quarta-feira, outubro 28

A Autonomia no seu Labirinto

 

foto André Kosters/Lusa

André Ventura é muitas coisas, mas se há dom que não creio que tenha são poderes premonitórios. No entanto, foi dele a declaração que adivinhou o resultado das eleições de Domingo passado. “Um terramoto”! Se calhar mesmo, um verdadeiro abalo tectónico na tessitura político-partidária da região.

Para o PS e para Vasco Cordeiro estas eleições começaram, provavelmente, a ser perdidas em 2012. A verdade é que Vasco Cordeiro nunca conseguiu afirmar plenamente uma identidade própria dentro do projecto socialista, tanto no Governo, como no próprio partido. A herança Cesarista, que no partido nem herança foi, mas antes uma presença e um dominio constante, nunca permitiram que Vasco Cordeiro marcasse uma liderança, uma estratégia e uma personalidade própria que lhe possibilitasse autonomizar a sua governação dos 24 anos de governação socialista. Isto pode parecer incongruente, mas essa ligeira nuance, a governação e o partido de Vasco Cordeiro, teria feito, certamente, toda a diferença. O PS e a governação socialista foram sempre de Carlos Cesar e nunca de Vasco Cordeiro. Isso viu-se na longevidade de Sérgio Ávila, na omnipresença de Carlos Cesar, na incompreensível e absurda telenovela da “Casa da Autonomia” e da sua Estrutura de Missão comandada à tripa forra por Luísa Cesar e na ascensão e autoridade desenfreada de Francisco Cesar. Ao mesmo tempo, causa igual tristeza e estranheza a forma como Vasco Cordeiro foi, sucessivamente, triturando figuras com gabarito, validade intelectual e política, competência e projecção na sociedade açoriana. Desde os Governos, às listas de deputados, às empresas públicas e tantos outros cargos com maior ou menor visibilidade, a fúria autofágica de Vasco Cordeiro criou um imenso exército de descontentes e de ressentimentos. Assim de cabeça lembro-me de nomes como Fagundes Duarte, Piedade Lalanda, Luís Cabral, Nuno Domingues, Pilar Damião, João Roque Filipe, Nuno Mendes, Miguel Cymbron, António Gomes de Menezes, Fausto Brito e Abreu. E, mais recentemente, os casos de Filipe Macedo ou da limpeza nas listas de deputados, que correu, sem apelo nem agravo, com Renata Botelho, Graça Silva e Sónia Nicolau, sem que se soubesse da mais pálida justificação. Ao mesmo tempo, que uma série de outras figuras eram candidamente protegidas e apaparicadas, fossem quais fossem, e foram muitas, as asneiras, para usar um termo suave, que cometessem. De que, para mim, o caso mais dramático e paradigmático foi a dupla Vitor Fraga e Francisco Coelho. Um mistério que só possivelmente a história elucidará…

O caso das listas de deputados merece um breve comentário. Não sei porque cargas de água criou-se uma ideia de que as ditas listas, em lugar de serem feitas por pessoas competentes, sejam militantes ou independentes, têm de ser espelhos mais ou menos turvos da diversidade geográfica e socioprofissional das ilhas. Em lugar de ter um grupo coeso de políticos, as listas de deputados tornaram-se numa sopa da pedra, feita de personalidades avulsas, cuja mais valia política é a fama na junta, no clube de futebol, na agremiação e no café da freguesia ou até, como nesta última, no Youtube… o resultado final e mesmo contando os lambe-botas e os vira-casacas são grupos parlamentares de fraquíssima qualidade, como é agora o caso do futuro grupo parlamentar do PS. Embora, diga-se que, neste particular, o PSD é igual…

Se juntarmos a isto tudo a Governação errante, os dossiers polémicos, as suspeições judiciárias e, piece de resistance, a debacle da SATA, ou a malfadada Covid, tudo estava lá para pressupor que a noite de 25 seria amarga para o PS, embora, nem mesmo eu acreditasse que podia ser tão amarga. Vasco Cordeiro chega assim ao seu último mandato, se é que o vai ser, e para usar a imagem do timoneiro, que ele próprio escolheu, como um naufrago, desidratado e andrajoso, lançado sobre a areia da praia, arfando por água, sombra e cuidado. Com menos 5 deputados, sem tábua de salvação à esquerda e com a direita enraivecida e salivante, silvando como hienas, pelo sangue socialista, as hipóteses de formar um governo estável são praticamente nulas. Tirando, obviamente, a possibilidade de, humildemente, propor um entendimento ao centro. Um governo de Bloco Central, com Bolieiro a Vice-presidente, mais uma ou duas pastas para o PSD, inclusive dando-lhes a presidência da ALRAA e estendendo esse entendimento à sociedade civil, numa grande coligação autonómica para navegar essa imensa tempestade económica e social que aí vem. Se qualquer dos protagonistas ou dos partidos que estão neste momento na contenda puser, de facto, os interesses da região à frente dos do seu partido ou dos seus pessoais, era isto que devia fazer. E daqui a quatro anos, queira Deus já sem Covid, quem tiver as melhores unhas tocará sozinho a guitarra. Qualquer tentativa de governar isolado ou em coligações negativas morrerá à primeira dificuldade que, ou muito me engano, será já a breve trecho com o borregar da SATA…

Quanto à suposta maioria de direita a verdade é que ela não existe. O que há, neste novo quadro parlamentar, é uma maioria anti-PS. Sendo que, para além disso, o CHEGA não é de direita. O CHEGA é de extrema direita! E, embora seja aceitável a sua presença no parlamento, é a vontade de 5% dos eleitores, não é já, de forma alguma, admissível que os restantes partidos se aproveitem do CHEGA, legitimando com esse gesto o fascismo latente do partido do Dr. Ventura, para assaltar o poder. Por outro lado, embora muitas das suas principais figuras venham do CDS e do PSD, é um erro pensar que a Iniciativa Liberal encaixa nas visões tradicionais de esquerda e direita. Tal como, também tenha as minhas duvidas, que o PAN possa ser entendido como um partido de esquerda. A haver um entendimento das direitas, não será uma maioria, nem tão pouco uma geringonça, será antes uma coligação negativa com o único intuito de tirar o PS do poder e acabar, de uma vez por todas, com o reinado da família Cesar. Embora, neste último particular, eu até possa estar de acordo com a necessidade política desse culminar, essa não será certamente a forma correcta de o fazer e seria, proverbialmente, deitar fora a região com a água do banho…

Quem tem, neste momento, a responsabilidade de fazer as pazes com o seu passado, deixando no passado o que lá deve estar, com o que de bom e de mau as suas lideranças tiveram, é o próprio Partido Socialista. Há uma democracia interna para conquistar dentro do Partido Socialista dos Açores, e essa libertação, se não for iniciada pela liderança tem que o ser pela militância. Figuras como Cristina Calisto, Rodrigo Oliveira, ou mesmo Andreia Cardoso, são hoje esperanças para um futuro PS, que seja mais solidário, mais aberto e mais justo.

Esperemos para ver. Os próximos tempos políticos destas nove ilhas serão certamente duros, mas indubitavelmente interessantes. Viva a Democracia! E, agora mais do que nunca, Viva o PS!

sábado, outubro 24

O Político


Daniel Pelavin, Brand of the Year.


O jovem Payton Hobart tem uma ambição: ser presidente dos Estados Unidos da América. Sem sentimentos ou ideologia, alinhava meticulosamente o seu futuro como ocupante da Casa Branca agarrando oportunidades, mimetizando comportamentos e apoiando causas promotoras de votos. Payton é um Pinóquio forrado a latex, um adolescente rico e mimado num cenário Vanity Fair, um político para a geração Greta Thunberg, tal como o imaginaram Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan na série The Politician (Netflix, 2019).

Nesta comédia negra e delirante assistimos ao making of de uma campanha política, às jogadas de bastidores entre concorrentes, às disputas por atenção entre a entourage de serviço, à valorização da imagem e do suporte digital, ao redesenho de convicções ao sabor do espírito do tempo, à urdidura de discursos à medida do elemento decisivo: o eleitor. Para o político, apenas o eleitor conta e vale tudo para o fazer riscar uma cruz no quadrado que valida a sua ambição. Ambição de um e de outro. Se ao político importa somar votos, ao eleitor importa somar expectativas, escolher, com cinismo ou empatia, quem oferecer mais garantias de as tornar efectivas e selar essa relação por interesse nas urnas.

quinta-feira, outubro 1

a pandemia real


Ainda sobre esta traiçoeira estratégia de fazer depender o voto da gestão da pandemia vale a pena reter uma mensagem. Há poucos dias, no programa Linha da Frente, da RTP, a jornalista Mafalda Gameiro assinou uma reportagem impressionante intitulada “quando o açúcar amarga”. A reportagem foca-se no caso de Tiago, um jovem funcionário administrativo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a ganhar o salário mínimo e na sua luta contra a obesidade. Tiago tem 40 anos, um metro e sessenta e oito e pesa 134 Kg. Ao longo da reportagem somos confrontados com a descrição dos anos de comportamentos aditivos do Tiago, a má alimentação, o historial familiar de obesidade, a diabetes tipo II, a dependência do açúcar, que funciona como calmante, os alimentos processados, as 90 gr por dia, 630 por semana, de consumo de açúcar, o índice de 24.5 de gordura visceral do Tiago quando o nível máximo recomendado é 12… A reportagem conta-nos a história da tentativa de Tiago de mudar a sua vida, a consulta na nutricionista, o ginásio, as mudanças nos hábitos alimentares e conta também a história dessa desintoxicação, da irritabilidade, da ansiedade. E explica, com clarividência, como a nossa sociedade está armadilhada pelo tráfico dessa droga chamada açúcar. A diferença exorbitante no preço entre alimentos ditos “saudáveis” e os outros. 1 pacote de massa integral: 1,49€; um pacote de massa corrente: 0,39€! A extrema dificuldade em encontrar alimentos “limpos” de sacarose e outros derivados. A inteligibilidade dos rótulos, que são feitos para não poderem ser traduzidos, reduzindo a percetibilidade ao máximo, quando deveria ser o contrário e de como a indústria se acantonou no vício para produzir lucros. Em Portugal o consumo médio diário de açúcar e de 85 gr quando o consumo recomendado pela OMS é de 25 gr. Em Portugal, ainda, 90% das crianças e jovens consomem açúcar excessivamente! Apesar de tudo isto o esforço de Tiago é recompensado, ao fim de 6 semanas emagreceu 8 Kg. Mas então, o desastre acontece. Em Março a histeria da Covid leva ao confinamento. Tiago, considerado grupo de risco devido à diabetes e hipertensão é forçado a ficar em casa. Perde o subsídio de alimentação, o ordenado é reduzido para 500€, desses 300€ são para renda da casa, mais as despesas correntes, luz, água, comunicações, restam-lhe pouco mais de 100€ por mês para alimentação. Tudo vai por água abaixo. Seis meses depois Tiago abandonou a dieta e voltou a ganhar 10 Kg. Esta é a verdadeira realidade da luta contra a pandemia. Esta é a vida real, de quem anda na rua e trabalha e vê a sua vida destruída pelos desmandos do Estado. Esta é a dor de uma pessoa, longe dos gráficos do telejornal e dos sermões altivos dos apresentadores e dos primeiros-ministros ou dos jovens aprendizes de feiticeiros e candidatos a mais um mandato no parlamento regional. Isto é o que a gestão da pandemia, a luta contra a Covid, fez à vida das pessoas…

quarta-feira, setembro 30

a pandemia como estandarte eleitoral

 


Muito haveria a dizer sobre o debate da RTP-A de ontem e mesmo sobre os outros 8 debates anteriores, a começar, desde logo, por essa autêntica farsa insultuosa dos cabeças de lista por São Miguel não terem marcado presença, quando os próprios debates foram anunciados e promovidos pela RTP-A como sendo com os cabeças de lista por ilha, tal como foram os anteriores 8, e como deveria inevitavelmente de ser. Um momento que ficará na história como pináculo do desrespeito pela democracia, o regime parlamentar e a inteligência do povo açoriano. Mas, foquemo-nos no momento final, na fantabulástica declaração de apelo ao voto de Francisco Cesar. Nesses curtos segundos de retórica televisiva o secretário coordenador de ilha do PS, ex-líder da bancada parlamentar, número cinco da lista, suposto futuro secretário regional da economia, com tutela do turismo, e putativo candidato a líder do PS-A e a Presidente do Governo, reduziu 24 anos de governação e de propositura de mais 4, aos seis meses de gestão da pandemia. Para Francisco Cesar a razão para se votar no PS-A é “porque o Governo do PS foi eficiente no combate à pandemia”. Esta eleitoralização da doença, da dor, do medo é, também ela, mais do que um insulto, uma manipulação pérfida e maquiavélica da luta política e da transparência democrática. Já todos tínhamos intuído que seria este o caminho que o PS quereria percorrer, os sinais estavam todos lá, desde os idos de Março, e foram-se adensando à medida que o tempo ia e for passando até chegarmos ao dia 25. E, é precisamente por isso que é preciso desmascarar e combater esta estratégia. O PS-A e Vasco Cordeiro deveriam apresentar-se a estas eleições como o partido e o líder melhor preparado para continuar a governar os Açores num esforço para equilibrar o crescimento económico com a sustentabilidade e o desenvolvimento social. Criando riqueza e sabendo redistribui-la em benefício das populações, do Corvo a Santa Maria. Em lugar disso, o PS-A, opta por se agarrar à narrativa pandémica, pontilhada de pânicos, receios e outras veladas ameaças, querendo ser o contraponto para uma doença que ele próprio criou. À cabeça é preciso dizer, de forma clara e corajosa, que o PS-A e Vasco Cordeiro não geriram bem a pandemia. Limitaram-se a impor o pânico e o fascismo sanitário, destruindo com isso a economia e fazendo ao mesmo tempo retroceder em décadas a mentalidade e a abertura da sociedade açoriana. Por outro lado, a resposta à catástrofe económica, sempre a reboque de Lisboa, de mão esperançosamente estendida à espera das bem-aventuranças de Bruxelas, demonstrou à saciedade como o único objectivo das medidas era eleitoral e não um verdadeiro auxílio a empresas e trabalhadores. Mas, se o argumento pandémico é mesmo o estandarte eleitoral que o PS-A quer utilizar analisemos então a prestação do partido e da sua governação neste âmbito. Nos Açores as principais causas de morte são as doenças cárdio-vasculares (45,7%) e os tumores (24,5%). A montante destas causas de morte estão duas explicações profundas nomeadamente a diabetes e a obesidade. Ora os Açores têm não só 70% da população com excesso de peso como apresentam a pior incidência de morte por diabetes de todas as regiões da Europa, 74 por cada 100 mil habitantes, uma verdadeira epidemia contra a qual em 24 anos de governação muito pouco ou quase nada tem sido feito, nem consta que a Autoridade de Saúde a isto tenha dado relevância! Bastava isto para se perceber que em matéria de pandemias o PS-A tem tudo menos um bom registo governativo… Custa-me dizer isto e custa-me dizê-lo com esta brutalidade mas este PS, com esta estratégia, não merece ganhar estas eleições e, o pior, é que os outros partidos também não. Para usar um slogan antigo – “merecíamos políticos melhores”…


sexta-feira, setembro 11

para onde?

 


Quem conheça minimamente Vasco Cordeiro de certeza que já o escutou, de sorriso rasgado e emanando força e convicção, a usar a expressão “p'rá frente é que é caminho!”. Essa pujança anímica, que não é apenas física, é um dos seus traços distintivos de carácter, talvez só comparável à sua crónica e antagónica indecisão. O problema é que se essa força obstinada, de seguir em frente, é boa nas arruadas, e quem já fez arruadas com Vasco Cordeiro sabe o quão difícil é acompanhá-lo, na governação, onde o que se exige é calma, ponderação e bom senso, essa impulsividade já não é uma característica tão, digamos assim, abonatória. Se a isto juntarmos o facto de estarmos, e irmos continuar, a viver a pior crise das nossas vidas não pode deixar de causar imensa estranheza a escolha deste estribilho para slogan desta campanha eleitoral. A questão que imediatamente se coloca, ao ouvir este refrão, é: “mas para onde?”. E, a verdade é que nem Vasco Cordeiro, nem o PS, sabem responder a esta pergunta. Ou, então, sabem, mas não arriscam responder, o que é manifestamente pior…

Quando, há oito anos atrás, Vasco Cordeiro se candidatou pela primeira vez à Presidência do Governo Regional dos Açores a Região estava à beira da tempestade perfeita, assolada por três dossiers fundamentais e potencialmente demolidores em cima da mesa política, a saber, o fim das quotas leiteiras; a revisão do acordo da Base das Lajes; e a liberalização do espaço aéreo. Em boa verdade, nem nenhum destes assuntos foi resolvido a bom termo como a eles se juntou a já referida mega-crise económica. É como se estivéssemos há oito anos a andar p'rá frente, sem saber para onde exactamente, e sem nunca tratar efectivamente do que precisa de ser tratado. A reconversão do sector leiteiro é uma espécie de eterna miragem, constantemente no horizonte dos discursos e das intenções políticas, mas nunca alcançada. A Base das Lajes transformou-se num processo tão interminável tanto quanto a descontaminação, servindo de letra de música a um bailinho de investimentos cuja repercussão económica tarda, se não nunca, em se fazer ver. O espaço aéreo colocou-nos à mercê de duas companhias aéreas falidas e da Ryanair. Todos estes problemas, mais anúncio aqui, mais milhão acolá, mantêm-se fundamentalmente por resolver, um pouco à imagem dessa obra de Santa Engrácia no Palácio da Conceição que, se continuarem a escavar, certamente um dia encontrarão ou a Nova Zelândia ou, para gáudio de Felix Rodrigues, os restos da Atlântida. Depois, em cima de tudo isto, repito, a mastodôntica crise económica. E, como é que é possível, pergunto eu, perante tudo isto, o PS impele-nos a ir em frente, de forma cega, firme e obediente, como se ovelhas para o matadouro.

Mas, se é que tudo isto não fosse já suficiente para fazer parar os mais avisados, há uma outra questão que se levanta perante este malfadado slogan. É que, este é o último mandato de Vasco Cordeiro, que, daqui a quatro anos, encontrará no correio um bilhete para Bruxelas, se Bruxelas ainda existir. Ora, é caso para perguntar outra vez: “p'rá frente é exactamente para onde?”. Há oito anos atrás Carlos Cesar tinha dois sucessores claros, com um outro Contente a correr por fora. Sérgio Ávila e Vasco Cordeiro. A escolha recaiu sobre quem sabemos e uma das teorias da conspiração que surgiu nessa altura, e que se mantém até hoje, sem nunca ser desmentida, foi de que o acordo entre Cordeiro e Cesar era de que o primeiro assumisse a função de príncipe regente até entregar o ceptro de volta a Cesar, mas neste caso Cesar Júnior. Perante este cenário uma das questões que é não só legitimo como imperioso colocar ao Partido Socialista, nestas eleições, é quem serão os sucessores de Vasco Cordeiro e se, na frente do Partido, não estará já legitimado um sucessor do trono paternal? Se este “p'rá frente é que é caminho” mais não é do que uma pulsão frenética para que não se olhe à estratégia quase monárquica de entregar o partido e, quererão eles, a governação dos Açores nas mãos do príncipe herdeiro da casa de Vale (tudo) Cesar?

É que se é isso que Vasco Cordeiro e o PS querem por à nossa frente, então que o digam clara e simplesmente, porque eu, pelo menos, não vou por aí…

domingo, setembro 6

a epistemologia dos factos


Não o posso confirmar com absoluta certeza, mas das muitas coisas que a Covid nos levou, a primeira talvez tenha sido a ponderação e o bom-senso. Uma mistura abanada de desconhecimento e medo transformaram-nos a todos em pólos opostos de um yin-yang de palpites, convicções de rede social e certezas assertivíssimas à lá Rodrigo Guedes de Carvalho. De um lado os paladinos do bem, os arautos da Saúde Pública, as Autoridades magnânimas e infalíveis que defendem o bem e a Vida, excepto dos velhinhos, coitados, largados ao fétido abandono de lares como o de Reguengos ou o do Nordeste. Do outro nós, cidadãos, mais ou menos remediados, mais ou menos instruídos, mas que por termos dúvidas, por não aceitarmos os “factos” ou por vermos a vida a desaparecer-nos debaixo dos pés, fazemos perguntas e somos, por isso, imediata e inapelavelmente apelidados de Trumps e Bolsonaros. Algures, entre o começo disto tudo e agora o bom-senso desapareceu. A ponderação deu lugar ao autoritarismo arrogante e o diálogo, o debate de ideias, foi totalmente obliterado pela ditadura da bipolarização ideológica dos paladinos do fascismo higienista. Ou estás comigo ou és um Trump ou, pior, um Bolsonaro. Isto porque a tentativa de exposição ao ridículo sempre foi uma boa forma de bulliyng, principalmente porque nos poupa de pensar numa argumentação. Ou então é apenas pelo facto de Stefan Lofven ou Anders Tegnell serem nomes mais difíceis de pronunciar e personalidades menos conhecidas do cidadão comum. Já agora, os dois senhores são o Primeiro-ministro e o epidemiologista chefe da Suécia, um país com o qual é sempre mais difícil fazer chacota. Mas há um outro problema nesta táctica política da banalização do adversário. É que, a ciência não se faz com certezas, mas com hipóteses, e aquilo que é facto num dia pode já não o ser no seguinte. Veja-se o caso das máscaras, que primeiro eram contraproducentes e desnecessárias e que depois se tornaram obrigatórias. Mesmo depois dos imensos alertas de médicos e especialistas para os perigos do seu uso continuado, da sua inutilidade e até o malefício do uso em espaços abertos, as máscaras tornaram-se indispensáveis e imprescindíveis e preparamo-nos para torturar milhares de miúdos, e outros habitantes do Universo escolar, com o uso diário de máscaras entre 6 a 8 horas por dia, isto apesar de haver um consenso mundial de que as crianças e jovens não constituem um grupo de risco e de que o uso de máscaras pode ter consequências nefastas na oxigenação do cérebro e na concentração. Hoje, o mundo está dividido em dois tipos de idiotas: os que usam as máscaras e os outros, nós, iguais idiotas, que usamos as máscaras mesmo sabendo que são idiotas, as máscaras e nós com elas. Isto, é um facto! Como todos os epidemiologistas tem dito a análise de uma pandemia só se faz no fim, mas a mim o que me incomoda é essa confiança cega no “prá frente é que é caminho” mesmo quando não se conhece o que está à frente e, pior, quando o que fica para trás é um estranho e doloroso odor a terra queimada.  

quarta-feira, setembro 2

LIBERDADE(S)

No passado dia 14 de Julho assinalou-se o “Dia Mundial da Liberdade de Pensamento”. Por muito louváveis que sejam os princípios subjacentes à prática revisionista de rebatizar os dias do calendário Gregoriano, nunca aderi de corpo e alma à instituição desta voga, pois sempre tive as maiores reservas a qualquer tipo de catecismo, seja ele religioso ou laico. Dito isto, correspondi (malgré tout) com todo o gosto ao pedido/convite da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UAç para escrever um pequeno texto alusivo à data, destinado a publicação na sua respetiva página do Facebook. 

Nunca frequentei, nem frequento, essa plataforma digital que, por antonomásia, designa o admirável mundo novo das redes (e relações) sociais. Prefiro deixar inscrita a minha irrelevante pegada digital noutras plataformas marginais, quase tão desertas como um apeadeiro da linha ferroviária do Coa, de que é exemplo este blog coletivo, a que muito me orgulho de pertencer, e que nos seus dias de glória, há cerca de 15 anos atrás, tinha a sua caixa de comentários inundada por reações a cada post que era publicado.

Um neófito que tropece por acaso nestas palavras, não perceberá nelas qualquer sentido, mas os antigos e ocasionais passageiros frequentes do :Ilhas talvez já tenham antecipado aquilo que vou dizer em voz bem alta: ACHO INCRÍVEL O ENSURDECEDOR SILÊNCIO QUE SE REGISTA NA CAIXA DE COMENTÁRIOS DOS ÚLTIMOS POSTS DO PEDRO, que citam (no sentido tauromáquico do termo) a liberdade de pensamento junto aos cornos do touro, sem que ele – manso – dê sinais de investir com franqueza e galhardia contra o forcado da cara . Dá ideia de que toda a gente permanece confinada nas páginas do seu Facebook que, muito antes desta pandemia, já andava a promover o distanciamento social. Seria bom que o Mark Zucherberg refletisse sobre o oximoro que está inscrito no ADN da sua criação. 

Mas, voltando ao início deste post, aqui segue em segunda edição (e sem qualquer aditamento) aquilo que publiquei sobre a “Liberdade de Pensamento” no passado mês de Julho:


Four Freedoms. Edwina Sandys, 1994

Franklin D. Roosevelt Presidential Library (Hyde Park-New York)

“Esta escultura – duas silhuetas humanas, recortadas de uma secção do Muro de Berlim – foi executada por Edwina Sandys, neta do Primeiro-ministro britânico Winston Churchill, em homenagem ao Presidente americano Franklin D. Roosevelt, cujo discurso do “Estado da União” (6 Janeiro 1941) proclamava a necessidade de construir um mundo assente em quatro Liberdades essenciais: Freedom of Speech, Freedom of Worship, Freedom from Want e Freedom from Fear. Nestes tempos difíceis que atravessamos, é importante que a liberdade de expressão e pensamento nos ajude a libertar do medo.”  

Saravá, Pedro, este samba é para ti.

terça-feira, setembro 1

A Alquimia dos Números


Lembram-se de Mário Centeno? Sim, esse, o que foi Ministro das Finanças e a quem Wolfgang Schäuble apelidou, não sem alguma dose de mordacidade alemã, de Ronaldo do Eco-Fin. No início disto tudo, quando o céu começou a cair-nos sobre a cabeça, Centeno apareceu numa conferência de imprensa, num dos salões pombalinos do Terreiro do Paço, com ar visivelmente combalido e ladeado por Siza Vieira, o Medvedev de Costa, a anunciar as supostas medidas de mitigação da crise económica, provocada pelas opções políticas de combate à pandemia. Entre elas estava essa medida fundamental de aumento do montante máximo de pagamento por contactless nos multibancos de 20 para 30 euros. Por essa altura o mesmo Centeno, esse Cezane dos balancetes, o Picasso dos Orçamentos, também previa que a queda da economia provocada pela pandemia não seria mais do que uns modestos 6%. Um par de meses depois o próprio António Costa e Silva admitia, na sua carta astrológica para o futuro do país, que esse défice dificilmente ficaria abaixo de 12%, contrariando assim oficialmente os 9% com que João Leão, o Messi das Cativações, se esforçava para fintar os deputados no parlamento. Ontem ficámos a saber que, no segundo trimestre, a queda do PIB foi de 16,3%! A política é isso mesmo, essa constante efabulação táctica, essa arte de ludibriar o essencial com o acessório, a mentira como construção do real. Portugal caminha vertiginosamente para uma desgraça, mas os nossos principais políticos entretêm-se alegremente a funambular com os ciclos eleitorais, as contabilidades parlamentares e a Festa do Avante.

Há dias, num jamboree de jovens socialistas, Carlos Cesar, o Don Vito Corleone da oligarquia socialista açoriana, aventou uma teoria absolutamente genial para contrariar as recorrentes estatísticas que colocam a região nos piores índices de pobreza. De acordo com Cesar essas estatísticas são erróneas porque na região existe uma elevada percentagem de “economia paralela” e que, portanto, as pessoas nos Açores vivem muito melhor do que dizem as estatísticas. Deixemos de lado a estatística, essa alquimia dos números, capaz de fazer de duas mentiras uma verdade. Duas perguntas ficam por fazer a Carlos Cesar sobre tão magnífica teoria. A primeira é se concorda com a própria existência dessa economia paralela, com todo esse imenso mar de cidadãos que se veem escorraçados para as franjas do Estado e a viver na marginalidade para sobreviver no dia-a-dia? E, se não acha escandaloso, que após 24 anos de governação socialista na região, a única forma de se viver uma vida digna seja com um taxo na função pública, o nome no Rendimento Social de Inserção ou na fuga permanente aos esbirros das Finanças?

A grande questão é, provavelmente, essa. É que para o Partido Socialista dos Açores a economia paralela é como a abstenção, pode não ser boa para as estatísticas, mas dá um jeito do caraças à governação. Isso e dois terços da população activa a viver directa ou indirectamente da teta do Estado. Em ilhas onde mais de metade dos eleitores não votam garantir que uns quantos votam em nós é meio caminho andado para ganhar eleições. É, digamos assim, a "economia paralela" do voto. Veja-se essa medida perfeitamente soviética de a dois meses das eleições se anunciar a “regularização”, eufemismo para taxo, de 402 precários da Função Pública. Será que essa regularização já vem com lugar marcado na carrinha de transporte para a mesa de voto?


terça-feira, agosto 25

Autoridade Regional da Vergonha

 

Suponho que deva começar por confessar, em jeito de declaração de intenções, a minha absoluta falta de simpatia por rallies e pelo desporto automóvel em geral. Tenho com os automóveis uma relação puramente utilitária pelo que a realização ou não do rally é-me totalmente indiferente. Mas, no entanto, a verdadeira telenovela em que se transformou o evento, neste pandemico ano de 2020, tem aspectos dignos de ressalva. Desde o início que me parecia perfeitamente claro que em face da pandemia e, ou melhor, em face do autoritarismo cego da autoridade de saúde (passe o pleonasmo), era ridículo sequer ponderar a realização da prova. Aliás, em face das limitações impostas a tantas outras actividades, desde a cultura a outras modalidades desportivas e a tantos sectores da economia essa noção, que andaram meses a debater e a analisar, de que o rally açoriano se deveria realizar era um verdadeiro insulto ao sacrifício e à desgraça de milhares de pessoas que desde Março viram as suas vidas devastadas, não tanto pelo vírus mas pela arbitrariedade das decisões da ditadura sanitária. De igual modo o é o avança e recua e avança de novo da festa brava terceirense, pela qual, diga-se, nutro, agora sim, filial simpatia. O que tudo isto vem demonstrar, com límpida claridade, é o populismo e o eleitoralismo com que o SARS-CoV-2 tem vindo a ser tratado na região. Desde Março a região contabilizou pouco mais de 200 casos de infecção o que equivale a 0,08% da população (e se lhe juntarmos os perigosíssimos turistas a percentagem é ainda mais pequena), destes contabilizam-se cerca de 150 recuperados e, infeliz e fatidicamente, embora se calhar seria bom também aqui uma auditoria da Ordem dos Médicos, cerca de 14 óbitos num lar de idosos do Nordeste. Mas, por cá, a Ordem não se quer meter nessas coisas. O que estes números demonstram, e seria também interessante ter uma noção da percentagem de resultados positivos por número de testes realizados, é que estamos perante uma pandemia de pânico gerida por decretos governamentais e não perante uma real e efectiva ameaça de saúde pública. O conceito, aliás, de saúde publica é uma abstracção manipulada pelo governo a seu belo prazer. Veja-se o exemplo de uma suposta cadeia de transmissão local que existiria em São Miguel provocada pelos comportamentos hedonistas de uns quantos jovens rebeldes que entretidos entre banhos de mar e copos cuspiam vírus pela noite dentro nos bares da ilha. Ao ponto do Governo ter decretado o seu encerramento forçado às dez da noite para, pasme-se, nunca mais se ouvir falar sequer de um caso positivo dessa gravíssima cadeia de transmissão. Segundo os comunicados oficiais, desde o passado dia 11 de Agosto, dia em que o Governo Regional anunciou a existência dessa cadeia de transmissão local e decretou as medidas para a sua contenção, foram feitos na região 19103 testes, destes 17 foram positivos, repito: dezassete positivos num total de dezanove mil cento e três testes! Dos 17 e de acordo com o próprio Governo Regional apenas 4, repito quatro, são casos relacionados com essa cadeia de transmissão local. O que isto demonstra é que hoje, dia 25 de Agosto, precisamente 14 dias, o famoso período de incubação, desde que foi ordenada por decreto a existência de uma cadeia de transmissão local e que por causa disso dezenas, para não dizer centenas de negócios e milhares de vidas foram autoritariamente suspensas e despoticamente subvertidas por causa de apenas quatro pessoas infectadas e uma taxa de testes positivos de 0,02%. E tudo porque o Governo encontrou no medo e, pior, na manipulação do medo uma forma segura de ganhar eleições. O que estamos a viver hoje nos Açores não é política, nem é ciência. O que estamos a viver é só e apenas uma vergonha.

quarta-feira, junho 10

o estado da região

Sejamos sinceros, isto já estava mau antes do vírus, ficou foi ainda pior. E, a grande probabilidade é que, passada a pandemia vírica, fique pior ainda, por força da pandemia económica. Não interessa, muito, por isso, preguiçar indolentemente na culpabilização da coisa. Se o bicho é uma invenção chinesa ou uma criação americana; se o confinamento salva ou se os suecos ganharam imunidade de manada; se as vacinas virão com nano chip integrado ou se vamos voltar todos a viver no “novo paleolítico”. Tal não significa, porém, que não se deva proceder ao devido escrutínio político das decisões tomadas e, à consequente responsabilização e aprendizagem. Mais do que uma vacina, talvez seja esse aprendizado o que nos possa salvar da próxima vaga deste bicho ou da, mais que certa, vaga de um novo bicho. Mais do que identificar o código postal do laboratório onde o corona foi manipulado, importa sim entender que a circulação e disseminação deste tipo de vírus se deve à maciça destruição de habitats, levada a cabo nas últimas décadas, pelos Seres Humanos. Importa, sim, interiorizar que a opção pelo confinamento não foi uma decisão ponderada, tomada com base em conhecimentos tanto médicos como sociológicos, económicos e políticos. O confinamento foi um desespero de causa, cooptado por virologistas e governantes, em pânico com a ideia de verem os eleitores subitamente transformados em urnas funerárias, multiplicando-se como cogumelos, em quantidades industriais. E que, esse confinamento, foi decidido sem que os governos tivessem qualquer esboço de plano sobre como limitar, combater e/ou contrariar os óbvios e catastróficos efeitos do mesmo na frágil tessitura social do nosso contemporâneo neo-liberal-capitalismo-global.
Aqui chegados, o que fazer? Pois bem, estes são os factos: o vírus existe, tal como existirão outros, até potencialmente mais perigosos para a saúde humana. O confinamento não é uma cura, nem sequer uma profilaxia. De que serve “salvar” batimentos cardíacos se com isso se destroem corações? A vida é um complexo entrelaçado de condimentos, não é apenas e só um mero registo de funções fisiológicas. Esse é um tipo de pensamento útil apenas para bastonários e nunca para altos dignitários. A política, aliás, serve  para escutar os técnicos, mas, acima de tudo e exactamente, para os contrariar, quando a técnica se mostra incapaz de abranger a vasta complexidade do devir humano. O mundo, o mundo todo, está hoje confrontado com a maior crise dos últimos cem ou duzentos anos. Para sairmos disto, temos de recorrer ao que temos, ao que sempre tivemos, o engenho e a arte, a criatividade e a capacidade do ser humano para, solidariamente, suplantar a adversidade, a tirania e o caos.
Para esta crise não há soluções isoladas, ou isolacionistas. Daqui só sairemos de mãos dadas. Inexplicavelmente, ou não, o caminho que a Europa e, por arrasto, o País e a Região, parecem estar a seguir, por preconceito ideológico e por pressão dos lóbis do capital, é o do endividamento. A única resposta visível até ao momento é a do pedir dinheiro emprestado e, depois, logo se vê. É como se os directórios europeus desejassem que, em cima da já de si brutal crise, sobreviesse uma astronómica e gargantuana banca rota, que explodisse em cima de nós todos como um gigantesco e psicadélico cogumelo atómico. Quando, pelo menos a mim, parece-me perfeitamente cristalino que a única forma de ultrapassar este momento seria (será!) imprimir euros e distribuí-los, equitativamente, por países e por pessoas, por via de um Rendimento Básico Incondicional, pelo tempo estrito da duração desta crise, seja ela em desenho de V, de U, de vários W ou de um doloroso e infindável L…
Mas, passemos a questões mais concretas – Açores e Turismo. O Turismo, em toda a sua cadeia de valor, desde o pequeno agente, à grande companhia aérea, passando pelo alojamento, a animação e a restauração, o Turismo, dizia eu, foi a primeira vítima global do Covid-19. Uma Indústria alicerçada na Hospitalidade não pode sobreviver num mundo de portas fechadas e de pessoas isoladas. No entanto, é óbvio que não podem ser assacadas responsabilidades ao Governo Regional pela debacle do sector. Mas, nas respostas à situação, sim, podem. E, se até poderemos considerar que muitas dessas respostas estão dependentes de soluções partilhadas com a República e entre Estados, há, claramente, considerações que são estritamente locais. Desde logo, a manutenção e eventual requalificação da oferta. O foco da atenção actual do Governo Regional, e dos empresários, diga-se, deveria estar totalmente empenhado na defesa e salvaguarda da oferta, permitindo que, quando e como, a retoma se der, se se der, o Destino Açores ainda exista como tal. Com alojamento, animação e serviços de qualidade. Isto sim é Sustentabilidade.
O foco no emprego, não passa de uma arma eleiçoeira e uma forma de, em género de tratos de polé, condenar as empresas ao inferno da dívida. Manter despesa, quando não há rendimento significa défice, que leva a encargos, que levam a, acertaram, falências. A fórmula pífia do layoff esquece todos os outros custos que as empresas continuam, regular e impreterivelmente, a ter. Quartos para arejar, carros para manter, luz e água, taxas, impostos, como o inefável IMI, dividas à banca, mas, vá-la que as moratórias são das poucas coisas que até tem corrido bem, e todo um imenso rol de pequenos custos que, ao final de cada mês, são o prego no caixão de cada infeliz empreendedor. O ponto a que esta situação nos vai levar é a um desvario indiscriminado de falências, em que apenas se vão salvar, os grandes, os sacrificados ou os aldrabões e sem que a Região tenha mexido um dedo mindinho para proteger a qualidade e a diferenciação da oferta e salvaguardar a criação de valor. O que se exigia, o que devia estar a ser veementemente exigido pelos empresários do sector, era que o Governo tivesse já instituído um Gabinete de Crise, com a missão de, directamente no terreno, ilha a ilha, empresa a empresa, estudar e implementar medidas de suporte básico de vida para o sector. Rendimento zero = despesas idem. Simples! No entretanto, avaliar cuidadosamente a oferta instalada, podando os excessos, as redundâncias e as ervas daninhas para que, aquilo que realmente tenha potencial de crescimento possa, na verdade, prosperar quando se der a retoma, que todos esperamos e que, inevitavelmente, irá acontecer.
Outro dos logros em que o Governo e os empresários estão a laborar é a questão dos mercados. Se a ideia do mercado nacional era, já de si, improvável, ao que acresce o estar a ser estupidamente mal trabalhada. A ideia, então, do mercado regional é de tal maneira estapafúrdia que causa dor e repulsa a insistência com que os responsáveis regionais se utilizam dela. A números de 2019, a Região tinha cerca de 25000 camas e registou perto de 1 milhão de hóspedes para, numa estada média de 3 noites, pouco mais de 3 milhões de dormidas. E isto, atenção, para uma taxa de ocupação global a rondar os 34% (!!!). Ora se tivermos em conta que a região tem uma população de 245 mil almas e que dessas, apenas, 123 mil são população activa, ficamos com uma ideia de como o “mercado regional” não passa de um verdadeiro gambuzino, por mais campanhas “seguramente açorianas” que se façam. E, já nem vou sequer mencionar o facto de a Região Autónoma dos Açores ter os piores índices de distribuição de riqueza, porque isso reduzia o mercado regional à capacidade de um ou dois aviões da SATA.
No que toca ao mercado nacional, esse morreu em dois momentos. Primeiro, na descontinuidade territorial e não, não estou a falar de constitucionalidade ou inconstitucionalidade, estou a falar mesmo das perto de 900 milhas, os 1.500 quilómetros, as duas horas de avião, que separam Lisboa de Ponta Delgada. E, aqui a ênfase deve ser posta no avião. Este ano só os muito ricos e despreocupados, que como sabemos, em Portugal, são uma minoria, é que vão andar de avião, os outros vão pegar no carrinho e vão de férias à terrinha. O segundo, foi o timing. É bom lembrar que até praticamente ao início de Junho a mensagem que os Açores andaram a passar foi a de que não queriam cá ninguém. Que a peste viajava alojada no buço dos turistas e dos tugas do continente e que não queríamos que viessem para cá infectar as nossas pombinhas do Espírito Santo. Tanto que, até hoje, António Costa e Vasco Cordeiro não se falam e o continental rumina com os seus botões que aqueles açorianos são todos birutas. Ora, o que isso fez, foi com que o pai de família, subchefe de repartição, pegasse na Maria e nos dois putos e marcasse as feriazinhas de verão na praia fluvial de Pedrógão, para ajudar os locais, que perderam tudo nos fogos, coitados. Açores? Não, isso é para o Marcelo e para a tia Maria João.
Chegados aqui, com que é que ficamos? Uma mão cheia de nada. Um Presidente do Governo, em campanha eleitoral, correndo de porta em porta, vestido de negro e de máscara, como um médico da peste, receitando Éter aos moribundos. Uma oposição presa nos clichés do politicamente correcto e refém dos obscenamente altos números da abstenção. Uma associação de empresários de turismo que está morta há muitos anos, mas que teima, qual Rasputin da contratação pública, em não querer ver declarado o óbito. E, por fim e o pior de tudo, uma população em que praticamente dois terços depende, directa ou indirectamente, do Sérgio Ávila para meter comida na mesa ao fim do mês.
                Como dizia no início, isto já estava mau, o Covid, que nos meteu a nós de máscara, só veio desmascarar o quão mau isto estava…

sábado, junho 6

diário da descontaminação

E eis que ao octogésimo segundo dia o bicho deixou de constar da folha estatística diária. Naturalmente que ele ainda anda por aí, silencioso e invisível, assintomático, como se usa agora dizer. Mas, como não dá positivo nos testes a região soergue-se em júbilo, como se o próprio Jesus tivesse descido à terra. Nas redes sociais, nas capas dos jornais, nas infelizes composições laudatórias com que os partidos tentam tirar partido da insignificância do número e nessa idiótica viagem que o hiperativo e sempre sorridente presidente Marcelo decidiu fazer, de relâmpago, à décima ilha, para compor, ainda mais, o ramalhete mediático da sua permanente campanha eleitoral. Todos se extasiam em orgulho insular e autonómico. Depois do “orgulhosamente sós” e do “queremos isto tudo fechado” agora temos o “somos os primeiros” da corrida ao casos zero. Perdoem-me que não acompanhe o coro histriónico de contentamento, mas para mim é-me difícil acompanhar o jubilo. Daqui, do fundo do poço, é difícil ver o regozijo. Perante o imparável e crescente avolumar da pobreza, das falências, do desemprego, do dantesco inferno económico e social que estamos, e que vamos por muitos anos, viver é difícil considerar que, 160 casos depois, possa haver grandes alegrias no simples facto de haver uma folha limpa no relatório diário do laboratório de análises. E, esse é talvez o maior drama desta crise, a miopia. Desde o seu início que as Autoridades olharam para o Covid-19 como um problema exclusivamente clínico, ignorando os multifacetados impactos da pandemia, e das suas acções enquanto decisores políticos, no conjunto da sociedade e da economia. O vírus, mais do que um problema sanitário, era um problema comunitário, como muitos se irão agora aperceber, da forma mais dolorosa possível, quando a grande curva da depressão económica se agigantar sobre as nossas vidas, sem remédio que a achate. Mas, aos políticos, que no final do dia são sempre os principais responsáveis, por mais que digam que o inimigo veio de fora, tentando esconder o simples facto de que o vírus não toma decisões, aos políticos, dizia eu, interessa apenas o espírito do momento, a espuma do dia, o que importa agora é cavalgar a folha limpa da descontaminação. Só assim se explica que os mesmos que há pouco mais de quinze dias zurziam os tribunais porque haviam aberto a porta do nosso santuário insular à peste estrangeira, sejam agora os maiores promotores da descovidização à força de prémios fajutos de associações questionáveis. No meu tempo, estes pueris galardões custavam dois mil e quinhentos euros e, se na altura já era duvidoso o racional do dispêndio de euros, agora então, que não existem mercados, tal não passa da mais básica e condenável campanha política interna. A dura realidade é que, como recentemente se viu numa sondagem, mais de 60% dos portugueses não vão fazer férias fora de casa e, para contrariar isto, não há nem teste nem best que nos valha… 


quarta-feira, junho 3

Processo de Covidização em curso...

Para muita gente, por esse mundo fora, esta grande crise do Covid tem potenciado o ensejo de um radical cambio civilizacional. Há como que um desejo latente e profundo de que a humanidade se possa regenerar, possamos salvar o planeta, criar prosperidade para todos e inventar uma nova utopia social de alegria, paz e amor. De repente, no abrir de portas do desconfinamento surgimos todos na rua com o discurso da Miss Universo. Cerca de 200 anos depois do alvor da Revolução Industrial acordamos todos a citar Engels e Marx e a pugnar por um mundo onde o capital não seja a força maior da opressão do homem. E assim vamos, em busca das novas Itakas do bem-estar e da redistribuição equitativa da riqueza. Remediados de todo o mundo uni-vos, contra os Gates, Bezos e Zuckerbergs da vida marchar, marchar! O problema é que nem o mundo se transforma com tanta facilidade, nem tudo o que conquistamos com o desarolhar do capitalismo ocidental é, necessariamente, mau. Atente-se, por exemplo, o caso do Turismo. O Turismo foi, indiscutivelmente, uma das grandes conquistas civilizacionais do mundo moderno. Se as Descobertas deram novos mundos ao Mundo, o Turismo deu Mundo às pessoas e deu pessoas a esses muitos mundos que compõem o nosso Mundo. Podemos argumentar, e serei sempre o primeiro a defender esse argumento, que muito de pernicioso adveio das actividades ligadas ao Turismo: a massificação, a poluição, a gentrificação, a disneyficação, entre muitos outros palavrões sinónimos da desregulamentação e alienação global provocada pela voragem desenfreada do Turismo selvagem, feito de turistas, passe a redundância, em vez de viajantes. Mas, como disse Santo Agostinho, “o mundo é um livro e aqueles que não viajam leem apenas a primeira página.” E nada promoveu mais a verdadeira democratização desse conhecimento do que a Indústria do Turismo. Desde as primeiras linhas de caminho de ferro de 1800 aos luxuosos long range da Emirates a circulação, mais ou menos acessível, de pessoas pelo mundo todo foi um dos mais importantes fenómenos culturais da modernidade. A democratização das viagens trouxe conhecimento, abriu horizontes e, fundamentalmente, criou uma globalização de empatias e de afectos humanos, para contrabalançar a essa outra globalização, a globalização fria e repugnante do vil metal. Só que, de um dia para o outro, o Covid-19 destruiu tudo isso. Aeroportos fechados, milhares de aviões no chão, companhias aéreas falidas ou em vias disso, ao que acresce a estúpida tendência de querer transformar hotéis em enfermarias e restaurantes em cantinas de hospital, com seis desinfecções por dia, ditaram a morte do Turismo tal como o conhecíamos. Neste momento, há duas forças em conflito na batalha pela “nova normalidade” do Turismo: de um lado os que procuram, a todo o custo, retomar, reabrir, repor, custe o que custar, sem demoras e sem, principalmente, ponderação e bom senso. O exemplo mais paradigmático desta corrente é a aviação, que contra qualquer grama de sensatez e, até, ao arrepio da espectativa dos próprios passageiros, procura, à força, encher novamente aviões. Do outro lado estão os novos nacionalistas, defensores do fecho total das fronteiras, e os puristas da new-age, que advogam um regresso ao paleolítico humano, feito de vestes de cânhamo e psicadélicas viagens espirituais pelo Éter da nova eco-globalização. Resta saber se, no meio deste yin-yang conceptual, o simples gesto e o prazer íntimo de viajar, de absorver o mundo com os nossos próprios corpos e emoções, se conseguirá salvar. Resta saber se o mundo que aí vem será feito de e com pessoas, ou, apenas, de autómatos mascarados, desinfetados e devidamente posicionados nos 2 metros de distância. Como diz a outra senhora – festejem os golos, mas baixinho…


terça-feira, junho 2

#blackoutuesday



Tudo começou com uma nota. Uma nota supostamente falsa usada por George Floyd para pagar um maço de cigarros. Uma mera nota de vinte dólares americanos que gerou desconfiança num funcionário de um supermercado em Minneapolis e valeu um telefonema para o 911. Cumprimento das regras, excesso de zelo, policiamento de costumes (Floyd estava alcoolizado) ou comportamento racista, que importa agora? A queixa nunca deveria ter sido feita, desculpou-se Mahmoud “Mike” Abumayyaleh, dono da Cup Foods, quando o caos rebentou. Too late. Não há como não pensar na enorme disparidade entre causa e consequência. Não há como não pensar na estranheza desta história e na longa fita que tem por desenrolar. Sem desculpas ou atenuantes para Derek Chauvin, expulso da polícia, detido para julgamento, acusado (e bem) de homicídio, podemos questionar coincidências e desenvolver teorias. Padecerá o infame polícia de chauvinismo, honrando assim o seu apelido? Se assim for, como enquadrar o casamento com Kellie May, nascida no Laos e refugiada na América, que sobre ele disse “Under all that uniform, he’s just a softie,” quando ganhou o título de Mrs. Minnesota em 2018? Existirão antecedentes de conflito laboral no trabalho extra partilhado por Chauvin e Floyd durante quase 20 anos no El Nuevo Rodeo Club, um espaço de animação nocturna especializado em Música Latina? Parece um argumento de Hollywood, mas é o background bizarro destas personagens no olho do furacão. Seja qual for o enredo, nada justifica o assassinato de George Floyd. Nada justifica também a sua reprodução ao vivo e a cores nas televisões de todo o mundo e nas redes sociais. A morte em directo tornou-se uma banalidade. Um incentivo à indiferença ou ao ódio, mais do que à consciência social. Anestesiados e deprimidos por tanta (des)informação, manipulados até à exaustão, perdemos o foco do essencial: «all men are created equal». Foi preciso um hashtag na net para nos lembrarmos disso.

segunda-feira, junho 1

Uma educação musical

Para o ZB


A minha primeira influência musical foi o meu pai. O meu pai gostava, emocionalmente, de música. Era um romântico, que gostava de música romântica. O meu pai cantava, cantava o Fado e, diz quem o ouviu cantar, que em jovem cantava bem. Eu não me lembro de o ouvir cantar, mas, registo o macabro sarcasmo do destino de que o primeiro órgão do corpo que o cancro lhe levou foi uma corda vocal. O meu pai não era melómano, lá por casa não havia discos, lembro-me de umas esparsas cassetes com coisas aleatórias: Maria Creuza cantando Vinícius; Art Tatum e Errol Garner; Julio Iglesias. Mas, o meu pai gostava de música. Disfrutava dela. Jazz, MPB, Flamenco ou “espanholadas” como sorridentemente dizia e que ouvia sempre batendo palmas a ritmo com pose de cantor cigano. Fado, muito fado. Amália, Marceneiro, Carlos do Carmo, Rodrigo, de quem se dizia que era vagamente piroso, mas que cantava pela vida e o grande, enorme, António dos Santos e o seu “minha alma de amor sedenta” que ainda hoje ouço com arrepio. Mais tarde, houve uma altura em que trocávamos cds um com o outro, numa espécie de diálogo sem palavras, como se aquela fosse a nossa maneira de trocar afectos. No fugaz período da pré-adolescência a música que eu ouvia era a da minha irmã e a das amigas e amigos da minha irmã. As cassetes com os sucessos do Bananas e do Plateau. O “come on, Eileen” dos Dexys Midnight Runers ou o “I want you to want me”, dos Cheap Trick. Por essa altura havia, também, a música dos filmes: a guitarra do Ry Cooder no Paris, Texas, o “electric dreams” do Phil Oackley e do Giorgio Moroder, a banda sonora do Blade Runner do Vangelis. Ali pelos 11/12 anos a minha influência musical era o Rodrigo Carmona e a sua predilecção por tudo o que fosse rock de lycra e cabelo comprido. Poison (“Unskinny Bop”, quem nunca…), David Lee Roth, malhas de guitarra e sintetizador. Bala! Depois, veio o liceu e a adolescência e as influências eram tantas como as angústias. Em Lisboa, mais concretamente em Benfica, no eixo Sete Rios, onde ficava o D. Pedro V, e o Fonte Nova, onde se passavam os serões no pátio ao lado do Califa, quando os pais deixavam a malta sair até depois das nove, os azimutes musicais eram tão dispares como os rótulos: The Cure e Stranglers para os góticos; Sepultura para os metaleiros; INXS para os betos; Guns n’ Roses para os surfistas; e Smiths para os alternativos, e eu era, em doses mais ou menos iguais, um pouco de cada um. Por essa altura, passavam na RTP, dois programas fundamentais para quem gostasse de ouvir e, principalmente, descobrir música. O Outras Músicas, programa do Jazzé Duarte, que passava na RTP 2 aos sábados de manhã, e o Popoff, com a presença inconfundível da Sofia Morais. Quer um quer outro foram instrumentais na minha descoberta e afirmação de um gosto musical ecléctico, despreconceituoso e, acima de tudo, intransigentemente livre. O Outras Músicas até me levou a ir assistir ao vivo, no grande auditório da Gulbenkian, a um concerto do Stockhausen. Ainda por Lisboa havia, claro, o Pedro Adão. O Pedro era detentor de duas coisas fundamentais – um invejável bom gosto natural e discos. O Pedro tinha os discos, comprava discos, e sabia tudo o que era novidade. Para alguém como eu, que parasitava gostos musicais diversos, a maturidade musical do Pedro era uma espécie de El Dorado existencial. Do género, quando for grande quero ser como o Pedro. A panóplia de sabedoria audiófila do Pedro ia desde ter uma t-shirt do Meat is Murder (ou seria do Queen is Dead?) dos Smiths, a discografia completa da evolução Joy Divison / New Order, até saber de cor a letra completa da “dança nua” dos Essa Entente. Num outro mundo paralelo, havia a adolescência açoriana. A minha dupla nacionalidade, açoriano em Lisboa e português em São Miguel, levou-me, desde pequeno, a passar metade do ano na ilha. Juntando Natal, Páscoa e os 3 meses de verão, o tempo passado na ilha era quase tanto como no continente, sendo que do ponto de vista musical foi, indiscutivelmente, muito maior. Perceba-se que ter 15 anos em 1989 significava ser contemporâneo de “3 feet High and Rising” dos De La Soul, “Doolitle” dos Pixies, “Bleach” dos Nirvana e o homónimo primeiro álbum dos The Stone Roses. Se, no mesmo ano, em Lisboa, se ouvia o “funky cold medina” do Tone Loc ou o “pump up the jam” dos Tchenotronic, quando não se cantarolava o “like a prayer” da Madonna ou o “if I could turn back time” da sempre jovial Cher. Nos Açores, o ambiente musical era pautado por diametralmente diferentes matizes, que iam desde a extasiante Madchester, aos experimentalismos de Zoviet France e Skinny Puppy, passando pelo hedonismo dos B-52’s e o obscurantismo satânico de Diamanda Galas. E, a malta absorvia tudo com igual sede. Toda esta banda sonora é indissociável, mais se calhar do que das pessoas, de dois carros: o Volvo 340GL(?) do pai do Bernardo Rodrigues e a Renault 4L dos “minhocas”. Esses dois carros, as repetidas viagens entre surfadas, entre festas nas Furnas ou nas Sete Cidades, entre a Cascata e a Caldeira Velha, entre a “cidade” e as nossas casas ou, imagine-se, entre o Populos e o Cheers, às vezes em recuo, foram a discoteca perfeita para a melhor formação musical de toda uma adolescência. Porra, a aparelhagem na 4L valia mais do que o próprio carro! Mas, sim, na verdade, o mais importante nisto tudo, mais do que as ondas que surfamos, os temas que escutamos ou as miúdas que amamos, foram as amizades que fizemos, entre os versos de Rimbaud, ou os lamentos de Lautreamont, entre as batidas do Jazzmatazz do Guru ou os riffs da guitarra do Noel Gallagher. E, ainda havia a Universidade e as cassetes para as namoradas e a X-FM e os discos comprados na Contraverso e depois na Amazon e na FNAC ou as cópias de Cd’s feitas no duplo cd recorder da Panasonic e as festas e as malas de discos e, e, e, …

Tudo isto a propósito do desafio facebookiano do Diogo Cymbron para escolher 10 discos que tiveram influência no meu gosto musical. Do que fica exposto, penso que fica também claro que tal escolha seria impossível, mas e mesmo apesar de ter a maioria da minha colecção de discos encaixotada, olho, de relance, os poucos que estão espalhados aqui por casa e escolho, apaixonadamente, 10:
Keith Jarret – The Koln Concert
Astor Piazzolla . Kronos Quartet – Five Tango Sensations
Oasis – Definitely Maybe
The Stone Roses – The Stone Roses
The Divine Comedy – Promenade
Kruder Dorfmeister – The K&D Sessions
Maxence Cyrin – Novo Piano

quarta-feira, maio 27

Tudo mudou



Olho pela janela, na direcção do mar, o céu azul, o sol pálido da luz da manhã, quase que não se vêem as cinzas do mundo que acabou de desabar. Quase se diria que nada mudou. A esta hora estaríamos a terminar o serviço dos pequenos almoços, os hóspedes fariam perguntas sobre os trilhos, as distâncias, um miradouro, um restaurante, o melhor peixe. Terminaríamos o serviço dos quartos, a ronda pelos emails, os pedidos de reservas, que agora não são mais do que repetidos alertas vermelhos de cancelamentos, cancelamentos, cancelamentos. Perguntas que se transformaram em pedidos de informação, se há voos, se estamos abertos, explicações sobre as restrições, as quarentenas, tentativas frustradas de traduzir para inglês portarias que nem em português são inteligíveis. Orientações descabidas de Autoridades que não sabem, ou não querem perceber, que o Turismo é a arte de bem receber e não a da Xenofobia. Que um hotel não é uma enfermaria. Que para fazer um almoço é preciso vender cinco. Que não há açorianos suficientes para encher os hotéis de São Miguel e que os continentais, que eles enxotam são, sempre foram, o nosso principal mercado emissor. E, quanto mais tarde se aperceberem disso, já todos foram para o Algarve, para o Gêres ou para o sudoeste Alentejano. Mas, tal como os “apoios” do Governo, também o sol é enganador e o mar sem ondas esconde a verdadeira tempestade. O Mundo todo à nossa volta mudou, mesmo que no covil do desespero alguns queiram, à força, regressar a essa errónea “nova normalidade”.

segunda-feira, maio 25

Manual de Simpatia


Voltemos, então, às metáforas bélicas. Nesta primeira grande-guerra do Covid, a primeira vítima, passe a repetição, foi o Turismo. Qual soldado raso de infantaria, o Turismo foi o primeiro na linha de fogo. Companhias aéreas, agências de viagens, hotéis, alojamentos, animação, restaurantes, tuk-tukes, e tantas outras actividades conexas, foram os primeiros a ser lançados na trincheira do confinamento e a sofrer o ataque, inclemente, dos obuses do distanciamento social. Neste admiravelmente asséptico “novo normal”, a Indústria da Hospitalidade é, ela própria, uma impossibilidade, um anacronismo, para o qual olharemos com saudade ou estranheza. Num tempo que nos obriga a andar de cara tapada, uma actividade cuja mercadoria é o sorriso, cuja moeda de troca é a cortesia, não tem, digamos assim, viabilidade económica.

Mas, seria injusto apontar culpas directas a um determinado governo pelo súbito colapso desta Indústria. Não foi só um ou outro Estado, ou região, que se fechou sobre si próprio. Foram todos os países ocidentais que, de um dia para o outro, suspenderam aquilo que era o oxigénio do turismo mundial – a livre circulação de pessoas. Porém, há, obviamente, diferenças, nuances, de país para país, de região para região, quer no grau de preocupação, como na rapidez do auxílio ou, até, na atitude geral para com a necessidade, para não dizer a vontade, de reinventar o sector.

O caso dos Açores é particularmente paradigmático de como o autismo do governo cavou, ainda mais fundo, a sepultura do Turismo. Fechados na sua bolha de preocupação clínica, obcecados pela demanda de cobrir as ilhas num imenso manto de descontaminação, Presidente do Governo e Autoridade de Saúde, tudo fizeram para fechar, isolar e desinfectar os Açores do perigo estrangeiro. Encerramento de aeroportos, cancelamento de voos, quarentenas obrigatórias, quarentenas “voluntárias”, e até, cúmulo dos cúmulos, apelos abertos e sem vergonha a que “as pessoas não se desloquem à região”! Como se já não fosse bastante, para a eutanásia do sector, a inadequação, insuficiência e, até mesmo, a clara injustiça dos parcos apoios de Estado, que em muitos casos mais não eram do que certidões de óbito encapotadas, o último prego no caixão foi, de facto, a forma como, com cada palavra e cada gesto, os responsáveis políticos regionais, foram regando a semente xenófoba que medra, mais ou menos timidamente, dentro de cada açoriano.

No que concerne aos apoios, desde o seu início se percebeu que não passavam de um eufemismo, para não dizer um logro. Pensos rápidos para tratar uma gangrena. A tentativa, desesperada, de conter os despedimentos, com layoffs, e só até ao final do ano, não visa proteger trabalhadores ou apoiar empregadores, busca apenas garrotar as estatísticas do desemprego até depois das eleições. Para além de que esquece todos os outros imensos custos mensais que sobrecarregam as empresas, como, por exemplo, a conta da EDA que nos Açores chega a ser obscena. Ou os custos de manutenção. Nestas ilhas em que a humidade se mede em metros cúbicos e não em percentagem, bastam dois dias de porta encerrada para crescer cabelo nas paredes de uma casa. Experimentem abrir uma porta no Nordeste depois de três meses fechada, a humidade entra-vos pelas narinas como uma má anfetamina. Por outro lado, incentivar o crédito a empresas já de si endividadas ou, cereja em cima do bolo, limitar os apoios a um critério de ausência de dívidas ao Estado, são tudo provas de como a última das preocupações deste governo, desde o Palácio de Santana ao Alto das Covas, é ajudar o Sector do Turismo. E, nem vale sequer a pena falar do Edifício CTT, onde, em total alheamento da realidade em que estamos metidos, a Secretária da Energia, (que certamente não leu a entrevista do Jorge Rebelo de Almeida ao Negócios, anunciando o cancelamento do investimento do Grupo Vila Galé no antigo Hospital de Ponta Delgada...) andava, ainda na semana passada, pasme-se, a enviar emails ao Trade, perdoem o jargão, a pedir contributos para um manual de boas práticas, enquanto todo o resto do país, Madeira na frente, já se prepara para abrir, se é que já não abriu, ao Turismo.

No entanto, o mais grave disto tudo, como se tudo isto não fosse já suficientemente dramático, é, sem margem para dúvidas, esse sentimento generalizado que se disseminou pela população, sustentado pelo discurso e acção do governo, de repulsa, renuncia e pura antipatia para com os que são de fora, e que extravasa de cada comentário a favor do isolamento geográfico das ilhas, como se este fosse, em si mesmo, uma vantagem e não a fatalidade que realmente é. Numa região que até há pouco mais de 20 anos vivia enclausurada nos seus xailes negros, numa região que, mesmo entre si, gosta de alimentar o odiozinho de ilha para ilha, numa região onde até há tão pouco tempo o exemplo máximo de bom atendimento num restaurante era o “vás comê e vás gostá”(!), nesta região, a postura conjunta da tríade Autoridade de Saúde, políticos e (perdoa-lhe Senhor que ele não sabe o que diz) Cónego Borges, em toda esta birra das ligações com o continente, deu cabo, quem sabe se por muitos e bons anos, daquilo que é o bem mais precioso de um Destino, e não, não estou a falar das belezas naturais ou da sustentabilidadezinha, estou a referir-me à arte de bem receber, a pura, simples e genuína, afabilidade. Aquilo que é, afinal, o ouro de qualquer Destino – a simpatia.

A simpatia, a hospitalidade e o bem receber, não se recupera com carimbos sanitários, nem com luvas de plica e máscaras comunitárias, nem com vídeos pseudocómicos com a Teresa Guilherme, nem sequer com anúncios empacotados em aviões da Ryanair à saída de Ringway. Ninguém quer ir a onde não será bem-vindo. E, foi essa mensagem – não queremos cá ninguém! – que andaram, Vasco Cordeiro, Tiago Lopes, até José Manuel Bolieiro, a passar durante estes dois meses e meio, mais o próximo que aí vem até ao início de Julho. A minha falecida avó, costumava dizer que "era preciso uma vida para se construir um 'bom nome', mas que bastava um dia para o perder". Aos Açores bastou um vírus com nome de cerveja. Que Deus lhes perdoe, a mim falta-me a paz de espírito para perdoar…

sábado, maio 23

Do desconfinamento


Num artigo, na revista Scientific American, sobre a evolução da pandemia de Covid-19, a epidemiologista e bióloga evolucionista da universidade de Chicago Sarah Cobey declara que “a questão sobre como a pandemia se desenrolará é pelo menos 50% científica e outros 50% social e política”. No fundo, o que a ciência e a história de passadas pandemias nos dizem é que na inexistência de uma vacina ou, havendo uma, da vacinação massiva dos 8 biliões de seres humanos do planeta, o vírus irá tornar-se endémico, circulando e infectando pessoas sazonalmente. Perante isto, a abordagem ao vírus depende, em igual medida, dos avanços científicos, quer na criação de uma vacina como, e mais importante, no desenvolvimento de medicamentos antivirais, que permitam o tratamento, bem-sucedido, dos infectados. Como, também, dos comportamentos sociais e das opções políticas. Neste aspecto, a questão do sucesso das medidas de confinamento, como forma de ganhar tempo, depende, em grande medida, do momento em que são impostas, pelos decisores políticos, e da sua aceitação e cumprimento, pela população. No mesmo artigo, é admitido que as medidas de confinamento foram mal sucedidas na Europa, ao contrário do que aconteceu em Hong Kong e na Coreia do Sul, porque foram impostas tarde de mais. Ainda sobre medidas de confinamento, Anders Tegnell, o já famoso epidemiologista sueco, em resposta a uma pergunta de Fareed Zakaria sobre se a opção da Suécia de não impor o confinamento tinha sido por razões económicas, Tegnell respondeu, peremptoriamente, que não, que essa opção era apenas baseada na percepção de que quaisquer medidas que fossem tomadas, para controlar a epidemia, teriam que ser sustentáveis no tempo, uma vez que a epidemia iria, como se pode constatar, prolongar por tempo indeterminado. Tegnell é também extremamente explícito na afirmação de que o seu papel é apenas de conselho, são os políticos que tomam as decisões, e não ele. Nesta altura de mais ou menos desconfinamentos, vale apena pensar sobre estas questões, agora que somos todos “suecos”. O confinamento e, por maioria de razão, o isolamento ou, no caso açoriano, o grande fechamento das 9 ilhas, não são um tratamento, são apenas medidas profiláticas, que teriam, tem, necessariamente que ser tomadas por um curto espaço de tempo, sob pena de, como se constata, os seus efeitos psicossociais e económicos serem ainda mais devastadores do que a, felizmente baixa, taxa de letalidade do vírus. O confinamento não é mais do que uma medida para conter a infecção permitindo, no entretanto, que os sistemas de saúde, as organizações políticas e a sociedade, como um todo, se possam preparar para a fase de disseminação da epidemia. Nos Açores, ao fim de praticamente dois meses e meio de confinamento, não temos qualquer informação sobre como o nosso sistema regional de saúde se apetrechou para efectivamente “combater o vírus”, essa expressão que tantos os políticos como a Autoridade de Saúde, essa entidade abstracta e de pulloveres coloridos, tanto gostam de usar. Não sabemos se foram montados hospitais de campanha para tratamento exclusivo dos infectados, libertando assim os hospitais para o seu funcionamento normal. Não sabemos se estamos devidamente capacitados em matéria de equipamentos de protecção, medicamentos, testes ou outros materiais imprescindíveis para o rastreamento e tratamento de pessoas infectadas. Nem sequer sabemos que medidas especificas foram tomadas para os grupos de risco, nomeadamente idosos, em especial os lares. Apenas sabemos que tivemos 146 casos confirmados de Covid-19 e 16 óbitos, sendo estes últimos praticamente todos num lar de idosos no Nordeste. No entanto, ao mesmo tempo e agora que vamos tateando no ar, vendados e a medo, o caminho do desconfinamento, conseguimos todos pressentir que há um outro inimigo, igualmente invisível e mortal, a crescer exponencialmente por entre os interstícios do nosso tecido social e económico, o vírus da brutal crise económica em que o confinamento nos mergulhou e do qual a morte por eutanásia governativa do sector do Turismo é apenas uma pequena parte, embora a que tem, para já, maior visibilidade e peso. E, pressentimos, igualmente, que, para esse outro vírus, para essa outra crise, do chamado “novo normal”, o Governo dos Açores, continua a não ter nem puta ideia do que fazer, só que agora com a agravante de que já não há “isolamento profiláctico”, seja ele voluntário ou não, que o ampare…  

sábado, maio 16

Equivalente ao espaço entre as orelhas...




Ao nosso redor o Mundo todo está a desabar. Por força dos múltiplos confinamentos, isolamentos e tantos outros ditames da ditadura sanitária, a Economia, desde a mercearia de bairro à grande empresa multinacional, travou a fundo, projectando-nos violentamente pelo para-brisas, em direcção ao asfalto, como passageiros sem cinto, no lugar do morto, de um carro na iminência de colisão. Lay-off, desemprego, brutal perda de rendimentos e ausência absoluta de verdadeiras ajudas de Estado, transformaram-nos em meros corpos ensanguentados, entre metal retorcido, num acidente de estrada. No meio desta dantesca realidade, o PS Açores decidiu fazer humor, publicitando nas redes sociais, com bonomia e um sorriso, pequenos memes sobre distanciamento social. Confortavelmente abancados nos seus salários em dia, os jovens assessores da vida partidária, (muitos deles transitaram directamente dos recreios dos liceus para os corredores do poder) entretiveram-se a plagiar imagens anedóticas, para ensinar os açorianos a distanciarem-se convenientemente uns dos outros, com ícones da vida insular como vacas, queijos, hortênsias e atuns. Esta palermice do PS-A é triste e insultuosa, desde logo porque o PS-A não é uma associação de estudantes, nem um grupo de comediantes, numa qualquer sala das Produções Fictícias, à espera de se transformar nos Gato Fedorento, até porque, para isso é preciso talento. O PS-A é um partido político e é o partido que governa os Açores. A exigência de consideração, seriedade e de responsabilidade perante o momento que vivemos é ainda maior para o Partido Socialista dos Açores. O partido que suporta o Governo da região, no momento mais dramático das nossas vidas, não se pode comportar como um adolescente imberbe, fazendo pouco das centenas de pessoas que viram as vidas suspensas, ou até totalmente destruídas, por esta crise e, imperdoavelmente, das dezenas de outras que perderam entes queridos nesta pandemia. Esta idiotice é inadmissível porque não há piada, não há humor, não há sequer um pingo de riso no confinamento forçado e no espectro fúnebre da pobreza que paira hoje, como uma guilhotina, sobre a população. Esta verdadeira marie-anttoinetice é, também, um insulto parvo e é-o porque trata os açorianos como imbecis que precisam de desenhos para compreender a ideia de distanciamento social e este é, provavelmente, o aspecto mais grave de toda este lamentável episódio. É que, a ser assim, os responsáveis do PS-A, desde os seus jovens criativos, aos seus históricos militantes, passando por “ilustres” dirigentes, não percebem que se existem hoje nos Açores cidadãos que precisem deste tipo de mensagem para compreender a gravidade do momento ou a seriedade das medidas a adoptar, tal só se pode ficar a dever, única e exclusivamente, ao total e absoluto falhanço das politicas educativas, sociais e económicas do próprio PS-A que, ao fim de 25 anos de poder, o tempo de uma geração, não conseguiu puxar para cima uma grande fatia da população dos Açores, seja nos índices de pobreza como no nível de escolaridade, ou na civilidade própria da mais básica cidadania. Estes memes, estúpidos e fúteis, são como Nero, tocando a sua lira, enquanto Roma ardia…

Slogans for the 21st Century


Douglas Coupland

terça-feira, maio 12

DESOBEDIÊNCIA CIVIL




Henry David Thoreau 
(Daguerrotype. Worcester-Mass. 1856)


A maioria daqueles que estão familiarizados com a Desobediência Civil associa-a,  geralmente, às figuras de Mahatma Ghandi e Martin Luther King sem ter porventura a noção de que o pai desta ideia ou, melhor dito, do termo em si mesmo, foi Henry David Thoreau que, na sequência de uma noite passada na prisão em Concord, Massachusetts, proferiu perante os seus concidadãos a palestra Resistance to Civil Government, depois publicada em 1849 sob o título Civil Disobedience.

Nos tempos que correm, em que o dito Estado de Direito foi sequestrado pelo Estado Sanitário, um filho improvável do Estado Securitário com que fomos brindados no início do século XXI, o ensaio de Thoreau é uma leitura assaz recomendável mas, infelizmente, este autor americano está pouco traduzido em português, uma língua de brandos costumes nada atreita a pensadores libertários. O povo português é de um civismo exemplar, conforme assegura ad nauseam o discurso político na sua habitual retórica, e dedica ao Estado uma devoção comparável à dos fiéis peregrinos de Fátima.

Thoreau foi preso porque se recusou a pagar um imposto, a Poll Tax, argumentando que a sua consciência não lhe ditava esse dever para com um Governo que, além de ter desencadeado de forma fraudulenta a Guerra do México em 1846-48, admitia a existência da escravatura nalguns Estados da União. Diz-se que quando um amigo o foi visitar à prisão e lhe perguntou – “O que é que fazes aí dentro?” – ele respondeu – “E tu, o que é que fazes aí fora?”. 

O último reduto da dignidade humana é a nossa consciência e Thoreau ensina-nos, de uma forma exemplar, a sermos objetores de consciência. Não sou jurista nem especialista em Direito Constitucional, mas até um analfabeto sabe, no íntimo da sua consciência, que um Estado para ser respeitado tem que se dar ao respeito!