quarta-feira, outubro 28

A Autonomia no seu Labirinto

 

foto Lusa

André Ventura é muitas coisas, mas se há dom que não creio que tenha são poderes premonitórios. No entanto, foi dele a declaração que adivinhou o resultado das eleições de Domingo passado. “Um terramoto”! Se calhar mesmo, um verdadeiro abalo tectónico na tessitura político-partidária da região.

Para o PS e para Vasco Cordeiro estas eleições começaram, provavelmente, a ser perdidas em 2012. A verdade é que Vasco Cordeiro nunca conseguiu afirmar plenamente uma identidade própria dentro do projecto socialista, tanto no Governo, como no próprio partido. A herança Cesarista, que no partido nem herança foi, mas antes uma presença e um dominio constante, nunca permitiram que Vasco Cordeiro marcasse uma liderança, uma estratégia e uma personalidade própria que lhe possibilitasse autonomizar a sua governação dos 24 anos de governação socialista. Isto pode parecer incongruente, mas essa ligeira nuance, a governação e o partido de Vasco Cordeiro, teria feito, certamente, toda a diferença. O PS e a governação socialista foram sempre de Carlos Cesar e nunca de Vasco Cordeiro. Isso viu-se na longevidade de Sérgio Ávila, na omnipresença de Carlos Cesar, na incompreensível e absurda telenovela da “Casa da Autonomia” e da sua Estrutura de Missão comandada à tripa forra por Luísa Cesar e na ascensão e autoridade desenfreada de Francisco Cesar. Ao mesmo tempo, causa igual tristeza e estranheza a forma como Vasco Cordeiro foi, sucessivamente, triturando figuras com gabarito, validade intelectual e política, competência e projecção na sociedade açoriana. Desde os Governos, às listas de deputados, às empresas públicas e tantos outros cargos com maior ou menor visibilidade, a fúria autofágica de Vasco Cordeiro criou um imenso exército de descontentes e de ressentimentos. Assim de cabeça lembro-me de nomes como Fagundes Duarte, Piedade Lalanda, Luís Cabral, Nuno Domingues, Pilar Damião, João Roque Filipe, Nuno Mendes, António Gomes de Menezes, Fausto Brito e Abreu. E, mais recentemente, os casos de Filipe Macedo ou da limpeza nas listas de deputados, que correu, sem apelo nem agravo, com Renata Botelho, Graça Silva e Sónia Nicolau, sem que se soubesse da mais pálida justificação. Ao mesmo tempo, que uma série de outras figuras eram candidamente protegidas e apaparicadas, fossem quais fossem, e foram muitas, as asneiras, para usar um termo suave, que cometessem. De que, para mim, o caso mais dramático e paradigmático foi a dupla Vitor Fraga e Francisco Coelho. Um mistério que só possivelmente a história elucidará…

O caso das listas de deputados merece um breve comentário. Não sei porque cargas de água criou-se uma ideia de que as ditas listas, em lugar de serem feitas por pessoas competentes, sejam militantes ou independentes, têm de ser espelhos mais ou menos turvos da diversidade geográfica e socioprofissional das ilhas. Em lugar de ter um grupo coeso de políticos, as listas de deputados tornaram-se numa sopa da pedra, feita de personalidades avulsas, cuja mais valia política é a fama na junta, no clube de futebol, na agremiação e no café da freguesia ou até, como nesta última, no Youtube… o resultado final e mesmo contando os lambe-botas e os vira-casacas são grupos parlamentares de fraquíssima qualidade, como é agora o caso do futuro grupo parlamentar do PS. Embora, diga-se que, neste particular, o PSD é igual…

Se juntarmos a isto tudo a Governação errante, os dossiers polémicos, as suspeições judiciárias e, piece de resistance, a debacle da SATA, ou a malfadada Covid, tudo estava lá para pressupor que a noite de 25 seria amarga para o PS, embora, nem mesmo eu acreditasse que podia ser tão amarga. Vasco Cordeiro chega assim ao seu último mandato, se é que o vai ser, e para usar a imagem do timoneiro, que ele próprio escolheu, como um naufrago, desidratado e andrajoso, lançado sobre a areia da praia, arfando por água, sombra e cuidado. Com menos 5 deputados, sem tábua de salvação à esquerda e com a direita enraivecida e salivante, silvando como hienas, pelo sangue socialista, as hipóteses de formar um governo estável são praticamente nulas. Tirando, obviamente, a possibilidade de, humildemente, propor um entendimento ao centro. Um governo de Bloco Central, com Bolieiro a Vice-presidente, mais uma ou duas pastas para o PSD, inclusive dando-lhes a presidência da ALRAA e estendendo esse entendimento à sociedade civil, numa grande coligação autonómica para navegar essa imensa tempestade económica e social que aí vem. Se qualquer dos protagonistas ou dos partidos que estão neste momento na contenda puser, de facto, os interesses da região à frente dos do seu partido ou dos seus pessoais, era isto que devia fazer. E daqui a quatro anos, queira Deus já sem Covid, quem tiver as melhores unhas tocará sozinho a guitarra. Qualquer tentativa de governar isolado ou em coligações negativas morrerá à primeira dificuldade que, ou muito me engano, será já a breve trecho com o borregar da SATA…

Quanto à suposta maioria de direita a verdade é que ela não existe. O que há, neste novo quadro parlamentar, é uma maioria anti-PS. Sendo que, para além disso, o CHEGA não é de direita. O CHEGA é de extrema direita! E, embora seja aceitável a sua presença no parlamento, é a vontade de 5% dos eleitores, não é já, de forma alguma, admissível que os restantes partidos se aproveitem do CHEGA, legitimando com esse gesto o fascismo latente do partido do Dr. Ventura, para assaltar o poder. Por outro lado, embora muitas das suas principais figuras venham do CDS e do PSD, é um erro pensar que a Iniciativa Liberal encaixa nas visões tradicionais de esquerda e direita. Tal como, também tenha as minhas duvidas, que o PAN possa ser entendido como um partido de esquerda. A haver um entendimento das direitas, não será uma maioria, nem tão pouco uma geringonça, será antes uma coligação negativa com o único intuito de tirar o PS do poder e acabar, de uma vez por todas, com o reinado da família Cesar. Embora, neste último particular, eu até possa estar de acordo com a necessidade política desse culminar, essa não será certamente a forma correcta de o fazer e seria, proverbialmente, deitar fora a região com a água do banho…

Quem tem, neste momento, a responsabilidade de fazer as pazes com o seu passado, deixando no passado o que lá deve estar, com o que de bom e de mau as suas lideranças tiveram, é o próprio Partido Socialista. Há uma democracia interna para conquistar dentro do Partido Socialista dos Açores, e essa libertação, se não for iniciada pela liderança tem que o ser pela militância. Figuras como Cristina Calisto, Rodrigo Oliveira, ou mesmo Andreia Cardoso, são hoje esperanças para um futuro PS, que seja mais solidário, mais aberto e mais justo.

Esperemos para ver. Os próximos tempos políticos destas nove ilhas serão certamente duros, mas indubitavelmente interessantes. Viva a Democracia! E, Viva o PS!

sábado, outubro 24

O Político


Daniel Pelavin, Brand of the Year.


O jovem Payton Hobart tem uma ambição: ser presidente dos Estados Unidos da América. Sem sentimentos ou ideologia, alinhava meticulosamente o seu futuro como ocupante da Casa Branca agarrando oportunidades, mimetizando comportamentos e apoiando causas promotoras de votos. Payton é um Pinóquio forrado a latex, um adolescente rico e mimado num cenário Vanity Fair, um político para a geração Greta Thunberg, tal como o imaginaram Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan na série The Politician (Netflix, 2019).

Nesta comédia negra e delirante assistimos ao making of de uma campanha política, às jogadas de bastidores entre concorrentes, às disputas por atenção entre a entourage de serviço, à valorização da imagem e do suporte digital, ao redesenho de convicções ao sabor do espírito do tempo, à urdidura de discursos à medida do elemento decisivo: o eleitor. Para o político, apenas o eleitor conta e vale tudo para o fazer riscar uma cruz no quadrado que valida a sua ambição. Ambição de um e de outro. Se ao político importa somar votos, ao eleitor importa somar expectativas, escolher, com cinismo ou empatia, quem oferecer mais garantias de as tornar efectivas e selar essa relação por interesse nas urnas.

quinta-feira, outubro 1

a pandemia real


Ainda sobre esta traiçoeira estratégia de fazer depender o voto da gestão da pandemia vale a pena reter uma mensagem. Há poucos dias, no programa Linha da Frente, da RTP, a jornalista Mafalda Gameiro assinou uma reportagem impressionante intitulada “quando o açúcar amarga”. A reportagem foca-se no caso de Tiago, um jovem funcionário administrativo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a ganhar o salário mínimo e na sua luta contra a obesidade. Tiago tem 40 anos, um metro e sessenta e oito e pesa 134 Kg. Ao longo da reportagem somos confrontados com a descrição dos anos de comportamentos aditivos do Tiago, a má alimentação, o historial familiar de obesidade, a diabetes tipo II, a dependência do açúcar, que funciona como calmante, os alimentos processados, as 90 gr por dia, 630 por semana, de consumo de açúcar, o índice de 24.5 de gordura visceral do Tiago quando o nível máximo recomendado é 12… A reportagem conta-nos a história da tentativa de Tiago de mudar a sua vida, a consulta na nutricionista, o ginásio, as mudanças nos hábitos alimentares e conta também a história dessa desintoxicação, da irritabilidade, da ansiedade. E explica, com clarividência, como a nossa sociedade está armadilhada pelo tráfico dessa droga chamada açúcar. A diferença exorbitante no preço entre alimentos ditos “saudáveis” e os outros. 1 pacote de massa integral: 1,49€; um pacote de massa corrente: 0,39€! A extrema dificuldade em encontrar alimentos “limpos” de sacarose e outros derivados. A inteligibilidade dos rótulos, que são feitos para não poderem ser traduzidos, reduzindo a percetibilidade ao máximo, quando deveria ser o contrário e de como a indústria se acantonou no vício para produzir lucros. Em Portugal o consumo médio diário de açúcar e de 85 gr quando o consumo recomendado pela OMS é de 25 gr. Em Portugal, ainda, 90% das crianças e jovens consomem açúcar excessivamente! Apesar de tudo isto o esforço de Tiago é recompensado, ao fim de 6 semanas emagreceu 8 Kg. Mas então, o desastre acontece. Em Março a histeria da Covid leva ao confinamento. Tiago, considerado grupo de risco devido à diabetes e hipertensão é forçado a ficar em casa. Perde o subsídio de alimentação, o ordenado é reduzido para 500€, desses 300€ são para renda da casa, mais as despesas correntes, luz, água, comunicações, restam-lhe pouco mais de 100€ por mês para alimentação. Tudo vai por água abaixo. Seis meses depois Tiago abandonou a dieta e voltou a ganhar 10 Kg. Esta é a verdadeira realidade da luta contra a pandemia. Esta é a vida real, de quem anda na rua e trabalha e vê a sua vida destruída pelos desmandos do Estado. Esta é a dor de uma pessoa, longe dos gráficos do telejornal e dos sermões altivos dos apresentadores e dos primeiros-ministros ou dos jovens aprendizes de feiticeiros e candidatos a mais um mandato no parlamento regional. Isto é o que a gestão da pandemia, a luta contra a Covid, fez à vida das pessoas…

quarta-feira, setembro 30

a pandemia como estandarte eleitoral

 


Muito haveria a dizer sobre o debate da RTP-A de ontem e mesmo sobre os outros 8 debates anteriores, a começar, desde logo, por essa autêntica farsa insultuosa dos cabeças de lista por São Miguel não terem marcado presença, quando os próprios debates foram anunciados e promovidos pela RTP-A como sendo com os cabeças de lista por ilha, tal como foram os anteriores 8, e como deveria inevitavelmente de ser. Um momento que ficará na história como pináculo do desrespeito pela democracia, o regime parlamentar e a inteligência do povo açoriano. Mas, foquemo-nos no momento final, na fantabulástica declaração de apelo ao voto de Francisco Cesar. Nesses curtos segundos de retórica televisiva o secretário coordenador de ilha do PS, ex-líder da bancada parlamentar, número cinco da lista, suposto futuro secretário regional da economia, com tutela do turismo, e putativo candidato a líder do PS-A e a Presidente do Governo, reduziu 24 anos de governação e de propositura de mais 4, aos seis meses de gestão da pandemia. Para Francisco Cesar a razão para se votar no PS-A é “porque o Governo do PS foi eficiente no combate à pandemia”. Esta eleitoralização da doença, da dor, do medo é, também ela, mais do que um insulto, uma manipulação pérfida e maquiavélica da luta política e da transparência democrática. Já todos tínhamos intuído que seria este o caminho que o PS quereria percorrer, os sinais estavam todos lá, desde os idos de Março, e foram-se adensando à medida que o tempo ia e for passando até chegarmos ao dia 25. E, é precisamente por isso que é preciso desmascarar e combater esta estratégia. O PS-A e Vasco Cordeiro deveriam apresentar-se a estas eleições como o partido e o líder melhor preparado para continuar a governar os Açores num esforço para equilibrar o crescimento económico com a sustentabilidade e o desenvolvimento social. Criando riqueza e sabendo redistribui-la em benefício das populações, do Corvo a Santa Maria. Em lugar disso, o PS-A, opta por se agarrar à narrativa pandémica, pontilhada de pânicos, receios e outras veladas ameaças, querendo ser o contraponto para uma doença que ele próprio criou. À cabeça é preciso dizer, de forma clara e corajosa, que o PS-A e Vasco Cordeiro não geriram bem a pandemia. Limitaram-se a impor o pânico e o fascismo sanitário, destruindo com isso a economia e fazendo ao mesmo tempo retroceder em décadas a mentalidade e a abertura da sociedade açoriana. Por outro lado, a resposta à catástrofe económica, sempre a reboque de Lisboa, de mão esperançosamente estendida à espera das bem-aventuranças de Bruxelas, demonstrou à saciedade como o único objectivo das medidas era eleitoral e não um verdadeiro auxílio a empresas e trabalhadores. Mas, se o argumento pandémico é mesmo o estandarte eleitoral que o PS-A quer utilizar analisemos então a prestação do partido e da sua governação neste âmbito. Nos Açores as principais causas de morte são as doenças cárdio-vasculares (45,7%) e os tumores (24,5%). A montante destas causas de morte estão duas explicações profundas nomeadamente a diabetes e a obesidade. Ora os Açores têm não só 70% da população com excesso de peso como apresentam a pior incidência de morte por diabetes de todas as regiões da Europa, 74 por cada 100 mil habitantes, uma verdadeira epidemia contra a qual em 24 anos de governação muito pouco ou quase nada tem sido feito, nem consta que a Autoridade de Saúde a isto tenha dado relevância! Bastava isto para se perceber que em matéria de pandemias o PS-A tem tudo menos um bom registo governativo… Custa-me dizer isto e custa-me dizê-lo com esta brutalidade mas este PS, com esta estratégia, não merece ganhar estas eleições e, o pior, é que os outros partidos também não. Para usar um slogan antigo – “merecíamos políticos melhores”…


sexta-feira, setembro 11

para onde?

 


Quem conheça minimamente Vasco Cordeiro de certeza que já o escutou, de sorriso rasgado e emanando força e convicção, a usar a expressão “p'rá frente é que é caminho!”. Essa pujança anímica, que não é apenas física, é um dos seus traços distintivos de carácter, talvez só comparável à sua crónica e antagónica indecisão. O problema é que se essa força obstinada, de seguir em frente, é boa nas arruadas, e quem já fez arruadas com Vasco Cordeiro sabe o quão difícil é acompanhá-lo, na governação, onde o que se exige é calma, ponderação e bom senso, essa impulsividade já não é uma característica tão, digamos assim, abonatória. Se a isto juntarmos o facto de estarmos, e irmos continuar, a viver a pior crise das nossas vidas não pode deixar de causar imensa estranheza a escolha deste estribilho para slogan desta campanha eleitoral. A questão que imediatamente se coloca, ao ouvir este refrão, é: “mas para onde?”. E, a verdade é que nem Vasco Cordeiro, nem o PS, sabem responder a esta pergunta. Ou, então, sabem, mas não arriscam responder, o que é manifestamente pior

Quando, há oito anos atrás, Vasco Cordeiro se candidatou pela primeira vez à Presidência do Governo Regional dos Açores a Região estava à beira da tempestade perfeita, assolada por três dossiers fundamentais e potencialmente demolidores em cima da mesa política, a saber, o fim das quotas leiteiras; a revisão do acordo da Base das Lajes; e a liberalização do espaço aéreo. Em boa verdade, nem nenhum destes assuntos foi resolvido a bom termo como a eles se juntou a já referida mega-crise económica. É como se estivéssemos há oito anos a andar p'rá frente, sem saber para onde exactamente, e sem nunca tratar efectivamente do que precisa de ser tratado. A reconversão do sector leiteiro é uma espécie de eterna miragem, constantemente no horizonte dos discursos e das intenções políticas, mas nunca alcançada. A Base das Lajes transformou-se num processo tão interminável tanto quanto a descontaminação, servindo de letra de música a um bailinho de investimentos cuja repercussão económica tarda, se não nunca, em se fazer ver. O espaço aéreo colocou-nos à mercê de duas companhias aéreas falidas e da Ryanair. Todos estes problemas, mais anúncio aqui, mais milhão acolá, mantêm-se fundamentalmente por resolver, um pouco à imagem dessa obra de Santa Engrácia no Palácio da Conceição que, se continuarem a escavar, certamente um dia encontrarão ou a Nova Zelândia ou, para gáudio de Felix Rodrigues, os restos da Atlântida. Depois, em cima de tudo isto, repito, a mastodôntica crise económica. E, como é que é possível, pergunto eu, perante tudo isto, o PS impele-nos a ir em frente, de forma cega, firme e obediente, como se ovelhas para o matadouro.

Mas, se é que tudo isto não fosse já suficiente para fazer parar os mais avisados, há uma outra questão que se levanta perante este malfadado slogan. É que, este é o último mandato de Vasco Cordeiro, que, daqui a quatro anos, encontrará no correio um bilhete para Bruxelas, se Bruxelas ainda existir. Ora, é caso para perguntar outra vez: “p'rá frente é exactamente para onde?”. Há oito anos atrás Carlos Cesar tinha dois sucessores claros, com um outro Contente a correr por fora. Sérgio Ávila e Vasco Cordeiro. A escolha recaiu sobre quem sabemos e uma das teorias da conspiração que surgiu nessa altura, e que se mantém até hoje, sem nunca ser desmentida, foi de que o acordo entre Cordeiro e Cesar era de que o primeiro assumisse a função de príncipe regente até entregar o ceptro de volta a Cesar, mas neste caso Cesar Júnior. Perante este cenário uma das questões que é não só legitimo como imperioso colocar ao Partido Socialista, nestas eleições, é quem serão os sucessores de Vasco Cordeiro e se, na frente do Partido, não estará já legitimado um sucessor do trono paternal? Se este “p'rá frente é que é caminho” mais não é do que uma pulsão frenética para que não se olhe à estratégia quase monárquica de entregar o partido e, quererão eles, a governação dos Açores nas mãos do príncipe herdeiro da casa de Vale (tudo) Cesar?

É que se é isso que Vasco Cordeiro e o PS querem por à nossa frente, então que o digam clara e simplesmente, porque eu, pelo menos, não vou por aí…

domingo, setembro 6

a epistemologia dos factos


Não o posso confirmar com absoluta certeza, mas das muitas coisas que a Covid nos levou, a primeira talvez tenha sido a ponderação e o bom-senso. Uma mistura abanada de desconhecimento e medo transformaram-nos a todos em pólos opostos de um yin-yang de palpites, convicções de rede social e certezas assertivíssimas à lá Rodrigo Guedes de Carvalho. De um lado os paladinos do bem, os arautos da Saúde Pública, as Autoridades magnânimas e infalíveis que defendem o bem e a Vida, excepto dos velhinhos, coitados, largados ao fétido abandono de lares como o de Reguengos ou o do Nordeste. Do outro nós, cidadãos, mais ou menos remediados, mais ou menos instruídos, mas que por termos dúvidas, por não aceitarmos os “factos” ou por vermos a vida a desaparecer-nos debaixo dos pés, fazemos perguntas e somos, por isso, imediata e inapelavelmente apelidados de Trumps e Bolsonaros. Algures, entre o começo disto tudo e agora o bom-senso desapareceu. A ponderação deu lugar ao autoritarismo arrogante e o diálogo, o debate de ideias, foi totalmente obliterado pela ditadura da bipolarização ideológica dos paladinos do fascismo higienista. Ou estás comigo ou és um Trump ou, pior, um Bolsonaro. Isto porque a tentativa de exposição ao ridículo sempre foi uma boa forma de bulliyng, principalmente porque nos poupa de pensar numa argumentação. Ou então é apenas pelo facto de Stefan Lofven ou Anders Tegnell serem nomes mais difíceis de pronunciar e personalidades menos conhecidas do cidadão comum. Já agora, os dois senhores são o Primeiro-ministro e o epidemiologista chefe da Suécia, um país com o qual é sempre mais difícil fazer chacota. Mas há um outro problema nesta táctica política da banalização do adversário. É que, a ciência não se faz com certezas, mas com hipóteses, e aquilo que é facto num dia pode já não o ser no seguinte. Veja-se o caso das máscaras, que primeiro eram contraproducentes e desnecessárias e que depois se tornaram obrigatórias. Mesmo depois dos imensos alertas de médicos e especialistas para os perigos do seu uso continuado, da sua inutilidade e até o malefício do uso em espaços abertos, as máscaras tornaram-se indispensáveis e imprescindíveis e preparamo-nos para torturar milhares de miúdos, e outros habitantes do Universo escolar, com o uso diário de máscaras entre 6 a 8 horas por dia, isto apesar de haver um consenso mundial de que as crianças e jovens não constituem um grupo de risco e de que o uso de máscaras pode ter consequências nefastas na oxigenação do cérebro e na concentração. Hoje, o mundo está dividido em dois tipos de idiotas: os que usam as máscaras e os outros, nós, iguais idiotas, que usamos as máscaras mesmo sabendo que são idiotas, as máscaras e nós com elas. Isto, é um facto! Como todos os epidemiologistas tem dito a análise de uma pandemia só se faz no fim, mas a mim o que me incomoda é essa confiança cega no “prá frente é que é caminho” mesmo quando não se conhece o que está à frente e, pior, quando o que fica para trás é um estranho e doloroso odor a terra queimada.  

quarta-feira, setembro 2

LIBERDADE(S)

No passado dia 14 de Julho assinalou-se o “Dia Mundial da Liberdade de Pensamento”. Por muito louváveis que sejam os princípios subjacentes à prática revisionista de rebatizar os dias do calendário Gregoriano, nunca aderi de corpo e alma à instituição desta voga, pois sempre tive as maiores reservas a qualquer tipo de catecismo, seja ele religioso ou laico. Dito isto, correspondi (malgré tout) com todo o gosto ao pedido/convite da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UAç para escrever um pequeno texto alusivo à data, destinado a publicação na sua respetiva página do Facebook

Nunca frequentei, nem frequento, essa plataforma digital que, por antonomásia, designa o admirável mundo novo das redes (e relações) sociais. Prefiro deixar inscrita a minha irrelevante pegada digital noutras plataformas marginais, quase tão desertas como um apeadeiro da linha ferroviária do Coa, de que é exemplo este blog coletivo, a que muito me orgulho de pertencer, e que nos seus dias de glória, há cerca de 15 anos atrás, tinha a sua caixa de comentários inundada por reações a cada post que era publicado.

Um neófito que tropece por acaso nestas palavras, não perceberá nelas qualquer sentido, mas os antigos e ocasionais passageiros frequentes do :Ilhas talvez já tenham antecipado aquilo que vou dizer em voz bem alta: ACHO INCRÍVEL O ENSURDECEDOR SILÊNCIO QUE SE REGISTA NA CAIXA DE COMENTÁRIOS DOS ÚLTIMOS POSTS DO PEDRO, que citam (no sentido tauromáquico do termo) a liberdade de pensamento junto aos cornos do touro, sem que ele – manso – dê sinais de investir com franqueza e galhardia contra o forcado da cara . Dá ideia de que toda a gente permanece confinada nas páginas do seu Facebook que, muito antes desta pandemia, já andava a promover o distanciamento social. Seria bom que o Mark Zucherberg refletisse sobre o oximoro que está inscrito no ADN da sua criação. 

Mas, voltando ao início deste post, aqui segue em segunda edição (e sem qualquer aditamento) aquilo que publiquei sobre a “Liberdade de Pensamento” no passado mês de Julho:


Four Freedoms. Edwina Sandys, 1994

Franklin D. Roosevelt Presidential Library (Hyde Park-New York)

Esta escultura – duas silhuetas humanas, recortadas de uma secção do Muro de Berlim – foi executada por Edwina Sandys, neta do Primeiro-ministro britânico Winston Churchill, em homenagem ao Presidente americano Franklin D. Roosevelt, cujo discurso do “Estado da União” (6 Janeiro 1941) proclamava a necessidade de construir um mundo assente em quatro Liberdades essenciais: Freedom of Speech, Freedom of Worship, Freedom from Want e Freedom from Fear. Nestes tempos difíceis que atravessamos, é importante que a liberdade de expressão e pensamento nos ajude a libertar do medo.”  

Saravá, Pedro, este samba é para ti.