quarta-feira, junho 3

Processo de Covidização em curso...

Para muita gente, por esse mundo fora, esta grande crise do Covid tem potenciado o ensejo de um radical cambio civilizacional. Há como que um desejo latente e profundo de que a humanidade se possa regenerar, possamos salvar o planeta, criar prosperidade para todos e inventar uma nova utopia social de alegria, paz e amor. De repente, no abrir de portas do desconfinamento surgimos todos na rua com o discurso da Miss Universo. Cerca de 200 anos depois do alvor da Revolução Industrial acordamos todos a citar Engels e Marx e a pugnar por um mundo onde o capital não seja a força maior da opressão do homem. E assim vamos, em busca das novas Itakas do bem-estar e da redistribuição equitativa da riqueza. Remediados de todo o mundo uni-vos, contra os Gates, Bezos e Zuckerbergs da vida marchar, marchar! O problema é que nem o mundo se transforma com tanta facilidade, nem tudo o que conquistamos com o desarolhar do capitalismo ocidental é, necessariamente, mau. Atente-se, por exemplo, o caso do Turismo. O Turismo foi, indiscutivelmente, uma das grandes conquistas civilizacionais do mundo moderno. Se as Descobertas deram novos mundos ao Mundo, o Turismo deu Mundo às pessoas e deu pessoas a esses muitos mundos que compõem o nosso Mundo. Podemos argumentar, e serei sempre o primeiro a defender esse argumento, que muito de pernicioso adveio das actividades ligadas ao Turismo: a massificação, a poluição, a gentrificação, a disneyficação, entre muitos outros palavrões sinónimos da desregulamentação e alienação global provocada pela voragem desenfreada do Turismo selvagem, feito de turistas, passe a redundância, em vez de viajantes. Mas, como disse Santo Agostinho, “o mundo é um livro e aqueles que não viajam leem apenas a primeira página.” E nada promoveu mais a verdadeira democratização desse conhecimento do que a Indústria do Turismo. Desde as primeiras linhas de caminho de ferro de 1800 aos luxuosos long range da Emirates a circulação, mais ou menos acessível, de pessoas pelo mundo todo foi um dos mais importantes fenómenos culturais da modernidade. A democratização das viagens trouxe conhecimento, abriu horizontes e, fundamentalmente, criou uma globalização de empatias e de afectos humanos, para contrabalançar a essa outra globalização, a globalização fria e repugnante do vil metal. Só que, de um dia para o outro, o Covid-19 destruiu tudo isso. Aeroportos fechados, milhares de aviões no chão, companhias aéreas falidas ou em vias disso, ao que acresce a estúpida tendência de querer transformar hotéis em enfermarias e restaurantes em cantinas de hospital, com seis desinfecções por dia, ditaram a morte do Turismo tal como o conhecíamos. Neste momento, há duas forças em conflito na batalha pela “nova normalidade” do Turismo: de um lado os que procuram, a todo o custo, retomar, reabrir, repor, custe o que custar, sem demoras e sem, principalmente, ponderação e bom senso. O exemplo mais paradigmático desta corrente é a aviação, que contra qualquer grama de sensatez e, até, ao arrepio da espectativa dos próprios passageiros, procura, à força, encher novamente aviões. Do outro lado estão os novos nacionalistas, defensores do fecho total das fronteiras, e os puristas da new-age, que advogam um regresso ao paleolítico humano, feito de vestes de cânhamo e psicadélicas viagens espirituais pelo Éter da nova eco-globalização. Resta saber se, no meio deste yin-yang conceptual, o simples gesto e o prazer íntimo de viajar, de absorver o mundo com os nossos próprios corpos e emoções, se conseguirá salvar. Resta saber se o mundo que aí vem será feito de e com pessoas, ou, apenas, de autómatos mascarados, desinfetados e devidamente posicionados nos 2 metros de distância. Como diz a outra senhora – festejem os golos, mas baixinho…


terça-feira, junho 2

#blackoutuesday



Tudo começou com uma nota. Uma nota supostamente falsa usada por George Floyd para pagar um maço de cigarros. Uma mera nota de vinte dólares americanos que gerou desconfiança num funcionário de um supermercado em Minneapolis e valeu um telefonema para o 911. Cumprimento das regras, excesso de zelo, policiamento de costumes (Floyd estava alcoolizado) ou comportamento racista, que importa agora? A queixa nunca deveria ter sido feita, desculpou-se Mahmoud “Mike” Abumayyaleh, dono da Cup Foods, quando o caos rebentou. Too late. Não há como não pensar na enorme disparidade entre causa e consequência. Não há como não pensar na estranheza desta história e na longa fita que tem por desenrolar. Sem desculpas ou atenuantes para Derek Chauvin, expulso da polícia, detido para julgamento, acusado (e bem) de homicídio, podemos questionar coincidências e desenvolver teorias. Padecerá o infame polícia de chauvinismo, honrando assim o seu apelido? Se assim for, como enquadrar o casamento com Kellie May, nascida no Laos e refugiada na América, que sobre ele disse “Under all that uniform, he’s just a softie,” quando ganhou o título de Mrs. Minnesota em 2018? Existirão antecedentes de conflito laboral no trabalho extra partilhado por Chauvin e Floyd durante quase 20 anos no El Nuevo Rodeo Club, um espaço de animação nocturna especializado em Música Latina? Parece um argumento de Hollywood, mas é o background bizarro destas personagens no olho do furacão. Seja qual for o enredo, nada justifica o assassinato de George Floyd. Nada justifica também a sua reprodução ao vivo e a cores nas televisões de todo o mundo e nas redes sociais. A morte em directo tornou-se uma banalidade. Um incentivo à indiferença ou ao ódio, mais do que à consciência social. Anestesiados e deprimidos por tanta (des)informação, manipulados até à exaustão, perdemos o foco do essencial: «all men are created equal». Foi preciso um hashtag na net para nos lembrarmos disso.

segunda-feira, junho 1

Uma educação musical

Para o ZB


A minha primeira influência musical foi o meu pai. O meu pai gostava, emocionalmente, de música. Era um romântico, que gostava de música romântica. O meu pai cantava, cantava o Fado e, diz quem o ouviu cantar, que em jovem cantava bem. Eu não me lembro de o ouvir cantar, mas, registo o macabro sarcasmo do destino de que o primeiro órgão do corpo que o cancro lhe levou foi uma corda vocal. O meu pai não era melómano, lá por casa não havia discos, lembro-me de umas esparsas cassetes com coisas aleatórias: Maria Creuza cantando Vinícius; Art Tatum e Errol Garner; Julio Iglesias. Mas, o meu pai gostava de música. Disfrutava dela. Jazz, MPB, Flamenco ou “espanholadas” como sorridentemente dizia e que ouvia sempre batendo palmas a ritmo com pose de cantor cigano. Fado, muito fado. Amália, Marceneiro, Carlos do Carmo, Rodrigo, de quem se dizia que era vagamente piroso, mas que cantava pela vida e o grande, enorme, António dos Santos e o seu “minha alma de amor sedenta” que ainda hoje ouço com arrepio. Mais tarde, houve uma altura em que trocávamos cds um com o outro, numa espécie de diálogo sem palavras, como se aquela fosse a nossa maneira de trocar afectos. No fugaz período da pré-adolescência a música que eu ouvia era a da minha irmã e a das amigas e amigos da minha irmã. As cassetes com os sucessos do Bananas e do Plateau. O “come on, Eileen” dos Dexys Midnight Runers ou o “I want you to want me”, dos Cheap Trick. Por essa altura havia, também, a música dos filmes: a guitarra do Ry Cooder no Paris, Texas, o “electric dreams” do Phil Oackley e do Giorgio Moroder, a banda sonora do Blade Runner do Vangelis. Ali pelos 11/12 anos a minha influência musical era o Rodrigo Carmona e a sua predilecção por tudo o que fosse rock de lycra e cabelo comprido. Poison (“Unskinny Bop”, quem nunca…), David Lee Roth, malhas de guitarra e sintetizador. Bala! Depois, veio o liceu e a adolescência e as influências eram tantas como as angústias. Em Lisboa, mais concretamente em Benfica, no eixo Sete Rios, onde ficava o D. Pedro V, e o Fonte Nova, onde se passavam os serões no pátio ao lado do Califa, quando os pais deixavam a malta sair até depois das nove, os azimutes musicais eram tão dispares como os rótulos: The Cure e Stranglers para os góticos; Sepultura para os metaleiros; INXS para os betos; Guns n’ Roses para os surfistas; e Smiths para os alternativos, e eu era, em doses mais ou menos iguais, um pouco de cada um. Por essa altura, passavam na RTP, dois programas fundamentais para quem gostasse de ouvir e, principalmente, descobrir música. O Outras Músicas, programa do Jazzé Duarte, que passava na RTP 2 aos sábados de manhã, e o Popoff, com a presença inconfundível da Sofia Morais. Quer um quer outro foram instrumentais na minha descoberta e afirmação de um gosto musical ecléctico, despreconceituoso e, acima de tudo, intransigentemente livre. O Outras Músicas até me levou a ir assistir ao vivo, no grande auditório da Gulbenkian, a um concerto do Stockhausen. Ainda por Lisboa havia, claro, o Pedro Adão. O Pedro era detentor de duas coisas fundamentais – um invejável bom gosto natural e discos. O Pedro tinha os discos, comprava discos, e sabia tudo o que era novidade. Para alguém como eu, que parasitava gostos musicais diversos, a maturidade musical do Pedro era uma espécie de El Dorado existencial. Do género, quando for grande quero ser como o Pedro. A panóplia de sabedoria audiófila do Pedro ia desde ter uma t-shirt do Meat is Murder (ou seria do Queen is Dead?) dos Smiths, a discografia completa da evolução Joy Divison / New Order, até saber de cor a letra completa da “dança nua” dos Essa Entente. Num outro mundo paralelo, havia a adolescência açoriana. A minha dupla nacionalidade, açoriano em Lisboa e português em São Miguel, levou-me, desde pequeno, a passar metade do ano na ilha. Juntando Natal, Páscoa e os 3 meses de verão, o tempo passado na ilha era quase tanto como no continente, sendo que do ponto de vista musical foi, indiscutivelmente, muito maior. Perceba-se que ter 15 anos em 1989 significava ser contemporâneo de “3 feet High and Rising” dos De La Soul, “Doolitle” dos Pixies, “Bleach” dos Nirvana e o homónimo primeiro álbum dos The Stone Roses. Se, no mesmo ano, em Lisboa, se ouvia o “funky cold medina” do Tone Loc ou o “pump up the jam” dos Tchenotronic, quando não se cantarolava o “like a prayer” da Madonna ou o “if I could turn back time” da sempre jovial Cher. Nos Açores, o ambiente musical era pautado por diametralmente diferentes matizes, que iam desde a extasiante Madchester, aos experimentalismos de Zoviet France e Skinny Puppy, passando pelo hedonismo dos B-52’s e o obscurantismo satânico de Diamanda Galas. E, a malta absorvia tudo com igual sede. Toda esta banda sonora é indissociável, mais se calhar do que das pessoas, de dois carros: o Volvo 340GL(?) do pai do Bernardo Rodrigues e a Renault 4L dos “minhocas”. Esses dois carros, as repetidas viagens entre surfadas, entre festas nas Furnas ou nas Sete Cidades, entre a Cascata e a Caldeira Velha, entre a “cidade” e as nossas casas ou, imagine-se, entre o Populos e o Cheers, às vezes em recuo, foram a discoteca perfeita para a melhor formação musical de toda uma adolescência. Porra, a aparelhagem na 4L valia mais do que o próprio carro! Mas, sim, na verdade, o mais importante nisto tudo, mais do que as ondas que surfamos, os temas que escutamos ou as miúdas que amamos, foram as amizades que fizemos, entre os versos de Rimbaud, ou os lamentos de Lautreamont, entre as batidas do Jazzmatazz do Guru ou os riffs da guitarra do Noel Gallagher. E, ainda havia a Universidade e as cassetes para as namoradas e a X-FM e os discos comprados na Contraverso e depois na Amazon e na FNAC ou as cópias de Cd’s feitas no duplo cd recorder da Panasonic e as festas e as malas de discos e, e, e, …

Tudo isto a propósito do desafio facebookiano do Diogo Cymbron para escolher 10 discos que tiveram influência no meu gosto musical. Do que fica exposto, penso que fica também claro que tal escolha seria impossível, mas e mesmo apesar de ter a maioria da minha colecção de discos encaixotada, olho, de relance, os poucos que estão espalhados aqui por casa e escolho, apaixonadamente, 10:
Keith Jarret – The Koln Concert
Astor Piazzolla . Kronos Quartet – Five Tango Sensations
Oasis – Definitely Maybe
The Stone Roses – The Stone Roses
The Divine Comedy – Promenade
Kruder Dorfmeister – The K&D Sessions
Maxence Cyrin – Novo Piano

quarta-feira, maio 27

Tudo mudou



Olho pela janela, na direcção do mar, o céu azul, o sol pálido da luz da manhã, quase que não se vêem as cinzas do mundo que acabou de desabar. Quase se diria que nada mudou. A esta hora estaríamos a terminar o serviço dos pequenos almoços, os hóspedes fariam perguntas sobre os trilhos, as distâncias, um miradouro, um restaurante, o melhor peixe. Terminaríamos o serviço dos quartos, a ronda pelos emails, os pedidos de reservas, que agora não são mais do que repetidos alertas vermelhos de cancelamentos, cancelamentos, cancelamentos. Perguntas que se transformaram em pedidos de informação, se há voos, se estamos abertos, explicações sobre as restrições, as quarentenas, tentativas frustradas de traduzir para inglês portarias que nem em português são inteligíveis. Orientações descabidas de Autoridades que não sabem, ou não querem perceber, que o Turismo é a arte de bem receber e não a da Xenofobia. Que um hotel não é uma enfermaria. Que para fazer um almoço é preciso vender cinco. Que não há açorianos suficientes para encher os hotéis de São Miguel e que os continentais, que eles enxotam são, sempre foram, o nosso principal mercado emissor. E, quanto mais tarde se aperceberem disso, já todos foram para o Algarve, para o Gêres ou para o sudoeste Alentejano. Mas, tal como os “apoios” do Governo, também o sol é enganador e o mar sem ondas esconde a verdadeira tempestade. O Mundo todo à nossa volta mudou, mesmo que no covil do desespero alguns queiram, à força, regressar a essa errónea “nova normalidade”.

segunda-feira, maio 25

Manual de Simpatia


Voltemos, então, às metáforas bélicas. Nesta primeira grande-guerra do Covid, a primeira vítima, passe a repetição, foi o Turismo. Qual soldado raso de infantaria, o Turismo foi o primeiro na linha de fogo. Companhias aéreas, agências de viagens, hotéis, alojamentos, animação, restaurantes, tuk-tukes, e tantas outras actividades conexas, foram os primeiros a ser lançados na trincheira do confinamento e a sofrer o ataque, inclemente, dos obuses do distanciamento social. Neste admiravelmente asséptico “novo normal”, a Indústria da Hospitalidade é, ela própria, uma impossibilidade, um anacronismo, para o qual olharemos com saudade ou estranheza. Num tempo que nos obriga a andar de cara tapada, uma actividade cuja mercadoria é o sorriso, cuja moeda de troca é a cortesia, não tem, digamos assim, viabilidade económica.

Mas, seria injusto apontar culpas directas a um determinado governo pelo súbito colapso desta Indústria. Não foi só um ou outro Estado, ou região, que se fechou sobre si próprio. Foram todos os países ocidentais que, de um dia para o outro, suspenderam aquilo que era o oxigénio do turismo mundial – a livre circulação de pessoas. Porém, há, obviamente, diferenças, nuances, de país para país, de região para região, quer no grau de preocupação, como na rapidez do auxílio ou, até, na atitude geral para com a necessidade, para não dizer a vontade, de reinventar o sector.

O caso dos Açores é particularmente paradigmático de como o autismo do governo cavou, ainda mais fundo, a sepultura do Turismo. Fechados na sua bolha de preocupação clínica, obcecados pela demanda de cobrir as ilhas num imenso manto de descontaminação, Presidente do Governo e Autoridade de Saúde, tudo fizeram para fechar, isolar e desinfectar os Açores do perigo estrangeiro. Encerramento de aeroportos, cancelamento de voos, quarentenas obrigatórias, quarentenas “voluntárias”, e até, cúmulo dos cúmulos, apelos abertos e sem vergonha a que “as pessoas não se desloquem à região”! Como se já não fosse bastante, para a eutanásia do sector, a inadequação, insuficiência e, até mesmo, a clara injustiça dos parcos apoios de Estado, que em muitos casos mais não eram do que certidões de óbito encapotadas, o último prego no caixão foi, de facto, a forma como, com cada palavra e cada gesto, os responsáveis políticos regionais, foram regando a semente xenófoba que medra, mais ou menos timidamente, dentro de cada açoriano.

No que concerne aos apoios, desde o seu início se percebeu que não passavam de um eufemismo, para não dizer um logro. Pensos rápidos para tratar uma gangrena. A tentativa, desesperada, de conter os despedimentos, com layoffs, e só até ao final do ano, não visa proteger trabalhadores ou apoiar empregadores, busca apenas garrotar as estatísticas do desemprego até depois das eleições. Para além de que esquece todos os outros imensos custos mensais que sobrecarregam as empresas, como, por exemplo, a conta da EDA que nos Açores chega a ser obscena. Ou os custos de manutenção. Nestas ilhas em que a humidade se mede em metros cúbicos e não em percentagem, bastam dois dias de porta encerrada para crescer cabelo nas paredes de uma casa. Experimentem abrir uma porta no Nordeste depois de três meses fechada, a humidade entra-vos pelas narinas como uma má anfetamina. Por outro lado, incentivar o crédito a empresas já de si endividadas ou, cereja em cima do bolo, limitar os apoios a um critério de ausência de dívidas ao Estado, são tudo provas de como a última das preocupações deste governo, desde o Palácio de Santana ao Alto das Covas, é ajudar o Sector do Turismo. E, nem vale sequer a pena falar do Edifício CTT, onde, em total alheamento da realidade em que estamos metidos, a Secretária da Energia, (que certamente não leu a entrevista do Jorge Rebelo de Almeida ao Negócios, anunciando o cancelamento do investimento do Grupo Vila Galé no antigo Hospital de Ponta Delgada...) andava, ainda na semana passada, pasme-se, a enviar emails ao Trade, perdoem o jargão, a pedir contributos para um manual de boas práticas, enquanto todo o resto do país, Madeira na frente, já se prepara para abrir, se é que já não abriu, ao Turismo.

No entanto, o mais grave disto tudo, como se tudo isto não fosse já suficientemente dramático, é, sem margem para dúvidas, esse sentimento generalizado que se disseminou pela população, sustentado pelo discurso e acção do governo, de repulsa, renuncia e pura antipatia para com os que são de fora, e que extravasa de cada comentário a favor do isolamento geográfico das ilhas, como se este fosse, em si mesmo, uma vantagem e não a fatalidade que realmente é. Numa região que até há pouco mais de 20 anos vivia enclausurada nos seus xailes negros, numa região que, mesmo entre si, gosta de alimentar o odiozinho de ilha para ilha, numa região onde até há tão pouco tempo o exemplo máximo de bom atendimento num restaurante era o “vás comê e vás gostá”(!), nesta região, a postura conjunta da tríade Autoridade de Saúde, políticos e (perdoa-lhe Senhor que ele não sabe o que diz) Cónego Borges, em toda esta birra das ligações com o continente, deu cabo, quem sabe se por muitos e bons anos, daquilo que é o bem mais precioso de um Destino, e não, não estou a falar das belezas naturais ou da sustentabilidadezinha, estou a referir-me à arte de bem receber, a pura, simples e genuína, afabilidade. Aquilo que é, afinal, o ouro de qualquer Destino – a simpatia.

A simpatia, a hospitalidade e o bem receber, não se recupera com carimbos sanitários, nem com luvas de plica e máscaras comunitárias, nem com vídeos pseudocómicos com a Teresa Guilherme, nem sequer com anúncios empacotados em aviões da Ryanair à saída de Ringway. Ninguém quer ir a onde não será bem-vindo. E, foi essa mensagem – não queremos cá ninguém! – que andaram, Vasco Cordeiro, Tiago Lopes, até José Manuel Bolieiro, a passar durante estes dois meses e meio, mais o próximo que aí vem até ao início de Julho. A minha falecida avó, costumava dizer que "era preciso uma vida para se construir um 'bom nome', mas que bastava um dia para o perder". Aos Açores bastou um vírus com nome de cerveja. Que Deus lhes perdoe, a mim falta-me a paz de espírito para perdoar…

sábado, maio 23

Do desconfinamento


Num artigo, na revista Scientific American, sobre a evolução da pandemia de Covid-19, a epidemiologista e bióloga evolucionista da universidade de Chicago Sarah Cobey declara que “a questão sobre como a pandemia se desenrolará é pelo menos 50% científica e outros 50% social e política”. No fundo, o que a ciência e a história de passadas pandemias nos dizem é que na inexistência de uma vacina ou, havendo uma, da vacinação massiva dos 8 biliões de seres humanos do planeta, o vírus irá tornar-se endémico, circulando e infectando pessoas sazonalmente. Perante isto, a abordagem ao vírus depende, em igual medida, dos avanços científicos, quer na criação de uma vacina como, e mais importante, no desenvolvimento de medicamentos antivirais, que permitam o tratamento, bem-sucedido, dos infectados. Como, também, dos comportamentos sociais e das opções políticas. Neste aspecto, a questão do sucesso das medidas de confinamento, como forma de ganhar tempo, depende, em grande medida, do momento em que são impostas, pelos decisores políticos, e da sua aceitação e cumprimento, pela população. No mesmo artigo, é admitido que as medidas de confinamento foram mal sucedidas na Europa, ao contrário do que aconteceu em Hong Kong e na Coreia do Sul, porque foram impostas tarde de mais. Ainda sobre medidas de confinamento, Anders Tegnell, o já famoso epidemiologista sueco, em resposta a uma pergunta de Fareed Zakaria sobre se a opção da Suécia de não impor o confinamento tinha sido por razões económicas, Tegnell respondeu, peremptoriamente, que não, que essa opção era apenas baseada na percepção de que quaisquer medidas que fossem tomadas, para controlar a epidemia, teriam que ser sustentáveis no tempo, uma vez que a epidemia iria, como se pode constatar, prolongar por tempo indeterminado. Tegnell é também extremamente explícito na afirmação de que o seu papel é apenas de conselho, são os políticos que tomam as decisões, e não ele. Nesta altura de mais ou menos desconfinamentos, vale apena pensar sobre estas questões, agora que somos todos “suecos”. O confinamento e, por maioria de razão, o isolamento ou, no caso açoriano, o grande fechamento das 9 ilhas, não são um tratamento, são apenas medidas profiláticas, que teriam, tem, necessariamente que ser tomadas por um curto espaço de tempo, sob pena de, como se constata, os seus efeitos psicossociais e económicos serem ainda mais devastadores do que a, felizmente baixa, taxa de letalidade do vírus. O confinamento não é mais do que uma medida para conter a infecção permitindo, no entretanto, que os sistemas de saúde, as organizações políticas e a sociedade, como um todo, se possam preparar para a fase de disseminação da epidemia. Nos Açores, ao fim de praticamente dois meses e meio de confinamento, não temos qualquer informação sobre como o nosso sistema regional de saúde se apetrechou para efectivamente “combater o vírus”, essa expressão que tantos os políticos como a Autoridade de Saúde, essa entidade abstracta e de pulloveres coloridos, tanto gostam de usar. Não sabemos se foram montados hospitais de campanha para tratamento exclusivo dos infectados, libertando assim os hospitais para o seu funcionamento normal. Não sabemos se estamos devidamente capacitados em matéria de equipamentos de protecção, medicamentos, testes ou outros materiais imprescindíveis para o rastreamento e tratamento de pessoas infectadas. Nem sequer sabemos que medidas especificas foram tomadas para os grupos de risco, nomeadamente idosos, em especial os lares. Apenas sabemos que tivemos 146 casos confirmados de Covid-19 e 16 óbitos, sendo estes últimos praticamente todos num lar de idosos no Nordeste. No entanto, ao mesmo tempo e agora que vamos tateando no ar, vendados e a medo, o caminho do desconfinamento, conseguimos todos pressentir que há um outro inimigo, igualmente invisível e mortal, a crescer exponencialmente por entre os interstícios do nosso tecido social e económico, o vírus da brutal crise económica em que o confinamento nos mergulhou e do qual a morte por eutanásia governativa do sector do Turismo é apenas uma pequena parte, embora a que tem, para já, maior visibilidade e peso. E, pressentimos, igualmente, que, para esse outro vírus, para essa outra crise, do chamado “novo normal”, o Governo dos Açores, continua a não ter nem puta ideia do que fazer, só que agora com a agravante de que já não há “isolamento profiláctico”, seja ele voluntário ou não, que o ampare…  

sábado, maio 16

Equivalente ao espaço entre as orelhas...




Ao nosso redor o Mundo todo está a desabar. Por força dos múltiplos confinamentos, isolamentos e tantos outros ditames da ditadura sanitária, a Economia, desde a mercearia de bairro à grande empresa multinacional, travou a fundo, projectando-nos violentamente pelo para-brisas, em direcção ao asfalto, como passageiros sem cinto, no lugar do morto, de um carro na iminência de colisão. Lay-off, desemprego, brutal perda de rendimentos e ausência absoluta de verdadeiras ajudas de Estado, transformaram-nos em meros corpos ensanguentados, entre metal retorcido, num acidente de estrada. No meio desta dantesca realidade, o PS Açores decidiu fazer humor, publicitando nas redes sociais, com bonomia e um sorriso, pequenos memes sobre distanciamento social. Confortavelmente abancados nos seus salários em dia, os jovens assessores da vida partidária, (muitos deles transitaram directamente dos recreios dos liceus para os corredores do poder) entretiveram-se a plagiar imagens anedóticas, para ensinar os açorianos a distanciarem-se convenientemente uns dos outros, com ícones da vida insular como vacas, queijos, hortênsias e atuns. Esta palermice do PS-A é triste e insultuosa, desde logo porque o PS-A não é uma associação de estudantes, nem um grupo de comediantes, numa qualquer sala das Produções Fictícias, à espera de se transformar nos Gato Fedorento, até porque, para isso é preciso talento. O PS-A é um partido político e é o partido que governa os Açores. A exigência de consideração, seriedade e de responsabilidade perante o momento que vivemos é ainda maior para o Partido Socialista dos Açores. O partido que suporta o Governo da região, no momento mais dramático das nossas vidas, não se pode comportar como um adolescente imberbe, fazendo pouco das centenas de pessoas que viram as vidas suspensas, ou até totalmente destruídas, por esta crise e, imperdoavelmente, das dezenas de outras que perderam entes queridos nesta pandemia. Esta idiotice é inadmissível porque não há piada, não há humor, não há sequer um pingo de riso no confinamento forçado e no espectro fúnebre da pobreza que paira hoje, como uma guilhotina, sobre a população. Esta verdadeira marie-anttoinetice é, também, um insulto parvo e é-o porque trata os açorianos como imbecis que precisam de desenhos para compreender a ideia de distanciamento social e este é, provavelmente, o aspecto mais grave de toda este lamentável episódio. É que, a ser assim, os responsáveis do PS-A, desde os seus jovens criativos, aos seus históricos militantes, passando por “ilustres” dirigentes, não percebem que se existem hoje nos Açores cidadãos que precisem deste tipo de mensagem para compreender a gravidade do momento ou a seriedade das medidas a adoptar, tal só se pode ficar a dever, única e exclusivamente, ao total e absoluto falhanço das politicas educativas, sociais e económicas do próprio PS-A que, ao fim de 25 anos de poder, o tempo de uma geração, não conseguiu puxar para cima uma grande fatia da população dos Açores, seja nos índices de pobreza como no nível de escolaridade, ou na civilidade própria da mais básica cidadania. Estes memes, estúpidos e fúteis, são como Nero, tocando a sua lira, enquanto Roma ardia…

Slogans for the 21st Century


Douglas Coupland