarefas que parecem entreter outros corpos análogos. Quanto a mim, ao ouvir as notícias hoje sobre esta campanha “Terceira Ilha Natal”, lembrei-me de uma senhora, de seu nome Inge Perreault, uma norte-americana de ascendência alemã, radicada nos Açores com o seu marido desde 2006. Escreve assim a Inge, na sua página, ao descrever (a seguidores de múltiplas nacionalidades), o Natal nos Açores:
There is no Christmas STRESS, there are NO mall-shootings or any others. The world keeps turning at a slower, more pleasant pace. Irrespective of what happens in the rest of the world, Natal is a family holiday mostly concentrating on togetherness, good food and drink.
Again a profusion of flowers is growing more varied by the day, Camellias and Azaleas are beginning to come into their own as well as many others. But THE best and most spectacular this year are the Poinsettias. Sitting on our upper terrace the other day I looked up in the late afternoon sunshine from below into a truthfully huge bush of Poinsettia blossoms about a foot across with a cerulean sky as backdrop and the warm sun illuminating every leaf rendering it the deepest red you can imagine. It was magical. Such is Natal on the Azores. The lights are adorning the streets en masse but yet again there is NO Christmas frenzy. We love it.
Assim, do que eu gostava mesmo, era que os meus conterrâneos pudessem abraçar a visão para a qual a Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo deu hoje o mote. Teriam vistas largas, como a vista da Inge sentada no seu terraço a contemplar as Estrelas-de-Natal nas nossas ilhas natal.

Foto Roland Perreault
 

quinta-feira, novembro 15

terça-feira, novembro 13

Uma prova

Na Praia da Vitória, onde estou, falo com as pessoas sobre a chuvinha de hoje (gostava tanto de correr junto ao mar) e todos explicam que nos Açores fazem as quatro estações do ano num dia, desconhecendo que, açoriano que sou, conheço esse dado como a palma da minha mão (por acaso tenho olhado pouco para ela - convém estar mais atento às suas linhas e aos seus destinos). Essa aceitação da nossa impermanência meteorológica é um dos nossos lados mais belos. O nosso tempo tem os seus humores e nós aceitamos isso como quem aceita um amigo com altos e baixos, com ternuras e irritações. É uma prova de amor.

segunda-feira, novembro 12

azores perfect mood

Não conheço a Sofia e não jogo golfe. No entanto, adoro a ilha de S. Miguel e quero mostrá-la ao Mundo.

O post, no Alfaiate Lisboeta, (a quem agradeço muito) está escrito com as mil palavras que se seguem.

sábado, novembro 10

À espera do apito.


Neste momento, parece que estamos suspensos num largo intervalo de uma partida de futebol (para utilizar um exemplo que tanto agrada ao nosso país, a avaliar pela quantidade de programas televisivos sobre a matéria), à espera que a outra equipa regresse dos balneários.

O “jogo” não corre bem para governos (sejam eles quais forem) e governados que, desafortunadamente, ao contrário dos primeiros, não temos direito a substituições, vamos até ao final, com as baixas – mais ou menos importantes – que vão acontecendo e cada vez mais cansados.

No entanto, este não deveria ser um “jogo” como outros tantos que nós conhecemos. Este deveria ser um “jogo especial", no qual se espera que as equipas não sejam verdadeiramente adversárias e possam, de facto, ajudar-se mutuamente.

Apesar de tal regimento ser absolutamente desejável, na verdade, há alguns “jogadores”, de ambos os lados, que insistem em viver mais esta experiência com base na jogada trapaceira, na qual as rasteiras são uma constante, resultando – não poucas vezes – no tombo ruidoso do “adversário”.

Este é um “jogo” onde a ética republicana classifica como desnecessária a presença mais imediata de um árbitro, remetendo para um eventual e posterior “conselho superior de uma coisa qualquer”, a dirimição dos “casos do jogo” que sempre vão acontecendo.

Neste momento, nós, os do lado de cá, estamos sem o que dizer. Não lhes conhecemos a táctica e, incapazes de prognósticos, apesar dos muitos e imensos treinadores de bancada, vamo-nos apercebendo que afinal de contas as regras do “jogo” estão, infelizmente, viciadas.

Será que a Democracia serve apenas para isso? Para escolhermos os adversários para o outro lado do campo?



terça-feira, novembro 6

Olhar com ele a partir do seu olhar

"Detesto o leitor que pagou pelo seu livro, o espectador que comprou o seu lugar, e que a partir desse ponto aproveita o almofadão macio do prazer hedonista ou da admiração pelo génio. O que é que a tua admiração interessava a van Gogh? O que ele queria era a tua cumplicidade, que tentasses olhar como ele olhava, com uns olhos desolados por um fogo heracliteano. Quando Saint-Exupèry sentia que amar não era olhar nos olhos um do outro mas duas pessoas a olharem juntas na mesma direcção, ia mais além do amor do casal, porque todo o amor vai mais além do casal se for amor, e eu cuspo na cara de quem me vier dizer que ama Miguel Ângelo ou E.E.Cummings sem me provar que, ao menos uma vez, numa hora extrema, foi esse amor, foi também o outro, olhou com ele a partir do seu olhar e aprendeu a olhar como ele para a abertura infinita que espera e reclama". Julio Cortázar, "A Volta ao Dia em 80 Mundos" (Cavalo de Ferro)

sexta-feira, novembro 2

O cheiro da luz



Tenho os pés transpirados, a t-shirt tingida pelo dia santo e uma pequena dor no peito que ainda não sei bem de onde cresceu. O nascer do dia passou há pouco por mim, era forte mas transparente. Fazia-se acompanhar de uma caterva agitada que bloqueava a rua que vai para o rio. Tenho cinco minutos para respirar enquanto o trânsito reformula o caos. Larguei os cheiros, o barulho intenso, o calor e a fome e, por fim, deixei que o tempo de respirar se esvaísse na curiosidade polida, nos olhos da mulher que carrega às costas a dor do plástico semeado pelo chão. Ao retomar o fluxo, a artéria empurra-me pela escadaria e tenho finalmente o rio a meus pés. O desafogo do passo que varre a margem, clarifica o ritual da velha que, no travo milenar da corrente, purga a última falta cometida. As palavras embrandecidas na sua boca repetem-se com as ondas que lhe chegam aos pés e com elas estabeleço-me nessa frequência da imortalidade. O silêncio na distância que contempla os dois passos que nos separa, é tão fecundo como a disparidade que nos reúne. Posso render-me a esse lugar e habitar-lhe de forma eterna, no sumo dos seus silêncios haverá sempre um travo dessas especiarias que nunca hão de crescer no meu quintal.

De silêncio em silêncio, o cheiro da luz que rompia o fumo numa escadaria mais ao fundo parecia cada vez mais presente. A cinza espalhada no chão, o resto daqueles que cumpriram o sonho de morrer naquela cidade, entranha-se-me pelos poros. Pesa-me nos pulmões. Há uma cítara cá dentro que dá um sabor especial a essa visão das ondas de calor, que escondem o rosto do homem que ateou o fogo pela purificação. Deixou escorrer a alma alheia para o fim do ciclo da reencarnação. O peregrino que procurou a vida eterna entregando a morte à cidade sagrada, tinha finalmente o lençol branco humedecido na fonte a separar-lhe a pele da lenha seca. O pouco que lhe sobra da família, cobre triste a escada da fogueira.

Pepe Brix

[Pepe Brix parte da sua terra natal, a Vila do Porto em Santa Maria, para a captação do mundo nas valsas de luz e sombra da sua objetiva. O seu trabalho é para ser sentido, aqui. Também em breve, perto de nós, na galeria Arco 8.]

quinta-feira, novembro 1

A Testemunha


Nestes dias em que lembramos aqueles que, sendo matéria da nossa vida, já se não cruzam cá connosco, recordo sempre os dedos de árvore da minha avó, a pele terna e macia da minha tia Tatá, os pés do meu avô tentando avançar mais depressa do que o corpo deixava, a M. desenhando a vida na praia, o A. ensinando-me a ler o mundo no firmamento, a vizinha que assistiu de janela à infância deste bairro, a Lhasa cantando no circo a Luz de Luna da Chavela, a voz de Kurt Cobain incendiando os serões da juventude, os gatos que não consegui salvar, o cão a quem devo muito do que sei sobre gratidão e amor, os versos que não soube escrever a tempo para o Manuel António Pina.

E regresso sempre, como quem as lesse pela primeira vez, às palavras de Jorge Luis Borges em «A Testemunha»: «Feitos que povoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, salvo se existir uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsciente perderá o mundo? A voz de Macedonio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de acaju?»

quarta-feira, outubro 31

Latitudes

Esta tarde, em Lisboa:



Esta tarde, em Angra do Heroísmo:




Pode ser todos os dias, mas hoje é flagrante: "Que bom que é ser açoriano". Amanhã e depois, queremos que a diferença se faça cada vez menos pela desgraça na República e cada vez mais pelo sinal positivo do que se passar na Região. 


Fora da caixa

«(...) os desafios do próximo Governo dos Açores, que será conhecido esta 4ª feira, são mais que muitos e vão exigir dose extra de criatividade, inovação e de muita acção 'fora da caixa'
Para ler na íntegra no AOnline.

terça-feira, outubro 30

É tempo de um novo tempo. Com mais ou menos tempo.

Apesar de, em muitas ocasiões, não abordarmos os assuntos a partir do mesmo ponto de vista, não posso ignorar que partilhamos uma certa postura de rectidão, face aos vários acontecimentos que influenciaram o passado recente de todos os açorianos, dentro e fora da "casca do fruto" que se espera com suficiente vitamina C, para aguentar os tempos dificieis que terá que enfrentar, com quem quer que seja o senhor que se segue.

Por isso, e por mais algumas outras coisas, deixo um excerto do, quanto a mim, excelente artigo de opinião de JNAS, no AO de hoje.
"Este PSD Açores tem ainda que se submeter a uma transfusão de sangue novo, sendo inaceitável que, ao longo de 16 anos de oposição, triture líder atrás de líder, sem que nada mude nos bastidores da “câmara dos lordes”, onde tudo se decide entre corredores a caminho da “câmara comuns” apenas para ratificação do já processado. Mudam os líderes, mas nunca a segunda linha que, por previdência a qualquer cenário, sempre soube cuidar de se alapar ao poder e às suas sinecuras. O PSD Açores tem de quebrar a barreira das suas forças de bloqueio e permitir a participação efetiva de uma nova geração que não sirva apenas para figurante dos figurões do partido. O PSD Açores tem de descer até à juventude, porque a juventude Açoriana não se revê neste partido tal como ele está, e muito menos respeita uma JSD Açores que vê apenas como uma via profissionalizante para o carreirismo"

Corajoso, lúcido e apaixonado e, sem que isso importe ou motive, tem a minha concordância.

segunda-feira, outubro 29

Apeteceu-me Cesariny


Nós "somos um povo menino, um povo criança... Mas depois não dá para ser país (...) e querem que sejamos (...), que cresçamos"

sábado, outubro 27

James is back!

Noutra altura, o filme ter-se-ia chamado "Skywalk" ou, até mesmo, "Fly High".  Contudo, por estes dias em que tudo cai - como os "ratings" dos países -, nem o bom James escapa.

Mas, não decepcionará. Com toda a certeza!

São coisas do governo que, aliás, não tarda.

Num outro dia, parado no sinal vermelho do semáforo (este bastião das sociedades ditas desenvolvidas), atrás de um motociclo que julgava fora de circulação por esta altura, dei por mim a pensar: que governo se pode esperar deste jovem frenesim que norteou toda a campanha dos vencedores destas legislativas?

Logo de seguida, e ainda sem resposta para a primeira interrogação, atrevido, lancei-me outra pergunta: o que se pode esperar deste novo governo?

Ao olhar para o meu concidadão - inquieto no assento da sua Zundapp KS 50, de 1968, azul, clarinha, com a barba grande, por fazer, e com o capacete, qual gorro, mal colocado na cabeça – fui acometido por uma súbita e enervante vontade de rir. Um rir nervoso, quase assutado, pela perigosa combinação: ele e eu, podendo até valorizar as mesmas coisas, não queremos, com toda a certeza, a mesma manifestação do governo por chegar.

Desventuradamente, estaremos todos lixados: ele, eu e o governo, pois, qualquer que venha a ser este último (novo em folha ou em segunda mão), terá sempre a falta da transversalidade necessária para nos governar aos dois, de forma igualmente eficaz. Não sei se as pessoas se importam com estas coisas ou se as consideram meras banalidades mas, a verdade é que elas deviam preocupar os governantes, quais “gajos porreiros” por altura do sufrágio que, depois, sabem a muito pouco ou quase nada, escondidos do eleitorado, a governar as suas vidinhas.

Não sei que contas farão os ilustres governantes mas, confunde-me o aparecimento de um número crescente de cidadãos a defenderem os estranhos benefícios do regresso à monarquia que, apesar de um ou outro momento de consideração para com os reinados, pouco mais fez das pessoas que, durante toda a sua história, quase serviram como carne para canhão apenas.

Tenho sido, muitas vezes, acusado de não ser absolutamente claro no discurso, alegando os principais detractores do estilo, preferindo uma maior incisão, que as pessoas precisam saber das coisas como elas são. Por outro lado, outros como eu, sabem que o mais importante – a médio e a longo prazo – não é fornecer o pescado mas, sim, fornecer a arte e o engenho para apanharem o pescado. Dito isto, com o fácil recurso a um chavão que muitos usam para se escudarem, num qualquer confronto que os obriga a medir os níveis de eficácia dos seus actos, gostaria ainda de relembrar que a “candeia que vai à frente” de facto “alumia duas vezes” mas, pode, também, ofuscar os mais incautos. Se é certo que a sua luz pode tirar as trevas do nosso caminho, é prudente não ignorar que o nosso corpo introduz a sombra, e a caminhada a sua variação.

Com a tristeza típica de quem preferia ter mais se contém a alegria de quem tem muito mais do que os seus antecessores e se pede que coloquemos os olhos num futuro – cada vez mais incerto –, para ambicionar um melhor patamar para os nossos filhos. É coisa para dizer: engana-me que eu gosto.

Tudo isto a propósito desta bonita máquina, à minha frente, também ela à espera que o sinal fique verde.


quinta-feira, outubro 25

Grande Prémio APE para Ana Teresa Pereira



Foi ontem muito justamente atribuído o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores a Ana Teresa Pereira, com o seu romance O Lago.
Os outros finalistas do prémio eram As Luzes de Leonor de Maria Teresa Horta, Tiago Veiga de Mário Cláudio, O Complexo de Sagitário de Nuno Júdice, e a Cidade de Ulisses de Teolinda Gersão.
Nascida no Funchal, em 1958, Ana Teresa Pereira publica desde 1989, num ritmo e com uma qualidade impressionantes. É uma escritora maior da nossa língua. É, na prosa, a minha escritora em língua portuguesa. E é – digo-o com uma alegria sem par – minha amiga.
Dela e da sua literatura disse um dia Eduardo Prado Coelho: «esta literatura de anjos, ícones e fantasmas, procura dar realidade às coisas para conseguir que elas se separem do mundo. Mas à medida que escreve para se separar do mundo Ana Teresa Pereira reconstitui o mundo de que se quis separar. É por isso que nascer e morrer se confundem».


quarta-feira, outubro 24

(Des)Governo do carreirismo político

Aparentemente, o "arco governativo" mais parece um arco S. Joanino, a quem todos querem deitar a mão.

«Este governo, na verdade, acabou em setembro, quando ficou exposta a sua pelo empobrecimento competitivo. Falhada a via da TSU para baixar os salários, o governo optou pelo assalto fiscal para pagar o défice. Entre uma coisa e outra, “tudo se desmancha e o centro não aguenta”, como diz um poema — não aguenta o centro ideológico do governo, nem o seu centro político, nem o Centro Democrático e Social.
O governo acabou, pois, e a única questão é como removê-lo.
E aí Portugal regressa ao seu grande problema. Não o problema económico, nem o problema financeiro. O nosso grande problema é o problema político. É na política que está a nossa grande falta de alternativas.»

Será coisa para afirmar que estamos a caminhar a passos largos para um governo dito de "Salvação Nacional"?

Há quem pense que sim e, ao mesmo tempo, alimente uma visão romântica do regresso do 25 de Abril.
Se é verdade que muitas das coisas que aconteceram em 74 se podem vir a repetir, muitas outras rebentarão com uma violência jamais vista em Portugal.

As assimetrias, que indelicadamente se amontoam e facilmente se percebem por este país fora, não nos deixam ignorar o facto de haver já algumas trincheiras cavadas e, não tarda, gente nelas montadas. As lojas das maiores cidades, um pouco por todo o país, hão de ser saqueadas. Vai haver tiroteio. Os gangs vão ajudar e as forças de intervenção não se farão rogadas. Veremos quantos mais beijos aos polícias serão precisos para debelar esta triste eventualidade.

Cuidado(!)
Vítima de embolia pulmonar, António Spínola faleceu aos 86 anos de idade, estando, por isso, privado de impedir - de novo - que o poder caia na rua.
O problema é que, com toda a certeza, haverá muitos outros que não se hão de importar de prestar este serviço à Nação.

terça-feira, outubro 23

Murdock do Mussulo


Vende-não-vende, há acordo mas ainda não. Entre informação, desinformação e contrainformação, vai a informação nacional sendo comprada a atacado por Angola – que tem um rol de coisas boas e outro rol de coisas menos que boas – não consta que a liberdade de imprensa conste (ainda) no primeiro rol.

Na semana passada ficámos a saber (?) que a Controlinveste “assinou há vários meses” um acordo com um grupo angolano, estando por concretizar a mudança de propriedade. Era assim que, na passada quinta-feira, a TSF corria atrás do prejuízo de ver assuntos da sua própria casa serem conhecidos antes por outros, pois que o gato saiu do saco via Diário Económico, propriedade da Ongoing Media.

A notícia na antena e no site da TSF teve vida curta. Foi rapidamente retirada e desde então, silêncio na linha. O grupo parece ter ordenado aos seus títulos a tática “tartaruga” das hostes romanas: cerrem os escudos e nada sai, nada entra. De resto, a prática comum quando há vendas de grupos de comunicação.

Tão depressa quanto irrompeu o caso, também tão depressa parece ter saído do radar, embora o Expresso, já na sexta-feira, tenha dado a coisa por consumada, titulando “Controlinveste assume acordo com angolanos” e trazendo a lume um dado no mínimo perturbador, no máximo escabroso: uma “contratação recente da Newshold foi a de Filipe Passadouro - antigo colega do ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, na Finertec, que assumiu em julho o cargo de administrador financeiro”. A este propósito e sobre as minhas considerações, vide título.

Certo, é que Angola está a tornar-se um peso-pesado na Comunicação Social portuguesa. A confirmar-se a notícia da venda dos títulos da Controlinveste à Newshold, este negócio vem somar-se à aquisição do semanário "Sol", de uma participação de 15,08% na Cofina, dona do "Correio da Manhã", e a exploração indireta do diário "i”. Igualmente, a Newshold é uma potencial candidata à privatização da RTP.

O porquê do interesse angolano nos media portugueses deve fazer refletir. A Comunicação Social portuguesa, comercialmente, não é particularmente atrativa perante outros potenciais setores para investimento angolano. Resta que Angola esteja a comprar a Comunicação Social portuguesa pelo seu cariz estratégico, o que se afigura bem mais verosímil. E se assim for, a sucessão de José Eduardo dos Santos poderá ter um dos principais campos de batalha nas páginas dos jornais portugueses.

A semana passada foi negra para a Comunicação Social. O caso Controlinveste não esteve só, já que na mesma sexta-feira a Lusa e o Público saíram à rua e calaram telexes e rotativas. O jornal vai despedir 48 trabalhadores até ao final do mês; a agência noticiosa (que, por sinal, é detida em 23% pela Controlinveste) tenta inverter o corte de 30% no seu contrato programa com o Governo, previsto no Orçamento de Estado para 2013.

No turbilhão de incertezas em que caiu Portugal nos últimos meses, junta-se portanto agora a incerteza nesta condição essencial para a democracia: a imprensa livre.

O caso Controlinveste pode vir a ter reflexos muito concretos bem perto de nós. O grupo de Joaquim Oliveira detém títulos históricos da imprensa portuguesa – entre os quais, a 90%, o “nosso” Açoriano Oriental. O açor impresso a negro no cabeçalho do AO nunca foi intencionado como presságio, mas nos dias que correm, até parece. O que estará no futuro do jornal com maior tiragem da Região?

segunda-feira, outubro 22

"Dura lex, sed lex"… também é assim para o MP

As investigações ao caso Monte Branco levaram o Ministério Público a proceder a escutas ao presidente do BESI, José Maria Ricciardi, e acabaram por o apanhar numa conversa com Pedro Passos Coelho.
Qualquer escuta que seja feita ao Primeiro-Ministro tem de ser validada pelo Supremo Tribunal de Justiça. O Procurador-Geral manda a escuta para o Supremo. Ainda não se percebeu a relevância que aquela conversa especificamente tem para o processo, mas tudo bem… digamos que o Procurador fez o que tinha a fazer.  
O problema é que tudo isto acaba em mais uma vergonhosa violação do segredo de justiça e a mais um julgamento inadmissível fora dos tribunais. A suspeita está instalada novamente e o julgamento na praça pública em curso. As notícias são parcelares e a conta-gotas e coze-se em lume brando mesmo quem aparentemente nada tem que ver com a questão.
Nunca seria bom defensor de Passos Coelho, mas a defesa do Estado de Direito obriga quem tenha bom senso a exigir que este tipo de coisa acabe de uma vez por todas. Pena é que o Primeiro-Ministro não faça esta defesa do Estado de Direito e prefira apenas defender-se a sí próprio. Foi o que fez ao pedir a divulgação das escutas, não se importando com a correlativa violação de direitos dos eventuais arguidos escutados em conversa com ele (e eu estou longe de morrer de amores por aquele tipo de magnatas…), patrocinando assim também ele a descredibilização do processo e da justiça em geral. Acho (humanamente) compreensível que Passos Coelho o faça, mas não posso aceitar (institucionalmente) que o Primeiro Ministro não cumpra o seu papel.  
Paula Teixeira da Cruz anunciou o “fim da impunidade dos poderes instalados”. E a impunidade da Justiça? Esta é que lhe incumbe em primeira linha, porque é pressuposto da sua autoridade! Uma Justiça que não consegue evitar que os seus operadores violem o segredo de justiça, a lei e a Constituição, que nunca apanha os responsáveis e que nunca consegue minorar os danos comunicacionais que se vão paulatinamente produzindo, não é uma Justiça na qual se possa confiar.
Do lado dos visados, mesmo que tudo se venha esclarecer processualmente, ficam entretanto sujeitos às fontes anónimas da justiça, sem qualquer protecção, nem direitos e à mercê das eventuais selecções informativas da comunicação social. Do lado da acusação, descredibiliza-se mais um importante processo de corrupção e lavagem de dinheiros e com ele – mais uma vez – o próprio sistema de Justiça.
Isto não pode ser. Isto não pode continuar.
Joana Marques Vidal – a nova Procuradora Geral da República - tem ai a sua prova de fogo: Comporta-se como os seus antecessores ou faz diferente? E a fazer diferente, como é que faz? Deixa continuar a impunidade no Ministério Público ou protege os cidadãos de uma Justiça impune? Credibiliza o sistema ou deixa que olhemos para ele como uma brincadeira de rapazes?

sábado, outubro 20

Uma alternante visão estrábica



Por considerar mais importante concentrarmo-nos nas questões de princípio e nas ideologias que as suportam - bem ou mal, pouco importa, desde que se atenda sempre à necessária relativização -, nada (ou quase nada) do que escrevo se refere a esta ou aquela pessoa, apesar de, muitas vezes, considerar que determinadas pessoas enviesam tudo (ou quase tudo) o que merece a nossa atenção e vale ser discutido.

Ser republicano (se percebo bem o que é sê-lo e viver segundo o seu código genético), é reconhecer neste modelo político que vigora em Portugal a capacidade que todos os elementos desta Nação têm de conduzir os seus destinos e, ao mesmo tempo, é reconhecer a possibilidade que é dada aos seus cidadãos de poderem procurar pôr em prática os seus projectos, em prol de uma Nação melhor e de um Estado mais equilibrado.

Não pretendo ser o autor de mais uma análise sobre o resultado das últimas eleições legislativas regionais nem, tão-pouco, quero pedir a cabeça de alguém, qual bode expiatório. Quero, tão-somente, partilhar esta visão – porventura estrábica –, com quem tiver a paciência de ler este desabafo, de que a falta de alternância no exercício da governação é um problema muito maior para as pessoas (nas quais se constitui a Nação) do que para o sistema político em vigor que, com todas as vicissitudes daqueles que gravitam em seu redor e sabem - melhor do que ninguém - tirar partido dele, perde todo e qualquer vigor, deixando de cumprir as suas funções mais elementares.

Indubitavelmente, são as pessoas mais dinâmicas e mais criativas, com sentido crítico mais apurado e com a visão da multiplicidade de caminhos possíveis que, fora da esfera dos protegidos pelo sistema, mais sofrem com o status quo instalado, que todas as fracas e ambíguas figuras desejam ver perpetuado nos meandros políticos.

Indiscutivelmente, são muitos ainda os que, com pensamento estruturado, sofrem ao procurar contrariar as precedências no dito sistema, não conseguindo anular o facilitismo popularucho da máquina esquizofrénica do poder que se alimenta do egocentrismo do individuo que se borrifa para a coisa pública.

Hipoteticamente, a hegemonia político-partidária pode ser um enorme problema para as sociedades, na medida em que as vai amputando dos membros que as podem fazer locomover-se em direcção aos patamares onde as vantagens não servem só para serem distribuídas por aqueles mais próximos do eixo.

Hipoteticamente (mas só hipoteticamente), quanto mais hegemonia, menos novos projectos. Quanto mais hegemonia, menos riqueza social (cinjamo-nos ao valor intrínseco do Ser Humano). Quanto mais hegemonia, muito menos criatividade e muito menos horizontes a serem vislumbrados. Mas, e no entanto, quanto mais hegemonia, mais estabilidade económica (apelidada de absolutamente necessária para o nosso desenvolvimento económico).

É preciso não ignorar que as massas - de toda e qualquer sociedade - precisam do seu tempo para respirar. Tempo que não é indiferente aos ciclos políticos.

Há desafios grandes na nossa região?
Haja também igual vontade e determinação!



quinta-feira, outubro 18

Emanuel Félix


A poucos dias do seu aniversário de nascimento (24/10/1936), e porque a generosidade que depositava no papel e no seu estar aqui deve constituir sempre uma bússola para este nosso trilho sinuoso, deixo-vos um dos seus poemas que mais amo.

PEDRA-POEMA PARA HENRY MOORE

Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem

O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto

Um homem pode amar o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra
uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto

Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)

Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem

Ame o homem a pedra
e pronto

quarta-feira, outubro 17

Pequod ao largo dos Açores via Google


161º Aniversário de Moby Dick.

"Não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde as naus de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam, frequentemente para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas costas rochosas. Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias".

Herman Melville, Moby Dick, cap. XXVII

KO

Para ler aqui.

terça-feira, outubro 16

Olhando para os resultados…

 (em texto e em glosa)


Três Vencedores: Vasco Cordeiro, Carlos César e (o chato) do Paulo Estevão.
Vasco Cordeiro, porque ganha Berta Cabral com uma extraordinária maioria absoluta; Carlos César, porque consegue uma sucessão tranquila e vencedora; Paulo Estevão, porque consegue persuadir Berta Cabral a não concorrer ao Corvo (facto que envergonha toda a genética autonomista do próprio PSD-A) incrementando o seu score eleitoral em apenas 10 votos (valeria o PSD-A apenas 10 votos no Corvo?).
Dois vencidos: Berta Cabral e Artur Lima.
Berta Cabral porque, para além do que se passa a nível nacional, cometeu muitos erros enquanto líder do seu partido (destaca-se, em primeiro lugar, a noite das autárquicas e o desprezo pelos vencidos, no afã de tornar aquela noite uma vitória sua – coisa fatal num partido com fortes estruturas locais como o PSD-A; e, em segundo lugar, não se candidata a todas as ilhas o que criou um verdadeiro problema freudiano aos autonomistas históricos do PSD-A) e muitos, muitos erros enquanto candidata (não fez listas brilhantes; pela primeira vez na história do PSD-A não apresenta candidatos a todas as ilhas; prometeu muito ao mesmo tempo que dizia mal das finanças públicas, levando o Zé Povinho a perguntar: se diz que não há dinheiro como é que diz que vai fazer?; reduziu o conceito da “Região Económica” – que era bom! – à questão das passagens aéreas; apresentou nos úlimos dias medidas desesperadas, como aquela dos 15000 empregos; não soube demarcar-se de Passos Coelho - fê-lo tão explicitamente que, dependendo dos ouvidos, ou soava a falso ou soava a traição; fez uma campanha cheia de contradições; esteve muito mal assessorada sob todos os pontos de vista inclusive o de marketing eleitoral)  
Artur Lima, porque levou uma legislatura a centrar-se na ilha Terceira e a desprezar ostensivamente o representante do seu partido pela ilha de São Miguel (e é fundamentalmente por isso que o PP não consegue eleger em S. Miguel, fazendo com que o Bloco de Esquerda passe a terceira força política nesta ilha); porque demonstrou demasiada arrogância na forma como se quis apresentar como parte da decisão (dava como garantido estar no Governo - fosse com um, fosse com outro - falando mesmo de “poder de veto” e outros quejandos) e, por fim,  porque também não é imune às questões nacionais (mesmo que menos, muito menos, que o PSD-A).
Zuraida não é vencedora, mas também não é bem vencida. Ganha o terceiro lugar em S. Miguel em termos eleitorais, perde um deputado na Terceira (as suas posições radicais relativamente à Base das Lages –  independentemente de ter ou não ter razão – pagam-se caro naquele círculo eleitoral), tem de dividir alguns votos com projectos efémeros como o PAN e, talvez, tenha sido a candidata mais prejudicada pela inexistência de debate televisivo (Zuraida tem sempre um desempenho brilhante neste tipo de debates).
Aníbal, pois bem, é o líder do partido com o voto mais militante de todos. Consegue ser eleito (abençoado Circulo de Compensação!). Não ganha nem perde.

Vitória retumbante do PS-Açores



Mesmo os socialistas mais devotos não esperavam uma vitória tão expressiva...

sexta-feira, outubro 12

Nem estou em mim!

Tal como marcado há um ano atrás, o Terra Nostra entrou em obras dia 10 deste mês.
Fica a foto da última coisa a sair do hotel.

O que é regional é bom


Depois de tudo dito e feito, interessam os resultados.

Porque hoje é sexta-feira pré-eleições, fica a recomendação de download da aplicação móvel para as Eleições Legislativas Regionais 2012 que permite acompanhar os resultados ao minuto e de qualquer parte.

A aplicação produzida pela Cybermap para a Direção Regional de Organização e Administração Pública utiliza georeferenciação, apresenta mapas com boa textura e permite também consultar informação histórica.

Prognósticos? No dia 14 vai virar killer-app em 9 ilhas.

Disponível no Google Play e no iTunes.

quinta-feira, outubro 11

Onde quer chegar... a Paris?

Esta notícia faz-me recordar alguém, nos seus piores momentos, que eles próprios fazem questão de lembrar permanentemente. Pena é que não tenham aprendido nada com os maus momentos deste alguém. Eu cá sempre tive vergonha dos maus momentos deste alguém... E fico estupefacto quando vejo criticarem, criticarem e criticarem o "emigrado" para logo a seguir adoptarem exactamente a mesma metodologia que tanto criticaram. Não percebo onde a Dra. Berta quer chegar... A Paris?! Que não aprendiam com os erros do passado do próprio PSD-A, já sabíamos. Ficamos agora a saber que não aprendem sequer com os erros dos que tanto criticaram. Pelo contrário: fazem do erro o seu caminho. Só espero que o povo nos livre deste caminho.

O que aconteceu ao agente de segurança do Primeiro-Ministro?!

Ainda gostava de saber o que aconteceu ao elemento da segurança do PrimeiroMinistro que abordou o aluno do ISCSP e agrediu um operador de câmara da TVI para o impedir de filmar o sucedido. É que, por acaso (só por acaso), a Autonomia Universitária prevê que dentro do campus universitário, nestas situações, a polícia (e não sei se aquele senhor era polícia ou apenas segurança) só possa actuar mediante prévia autorização do Reitor. É que, no espaço universitário, existem especiais garantias das liberdades fundamentais que não existem no espaço público corrente. Esta é uma delas. Até no Estado Novo era assim!
Por outro lado, também por acaso (só por acaso), um jornalista não pode ser impedido de exercer o seu trabalho por um agente de segurança só porque não gosta de ser filmado. Há uma coisa chamada liberdade de informação, que é justamente uma especial garantia dos jornalistas, pois, numa sociedade democrática, esta é tida como um valor fundamental e verdadeiramente estruturante. É assim, por acaso (só por acaso), num Estado de Direito.
A violação de uma e outra liberdade fundamental (protegidas constitucionalmente como direitos análogos aos direitos, liberdades e garantias) são criminalmente punidas. O que aconteceu ao agente de segurança do Primeiro-Ministro?! O aluno, já se sabe, foi disciplinarmente punido com uma admoestação (ao contrário do que já li por ai, a admoestação é uma pena disciplinar).
De resto, deixo-vos com o Ricardo Araújo Pereira que diz com humor o que eu só sei dizer com indignação.

Hortus Botanicus

Inaugura hoje no CAMB em Oeiras.