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terça-feira, agosto 8

Aviso à navegação

A leitura da semana do Reporter X, como de resto toda a opinião do Açoriano Oriental, passou a estar disponível, apenas, para subscritores. A actualização semanal, com direito a links, passa a estar num blog (mesmo aqui ao lado).

quarta-feira, outubro 31

Fora da caixa

«(...) os desafios do próximo Governo dos Açores, que será conhecido esta 4ª feira, são mais que muitos e vão exigir dose extra de criatividade, inovação e de muita acção 'fora da caixa'
Para ler na íntegra no AOnline.

quarta-feira, maio 23

Parar é Morrer

RX, Abril 2012
O encerramento do Festival Panazorean ficou marcado pela estreia, entre nós, de "É na Terra não é na Lua" o multipremiado filme/documentário do realizador Gonçalo Tocha.

As cerca de 400 pessoas que assistiram às 3 horas de exibição não saíram defraudadas. Se a duração podia, à partida, ser um entrave à mobilização de público, tal não se veio a verificar. A duração pouco conta neste filme, o tempo sim. São 3 horas de exibição pública, mas foram muitas mais as que ficaram em arquivo, como nos confidenciou o realizador na breve conversa que se seguiu à projecção de "É na Terra…". O mais difícil foi o tempo de montagem, o de construir um filme com base num 'arquivo' de 160 horas recolhidas ao longo de semanas e meses. O registo é de intimidade. A câmara não é um estranho, um intruso. Passou, sim, a ter o estatuto de mais um elemento na 'imensa família' que habita o Corvo. A deambulação inicial dá lugar à partilha dos momentos mais íntimos, do acompanhar das rotinas quotidianas, do abrir do baú da(s) memória(s), como se estivéssemos na presença de um parente distante de visita às raízes familiares. O sentido de partilha e de generosidade da população do Corvo com o Gonçalo e do Gonçalo com o público resulta em algo especial. E esse facto não tem passado despercebido a quem vê o filme, seja em Locarno, em São Francisco, Madrid ou Buenos Aires, lugares por onde tem passado e amealhado prémios. Há uma partilha de identidade(s) sem recurso a uma localização geográfica pré-determinada.

Vem esta entrada a propósito de 2 situações. A primeira tem a ver com a displicência com que, localmente, ignoramos acontecimentos culturais ímpares, que passam entre nós, com a agravante de atribuirmos notoriedade a quem ostensivamente não a tem - situação que urge alterar. Não podemos balizar tudo pelo mesmo diapasão. E esta discussão não tem nada a ver com o que é popular ou erudito. Isso é 'entretenimento' para quem não sabe ou não tem nada para dizer.

A segunda está intimamente associada ao Gonçalo, nomeadamente, no que concerne ao reconhecimento internacional que a jovem cinematografia portuguesa tem tido, nos tempos mais recentes, e do quão mal estamos em termos de Cultura na República. A falta de meios não explica tudo e não colhe. Ninguém está indiferente à redução de meios e à contenção a que estamos, todos, sujeitos (dificuldades com que o sector cultural sempre se deparou e com as quais sempre trabalhou). Estamos, sim, a falar do corte total e absoluto de verbas por opção ideológica. Uma acção que motivou a ida à Comissão de Educação, Ciência e Cultura, da Assembleia da República, dos realizadores Miguel Gomes, João Salaviza e Gonçalo Tocha, para «(...) deixaram bem vincado o paradoxo. Num momento em que uma nova geração de cineastas acumula prémios em festivais internacionais de renome, o cinema em Portugal corre o risco de desaparecer (...)».

Esta e outras situações são reveladoras do estado de espírito em que vive o país, quando pequenas conquistas, da Cultura ao Estado Social, são colocadas em causa pela ausência de políticas com critérios bem definidos e, de momento, são deixadas à mercê da "livre iniciativa".

Ao contrário da ideologia vigente "o valor da Cultura não se mede pelo montante da sua conta no Orçamento" (nas palavras do escritor João Ricardo Pedro). O olhar íntimo de Gonçalo Tocha sobre a realidade de um pequeno universo de ilha é, ou permitam-me que o leia deste modo, o repositório de uma humanidade e esperança perdidas na voragem destes dias e do clima suicidário que se instalou na Europa. "Parar é morrer" disse Manoel de Oliveira na sua mensagem aos deputados da Assembleia da República. Faço minha a lucidez das suas palavras.

* Publicado na edição de 21/05/12 do AO
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terça-feira, julho 12

Centros de Interpretação Ambiental dos Açores, Investimento Reprodutivo

Fotografia Fernando Guerra
A aposta do Governo dos Açores em dotar o arquipélago de uma Rede de Centros de Interpretação Ambiental revelou-se uma opção acertada.

Sustenta esta opção, por um lado o facto de 13% do território dos Açores ser composto por áreas classificadas. A Região detém, ainda, 23 Sítios de Interesse Comunitário, 17 dos quais marinhos, assim como 15 Zonas de Protecção Especial. Por outro lado, a preocupação em preservar a identidade e memória histórica das nossas populações, através da requalificação e reabilitação, devidamente adaptado às exigências actuais, de património edificado simbólico e importante da nossa Região.

O objectivo fundamental, desta Rede, passa pela educação e pela sensibilização dos jovens e da população, em geral, para as questões do Ambiente, ao mesmo tempo que serve para potenciar o chamado Turismo de Natureza.

Esta acção está consubstanciada no programa do X Governo Regional, no qual se prevê uma medida de concertação entre Cultura, Ambiente e Turismo, dando lugar a uma “tríade endógena”, designação utilizada numa intervenção anterior, cujas áreas de actuação estão intimamente ligadas e são, na sua essência, interdependentes.

A Rede Regional de Centros de Interpretação Ambiental dos Açores é parte integrante da Sociedade de Gestão Ambiental e Conservação da Natureza - Azorina, tutelada pela Secretaria Regional do Ambiente e do Mar, e é, actualmente, constituída por 11 estruturas, distribuídas pelo Arquipélago.

Da Rede e tendo em conta o todo regional, destaca-se: o Centro de Interpretação Ambiental e Cultural do Corvo; o Centro de Interpretação do Boqueirão nas Flores, reconhecido em diversas publicações nacionais e internacionais; o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, no Faial, seleccionado como um dos 150 melhores projectos que ilustram o sucesso da aplicação dos co-financiamentos dos Fundos de Coesão. De momento, concorre para o prémio do Museu Europeu do Ano 2012 (EMYA); o Centro de Visitantes da Gruta das Torres, no Pico, o qual arrecadou o 1º lugar no Prémio Nacional Tektónica/Ordem dos Arquitectos, em 2009; o Centro de Interpretação da Fajã do Santo Cristo, em São Jorge; o Centro de Visitantes da Furna do Enxofre na Graciosa; o Centro de Monitorização e Investigação das Furnas em São Miguel, que recebeu recentemente o prémio internacional de Arquitectura de Pedra 2011, na cidade italiana de Verona, e foi referenciado em diversas revistas da especialidade, nomeadamente, na conceituada revista espanhola El Croquis; e o Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo em Santa Maria.

Para além dos exemplos referidos anteriormente, está em fase final de projecto o Centro de Interpretação Ambiental de Santa Bárbara, na ilha Terceira. Com a sua conclusão o arquipélago ficará dotado, em todas as ilhas, de infra-estruturas de interpretação ambiental, completando, deste modo, o âmbito regional desta rede.

Os projectos que a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar tem vindo a implementar são hoje objecto de referência e merecedores de atenção e destaque, não só pela função que desempenham e para a qual foram concebidos - lugares de divulgação de temas e questões ambientais dos Açores - mas também pela qualidade arquitectónica que edificaram ou, simplesmente, reconverteram. Valorizando, em alguns casos, património edificado associado a etapas económicas importantes que marcaram a história do arquipélago e que, deste modo, e pela sua reabilitação, passam a ser parte integrante do próximo futuro.

Os Centros de Interpretação Ambiental são espaços de memória, que relacionam o passado com o presente, funcionam como um veículo activo na difusão de conhecimento científico e constituem-se como elementos complementares no roteiro turístico e cultural de residentes e visitantes.

Na sua génese está a promoção do conhecimento do património natural das ilhas, de uma forma dinâmica, interactiva, com carácter educativo e científico, de modo a dar a conhecer e, a melhor compreender, as características geológicas e a nossa biodiversidade, através de uma profusa "viagem" aos Açores.

Ao contrário do que, às vezes, é veiculado por quem não sabe interpretar estes sinais, os investimentos de cariz ambiental e/ou culturais, com um forte pendor qualitativo arquitectónico associado, são uma necessidade e têm, pelos exemplos enunciados, comprovado a sua raiz reprodutiva, evidenciada pelo que mais importa: o número de visitantes.

Por aquilo que representam, pelas recentes distinções e pela transversalidade que proporcionam, na tríade já referida – Cultura, Ambiente e Turismo, é oportuno reflectir a repercussão destas obras que, implementadas pelo Governo dos Açores de responsabilidade Socialista, têm contribuído de forma sustentável para dar a conhecer, ao mundo, através de uma simbiose entre o passado e a contemporaneidade, uma dupla vertente do património dos Açores: o natural, e mais recentemente, o património construído.

* Publicado na edição de 10 Jul'11 do Açoriano Oriental
** Adaptado da intervenção efectuada no plenário de Julho'11 da ALRAA

sexta-feira, junho 3

Defender os Açores

A campanha eleitoral decorre sob a égide do acordo com a tríade - FMI, UE e BCE, mas há quem prometa o que não pode cumprir e, mesmo assim, ainda arrisque um pouco mais. Infelizmente, o período de pré-campanha esgotou, em parte, os argumentos que agora estão na rua. Mais do que as picardias político-partidárias, as pessoas desejam ser esclarecidas e, sobretudo, que os partidos se entendam em prol de um bem comum. Pois, sem isso, governar será insustentável, como já se comprovou.

Nos Açores, alguns partidos e candidatos andam desfocados do objecto desta eleição e convém relembrar, em particular ao PSD/A, que ainda estamos no ano da graça de 2011 e não em 2012, e que o que está em disputa é a eleição de 5 representantes dos Açores à Assembleia da República. Quando ouço falar em promoção dos produtos regionais, na atribuição de terras aos beneficiários do RSI, dos milhões associados ao projecto SCUT, do modelo de transportes inter-ilhas e de outras bizarrias que têm feito a agenda noticiosa desta campanha, parece-me que o único papel a que os candidatos da oposição se prestam é o de potenciarem o tempo de antena proporcionado pelo acto eleitoral para urdirem a crítica (re)corrente, e de âmbito local, ao Governo Regional.

Portugal vai a votos depois de toda a oposição ter chumbado o último PEC, forçando a demissão do Primeiro-Ministro, arrastando o país para uma crise política indesejada e para uma ‘inevitabilidade’: o recurso à ajuda externa, após um ataque especulativo dos mercados internacionais, por intermédio da subida vertiginosa dos juros associados à emissão de dívida soberana, tornando, ainda mais, incomportável o financiamento do país por esta via.

Ninguém assume que as coisas se tenham passado desta forma. E mais: ninguém assume que existe uma crise financeira internacional, que atinge a maioria dos países da Europa, colocando em sério risco o projecto europeu tal como foi concebido e como o conhecemos.

Para alguns, a crise deve-se, não à falta de dinheiro, mas à forma como ele é gasto. Miguel Esteves Cardoso escreveu, por estes dias, no Público, algo que sintetiza e concretiza este ‘devir nacional’: «(…) O objectivo não é poupar ou ganhar dinheiro – é redistribuir o dinheiro que já temos, sabemos lá como, de uma maneira mais justa, inteligente e favorável à causa de cada um. Assim, sabendo empregá-lo, contornamos o facto desse dinheiro não existir. E vamos-nos distraindo e defendendo, pensando que o problema é não sabermos gastar melhor o dinheiro que não só não temos mas somos, cada vez mais, obrigados a comprar por um preço que não somos capazes de pagar».

Apesar da crise que perpassa tudo e todos acredito que, nos Açores, o Partido Socialista é o mais bem colocado para, legitimamente, defender os interesses do arquipélago em Lisboa, como o tem feito até aqui, com os bons resultados que se conhecem. Os tempos não estão para líderes ‘sem espinha’ e que tacticamente mudam de opinião entre o soundbite da manhã e o discurso da noite.

Parafraseando Albert Einstein, “o único lugar em que o sucesso aparece antes do trabalho é no dicionário”. A mensagem vai directa para quem, em Lisboa, nada tem feito pelo arquipélago e apenas se submete aos passos do partido. Por isso, e mais do que nunca, justifica-se, no próximo dia 5 de Junho, premiar o Partido Socialista por, incondicionalmente, Defender os Açores.

* Publicado na edição de 01 Jun'11 do Açoriano Oriental

segunda-feira, maio 2

Postura eucalíptica

Maria José Cavaco As Minhas Casas Voadoras, 2001

















O final do plenário de Abril na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores ficou marcado pela discussão de um Projecto de Resolução com pedido de urgência e dispensa de exame em comissão, apresentado pelo Bloco de Esquerda, que recomendava a concertação entre o Governo Regional dos Açores e a Câmara Municipal de Ponta Delgada para a construção de um único Centro de Arte Contemporânea na ilha de São Miguel.

Os considerandos desta Resolução realçam o papel da Cultura como sector vital no desenvolvimento da sociedade, a importância do intercâmbio cultural e todos os benefícios que daí podem advir. Estes princípios são basilares e comungam daquilo que o Partido Socialista tem dito, defendido e executado enquanto governo na Região. Contudo, esta proposta contém 2 erros com os quais não concordamos e que a tornam extemporânea. O primeiro é o destinatário: pela forma como estava formulada deveria ser remetida à autarquia de Ponta Delgada e não ao Governo Regional. E porquê? E daqui resulta o segundo erro: há uma questão cronológica associada ao Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas que não é despiciente, na medida em que não estamos, ao contrário do que afirma o BE, numa «fase de poderem ser convertidos num só projecto». Isto porque o Arquipélago está em fase final de apreciação do concurso público para a empreitada de construção, cuja adjudicação deve acontecer nos próximos meses. Ao passo que o MAC (Museu de Arte Contemporânea) de Ponta Delgada está numa fase projecto e ainda não passou da ‘fotografia’.

Este projecto de resolução deu, igualmente, razão ao Partido Socialista quando no início de Março criticou esta opção camarária, na medida em que este investimento é revelador da ambição pessoal da presidente da autarquia e não salvaguarda a defesa do interesse público. Crítica consubstanciada pelo facto de estarmos a viver uma conturbada situação económica e financeira com fortes repercussões sociais, cujo desfecho se perspectiva incerto. Não tenhamos ilusões quanto a isso. E quanto aos argumentos utilizados em torno da aplicação estrita dos fundos comunitários, convém desmentir categoricamente esses ‘constrangimentos’. A Câmara de Ponta Delgada pode utilizar esses fundos em investimento de natureza diversa e não apenas na Cultura. Não vale pena justificar esta opção com recurso a ‘birras’ e com argumentação sem cabimento. Não estamos contra o investimento na Cultura. Mas, neste caso em particular, estamos a falar de projectos com prazos distintos e da duplicação de investimento, num sector altamente dependente dos apoios públicos. E, neste ponto, concordamos com o Presidente da Câmara da Ribeira Grande que a este propósito disse: «Questionamos se alguma Câmara Municipal dos Açores terá capacidade económica para garantir representatividade cultural de uma região através de um Centro de Arte Contemporânea?». Ele acha que não. Nós também.

Existe igualmente outro equívoco quando se compara os ‘dois museus’. Não estamos a falar de 2 espaços idênticos. O Arquipélago é um espaço de criação e residência artística, cujo projecto prevê, simultaneamente, a reabilitação de um importante património industrial. Espaço que pelo passado que teve transporta uma forte componente simbólica para o seu uso futuro. Espera-se que seja um espaço de confluências várias, de produção de conhecimento e constitua um ‘salto’ para o exterior. Comporta, igualmente, uma vertente expositiva pelo facto de ser o ‘guardião’ da Colecção de Arte Contemporânea dos Açores, um processo dinâmico e em construção. Por tudo isto parece-nos que estamos a falar de conceitos diferentes, num espaço finito e de recursos escassos. Mas que, no caso do Arquipélago, se perspectiva à escala regional, num projecto que extravasa em muito a fronteira concelhia.

A optar, como no final da discussão reconheceu a deputada Zuraida Soares, o projecto escolhido seria, na sua opinião, o do Governo Regional. Postura que aplaudimos. À margem dos que aproveitam esta época de constrangimentos para explorar populismos de ocasião e defender o corte cego nos investimentos da Cultura. Porque é que se quer sempre cortar na Cultura em detrimento de outros sectores da governação?! Numa altura em que múltiplos estudos indicam que se não usarmos «o casamento entre a cultura e a economia não conseguiremos que a sociedade portuguesa cresça»?!

Quem faz birra e, consecutivamente, se contradiz, afirmando uma coisa na Horta e outra em Ponta Delgada, é o PSD/A. O partido que passa a vida a exigir o chamado “desenvolvimento harmónico” para o arquipélago é o primeiro a assumir uma "postura eucaliptíca" e centralizadora em Ponta Delgada. E mais uma vez pergunto: o que é mau para os Açores, é bom para Ponta Delgada?!

* Publicado na edição de 25 Abr'11 do Açoriano Oriental

terça-feira, março 29

Inacreditável

Graffiti, Ponta Delgada, Mar'11
Tenho evitado abordar este tema não por 'ciúme' mas porque a maioria dos dados disponibilizados estão ao nível do 'currículo vitae'.

Não obstante, é impossível permanecer indiferente à justificação da Câmara Municipal de Ponta Delgada sobre a opção de construir um Museu de Arte Contemporânea. Isto porque, e para quem, como eu, ouviu a argumentação do PSD/A durante a discussão do Plano e Orçamento para 2011 e a respectiva justificação às alterações ao investimento público regional, reduzindo a 0 as verbas alocadas à Cultura, não parece estar a ouvir um partido liderado pela mesma pessoa.

Senão vejamos, a 25 de Novembro de 2010 o PSD/A, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, defendia o seguinte: «(…) Apenas uma intervenção breve para falar relativamente à alteração que fazemos neste Programa 4, designadamente na acção correspondente ao Centro de Arte Contemporânea "Arquipélago". Fazemos uma redução de 6 milhões de euros e que se junta a um conjunto de reduções tanto neste Programa 4, como nos Programas 10, 12, 14 e 18 e que essencialmente correspondem a reduções relativas, neste caso, a este Centro de Arte Contemporânea, noutros casos aos Centros de Cultura e de Congressos, beneficiação de edifícios públicos. Ou seja, um conjunto de investimentos que nesta altura não consideramos que sejam efectivamente reprodutivos e que sejam efectivamente essenciais». Excerto retirado do Diários das Sessões. Ponto.

Posto isso, foi com alguma estupefacção que ouvi, a 3 de Março de 2011, a Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada (e actual líder do PSD/A, um incómodo para a bancada do PSD/A na ALRAA sempre que é mencionado esse facto, vai-se lá perceber porquê!) afirmar, na apresentação do estudo prévio do futuro museu, que o projecto reflecte «um olhar para o futuro com ambição e audácia», que representa «uma mais-valia» para o arquipélago e que «nenhuma região pode dizer que tem equipamentos culturais a mais». Inacreditável! Diria uma camarada. Será que estamos a falar da mesma pessoa e do mesmo partido?! Será esta a tal dimensão regional de que fala o PSD/A, reflectida através de uma posição ambivalente mediante a ilha onde discursa?!

Esta postura não é de agora, nem me surpreende. Aliás, muito deste argumentário é um copy/paste do que tem sido tido pelo Governo Regional e pelo Grupo Parlamentar do Partido Socialista, no que concerne aos investimentos no domínio da Cultura.

Este episódio demonstra, uma vez mais, que o PSD/A tem 2 faces, uma no ataque indiscriminado ao Governo Regional, e outra quando discrimina o Governo e promove exactamente aquilo que critica. Em que ficamos?! O que é mau para os Açores, é bom para Ponta Delgada?!

Alexandre Pascoal
Mar'11

* Publicado na edição de 22 Mar'11 do Açoriano Oriental

quarta-feira, fevereiro 23

30 Anos, Academia das Artes dos Açores

A Academia das Artes dos Açores foi fundada a 5 de Agosto de 1980, então com o nome de Academia Livre das Artes, tendo a sua denominação sido alterada em revisão estatutária realizada em 1995. Em 1989, foi considerada pessoa colectiva de utilidade pública pelo Governo Regional dos Açores.

Desde 1981, desenvolve a sua actividade no espaço da antiga Igreja de Nossa Senhora da Graça, junto ao Largo de Camões, em Ponta Delgada. Este imóvel, pertença da Região Autónoma, é parte integrante do antigo convento seiscentista da Ordem de Santo Agostinho e é actualmente ocupado, para além da Academia das Artes, também pelo Conservatório Regional de Ponta Delgada.

O processo de cedência do espaço da Igreja conventual à Academia das Artes dos Açores foi autorizado por via da intervenção apaixonada de Luísa Constantina - a sua fundadora -, junto do Governo Regional.

No decorrer destas três décadas foram inúmeras as obras de adaptação, remodelação e beneficiação realizadas neste espaço, com o intuito de aumentar a sua funcionalidade. Mais recentemente, em 2001, a Academia das Artes viu a sua área de gestão ampliada, através da cedência de mais cinco salas, após a transferência da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada para as novas instalações, o que veio permitir a melhoria da oferta e das condições dos ateliers desenvolvidos, nomeadamente, de Gravura, de Artesanato, de Pintura e de Teatro/Dança.

A Academia, como é popularmente conhecida, é uma associação sem fins lucrativos que, desde a sua criação, teve e tem como propósitos: o ensino, a formação, a promoção e a divulgação das Artes Plásticas, do Artesanato, do Património, das Artes de Palco, entre outras manifestações de índole cultural.

A ambição de fundir as tradições locais, artísticas e artesanais, com a contemporaneidade foi o fundamento que esteve na origem da Academia das Artes dos Açores e foi amplamente defendido pela sua mentora - a artista Luísa Constantina.

Em Novembro passado, na sessão comemorativa do 30º aniversário da Academia das Artes, foi lançado Um Pacto com as Artes, um livro da autoria da Professora Leonor Sampaio que é, nas palavras de Vítor dos Reis, «(…) uma viagem por trinta anos de vida de uma instituição e (…) um olhar sobre a obra e a personalidade da sua fundadora. (…)». Um registo que conta a «(…) história de uma instituição fundamental da cidade de Ponta Delgada e do arquipélago dos Açores» mas que é, simultaneamente, «(…) uma análise da arte, do ensino artístico e da cultura no período a que se reporta». E através do qual verificamos que o papel da ADA «(…) contribuiu decisivamente para a construção e afirmação dessa contemporaneidade».

O documento produzido por Leonor Sampaio é um instrumento fundamental para a compreensão do Presente.

A Academia já não é o único espaço de intervenção artística e criativa no arquipélago, mas não deixou de constituir-se, para os artistas locais, como um espaço de referência e um ‘porto de abrigo’. Aliás, na génese da sua fundação esteve o despertar da comunidade local para as Artes. Passados 30 anos, este desígnio cumpriu-se, em parte, subsistindo outros por concretizar, sendo que os pressupostos iniciais se mantêm actuais.

Nestes anos têm sido muitos os artistas acolhidos, entre locais e nacionais, consagrados e amadores, num espaço gerido de forma irrepreensível, sobretudo, pelo carácter voluntário e gracioso de quem tem estado à frente dos destinos da instituição.

A maioria dos artistas plásticos que hoje são referência nos Açores passou pela galeria da Academia das Artes, quer como artistas, quer como formadores e, muitos, como dirigentes.

Nesta medida, e como manifestado na reunião plenária de Janeiro’11 da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, pareceu de elementar justiça ao grupo parlamentar do Partido Socialista apresentar um voto de congratulação pelo 30º Aniversário da Academia das Artes dos Açores, realçando o contributo, o ‘inconformismo’ e a importância da Academia e dos seus dirigentes, ao longo destas três décadas ao serviço do ensino e da divulgação cultural nos Açores.

* Publicado na edição de 17 Fev'11 do Açoriano Oriental
** @ Reporter X

segunda-feira, janeiro 31

Passe Social, socialmente justo

Imagem Infomail
O grupo parlamentar do Partido Socialista aprovou, em Junho de 2009, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, um Projecto Resolução para a implementação de um 'Passe Social', de abrangência regional, para os utentes do sistema de transporte colectivo de passageiros.

O cumprimento desta iniciativa do Grupo Parlamentar do Partido Socialista, acontece no tempo certo e numa época de crise generalizada, em que importa atenuar os efeitos decorrentes da falta de liquidez com que somos confrontados diariamente, sobretudo pelo aumento do custo dos bens essenciais. Daí que, a entrada em vigor do novo sistema de tarifários no transporte terrestre de passageiros na ilha de São Miguel, a partir do próximo mês de Fevereiro, afigura-se ainda mais importante, pois permitirá aumentar o rendimento disponível das famílias e dos agregados familiares mais carenciados e que são, por regra, aqueles que mais utilizam a rede de transportes públicos.

O novo modelo que está projectado e que foi apresentado pelo Governo dos Açores, no passado dia 7 de Janeiro, na Central de Camionagem da Ribeira Grande, representa uma 'revolução' na abordagem ao transporte colectivo de passageiros no arquipélago, permite reduções substanciais nos custos (fixos) familiares com transportes e é uma primeira medida, inserido num conjunto de outras iniciativas, que ambiciona o incentivo e a promoção da utilização dos transportes públicos em detrimento do transporte privado.

Aliás, e como referido pelo Presidente do Governo dos Açores, esta é "uma reforma de enorme alcance social" por via da introdução de novos conceitos no sistema de tarifas, reflectidos nos descontos substanciais em todos os percursos e na possibilidade de, a partir de agora, ser possível efectuar viagens ilimitadas. A título de exemplo, um utente que resida no Nordeste e que adquira um dos novos passes '30 dias', para um percurso até Ponta Delgada, terá uma poupança de quase € 1000 por ano, enquanto os utilizadores dos transportes entre Ponta Delgada e a Vila Franca pouparão cerca de € 600.

É este o alcance a que a iniciativa do Grupo Parlamentar do Partido Socialista se propunha.

O esforço previsto para o incremento desta medida rondará o meio milhão de euros e, como foi dito, e bem, por Carlos César, "o importante é pensar" e por intermédio de "volumes financeiros que não são desproporcionados" é possível "introduzir benefícios junto das famílias e junto das pessoas", sendo que estes "são muito significativos para as suas economias particulares".

O arranque deste novo modelo será efectuado em São Miguel, por ser o modelo mais complexo e que origina um maior fluxo de passageiros - cerca de 70% do total regional - para depois ser alargado ao todo regional.

O Governo dos Açores fez depender a aplicação desta medida da conclusão de um estudo de mobilidade. Esse estudo não visou apenas a introdução do 'Passe Social' mas, sim, efectuar uma ampla reflexão em torno de um modelo mais eficaz para o transporte terrestre de passageiros, para São Miguel e para as restantes ilhas do arquipélago.

Com a entrada em vigor do 'Passe Social' o processo não termina. Assistimos, isto sim, ao início de um processo, que, como já disse e agora enfatizo, irá revolucionar a forma como olhamos os transportes públicos e a forma como lidamos com eles. E num futuro, que se deseja próximo, poderemos circular de forma mais rápida, mais económica, mais ecológica e com maior conforto, fruto da concessão de incentivos financeiros ao abrigo do Sistema de Incentivos à Redução do Impacto Ambiental e Renovação das Frotas no Transporte Colectivo Regular de Passageiros (SIRIART).

Com a recente subida do preço do petróleo nos mercados internacionais, torna-se imperioso, agora, mais do que nunca, adequar o serviço público de transportes colectivos à relevância social que ele exerce no contexto regional e, em concreto, no incremento da competitividade económica regional e na melhoria da qualidade de vida das populações.

Tal como tem sido sempre referido pelo Partido Socialista, a entrada em vigor desta iniciativa reveste-se de uma profunda justiça social, sobretudo, pelo contributo efectivo que introduz em termos de coesão social e territorial.

E, nesta medida, o sentimento do grupo parlamentar do Partido Socialista é de grande satisfação pelo desfecho agora alcançado, ao contrário do PSD/A, que se absteve em plenário, por divergências relativas ao nome atribuído ao 'Passe', e não partilhará, presumo, desta conquista e deste contributo em prol de uma contínua melhoria do quotidiano dos Açorianos.

* Publicado na edição de 26 Jan'11 do Açoriano Oriental
** @ Reporter X

quarta-feira, dezembro 29

O Resto é Ruído

João Pedro Vale Bezerro, 2010
Na discussão do Plano e Orçamento para 2011, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em concreto, na discussão da especialidade e nas propostas de alteração ao documento, o maior partido da oposição deixou cair a ‘máscara’ relativamente ao conceito que defende para a Cultura: ESTA NÃO É UMA PRIORIDADE!

Nos últimos anos, o plano de investimentos para as actividades culturais tem vindo a subir de forma gradual, sustentado, em grande parte, pelas obras com recurso a co-financiamento europeu. Na prática, esse dinheiro não é ‘receita própria’ da Região. E só existe porque existem projectos e candidaturas que o materializam. Para esse efeito, o Governo dos Açores tem efectuado um conjunto de acções de expansão, edificação e modernização das suas estruturas. Esta intenção consiste, essencialmente, na consolidação da rede regional de museus, de forma a dotá-la de valências adaptadas às exigências actuais e a um público cada vez mais informado. Para tanto, impõe-se a renovação do formato pré-existente, na medida em que se alterou significativamente a forma como ‘olhamos’ a Cultura (dentro e fora do Museu).

A dualidade de critérios com que se rege o maior partido da oposição na Assembleia Legislativa é, no mínimo, ininteligível. Se na Horta as opções políticas do Governo Regional para a área cultural são alvo de discriminação (tudo menos positiva), como é que podemos classificar a acção da sua líder partidária que é, simultaneamente, presidente do município de Ponta Delgada, quando, no início do seu mandato e no seu orçamento municipal para 2011, apresenta como prioridades a concretização de inúmeras obras emblemáticas associadas à coisa cultural? A saber: construção do Museu de Arte Contemporânea; construção de Biblioteca e Centro de Estudos Antero de Quental; adaptação do Edifício da Sinagoga a Museu Hebraico, apenas para nomear alguns. Estranho posicionamento para um partido que no todo regional queria reduzir a ZERO a Cultura!

Por outro lado, os projectos elencados pelo Governo dos Açores foram sucessivamente apontados como ‘fonte de financiamento’ às propostas de alteração do PSD/A ao orçamento regional. Em concreto, a acção referente ao Centro Cultural e de Congressos, que garante o financiamento anual do Teatro Micaelense, era colocada a 0 = zero. Bem como o corte, na sua quase totalidade, da acção que dá corpo ao novo Centro de Artes Contemporâneas a erigir na Ribeira Grande. A justificação foi sempre a mesma – não são prioridades. Pergunto: ‘prioridade’, neste caso, significa exactamente o quê?! Anular uma série de projectos devido a um enviesamento e aversão na relação com a cultura, tida como acessória ou prescindível?! E isto sem medir o impacte financeiro das alterações propostas no orçamento regional. Aliás, no que toca ao Centro de Artes Contemporâneas estamos a falar de uma verba que é comparticipada a 85%, do mesmo modo que o Museu de Arte Contemporânea de Ponta Delgada o é (num projecto que começou por ‘custar’ € 3 milhões e já está ‘orçamentado’ em € 5.8 milhões!). Só que aqui o PSD/A não tem dúvidas quanto ao elemento reprodutivo e prioritário. Será uma questão de ‘protagonistas’?! Muito provavelmente.

Este tipo de comportamentos não ajuda a dignificar a actividade política, através de posições dúbias, sem justificação que as sustente, prejudiciais ao interesse público e resultado de tacticismo político-partidário sem freio, ou seja, são sinónimo de desnorte.

A ideia de que a Cultura é o eterno ‘parente pobre’ tem tido outra ‘leitura’, nos Açores, por mérito da governação socialista. Se os valores investidos são os suficientes?! Digo, claramente, que não o são. Os recursos da Região são pequenos e a sua comparticipação na vertente cultural é proporcional à sua disponibilidade. Não obstante isso, se analisarmos o valor do investimento per capita na Cultura, verificamos que ele é significativo quando comparado com o todo nacional. As mais-valias que podem advir deste investimento são de retorno garantido.

Desinvestir ou adiar investimentos neste sector será o pré-aviso para ‘uma morte anunciada’. Aliás, estamos, ainda hoje, a ‘pagar’ o desinvestimento do passado.

Não compreender o carácter prioritário que o investimento tem na formação dos indivíduos, na economia local e na projecção dos Açores é não estar em sintonia com o que se passa na Europa, onde ficou demonstrada a importância e «(…) a influência económica do sector cultural» aliada «(…) ao desenvolvimento das novas tecnologias da sociedade da informação e ao turismo, um dos sectores em que os bens culturais são um dos principais chamarizes» (in AESE). Não ‘ler’ isto é negar uma visão de futuro para o arquipélago.

Numa altura de crise cabe ao Estado essa responsabilidade, sempre que possível em estreita colaboração com os privados, assumindo, por esta via, o seu ‘papel estratégico’. A minha opção é de defesa incondicional do sector cultural da Região, quer ao nível da criação, quer dos recursos humanos e dos equipamentos.

O Resto, como o que assisti e ouvi em plenário, é Ruído.


* Publicado na edição de 27 Dez'10 do Açoriano Oriental
** Título do livro The Rest is Noise de Alex Ross, publicado em Portugal pela Casa das Letras
*** @ Reporter X

terça-feira, dezembro 7

Cultura, não é 'gasto' é Investimento



As análises feitas à Cultura e à indústria que a suporta enfermam, frequentemente, de algumas leituras superficiais que devem ser esclarecidas. Apesar da tendência crescente em tornar o produto cultural num bem rentável, há que salvaguardar que, na essência do gesto artístico estão pressupostos que o tornam, não todo, mas quase, num produto não 'reprodutível' e não 'massificável', cujo custo de investimento não pode ser rentabilizado por uma qualquer 'cadeia de valor' (in José Luis Ferreira, p. 115, Quatro Ensaios à Boca de Cena, Cotovia, 2009).

Importa distinguir o que é a actividade das chamadas indústrias criativas e aquilo que é a actividade artística, propriamente dita.

Há inúmeras actividades onde não é possível adaptar uma economia de escala. E esta condição passa a ter uma relevância, ainda maior, quando nos centramos em países e em regiões, como os nossos, com uma dimensão reduzida e com um número reduzido de utilizadores da coisa cultural.

O objectivo que alicerça o investimento cultural deve ter em conta, necessariamente, a 'obtenção de riqueza através de um bem-estar civilizacional'.

A Cultura deve ser encarada como um investimento social e como um instrumento de desenvolvimento, na medida em que “nem tudo o que conta é mensurável, nem tudo o que é mensurável conta”, nas palavras, mais que insuspeitas, de Albert Einstein.

O Governo dos Açores prossegue a missão de dotar todas as ilhas com infra-estruturas capazes de realizar e acolher espectáculos e eventos de índole diversa.

Nem todas têm as mesmas valências, pois há que acautelar as diferenças que existem em cada realidade de ilha. Fazê-lo, para além de utópico, seria querer replicar o mesmo por todos, o que na sua essência é justificável, mas impraticável. Não é, nem pode ser assim. Ninguém pode ser prejudicado pelo local onde fixou residência, mas não devemos cair na tentação de sustentar populismos e visões irrealistas. Mais do que edificar será conveniente, no acto da sua concepção, prever a gestão futura, quer em termos de recursos financeiros, quer humanos, não excluindo, como é óbvio, a sua componente programática.

A rentabilização far-se-á, se forem criadas condições para que ela se concretize.

As dificuldades geradas pelas medidas de austeridade e de contenção orçamental, do país e da região, não têm afectado, significativamente, os objectivos elencados para esta legislatura, na medida em que estes têm vindo a ser escrupulosamente cumpridos, alguns redefinidos, outros estão à mercê das contingências que advêm da tramitação legal em vigor.

Não obstante quaisquer obstáculos que possam surgir no decurso da concretização de um determinado projecto, mantém-se inalterado o carácter prioritário que este Governo atribui ao sector Cultural.

Mesmo e apesar das dificuldades emergentes «(...) tal não significa que a oportunidade, a pertinência e a legitimação da intervenção do Estado nas artes e cultura seja posta em causa. Antes pelo contrário, cada vez mais se comprova que gastos em cultura não são gastos - são investimento, é criação de emprego, é qualificação dos cidadãos, é desenvolvimento, no melhor sentido que a palavra contém».

Palavras de estímulo e confiança proferidas pela actual Ministra da Cultura, num colóquio decorrido em Setembro passado, e que aqui se aplicam ipsis verbis à acção do Governo Regional do Partido Socialista na Região Autónoma dos Açores.

O Plano e Orçamento para 2011, em particular, no Programa que à Cultura diz respeito, é um plano de confiança, demonstra ambição e revela o imenso trabalho em curso, de quem acredita no crescimento e na importância que a Cultura desempenha no desenvolvimento presente/futuro dos Açores.

Alexandre Pascoal
Novembro 2010


* Adaptação da intervenção efectuada a 23 de Nov’10 na ALRAA
** Publicado na edição de 02 Dez'10 do Açoriano Oriental
*** @ Reporter X

sexta-feira, dezembro 3

Cultura, Plano e Orçamento para 2011

Sta. Cruz da Graciosa, Ago'10

O Plano e Orçamento para 2011 reforça o empenho da Região na defesa do Património e das Actividades Culturais.

O investimento assenta nos múltiplos projectos em curso, sem descurar o apoio à actividade regular dos agentes culturais regionais nas diferentes áreas de acção, sejam de vertente tradicional ou contemporânea.

Exemplo disso é o apoio atribuído às Bandas Filarmónicas, que constituiu, em 2010, cerca de 34% do valor dispendido pela Direcção Regional da Cultura à acção 4.1.8, relativa às Actividades de Relevante Interesse Cultural. Este valor é demonstrativo da importância da actividade desenvolvida por estas colectividades junto do tecido social da Região.

O valor não será suficiente, dirão. Não é certamente, nem nunca o será, pois a insatisfação criativa é, em qualquer actividade, uma constante. Não obstante, a acção programada reflecte a estratégia delineada para esta legislatura: a de dotar o arquipélago de equipamentos modernos e com capacidade para acolher diferentes tipos de espectáculos e eventos. Esta acção deriva, essencialmente, da capitalização directa dos fundos comunitários disponíveis para o efeito, e que, neste caso, estão abrangidos pelo Programa Pro-Convergência, que consagra um máximo de 85% de comparticipação comunitária ao investimento previsto.

Para o próximo ano, estão afectos quase 23 milhões de euros no Plano para a Cultura. Apesar dos constrangimentos, que todos conhecemos, há um ligeiro aumento do investimento em 2011, em comparação com o ano anterior, de cerca de 1.1%. Este valor não é muito significativo, é certo, mas é revelador da importância estratégica que o sector representa para o Governo. Esta posição sai ainda mais reforçada, tendo em linha de conta os tempos de austeridade com que, actualmente, somos confrontados. E não deixa de ser simbólico o investimento a concretizar, que, para além do aspecto formativo, é, sobretudo, reprodutivo, quer pela criação de empregos qualificados, quer pela acção complementar na área da animação turística e, consequentemente, na dinamização da economia local.

No âmbito do programa - Defesa e Valorização do Património Arquitectónico e Cultural, o destaque em 2011 vai para: a conclusão da nova Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo; o arranque, no decorrer do 1º trimestre, da obra do Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, situado na cidade da Ribeira Grande; a conclusão do Espaço Cultural Multiusos do Corvo, a Temporada Musical, e a prossecução das Comemorações do Centenário da República, que culminarão com a inauguração da Casa Manuel de Arriaga, na cidade da Horta.

De igual modo, realça-se, ainda em 2010, a conclusão das obras do Museu da Graciosa, a inaugurar até final do ano, e a conclusão da intervenção de conservação da cobertura do Convento de São Boaventura - Museu das Flores.

Quanto à - Dinamização de Actividades Culturais, o Governo dos Açores mantém, em 2011, os incentivos à formação, à criatividade, à fruição e à itinerância, com o intuito de fomentar uma programação de âmbito regional, bem como, a continuada promoção ‘fora de portas’ dos criadores da Região, consubstanciando, por esta acção, as palavras do Presidente do Governo quando este afirma que «(…) compete (ao Governo) contribuir para a ocorrência de condições para que os nossos criadores possam concretizar as suas propostas estéticas», obviando, deste modo, os constrangimentos geográficos que nos rodeiam. E acentuando o facto da “criação cultural e artística ser universal”, pelo que a distância e o isolamento podem, no caso dos Açores, ser superados.

A este nível, saliente-se a Exposição de Arte Contemporânea na Galeria do Rei D. Luís I, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, a decorrer entre Outubro de 2011 e Janeiro de 2012, e o início do ‘acolhimento recíproco’ entre a Fundação Medeiros e Almeida e a Direcção Regional da Cultura, dando seguimento ao protocolo assinado, em Abril de 2010, entre ambas as entidades.

Alexandre Pascoal
Novembro 2010


* Adaptação da intervenção efectuada a 23 de Nov’10 na ALRAA
** Publicado na edição de 30 Nov'10 do Açoriano Oriental
*** @ Reporter X

segunda-feira, outubro 25

À Procura de Escala *

Maqueta Menos é Mais

A Direcção Regional da Cultura assinou com o Instituto dos Museus e da Conservação, no passado dia 5 de Outubro, um protocolo que visa a realização de uma exposição na Galeria do Rei D. Luís I, no Palácio da Ajuda, entre Outubro de 2011 e Janeiro de 2012, constituída pelo acervo do futuro Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas.

Esta iniciativa constitui prova inequívoca, do interesse e empenho da Região na promoção dos seus criadores, dentro e 'fora de portas'. A concretização deste objectivo é um desígnio do programa do X Governo dos Açores e é, legitimamente, uma das reivindicações maiores da comunidade artística do arquipélago.

As limitações a que está sujeito o 'mercado de arte' nos Açores, associado a um falta de visibilidade e de reconhecimento necessários à evolução, que se impõe, na carreira de quem procura 'crescer', são elementos, mais do que suficientes, para que esta exposição seja reconhecida com uma conquista que visa romper e perspectivar para "fora das fronteiras da Região", o trabalho de quem está confinado à geografias das ilhas.

Mostrar aquilo que por cá se produz é fundamental para quem cria. E por várias razões: pela abrangência com um público alargado e mais exigente; pelo confronto com a crítica especializada ou ainda como introdução a novos mercados. Parte desta problemática reside no facto de, localmente, não existir, salvo raras e valiosas excepções, um trabalho aturado e profissional, no difuso mercado artístico, em torno da promoção dos criadores regionais. Primeiro, porque nem todos os artistas estão representados por uma galeria. Segundo, porque nem todos falam a 'linguagem' que se exige a um meio fortemente concorrencial (ou porque não querem ou porque não têm perfil para isso). Terceiro, porque não existem galerias, em número e com essa 'vocação', no espaço insular.

Não obstante o carácter e o funcionamento do mercado interno, no sector artístico, o que se perspectiva nesta mostra é «(…) um desafio para os Açores se mostrarem e valorizarem no exterior», parafraseando Jorge Bruno, o Director Regional da Cultura.

Mesmo e apesar de uma existência num local (ultra)periférico, longe dos 'centros', é possível estar em sintonia com a contemporaneidade, na medida em que «(…) passámos a estar ligados a todos independentemente do lugar, os recantos mais periféricos estão desencravados, o local está em contacto com o global: a cultura-mundo é a cultura da compressão do tempo e da diminuição do espaço». Mais isso não significa que exista, actualmente, uma 'única' cultura. «(…) Quanto mais o mundo se globaliza, mais particularismos culturais aspiram a afirmar-se nele. Uniformização globalitária e fragmentação cultural caminham a par» (G. Lipovetsky/J. Serroy in A Cultura-Mundo, Ed. 70, 2010). O nosso caso é, neste sentido, paradigmático.

Esta iniciativa marca - de forma simbólica - o arranque das actividades do futuro Centro de Artes Contemporâneas, a ser instalado na antiga Fábrica do Álcool, na cidade da Ribeira Grande, e cujo concurso público, para a empreitada de construção, será lançado até final do mês de Outubro.

Esta mostra incidirá sobre as peças disponíveis na Colecção de Arte Contemporânea da Região, que conta com um núcleo principal composto por cerca de três centenas de peças, cuja aquisição tem vindo a ser traçada ao longo da última década.

A Colecção é composta, essencialmente, por pintura e escultura, na sua maioria de criadores açorianos, mas onde figuram outros artistas nacionais e internacionais. É, nas palavras de Jorge Bruno, «(…) uma colecção representativa dos principais criadores açorianos, mas onde eles se confrontem com os criadores do exterior». Pretende-se que a mesma venha a constituir-se como referência e de visita obrigatória a quem nos visite.

É com base neste confronto de linguagens que podemos ambicionar a construção de um novo Centro, polivalente, que posicione a Região, também, como pólo criador. É uma questão de programarmos à "escala justa".

Neste ponto, parece-me adequado citar Gabriela Canavilhas, a actual Ministra da Cultura, quando escreve que: «(…) A obrigação do Estado, num governo socialista, é garantir a liberdade, a pluralidade, a diversidade, a memória, o passado e o futuro da nossa identidade cultural - património herdado e aquele que queremos legar, em permanente regeneração. Essa é a grandeza e imprescindibilidade da arte (…)» (in Público 17 Set’10).

Há, no entanto, quem receie a "liberdade absoluta que a arte comporta". Para outros, é uma questão de orgulho e de "marca genética".

Alexandre Pascoal, Outubro 2010

* Título de um livro de António Pinto Ribeiro, editado em 2009 pela Cotovia
** Publicado na edição de 14 Out'10 do Açoriano Oriental

quinta-feira, agosto 12

10 anos

João Decq @ ArteLisboa'09

Pode até parecer pouco… Mas 10 anos na vida de uma galeria de arte, na periferia da periferia europeia, é um feito considerável.

A intenção dos seus proprietários, expressa na inauguração em 18 de Julho de 2000, foi a de disponibilizar aos artistas, de forma regular, um espaço adequado para a exposição das suas obras, e ao público, uma programação qualitativa e a oferta de condições propícias à fruição estética.

A "única galeria açoriana de arte contemporânea de perfil nacional" (Vanessa Rato, Público 26 Out’09) iniciou a sua actividade com um núcleo restrito de artistas, maioritariamente naturais dos Açores, mas, no decorrer destes 10 anos, que agora culminam, conseguiu ser um espaço atractivo para artistas nacionais e estrangeiros.

Para que tal tivesse acontecido, traçou, desde o início, uma linha programática consistente, exigente e atempada, com carácter anual. Coisa rara entre nós.
Esta prática possibilitou e possibilita a gestão eficaz da informação junto dos visitantes, a aproximação às comunidades educativas, a criação de uma "zona de conforto" junto de coleccionadores e no agenciamento das suas aquisições.

O primeiro acto público da nova Galeria aconteceu simbolicamente com "Os primeiros frutos", de Urbano, que marcou o "regresso à ilha" deste artista, depois de uma ingressão pela Slade School of Arts, de Londres, e pela Galeria 111, em Lisboa.

Este momento marcou o início de um percurso importante para a comunidade artística residente e fez com que houvesse um incremento no "mercado de arte" local, embora tenhamos de ter em conta a sua dimensão diminuta mas, ainda assim, interessante.
São vários os artistas que marcam o histórico destes 10 anos de actividade, dos quais gostaria de destacar: Ana Vieira, Augusto Alves da Silva, Bartolomeu dos Santos, Catarina Branco, João Decq, Maria José Cavaco, Pedro Cabrita Reis, Pedro Proença, Rui Chafes, Sandra Rocha, Sofia de Medeiros, Tomaz Borba Vieira, Victor Almeida, entre tantos outros.

Mas nem só de exposições vive o espaço da Galeria. No decorrer desta década, tem organizado um número significativo de actividades complementares, que funcionam como elemento formativo e informativo, bem como tem desenvolvido uma acção de relevo na captação e na fidelização de um público que se quer, e que é, nestes dias que correm, mais exigente.

Este espaço cultural tem cumprido uma verdadeira missão de serviço público na promoção dos seus artistas e da Região no exterior, por intermédio da participação em feiras nacionais e internacionais, com menção obrigatória para as presenças na "Arte Lisboa", bem como, em Espanha, nas feiras de Cáceres, Santander, Vigo, Valencia e Madrid, naquela que é a mais mediática feira ibérica e uma das mais reputadas a nível mundial - a "ARCO".

A Galeria Fonseca Macedo é um bom exemplo de uma entidade que soube capitalizar e potenciar os apoios institucionais que lhe foram atribuídos, utilizando-os em prol do aumento da sua notoriedade.

Esta estratégia tem produzido os seus frutos e tem vindo a colher uma atenção crescente de críticos de arte, galerias e coleccionadores internacionais, o que não deixa de ser apreciável, se considerarmos as cumplicidades do meio, as suas complexas regras de funcionamento e a incerteza, fruto da crise por que passa este mundo globalizado.

Pelo contributo e pela singularidade da actividade em questão, deve ser dado todo o estímulo e reconhecimento aos seus responsáveis, artistas, colaboradores e público, que fizeram desde espaço cultural um caso de sucesso. Os meus sinceros Parabéns!

Alexandre Pascoal
Julho 2010


* Adaptação do voto de congratulação efectuado a 15 de Julho’10 na ALRAA
** Publicado na edição de 29 Jul'10 do Açoriano Oriental

quarta-feira, junho 23

Cultura, catalisador do desenvolvimento local

O Governo dos Açores tem em curso um ambicioso conjunto de investimentos em infra-estruturas, de modo a melhor dotar o arquipélago de múltiplas valências no domínio das artes performativas, na defesa do património móvel e imóvel, no apoio aos criadores e associações, na divulgação interna e externa da produção artística e na promoção da fruição de propostas contemporâneas.

Todas estas acções estão inseridas nos grandes objectivos estratégicos para o médio prazo, nomeadamente, naquele que visa Melhorar as Qualificações e as Competências dos Açorianos, e no qual a Cultura se inscreve como essencial.

Fazer com que a Cultura faça parte da vivência intrínseca das populações pode parecer utópico mas vislumbra-se, cada vez mais, como algo fundamental na formação contínua dos indivíduos. Esta questão deve constituir-se como basilar, deve ser estimulada, deve apelar aos mais novos e, por essa via, cultivar a “contaminação” dos mais velhos.

A fruição dos espaços culturais existentes, e a erigir, tem de ser encarada como uma mais-valia reprodutiva, não só ao nível cognitivo e do intelecto mas, também, como incremento económico no local de implementação.

O Museu e a Biblioteca Pública não podem ser espaços independentes da economia do “local” e devem ser, eles próprios, “o” ou “um” dos seus principais catalisadores económicos, no qual devem coexistir um número significativo de actividades interdependentes, constituindo-se, de forma integrada, como espaços “âncora”.

De modo a consubstanciar esta importância, o impacto do valor da Cultura no desenvolvimento local, realce para o número de entradas verificadas no conjunto dos Museus da região que, desde 2007, tem vindo progressivamente a subir, atingindo em 2009 cerca de 95.000 visitantes, mais 27.000 do que em 2007.

Estes dados são motivo de regozijo mas que podem e devem ser incrementados, na medida em que foram alcançados mesmo e apesar das obras de beneficiação, ampliação e modernização que decorrem em alguns dos nossos Museus. Um aspecto condicionante mas temporário, cuja execução é essencial para o seu bom desempenho e para a missão que lhes é confiada.

Os recursos são, em alguns casos, importa aqui referi-lo, limitados. Pelo que devemos pautar o investimento público para melhoria continuada das condições físicas e de recursos humanos dos organismos oficiais da Direcção Regional da Cultura, como elementos fundamentais na prossecução da política governamental para o sector.

Num país onde a criação está fortemente centralizada, e numa região como os Açores, geograficamente fragmentada, a descentralização cultural é um gesto que se impõe no crescimento e para o desenvolvimento de novos “centros”.

Como cidadãos portugueses, habitemos em Bragança ou em Sta. Cruz da Graciosa, temos o direito de aceder à Cultura e a um serviço público na área da fruição cultural, quer como criadores, participantes ou espectadores. Este é, sem margem para muitas dúvidas, um meio de alcançarmos uma Região, mais equilibrada, mais coesa e mais democrática.

Mas não falo apenas de “recepção” de oferta cultural de qualidade mas, sobretudo, de criação, de crítica e de avaliação, na relação com as diversas manifestações artísticas.

Independentemente do carácter descentralizador há que ter objectivos concretos na política de funcionamento destas infra-estruturas e há que sensibilizar e envolver as autarquias para as suas responsabilidades locais, neste sector, na medida em que são, em muitos casos, os responsáveis pelos equipamentos disponíveis. E, para isso, devem dotar-lhes dos meios e dos mecanismos para funcionar.

Devem todos trabalhar em “rede”, mesmo que não haja formalmente uma Rede.

A Cultura é, perante aquilo que representa e pelo que perspectiva, um sector de importância vital como “factor intangível de desenvolvimento” (in Carlos L. Medeiros, «Cultura, Factor de Criação de Riqueza», UCP, Lisboa, 2008). E a aposta continuada do Governo dos Açores, neste domínio, preconiza esta estratégia, a de vector basilar na formação, valorização e estímulo da sociedade açoriana.

Alexandre Pascoal
Maio 2010


* Adaptação da intervenção na ALRA em Maio’10
** Publicado na edição de 15 Jun'10 do Açoriano Oriental
*** Foto Olhares

segunda-feira, junho 7

Cultura, investimento continuado


Com o advento do século XXI a Cultura ganhou outra dimensão e deixou de estar circunscrita aos domínios artísticos tradicionais, passando a ser referência na área económica. Nesta medida, "A Cultura é hoje, mais do que um conceito, um factor económico para o qual cada país olha com atenção na perspectiva de obtenção de proveitos financeiros".

O estudo recente sobre o sector cultural e criativo em Portugal, efectuado pela empresa do ex-ministro da Economia Augusto Mateus, revela que em 2006 estas actividades foram responsáveis por 2,8% de toda a riqueza criada no país. Este valor é expressivo e justifica, plenamente, a necessidade de um olhar mais atento sobre o papel da cultura e da criatividade na economia portuguesa e na açoriana, em particular.

A Cultura tem vindo a gizar, com rigor e ambição, uma presença cada vez mais significativa na orientação estratégica para o desenvolvimento dos Açores.

Para 2010 o Governo dos Açores afectou cerca de 22,5 milhões de euros na defesa do Património e no apoio às Actividades Culturais. O que corresponde a cerca de 2,7% do investimento público previsto e a um aumento de 25,8% em relação a 2009.

Este incremento orçamental encontra a sua maior expressão nos inúmeros projectos em obra, contidos no programa de defesa e valorização do património arquitectónico e cultural, dos quais destaco: a construção da nova Biblioteca de Angra do Heroísmo, obra em curso e a bom ritmo de execução; a ampliação do Museu da Graciosa e a reprogramação museológica do núcleo sede; a valorização urbanística e paisagística da área envolvente do Museu da Indústria Baleeira em São Roque do Pico, obra já adjudicada; a construção do Espaço Cultural Multiusos do Corvo, a Temporada Música 2010 e as Comemorações do Centenário da República, cujo início está agendado para o mês de Agosto.

A aposta na formação, na criatividade e a promoção no exterior do tecido cultural insular são prioridades do Governo dos Açores para este ano.

Neste âmbito, destaco o programa de Bolsas de Formação e Criação Artística, para a aposta continuada nas dinâmicas de proximidade pedagógica, casos da Rede de Leitura Pública, da Lira Açoriana, do projecto da Orquestra Francisco de Lacerda e do projecto pioneiro do Museu Móvel, afecto ao Museu Carlos Machado, o qual foi distinguido, em Novembro passado, com um prémio nacional para o melhor serviço de extensão cultural, atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia.

De igual modo, a Semana de Cultura Açoriana que decorreu entre 2 e 7 de Março, deste ano, em Lisboa, numa co-produção do Teatro Micaelense e do Teatro São Luiz, contou com o empenho e com o alto patrocínio da Região.

Esta foi uma iniciativa pioneira e teve o mérito de durante uma semana ter possibilitado aos criadores açorianos a notoriedade que merecem num dos palcos mais importantes da capital. Algo nunca dantes alcançado.

As repercussões não se fizeram esperar e uma nova edição já se encontra calendarizada e deve, na minha perspectiva, ser ampliada.

Mas 2010 é, sobretudo, o ano que consagra os Açores como Região Europeia’2010.

Este momento revela-se como um canal privilegiado para a promoção do arquipélago através da sua "identidade" e como veículo para "trazer à região a cultura e as vivências europeias".

Um acontecimento que nos enche de orgulho e no qual devemos estar todos, particularmente, empenhados.

Alexandre Pascoal
Maio 2010


* Adaptação da intervenção na ALRA em Maio’10
** Publicado na edição de 03 Jun'10 do Açoriano Oriental
*** Foto Fernando Resendes (Teatro Micaelense)
**** Publicado inicialmente no Reporter X

sexta-feira, março 12

A «última» crónica


Foto Enviado Especial

Entre 2 e 7 de Março o Teatro São Luiz foi a embaixada da cultura açoriana, em Lisboa. A iniciativa partiu de um convite de Jorge Salavisa ao Teatro Micaelense, fruto da parceria institucional existente entre ambas as salas de espectáculo.

Esta foi uma operação pioneira e meritória que, nesta primeira edição, possibilitou o salto necessário, e fundamental, para o “exterior”. Um objectivo que é para muitos artistas (e projectos) das ilhas, muitas das vezes, intransponível.

O São Luiz foi palco de oportunidades e funcionou como uma descentralização ao contrário. Porque foi, neste caso, o local que se deslocou ao centro e se transformou ele próprio, numa centralidade.

A literatura, a arquitectura, a dança, os novos criadores, a culinária e a música, em diferentes formatos, constituíram as propostas com que os Açores obsequiaram os lisboetas. Entre açorianos residentes na capital, estudantes, “amigos dos Açores” e público “anónimo”, foram muitos os curiosos que acorreram ao Jardim de Inverno e à Sala Principal, do São Luiz, para participar nos debates e assistir aos concertos, constantes do extenso programa proposto.

No entanto, e é com alguma mágoa que digo isto, foram poucos os ecos que nos chegaram da capital. Para além do trabalho irrepreensível da RDP/A, que diariamente fez apontamentos sobre o desenrolar dos acontecimentos, e da Azoresglobal TV que efectuou diversas emissões online e em directo dos espectáculos e debates, no restante espectro noticioso regional o vazio foi quase total. E em relação à Semana, propriamente dita, ficaram-se por episódios secundários e por questiúnculas risíveis. É pena que tenha sido essa a leitura (à distância).

Em Outubro de 2006, quando iniciei a minha colaboração quinzenal com este jornal, escrevi o seguinte: «As guerras e os ódios pessoais inerentes a um espaço sócio-cultural restrito delimitam forçosamente a agenda e a edição daqueles que, por princípio, têm por obrigação informar. Isso não é dito nem assumido, mas lê-se». Agora, talvez mais do que então, faz ainda mais sentido aquilo que redigi.

PS: Foi bom estar deste lado. O “exercício” agora passa a ser outro.

* Publicado na edição de 09/03/10 do AO
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sexta-feira, fevereiro 26

E a Madeira aqui tão perto


Imagem Fotos Sapo

Ninguém permaneceu indiferente às imagens que abruptamente invadiram os ecrãs televisivos e os mais diversos canais noticiosos, entre rádio, blogues e redes sociais.

Ao ler a crónica de Rui Tavares, no Público de ontem, senti o mesmo: «Este é um daqueles dias em que escrever sobre algo que não seja a Madeira parece impróprio. Mas também é um daqueles dias em que escrever sobre o que aconteceu na Madeira parece não acrescentar nada».

Não podia estar mais de acordo. Contudo, viver nos Açores implica, por vezes, passar pelo risco de ser surpreendido por fenómenos semelhantes, talvez, e felizmente por isso, sem a dimensão catastrófica que, sábado passado, atingiu a ilha da Madeira.

Sabemos que o risco não pode ser evitado, mas pode e deve ser diminuído. Evitar a construção em locais próximos dos cursos de água é algo que obedece ao senso comum, mas que recorrentemente não fazemos cumprir. Exemplo recente disso mesmo, entre nós, aconteceu em Dezembro de 2009, na ilha Terceira, nas freguesias Quatro Ribeiras, Agualva, Vila Nova, Lajes, além de parte da cidade da Praia da Vitória, para cujos habitantes as imagens destes acontecimentos, no arquipélago vizinho, terão trazido à memória os momentos de angústia vividos (sem esquecermos, como é óbvio, a Ribeira Quente em Outubro’97 e os seus 29 mortos).

Este não é o tempo para a discussão política em torno de quem é o "culpado"? Mas, durante o processo de reconstrução ou na preparação do mesmo, esse é um debate que se exige para um cabal esclarecimento do que aconteceu e do que é possível corrigir para o futuro. O risco mantém-se, mas pode e deve ser acautelado.

A solidariedade nacional impõe-se, sendo que no caso dos Açores prontificámo-nos a cooperar, disponibilizando para o efeito, o envio de uma equipa da protecção civil regional, numa atitude abnegada, tal como gostaríamos que outros fizessem, caso ocorresse algo idêntico em solo açoriano.

O país anda absorto num "pântano" - delirante para uns, a sobrevivência de outros - que espero clarificado, nem que seja por esta trágica "enxurrada", no sentido de recentrarmos os desígnios que se impõem e que lhe são exigidos, apelando ao sentido de estado e de rigor, face aos inúmeros constrangimentos (agora agravados) com que nos deparamos.


* Publicado na edição de 23/02/10 do AO
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sexta-feira, fevereiro 12

Ziguezaguear


Imagem ideia

Nas últimas semanas tem sido amplo o debate e os argumentos contra e a favor da intenção da Câmara Municipal de Ponta Delgada em construir um edifício de 7 andares que albergará a futura central de camionagem, localizada no topo Norte da Avenida Roberto Ivens, na zona do antigo ringue do União Sportiva, na Rua de Lisboa.

Construir uma central ou um terminal de transportes colectivos de passageiros em Ponta Delgada deve ser para a autarquia uma prioridade. É importante que se faça o transbordo de passageiros que afluem à cidade, por via das carreiras interurbanas com origem no concelho e em vários pontos da ilha para o circuito urbano de minibus, de forma célere e em segurança. Insistir na localização apresentada pela edilidade é um erro. O modelo proposto está esgotado e tem vindo a ser abandonado, sendo Lisboa um exemplo paradigmático. Situar, naquele local, uma infra-estrutura com aquelas características é manter o trânsito pesado no centro histórico, na medida em que são muitas dezenas de autocarros que entram diariamente, em Ponta Delgada, acrescidos dos 1300 automóveis a circular no eixo » Rotunda Autonomia » Rua de Lisboa entre as 07h30 e as 10h30 (segundo um estudo de Julho 2007).

A questão do Património não pode ser negligenciada, nem desvalorizada. O Campo de S. Francisco é o local de Ponta Delgada onde existe a maior concentração de imóveis classificados. A posição da edilidade e da sua presidente é contraditória, pois não se percebe a ênfase atribuída à recuperação do edifício do Coliseu Micaelense para agora colocá-lo na "sombra". Incongruências a que infelizmente já nos habituou, nomeadamente, no processo desastroso em torno da construção do parque "subterrâneo" de S. João, cuja construção "amputou" o Teatro Micaelense.

Qual a intenção da autarquia na carta enviada aos moradores da Rua de Lisboa onde é referido: «Queremos que (...) voltem a ter orgulho de residir nesta nobre zona da cidade, desfrutando de conforto e bem-estar». Para o município estamos perante uma "zona nobre" mas sem orgulho - um devir difuso que contraria o sentimento dos munícipes e que pretende, apenas, validar o desejo autárquico.

Este tipo de "iniciativa" pretende justificar o injustificável sem o mínimo de sustentabilidade. Haverá por parte da Câmara Municipal capacidade para reflectir e discutir publicamente este assunto, ou irá forçar uma decisão com base em compromissos já assumidos? Irão os interesses "privados" sobrepor-se ao interesse público?! Como resposta, temos o ziguezaguear camarário sobre a localização da Central de Camionagem em Ponta Delgada.


* Publicado na edição de 09/02/10 do AO (revisto na publicação no blog)
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terça-feira, fevereiro 2

Um testemunho relevante



Foi lançado na noite do passado dia 22, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, a colectânea «A Oposição ao Salazarismo em São Miguel e em outras Ilhas Açorianas (1950-1974 - Com uma evocação de Ernesto Melo Antunes nas "Campanhas" dos Açores», num trabalho editoral da Tinta-da-china e organização do jornalista, e actual administrador da Fundação Luso-Americana, Mário Mesquita.

O orador convidado foi José Medeiros Ferreira, que também participa no livro, e que de forma descomprometida presenteou a assistência com uma exposição sintética mas plena de significado, quer pelas achegas irónicas e humoradas, que o caracterizam, quer pela sua própria vivência pessoal à época. Ficamos todos a saber que os dotes literários dos membros da PIDE eram escassos e limitavam-se, muitas das vezes, ao registo das partidas e chegadas. Esse défice letrado era depois compensado pela força (bruta).

Para além desta cerimónia foi anunciado a realização de um colóquio, a realizar entre Março e Maio deste ano, e no qual será efectuada a homenagem que se impõe ao homem por muitos considerado o ideólogo do MFA e o principal autor do documento «O Movimento das Forças Armadas e a Nação» - Ernesto Melo Antunes, cuja visibilidade e reconhecimento tem sido, por vezes, minorado.

Este livro é, já por si, uma homenagem à figura histórica e ao seu papel na oposição à ditadura em S. Miguel, mas que não se esgota aí. É um objecto documental de um período histórico ainda pouco estudado e que aqui passa a ter um manual, com importantes testemunhos, que, como adianta Mário Mesquita, ajudam a "compreender um pouco o clima social que se vivia na época do salazarismo na ilha". O "autor" faz, na sua introdução, igualmente referência ao facto de «(...) Ernesto Melo Antunes merece ser designado, pelo papel cívico, político e cultural que desempenhou, cidadão honorário dos Açores». Uma sugestão que registo, aprovo e que pode e deve ser acolhida pela Região.

Ficou no ar a percepção (sugestiva!) de que a Declaração de Ponta Delgada (1969) tivesse sido um rascunho para outros documentos de relevo nacional, casos do Programa do MFA e o Documento dos Nove. Os Açores como tubo de ensaio ideológico ao movimento revolucionário de Abril? Um exagero? São questões para o colóquio que avizinha. Um "testemunho relevante" que aguardo com expectativa.


* Publicado na edição de 26/01/10 do AO
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