sábado, junho 6

diário da descontaminação

E eis que ao octogésimo segundo dia o bicho deixou de constar da folha estatística diária. Naturalmente que ele ainda anda por aí, silencioso e invisível, assintomático, como se usa agora dizer. Mas, como não dá positivo nos testes a região soergue-se em júbilo, como se o próprio Jesus tivesse descido à terra. Nas redes sociais, nas capas dos jornais, nas infelizes composições laudatórias com que os partidos tentam tirar partido da insignificância do número e nessa idiótica viagem que o hiperativo e sempre sorridente presidente Marcelo decidiu fazer, de relâmpago, à décima ilha, para compor, ainda mais, o ramalhete mediático da sua permanente campanha eleitoral. Todos se extasiam em orgulho insular e autonómico. Depois do “orgulhosamente sós” e do “queremos isto tudo fechado” agora temos o “somos os primeiros” da corrida ao casos zero. Perdoem-me que não acompanhe o coro histriónico de contentamento, mas para mim é-me difícil acompanhar o jubilo. Daqui, do fundo do poço, é difícil ver o regozijo. Perante o imparável e crescente avolumar da pobreza, das falências, do desemprego, do dantesco inferno económico e social que estamos, e que vamos por muitos anos, viver é difícil considerar que, 160 casos depois, possa haver grandes alegrias no simples facto de haver uma folha limpa no relatório diário do laboratório de análises. E, esse é talvez o maior drama desta crise, a miopia. Desde o seu início que as Autoridades olharam para o Covid-19 como um problema exclusivamente clínico, ignorando os multifacetados impactos da pandemia, e das suas acções enquanto decisores políticos, no conjunto da sociedade e da economia. O vírus, mais do que um problema sanitário, era um problema comunitário, como muitos se irão agora aperceber, da forma mais dolorosa possível, quando a grande curva da depressão económica se agigantar sobre as nossas vidas, sem remédio que a achate. Mas, aos políticos, que no final do dia são sempre os principais responsáveis, por mais que digam que o inimigo veio de fora, tentando esconder o simples facto de que o vírus não toma decisões, aos políticos, dizia eu, interessa apenas o espírito do momento, a espuma do dia, o que importa agora é cavalgar a folha limpa da descontaminação. Só assim se explica que os mesmos que há pouco mais de quinze dias zurziam os tribunais porque haviam aberto a porta do nosso santuário insular à peste estrangeira, sejam agora os maiores promotores da descovidização à força de prémios fajutos de associações questionáveis. No meu tempo, estes pueris galardões custavam dois mil e quinhentos euros e, se na altura já era duvidoso o racional do dispêndio de euros, agora então, que não existem mercados, tal não passa da mais básica e condenável campanha política interna. A dura realidade é que, como recentemente se viu numa sondagem, mais de 60% dos portugueses não vão fazer férias fora de casa e, para contrariar isto, não há nem teste nem best que nos valha… 


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