sexta-feira, abril 24

Maniqueísmos de ocasião


Os tempos de crise são pródigos em maniqueísmos bacocos. Em Portugal isto tornou-se óbvio com a polémica bizantina em torno da celebração do 25 de Abril. De repente o país acordou dividido entre fascistas e revolucionários, com o acrescento de ridículo de ambos se acusarem mutuamente de perigoso contágio. O que pode o Covid-19 ao pé de uma boa dose de indignação de Facebook? É claro que o 25 de Abril pode e deve ser comemorado, aliás e como o Natal, o 25 de Abril é todos os dias, como bem descobriram os peticionários de uma petição (passe a redundância) para impedir o 25 de Abril, quanta ironia. Mas, também seria razoável que os poderes instituídos entendessem que o que realmente põe em causa a democracia é a desigualdade e a distância de direitos e regalias entre as pessoas. Ao povo restringe-se as liberdades mais básicas como, por exemplo, o luto. Enquanto o Estado se arroga a si o direito de fazer de conta que nada mudou. Se há coisa que esta crise veio demonstrar à saciedade é o enorme fosso que existe neste país entre cidadãos, supostamente iguais. O país dos que tem casas com jardim, internet de banda larga, computadores e tablets, descobertos autorizados e salários por inteiro. E o país dos que por ordem do Estado, mais do que por imposição do vírus, viram as suas vidas despejadas no lixo de um dia para o outro. Mas com esse maniqueísmo ninguém se indigna…

quarta-feira, abril 22

Solidão sobre solidão


Hotel by Railroad, Hopper Meditations, Richard Tuschman, 2013.


Solidão. Alienação. Saudade. Richard Tuschman reinterpretou o universo de Edward Hopper, criando narrativas ficcionais muito próximas do trabalho do pintor americano, numa série intitulada Hopper Meditations. Tuschman combinou digitalmente dioramas do tamanho de casas de bonecas, construídos, pintados e fotografados no seu estúdio, com fotografias de modelos humanos em tamanho natural, fazendo emergir das suas personagens e das suas composições uma complexidade emocional, uma passividade física, um despojamento e uma representação da solidão bastante próximas do original.

A janela como moldura para a vida, o livro ou o cigarro como única parceria, o outro como mera presença física.  A sombra maior do que a luz, a postura corporal tensa, o olhar fixado no intangível, o coração apertado pela fronteira intransponível.

Hopper e Tuschman. Solidão sobre solidão. Assim vivemos nós estes dias. Personagens do nosso diadorama, bonecos de carne e osso, reféns da tecnologia digital, delimitados e suspensos, à espera de um artista que resolva restaurar esta composição.

terça-feira, abril 21

Contos da Loucura Normal #2

“Big Brother”, um termo popularizado entre nós por uma série imbecil de programas televisivos que tiveram início no final do último milénio e alimentaram um voyeurismo coletivo de gosto duvidoso, já faz parte das minhas household memories desde a tenra adolescência, quando li a edição portuguesa (salvo erro, da Ulisseia) do 1984, de George Orwell, que o meu Pai tinha na estante da sua biblioteca. Foi um livro que me marcou muito, a par de outros títulos como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou os Nove Contos, desse genial cometa literário chamado Jerome David Salinger. Mas a narrativa distópica de 1984 e a admirável visão premonitória de George Orwell, que escreveu essa obra em 1949, possuem hoje, mais do que nunca, uma perturbante atualidade, sobretudo quando ouço falar de procedimentos profiláticos de geo-localização conduzidos pelo Estado para controlar a pandemia. Big Brother is watching you! Deus nos livre, diria eu se fosse crente. O Big Brother não é meu brother não, obrigado.



sábado, abril 18

Navegação Avisada é Porto Seguro

Diz que é um «novo normal» que está a chegar.
Algo que não se sabe bem o que será, nem que deuses irá servir.
Digo que se é novo, não é normal. Quando for normal, não será novo.
Por agora, uma certeza: «cautelas e caldos de galinha» podem até ter dado cabo do vírus, mas deram também cabo da vida de muitas pessoas.
Somos todos uns idiotas!

O Socialismo Agiota


Amanhã, o Partido Socialista Português, celebra 47 anos. Num email enviado aos militantes a actual direcção do partido cita um excerto de um discurso de Mário Soares no jantar do seu 80º aniversário: “Sou socialista porque acredito no progresso, incluindo o progresso moral. Porque acredito no desenvolvimento sustentado, com dimensão ecológica e social, nos Direitos Humanos e no Direito Internacional. Sou Socialista porque quero a paz, fundada no respeito pela diversidade dos Povos e das Culturas, no diálogo entre religiões e pessoas, independentemente das suas etnias, crenças, sexos, opções políticas e condições sociais e, finalmente, na Justiça. Para mim, o socialismo é indissociável da liberdade, do respeito pelos outros e pelo que é diferente de nós.”. Por alguma razão, que só o próprio saberá, José Luís Carneiro, o actual Secretário Geral Adjunto do partido decidiu terminar aí a citação. Porque, Soares continuava dizendo: “Sou socialista porque acredito na capacidade humana para transformar as sociedades, de modo a serem mais justas e humanizadas. Sou socialista mas não quero impor o socialismo aos outros, muito menos pela força. Acredito na persuasão e no voto como meio de dirimir pacificamente os conflitos. Sou socialista e a favor do mercado e da livre iniciativa. Mas o mercado não é, para mim, um Deos ex-maquina. Produz injustiças e desigualdades, que cumpre ao Estado corrigir. Por isso, não acredito no neo-liberalismo, como sistema universal, que tem dominado as sociedades, desde o colapso do comunismo e, através da globalização desregulada, está a produzir as maiores desigualdades e muita exploração no interior das sociedades, mesmo as mais desenvolvidas e entre os Estados ricos e pobres.” Hoje, 16 anos passados sobre este discurso, na véspera dos 47 anos do Partido, no epicentro da maior crise económica e social das nossas vidas, importaria, mais do que nunca, em louvor do Socialismo, continuar a citação até ao fim. Salientando, amplificando mesmo, a luta fundamental de todos os verdadeiros socialistas, contra a ditadura dos mercados, o neo-liberalismo selvagem e as múltiplas desigualdades que assolam a Europa e Portugal. Mas não, hoje António Costa, em entrevista ao Expresso, decidiu amplificar o sound byte  agiota criado pelo seu amigo Siza Vieira, e avisa o país de que “os apoios de hoje são os impostos de amanhã”. Não, esta direcção do PS, que acha que se deve apoiar a Banca em vez do Povo. Que se podem injectar directamente milhões de euros na TAP e nos media, mas não nas famílias. Que considera até legítimo reinstituir o serviço militar obrigatório. Esta direcção do PS, não é socialista! Esta direcção do PS não merece, sequer, citar Mário Soares!

#naoanormalidade 

sexta-feira, abril 17

Contos da Loucura Normal

Este era o título, se a memória não me falha, de um filme do século passado que retratava a vida do escritor americano Charles Bukowski, que sempre muito apreciei. E creio ser um bom título, ou epígrafe, se assim o preferirem, para assinalar os textos publicados nestes tempos em que a loucura se tornou o "novo normal". Os diligentes Psicólogos (uma profissão com muito presente e ainda maior futuro) aconselham, numa miríade de spots televisivos, os Dez Mandamentos que devemos cumprir para sobreviver ao isolamento/confinamento social sem queimar os fusíveis. Eu pecador me confesso, desrespeito quase todos eles, nomeadamente o de evitar um overload de informação, pois é difícil resistir à tentação de assistir à História em tempo real. Estou imune às redes sociais, pois não as frequento, mas sou um fiel e atento seguidor do caleidoscópio de canais televisivos, com especial destaque para os briefings diários do Governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, que, em contraste com os do inenarrável inquilino da Casa Branca, Donald Trump, são uma preciosa aula de Ciência Política para quem não se atrapalha com a tele-escola em língua inglesa. Espero que o Partido Democrata tenha uma epifania e o aclame como candidato presidencial às próximas eleições em Novembro. E pronto, por hoje é tudo. Já estava com saudades de escrever um post. Devemos sempre voltar ao sítio onde fomos felizes. Não acreditem em quem diga o contrário. São fake news.

#naoanormalidade


Porquê voltar a uma normalidade que era, ela própria, parte do problema?

quinta-feira, julho 18

R.I.P., André Bradford



"(…)
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

Tabacaria, Fernando Pessoa, 15/1/1928


Até sempre, André, pois, na noosfera, não há Adeus.




Foto "roubada" do Ardemares

sábado, dezembro 29

Nova Aliança!


Muito já se escreveu sobre Pedro Santana Lopes e, mais recentemente, sobre o seu novel partido, que também o é de um número cada vez maior de pessoas. Da esquerda para a direita (por ser assim que nos ensinaram a ler), quase todos já lhe vaticinaram o pior desfecho e, passado tão pouco tempo ainda, já alguns “iluminados” foram obrigados a engolir, se não todo pelo menos em parte, o seu “esclarecido” discurso.

Pedro Santana Lopes saiu sozinho do PSD e pode não conseguir fazer perpetuar os seus desígnios (seus e de muitos outros), mas, por esta altura, já ninguém tem dúvidas que, neste momento e no espectro político-partidário português, é o homem em torno do qual se gera o mais genuíno apoio. Curioso, não é?

Podia, mas acho que não devo, escrever muito mais sobre aquele que considero ser o mais apaixonante tema da atualidade política portuguesa, mas não posso terminar sem dizer que considero irracional criticar o “estado da arte” e, ao mesmo tempo, criticar aqueles que, dentro das metodologias previstas no sistema político em vigor e sem os indesejáveis atropelos de ideologias travessas de outras geografias, ousam, apesar da sua madura idade, arriscar o seu capital e desafiar o status quo.

Por tudo isto e por todo o mais que a distância me impedirá de conhecer, olho para Pedro Santana Lopes e para os seus múltiplos defeitos (são sempre os mais fáceis de identificar) e vejo a inspiração para não nos resignarmos e não desistir da nossa ousadia.

Na Aliança, vejo um grande nome. Inteiro e de declarado compromisso, só pode procurar fazer refletir um dos mais interessantes desafios da humanidade dos nossos dias, a colaboração, que devia servir para habilitar a sociedade a atingir os objetivos que devem ser de todos.

sábado, junho 30

Há palavras que não as pode levar o vento.

Sempre digo que não sou uma pessoa de palavras fáceis.
Todas elas têm (sempre, ou quase sempre) o seu significado e a sua escolha decorre de uma observação silenciosa (mas atenta) da realidade circundante.

As que aqui venho propositadamente guardar da voracidade da espuma dos dias, são as que me inspira esta candidatura do Pedro Nascimento Cabral: contemporânea, mas assente em princípios ideológicos que me são muito próximos e capaz de recuperar, o que na opinião de muitos entendidos na matéria, faz falta à direita do espectro politico açoriano.

"Não sou pelo poder.
Não vou pela sebenta.
A doutrina, apesar de tudo, já não o é.
Acredito na vontade de fazer melhor, transportada apenas pelas pessoas que não se deixam idolatrar.
O futuro começa hoje" (sem . propositadamente também)

sábado, maio 26

A propósito de um “CORPO TRIPLICADO”



1. Regressei ao ARCO 8. Apesar de já lá não ir há muitas luas, foi como lá estivesse estado na noite anterior. Tocou-me a alma. Foi uma grande emoção!
O espaço. A música. As histórias. Os “comebacks”. E a mistura amarela.

2. Revi amigos de quem já tinha saudades, Falamos de turismo. Algumas ideias que esperam melhores dias. Frustrações que um dia desaparecem, não se preocupem.

3. Recolhi ao meu íntimo e secreto desejo de concluir um projeto de longa data. Foi a parte fd***d*.

Enfim, uma triplicação.

Do livro, ainda só me atrevo a percorrer uma rua de “Sentido Único”:
                “Na minha casa não há roupa fora de uso, fotografias antigas, recordações de viagens, revistas desbotadas, recortes de jornais, bilhetes de amor, recibos de compras, artigos decorativos, vasinhos de plantas ou animais de estimação. Livro-me das coisas inúteis como me livro dos amigos hipócritas e dos amantes incompetentes. Sem remorso e sem saudade.”


É coisa para dizer parabéns, Ma-ri-a

terça-feira, fevereiro 6