segunda-feira, maio 25

Manual de Simpatia


Voltemos, então, às metáforas bélicas. Nesta primeira grande-guerra do Covid, a primeira vítima, passe a repetição, foi o Turismo. Qual soldado raso de infantaria, o Turismo foi o primeiro na linha de fogo. Companhias aéreas, agências de viagens, hotéis, alojamentos, animação, restaurantes, tuk-tukes, e tantas outras actividades conexas, foram os primeiros a ser lançados na trincheira do confinamento e a sofrer o ataque, inclemente, dos obuses do distanciamento social. Neste admiravelmente asséptico “novo normal”, a Indústria da Hospitalidade é, ela própria, uma impossibilidade, um anacronismo, para o qual olharemos com saudade ou estranheza. Num tempo que nos obriga a andar de cara tapada, uma actividade cuja mercadoria é o sorriso, cuja moeda de troca é a cortesia, não tem, digamos assim, viabilidade económica.

Mas, seria injusto apontar culpas directas a um determinado governo pelo súbito colapso desta Indústria. Não foi só um ou outro Estado, ou região, que se fechou sobre si próprio. Foram todos os países ocidentais que, de um dia para o outro, suspenderam aquilo que era o oxigénio do turismo mundial – a livre circulação de pessoas. Porém, há, obviamente, diferenças, nuances, de país para país, de região para região, quer no grau de preocupação, como na rapidez do auxílio ou, até, na atitude geral para com a necessidade, para não dizer a vontade, de reinventar o sector.

O caso dos Açores é particularmente paradigmático de como o autismo do governo cavou, ainda mais fundo, a sepultura do Turismo. Fechados na sua bolha de preocupação clínica, obcecados pela demanda de cobrir as ilhas num imenso manto de descontaminação, Presidente do Governo e Autoridade de Saúde, tudo fizeram para fechar, isolar e desinfectar os Açores do perigo estrangeiro. Encerramento de aeroportos, cancelamento de voos, quarentenas obrigatórias, quarentenas “voluntárias”, e até, cúmulo dos cúmulos, apelos abertos e sem vergonha a que “as pessoas não se desloquem à região”! Como se já não fosse bastante, para a eutanásia do sector, a inadequação, insuficiência e, até mesmo, a clara injustiça dos parcos apoios de Estado, que em muitos casos mais não eram do que certidões de óbito encapotadas, o último prego no caixão foi, de facto, a forma como, com cada palavra e cada gesto, os responsáveis políticos regionais, foram regando a semente xenófoba que medra, mais ou menos timidamente, dentro de cada açoriano.

No que concerne aos apoios, desde o seu início se percebeu que não passavam de um eufemismo, para não dizer um logro. Pensos rápidos para tratar uma gangrena. A tentativa, desesperada, de conter os despedimentos, com layoffs, e só até ao final do ano, não visa proteger trabalhadores ou apoiar empregadores, busca apenas garrotar as estatísticas do desemprego até depois das eleições. Para além de que esquece todos os outros imensos custos mensais que sobrecarregam as empresas, como, por exemplo, a conta da EDA que nos Açores chega a ser obscena. Ou os custos de manutenção. Nestas ilhas em que a humidade se mede em metros cúbicos e não em percentagem, bastam dois dias de porta encerrada para crescer cabelo nas paredes de uma casa. Experimentem abrir uma porta no Nordeste depois de três meses fechada, a humidade entra-vos pelas narinas como uma má anfetamina. Por outro lado, incentivar o crédito a empresas já de si endividadas ou, cereja em cima do bolo, limitar os apoios a um critério de ausência de dívidas ao Estado, são tudo provas de como a última das preocupações deste governo, desde o Palácio de Santana ao Alto das Covas, é ajudar o Sector do Turismo. E, nem vale sequer a pena falar do Edifício CTT, onde, em total alheamento da realidade em que estamos metidos, a Secretária da Energia, (que certamente não leu a entrevista do Jorge Rebelo de Almeida ao Negócios, anunciando o cancelamento do investimento do Grupo Vila Galé no antigo Hospital de Ponta Delgada...) andava, ainda na semana passada, pasme-se, a enviar emails ao Trade, perdoem o jargão, a pedir contributos para um manual de boas práticas, enquanto todo o resto do país, Madeira na frente, já se prepara para abrir, se é que já não abriu, ao Turismo.

No entanto, o mais grave disto tudo, como se tudo isto não fosse já suficientemente dramático, é, sem margem para dúvidas, esse sentimento generalizado que se disseminou pela população, sustentado pelo discurso e acção do governo, de repulsa, renuncia e pura antipatia para com os que são de fora, e que extravasa de cada comentário a favor do isolamento geográfico das ilhas, como se este fosse, em si mesmo, uma vantagem e não a fatalidade que realmente é. Numa região que até há pouco mais de 20 anos vivia enclausurada nos seus xailes negros, numa região que, mesmo entre si, gosta de alimentar o odiozinho de ilha para ilha, numa região onde até há tão pouco tempo o exemplo máximo de bom atendimento num restaurante era o “vás comê e vás gostá”(!), nesta região, a postura conjunta da tríade Autoridade de Saúde, políticos e (perdoa-lhe Senhor que ele não sabe o que diz) Cónego Borges, em toda esta birra das ligações com o continente, deu cabo, quem sabe se por muitos e bons anos, daquilo que é o bem mais precioso de um Destino, e não, não estou a falar das belezas naturais ou da sustentabilidadezinha, estou a referir-me à arte de bem receber, a pura, simples e genuína, afabilidade. Aquilo que é, afinal, o ouro de qualquer Destino – a simpatia.

A simpatia, a hospitalidade e o bem receber, não se recupera com carimbos sanitários, nem com luvas de plica e máscaras comunitárias, nem com vídeos pseudocómicos com a Teresa Guilherme, nem sequer com anúncios empacotados em aviões da Ryanair à saída de Ringway. Ninguém quer ir a onde não será bem-vindo. E, foi essa mensagem – não queremos cá ninguém! – que andaram, Vasco Cordeiro, Tiago Lopes, até José Manuel Bolieiro, a passar durante estes dois meses e meio, mais o próximo que aí vem até ao início de Julho. A minha falecida avó, costumava dizer que "era preciso uma vida para se construir um 'bom nome', mas que bastava um dia para o perder". Aos Açores bastou um vírus com nome de cerveja. Que Deus lhes perdoe, a mim falta-me a paz de espírito para perdoar…

sábado, maio 23

Do desconfinamento


Num artigo, na revista Scientific American, sobre a evolução da pandemia de Covid-19, a epidemiologista e bióloga evolucionista da universidade de Chicago Sarah Cobey declara que “a questão sobre como a pandemia se desenrolará é pelo menos 50% científica e outros 50% social e política”. No fundo, o que a ciência e a história de passadas pandemias nos dizem é que na inexistência de uma vacina ou, havendo uma, da vacinação massiva dos 8 biliões de seres humanos do planeta, o vírus irá tornar-se endémico, circulando e infectando pessoas sazonalmente. Perante isto, a abordagem ao vírus depende, em igual medida, dos avanços científicos, quer na criação de uma vacina como, e mais importante, no desenvolvimento de medicamentos antivirais, que permitam o tratamento, bem-sucedido, dos infectados. Como, também, dos comportamentos sociais e das opções políticas. Neste aspecto, a questão do sucesso das medidas de confinamento, como forma de ganhar tempo, depende, em grande medida, do momento em que são impostas, pelos decisores políticos, e da sua aceitação e cumprimento, pela população. No mesmo artigo, é admitido que as medidas de confinamento foram mal sucedidas na Europa, ao contrário do que aconteceu em Hong Kong e na Coreia do Sul, porque foram impostas tarde de mais. Ainda sobre medidas de confinamento, Anders Tegnell, o já famoso epidemiologista sueco, em resposta a uma pergunta de Fareed Zakaria sobre se a opção da Suécia de não impor o confinamento tinha sido por razões económicas, Tegnell respondeu, peremptoriamente, que não, que essa opção era apenas baseada na percepção de que quaisquer medidas que fossem tomadas, para controlar a epidemia, teriam que ser sustentáveis no tempo, uma vez que a epidemia iria, como se pode constatar, prolongar por tempo indeterminado. Tegnell é também extremamente explícito na afirmação de que o seu papel é apenas de conselho, são os políticos que tomam as decisões, e não ele. Nesta altura de mais ou menos desconfinamentos, vale apena pensar sobre estas questões, agora que somos todos “suecos”. O confinamento e, por maioria de razão, o isolamento ou, no caso açoriano, o grande fechamento das 9 ilhas, não são um tratamento, são apenas medidas profiláticas, que teriam, tem, necessariamente que ser tomadas por um curto espaço de tempo, sob pena de, como se constata, os seus efeitos psicossociais e económicos serem ainda mais devastadores do que a, felizmente baixa, taxa de letalidade do vírus. O confinamento não é mais do que uma medida para conter a infecção permitindo, no entretanto, que os sistemas de saúde, as organizações políticas e a sociedade, como um todo, se possam preparar para a fase de disseminação da epidemia. Nos Açores, ao fim de praticamente dois meses e meio de confinamento, não temos qualquer informação sobre como o nosso sistema regional de saúde se apetrechou para efectivamente “combater o vírus”, essa expressão que tantos os políticos como a Autoridade de Saúde, essa entidade abstracta e de pulloveres coloridos, tanto gostam de usar. Não sabemos se foram montados hospitais de campanha para tratamento exclusivo dos infectados, libertando assim os hospitais para o seu funcionamento normal. Não sabemos se estamos devidamente capacitados em matéria de equipamentos de protecção, medicamentos, testes ou outros materiais imprescindíveis para o rastreamento e tratamento de pessoas infectadas. Nem sequer sabemos que medidas especificas foram tomadas para os grupos de risco, nomeadamente idosos, em especial os lares. Apenas sabemos que tivemos 146 casos confirmados de Covid-19 e 16 óbitos, sendo estes últimos praticamente todos num lar de idosos no Nordeste. No entanto, ao mesmo tempo e agora que vamos tateando no ar, vendados e a medo, o caminho do desconfinamento, conseguimos todos pressentir que há um outro inimigo, igualmente invisível e mortal, a crescer exponencialmente por entre os interstícios do nosso tecido social e económico, o vírus da brutal crise económica em que o confinamento nos mergulhou e do qual a morte por eutanásia governativa do sector do Turismo é apenas uma pequena parte, embora a que tem, para já, maior visibilidade e peso. E, pressentimos, igualmente, que, para esse outro vírus, para essa outra crise, do chamado “novo normal”, o Governo dos Açores, continua a não ter nem puta ideia do que fazer, só que agora com a agravante de que já não há “isolamento profiláctico”, seja ele voluntário ou não, que o ampare…  

sábado, maio 16

Equivalente ao espaço entre as orelhas...




Ao nosso redor o Mundo todo está a desabar. Por força dos múltiplos confinamentos, isolamentos e tantos outros ditames da ditadura sanitária, a Economia, desde a mercearia de bairro à grande empresa multinacional, travou a fundo, projectando-nos violentamente pelo para-brisas, em direcção ao asfalto, como passageiros sem cinto, no lugar do morto, de um carro na iminência de colisão. Lay-off, desemprego, brutal perda de rendimentos e ausência absoluta de verdadeiras ajudas de Estado, transformaram-nos em meros corpos ensanguentados, entre metal retorcido, num acidente de estrada. No meio desta dantesca realidade, o PS Açores decidiu fazer humor, publicitando nas redes sociais, com bonomia e um sorriso, pequenos memes sobre distanciamento social. Confortavelmente abancados nos seus salários em dia, os jovens assessores da vida partidária, (muitos deles transitaram directamente dos recreios dos liceus para os corredores do poder) entretiveram-se a plagiar imagens anedóticas, para ensinar os açorianos a distanciarem-se convenientemente uns dos outros, com ícones da vida insular como vacas, queijos, hortênsias e atuns. Esta palermice do PS-A é triste e insultuosa, desde logo porque o PS-A não é uma associação de estudantes, nem um grupo de comediantes, numa qualquer sala das Produções Fictícias, à espera de se transformar nos Gato Fedorento, até porque, para isso é preciso talento. O PS-A é um partido político e é o partido que governa os Açores. A exigência de consideração, seriedade e de responsabilidade perante o momento que vivemos é ainda maior para o Partido Socialista dos Açores. O partido que suporta o Governo da região, no momento mais dramático das nossas vidas, não se pode comportar como um adolescente imberbe, fazendo pouco das centenas de pessoas que viram as vidas suspensas, ou até totalmente destruídas, por esta crise e, imperdoavelmente, das dezenas de outras que perderam entes queridos nesta pandemia. Esta idiotice é inadmissível porque não há piada, não há humor, não há sequer um pingo de riso no confinamento forçado e no espectro fúnebre da pobreza que paira hoje, como uma guilhotina, sobre a população. Esta verdadeira marie-anttoinetice é, também, um insulto parvo e é-o porque trata os açorianos como imbecis que precisam de desenhos para compreender a ideia de distanciamento social e este é, provavelmente, o aspecto mais grave de toda este lamentável episódio. É que, a ser assim, os responsáveis do PS-A, desde os seus jovens criativos, aos seus históricos militantes, passando por “ilustres” dirigentes, não percebem que se existem hoje nos Açores cidadãos que precisem deste tipo de mensagem para compreender a gravidade do momento ou a seriedade das medidas a adoptar, tal só se pode ficar a dever, única e exclusivamente, ao total e absoluto falhanço das politicas educativas, sociais e económicas do próprio PS-A que, ao fim de 25 anos de poder, o tempo de uma geração, não conseguiu puxar para cima uma grande fatia da população dos Açores, seja nos índices de pobreza como no nível de escolaridade, ou na civilidade própria da mais básica cidadania. Estes memes, estúpidos e fúteis, são como Nero, tocando a sua lira, enquanto Roma ardia…

Slogans for the 21st Century


Douglas Coupland

terça-feira, maio 12

DESOBEDIÊNCIA CIVIL




Henry David Thoreau 
(Daguerrotype. Worcester-Mass. 1856)


A maioria daqueles que estão familiarizados com a Desobediência Civil associa-a,  geralmente, às figuras de Mahatma Ghandi e Martin Luther King sem ter porventura a noção de que o pai desta ideia ou, melhor dito, do termo em si mesmo, foi Henry David Thoreau que, na sequência de uma noite passada na prisão em Concord, Massachusetts, proferiu perante os seus concidadãos a palestra Resistance to Civil Government, depois publicada em 1849 sob o título Civil Disobedience.

Nos tempos que correm, em que o dito Estado de Direito foi sequestrado pelo Estado Sanitário, um filho improvável do Estado Securitário com que fomos brindados no início do século XXI, o ensaio de Thoreau é uma leitura assaz recomendável mas, infelizmente, este autor americano está pouco traduzido em português, uma língua de brandos costumes nada atreita a pensadores libertários. O povo português é de um civismo exemplar, conforme assegura ad nauseam o discurso político na sua habitual retórica, e dedica ao Estado uma devoção comparável à dos fiéis peregrinos de Fátima.

Thoreau foi preso porque se recusou a pagar um imposto, a Poll Tax, argumentando que a sua consciência não lhe ditava esse dever para com um Governo que, além de ter desencadeado de forma fraudulenta a Guerra do México em 1846-48, admitia a existência da escravatura nalguns Estados da União. Diz-se que quando um amigo o foi visitar à prisão e lhe perguntou – “O que é que fazes aí dentro?” – ele respondeu – “E tu, o que é que fazes aí fora?”. 

O último reduto da dignidade humana é a nossa consciência e Thoreau ensina-nos, de uma forma exemplar, a sermos objetores de consciência. Não sou jurista nem especialista em Direito Constitucional, mas até um analfabeto sabe, no íntimo da sua consciência, que um Estado para ser respeitado tem que se dar ao respeito!

sábado, maio 9

O Sindrome Nanni Moretti


Como vários epidemiologistas têm dito só saberemos a real dimensão e extensão da pandemia do Covid-19 quando esta terminar. Só aí se poderá fazer o balanço exacto dos infectados, dos mortos, dos que escaparam ao vírus. Porém, muito para lá da universalização da vacina e da OMS declarar o fim oficial da pandemia, as ondas de choque sociais, económicas e políticas desta crise far-se-ão sentir ainda, por muito tempo, como ecos de um vasto cataclismo. Se a caracterização correcta da crise social e económica levará décadas, as crises políticas provocadas pela “guerra” ao Covid-19, como gostam de dizer os políticos, são já, de certa maneira, claras. Uma das principais consequências desta crise na política europeia foi a forma como tornou evidente a incapacidade dos vários governos em tomar decisões políticas com base em ideologias e em colocar em primeiro lugar, não os seus, mas os interesses das comunidades. Com mais ou menos pequenas alterações a resposta dos vários governos europeus foi ceder à pressão popular e científica com a adopção de medidas de fascismo sanitário. Nem por um segundo os governos hesitaram na aceitação deste caminho autoritário e a grande massa dos cidadãos, levados pelo medo, aceitaram de livre e espontânea vontade esta via. Perante a necessidade de medidas imediatas, não se esperaria que houvesse lugar a referendos sobre a resposta ao Covid-19, mas seria legítimo esperar que os diferentes governos reagissem conforme as suas diferentes colocações no espectro político e isto, tendo em conta a resposta autoritária, é tanto mais grave nos governos ditos socialistas. A necessária ponderação entre os valores da saúde pública e a defesa dos direitos, liberdades e garantias era um imperativo ético e moral, particularmente, para os governos emanados destes partidos. Se as ciências médicas recomendavam uma resposta alicerçada maioritariamente no distanciamento social e no confinamento o dever dos governos socialistas era encontrar o necessário equilíbrio entre estas respostas e a defesa da liberdade e a garantia das protecções sociais que defendessem os mais fracos e desprotegidos dos efeitos cegos destas medidas. Aquilo a que estamos a assistir é a forma como o súbito confinamento, seguido de um desconfinamento hesitante, estão, em conjunto, a destruir a economia e o tecido social das nossas comunidades. Isto porque a verdade é que esta crise não atinge todos da mesma maneira. Há, desde logo, um fosso profundo entre sector público e sector privado. Entre ricos e pobres. Entre população rural e urbana. Entre o interior, desertificado e envelhecido, e o litoral. E o que se exigia a governos ditos socialistas eram respostas que minimizassem estas diferenças, que atenuassem os efeitos devastadores do combate à crise nos mais fracos e desprotegidos. Pelo contrário, o que assistimos é a uma governação imediatista e mediatizada tomada apenas por respostas impulsivas e avulsas. E, se as medidas de saúde pública são claramente autoritárias, as medidas económicas são fundamentalmente não-sociais. É caso para citar Nanni Moretti e, olhando para António Costa e, já agora, para Vasco Cordeiro, e pedir encarecidamente – façam alguma coisa de esquerda.

domingo, maio 3

Ler


 A Blind Girl Reading, Ejnar Nielsen, 1905, SMK, Copenhagen.

Com as livrarias fechadas e a circulação condicionada, abastecemo-nos de livros com os subterfúgios possíveis. Este é o tempo de remexer nas estantes e encontrar leituras proteladas ou esquecidas. Este é o tempo de encomendar online ou ao livreiro amigo, de vigiar o correio ou aguardar o toque da campainha. Este é o tempo de privilegiarmos as pequenas editoras e livrarias. As que trabalham por amor à literatura e ao livro. As que se alimentam e nos alimentam com proximidade e amizade. Sugiro duas. Uma editora e uma livraria. A Companhia das Ilhas e a SolMar. Qualquer uma delas preenche estes e outros requisitos. Qualquer uma delas nos oferece um excelente serviço. Encomendas aqui e aqui.

sexta-feira, maio 1

Sobre a desumanização


Ontem, já mesmo no final da sua longa entrevista à RTP, em que explanou os detalhes deste falacioso desconfinamento, António Costa declarou, com ar blasé, que o chamado Estado de Calamidade, que vigorará a partir das zero horas de Domingo, durará por tempo indeterminado. Com absoluta indiferença e com uma naturalidade apavorante, o Primeiro-ministro deixou escapar a grande verdade escondida desta pandemia: a completa e absoluta desumanização das nossas vidas está aí para ficar. Isto, a que chamam de “novo normal”, é o tempo do medo e do autoritarismo. Também, já há dias que um vídeo, de uma participante no Prós e Contras, supostamente com uma mensagem de responsabilização dos cidadãos face ao vírus, anda a causar furor nas redes sociais. Na verdade, o que transparece dessas declarações é a frieza desumana como as ditas ciências da vida olham para os Seres Humanos. Aos olhos da medicina não somos mais do que portadores da doença, cada um de nós é um Uber da contaminação, um aspersor de contágios, que nos saem pela boca, e que urge deter, confinar, isolar e mascarar. Ao medo, os Governos, que sem vergonha se declaram socialistas, alcandorados nas reuniões do Infarmed e na opinião avalizada de médicos, farmacêuticos, virologistas, matemáticos e todo um outro arsenal de doutos cientistas e Autoridades Sanitárias, responderam com choque e pavor. Com um regresso inexplicável à idade das trevas e a um incompreensível e inadmissível fascismo higiénico. Ao ponto de, a partir da próxima semana, as crianças, de todos os graus de ensino, das afortunadas e descontaminadas ilhas de Santa Maria, Flores e Corvo poderem regressar à escola, mas desde que devidamente mascaradas, desinfectadas e impedidas de ver os sorrisos umas das outras. Nas creches, as educadoras terão que cuidar dos mais pequenos de máscara, se calhar de luvas, coartando-se assim o acesso ao mais importante de qualquer cuidado, o calor humano. Tudo para que os pais, remetidos ao teletrabalho não tenham que as/os ter em casa. Também por tempo indeterminado aqueles de entre nós que mais precisam de apoio e de cuidado, os mais idosos, os doentes crónicos, terão de permanecer confinados, em isolamento profilático, dizem eles, quando na verdade o que querem dizer é abandonados e sós. Nos transportes públicos haverá multas para quem não usar máscara, enquanto eles, os privilegiados, continuarão nos seus carros topo de gama, quem sabe se com motorista, a olhar por detrás dos vidros fumados a queda no abismo da multidão dos desprotegidos, os que ficaram sem trabalho, os que viram os seus negócios fechados, os que foram deixados à sua sorte, os que perderam tudo. Entretanto, os Governos, apelidando-se desavergonhadamente de socialistas, o que dizem fazer é salvaguardar a sacrossanta “saúde pública”, o que nos querem fazer crer é que estão a salvar vidas. Mas, que vidas são essas que dizem proteger? Que Vida é essa se lhe retiram a mínima réstia de Dignidade? O que fica da Vida se lhe proibirem o afecto, o abraço? Que vida pode haver sem direito à Liberdade, sem Fraternidade, sem o dever primeiro e fundamental da Solidariedade? Durante séculos, milénios até, milhões de pessoas deram as suas Vidas por estes valores. Que sociedade somos nós hoje, que largamos mãos deles, que socialistas são estes que, em prol da ditadura das estatísticas e das curvas e do número de camas e ventiladores disponíveis nas UCI, governam sem honrar estes valores? Onde nos devíamos juntar para proteger e cuidar, afastamos. Onde devíamos compreender e ajudar, isolamos. Quando devíamos pedir ajuda, fechamos fronteiras. Tudo em nome do superior interesse dessa concepção abstrata chamada Saúde Pública. Um dia, saberemos que as vítimas deste vírus não foram os mortos, foi a nossa própria humanidade.

Lunáticos (!)


Esta semana, à crença de que «a necessidade aguça o engenho», somo a compreensão de que ela, a necessidade, numa feliz expressão atribuída ao génio que foi Platão, é também «a mãe de todas as invenções», sendo que o plural é da minha responsabilidade, por questões que não importa agora aprofundar.

A (im)preparação, ante a surpresa, atrasa a humanidade, mas não a detém(!) e, não sei se bem ou se mal, lá nos vamos conseguindo reinventar, umas vezes pior e, sobretudo, outras vezes melhor.

Aflige-me, no entanto, a ideia de que, tal como o escorpião picou a rã numa conhecida fábula, também esteja na nossa natureza darmos cabo do planeta, nosso hospedeiro, ao mesmo tempo que damos largas aos instintos de sobrevivência da espécie, seja lá o que «sobrevivência da espécie» represente para uma ou outra estirpe.

Para os »marretas« que nunca se rendem ao vírus, a qualquer que seja, venham eles de onde vierem, deixo a recomendação de leitura do livro Lunáticos, de Safi Bahcall.

Não obstante uma determinada sensação de uma vivência sequencial da humanidade, a vida também acontece nas faixas paralelas. São elas que, nas nossas autoestradas, permitem as viragens à direita ou à esquerda e, quando necessário, as inversões de sentido de marcha também.



domingo, abril 26

lamento por Abril...


Não é fácil fazer um diário quando os dias são indistintos. Quando nem o sono nocturno permite separar um dia do outro. Não é fácil compreender a realidade no meio da torrente de notícias, comentários, comentadores, mensagens e posts. Dentro do confinamento somos todos ratos num laboratório, incautos, inocentes, alheios à experiência que se abate sobre nós. Olhando para trás é difícil perceber quando tudo isto começou. De dentro do isolamento não se consegue ver, com clareza, com luz, o dia, o momento exacto, em que a Liberdade nos foi retirada. Em que as rotinas do confinamento nos foram impostas, como algemas. Mas, não foi o vírus a origem de tudo isto. Não foi a doença, não foi a contaminação exponencial. Nem foi o medo, o pânico, que varreu o mundo, como uma labareda fulminante. O que nos enclausurou verdadeiramente foi a normalidade que havia. Foi a vida que tínhamos e para a qual nos querem tão fervorosamente fazer voltar. Este confinamento não começou no vírus, começou no fim das utopias. Começou na forma lenta e gradual em como a ditadura do capital tomou conta das nossas vidas. Foi nas rotinas que nos foram impostas antes deste grande fechamento. No trabalho, no ensino formatado. Na ditadura da beleza e da fama. Na ditadura do dinheiro, do lucro. Fomos nós que nos entregamos de livre vontade à voragem da Banca, dos juros, dos créditos. Na ditadura da ciência que na verdade não sabe nada. A liberdade não nos foi roubada pelo vírus, mas pelos partidos e por todas aquelas eleições em que não fomos votar. Fomos nós que deixamos os partidos saquear a Democracia. A casa da Democracia não é o Parlamento, são as ruas deste país. A Democracia não são os ditames da política partidária. A Democracia não é a vontade dos ditos representantes, principalmente quando estes se distanciam em acções dos princípios e valores da liberdade e se arrogam a si privilégios que negam ao povo. A Democracia não é dar de comer aos sem-abrigo, é tirá-los da rua e devolver-lhes a dignidade. A liberdade não é confinamento, é solidariedade. A liberdade não é isolamento, é abraço. A Democracia é o que se canta nas janelas e varandas deste país. A Liberdade é um homem só no meio da uma avenida vazia carregando ao ombro uma bandeira de Portugal encimada de cravos vermelhos.



sábado, abril 25

CONTOS DA LOUCURA NORMAL #3



Andrew Wyeth, Wood Stove (dry brush in watercolor), 1962 
(Farnsworth Art Museum. Rockland - Maine)


Nestes tempos de confinamento generalizado a expressão anglo-americana Cabin Fever começa a ficar trending nos motores de busca da internet e, segundo o venerável Oxford English Dictionary, designa o seguinte estado de espírito, que passo a citar: Lassitude, irritability, and similar symptoms resulting from long confinement or isolation indoors during the winter.

Para uma criatura atlântico-mediterrânica que vive num arquipélago frequentemente apelidado de “Irlanda subtropical”, onde os Invernos não possuem o rigor extremo que caracteriza regiões como o Alasca, o Minnesota e a maioria das províncias do Canadá, a expressão não faz muito sentido como sinónimo de, usando um plebeísmo, “estou a passar-me dos carretos”, pois se há desejo que ainda guardo na minha bucket list é viver numa log cabin durante duas ou três semanas, não necessariamente no Inverno e, de preferência, no Estado do Maine à beira das águas tranquilas de um lago, quando a foliage season explode numa sinfonia de cores anunciando a chegada do Outono.

Quatro razões concorrem para o conforto de uma log cabin: a madeira como único material de construção; o alpendre mobilado com cadeiras de baloiço; a lareira e chaminé de pedra no centro da casa e, finalmente, a maravilhosa antigualha que se dá pelo nome de fogão a lenha. É essa atmosfera aconchegante que retrata a aguarela de Andrew Wyeth, por muitos considerado o mais americano dos pintores americanos, num interessante contraponto rural ao ambiente de solidão urbana que Edward Hopper, evocado num post anterior da Maria Brandão, soube transpor para a tela como ninguém.

Quando a pandemia passar (ainda tenho alguma fé Iluminista no progresso da ciência) vou de férias para o Maine, se possível num navio mercante com o Lord Jim na bagagem.

sexta-feira, abril 24

Maniqueísmos de ocasião


Os tempos de crise são pródigos em maniqueísmos bacocos. Em Portugal isto tornou-se óbvio com a polémica bizantina em torno da celebração do 25 de Abril. De repente o país acordou dividido entre fascistas e revolucionários, com o acrescento de ridículo de ambos se acusarem mutuamente de perigoso contágio. O que pode o Covid-19 ao pé de uma boa dose de indignação de Facebook? É claro que o 25 de Abril pode e deve ser comemorado, aliás e como o Natal, o 25 de Abril é todos os dias, como bem descobriram os peticionários de uma petição (passe a redundância) para impedir o 25 de Abril, quanta ironia. Mas, também seria razoável que os poderes instituídos entendessem que o que realmente põe em causa a democracia é a desigualdade e a distância de direitos e regalias entre as pessoas. Ao povo restringe-se as liberdades mais básicas como, por exemplo, o luto. Enquanto o Estado se arroga a si o direito de fazer de conta que nada mudou. Se há coisa que esta crise veio demonstrar à saciedade é o enorme fosso que existe neste país entre cidadãos, supostamente iguais. O país dos que tem casas com jardim, internet de banda larga, computadores e tablets, descobertos autorizados e salários por inteiro. E o país dos que por ordem do Estado, mais do que por imposição do vírus, viram as suas vidas despejadas no lixo de um dia para o outro. Mas com esse maniqueísmo ninguém se indigna…

quarta-feira, abril 22

Solidão sobre solidão


Hotel by Railroad, Hopper Meditations, Richard Tuschman, 2013.


Solidão. Alienação. Saudade. Richard Tuschman reinterpretou o universo de Edward Hopper, criando narrativas ficcionais muito próximas do trabalho do pintor americano, numa série intitulada Hopper Meditations. Tuschman combinou digitalmente dioramas do tamanho de casas de bonecas, construídos, pintados e fotografados no seu estúdio, com fotografias de modelos humanos em tamanho natural, fazendo emergir das suas personagens e das suas composições uma complexidade emocional, uma passividade física, um despojamento e uma representação da solidão bastante próximas do original.

A janela como moldura para a vida, o livro ou o cigarro como única parceria, o outro como mera presença física.  A sombra maior do que a luz, a postura corporal tensa, o olhar fixado no intangível, o coração apertado pela fronteira intransponível.

Hopper e Tuschman. Solidão sobre solidão. Assim vivemos nós estes dias. Personagens do nosso diadorama, bonecos de carne e osso, reféns da tecnologia digital, delimitados e suspensos, à espera de um artista que resolva restaurar esta composição.

terça-feira, abril 21

Contos da Loucura Normal #2

“Big Brother”, um termo popularizado entre nós por uma série imbecil de programas televisivos que tiveram início no final do último milénio e alimentaram um voyeurismo coletivo de gosto duvidoso, já faz parte das minhas household memories desde a tenra adolescência, quando li a edição portuguesa (salvo erro, da Ulisseia) do 1984, de George Orwell, que o meu Pai tinha na estante da sua biblioteca. Foi um livro que me marcou muito, a par de outros títulos como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou os Nove Contos, desse genial cometa literário chamado Jerome David Salinger. Mas a narrativa distópica de 1984 e a admirável visão premonitória de George Orwell, que escreveu essa obra em 1949, possuem hoje, mais do que nunca, uma perturbante atualidade, sobretudo quando ouço falar de procedimentos profiláticos de geo-localização conduzidos pelo Estado para controlar a pandemia. Big Brother is watching you! Deus nos livre, diria eu se fosse crente. O Big Brother não é meu brother não, obrigado.



sábado, abril 18

Navegação Avisada é Porto Seguro

Diz que é um «novo normal» que está a chegar.
Algo que não se sabe bem o que será, nem que deuses irá servir.
Digo que se é novo, não é normal. Quando for normal, não será novo.
Por agora, uma certeza: «cautelas e caldos de galinha» podem até ter dado cabo do vírus, mas deram também cabo da vida de muitas pessoas.
Somos todos uns idiotas!

O Socialismo Agiota


Amanhã, o Partido Socialista Português, celebra 47 anos. Num email enviado aos militantes a actual direcção do partido cita um excerto de um discurso de Mário Soares no jantar do seu 80º aniversário: “Sou socialista porque acredito no progresso, incluindo o progresso moral. Porque acredito no desenvolvimento sustentado, com dimensão ecológica e social, nos Direitos Humanos e no Direito Internacional. Sou Socialista porque quero a paz, fundada no respeito pela diversidade dos Povos e das Culturas, no diálogo entre religiões e pessoas, independentemente das suas etnias, crenças, sexos, opções políticas e condições sociais e, finalmente, na Justiça. Para mim, o socialismo é indissociável da liberdade, do respeito pelos outros e pelo que é diferente de nós.”. Por alguma razão, que só o próprio saberá, José Luís Carneiro, o actual Secretário Geral Adjunto do partido decidiu terminar aí a citação. Porque, Soares continuava dizendo: “Sou socialista porque acredito na capacidade humana para transformar as sociedades, de modo a serem mais justas e humanizadas. Sou socialista mas não quero impor o socialismo aos outros, muito menos pela força. Acredito na persuasão e no voto como meio de dirimir pacificamente os conflitos. Sou socialista e a favor do mercado e da livre iniciativa. Mas o mercado não é, para mim, um Deos ex-maquina. Produz injustiças e desigualdades, que cumpre ao Estado corrigir. Por isso, não acredito no neo-liberalismo, como sistema universal, que tem dominado as sociedades, desde o colapso do comunismo e, através da globalização desregulada, está a produzir as maiores desigualdades e muita exploração no interior das sociedades, mesmo as mais desenvolvidas e entre os Estados ricos e pobres.” Hoje, 16 anos passados sobre este discurso, na véspera dos 47 anos do Partido, no epicentro da maior crise económica e social das nossas vidas, importaria, mais do que nunca, em louvor do Socialismo, continuar a citação até ao fim. Salientando, amplificando mesmo, a luta fundamental de todos os verdadeiros socialistas, contra a ditadura dos mercados, o neo-liberalismo selvagem e as múltiplas desigualdades que assolam a Europa e Portugal. Mas não, hoje António Costa, em entrevista ao Expresso, decidiu amplificar o sound byte  agiota criado pelo seu amigo Siza Vieira, e avisa o país de que “os apoios de hoje são os impostos de amanhã”. Não, esta direcção do PS, que acha que se deve apoiar a Banca em vez do Povo. Que se podem injectar directamente milhões de euros na TAP e nos media, mas não nas famílias. Que considera até legítimo reinstituir o serviço militar obrigatório. Esta direcção do PS, não é socialista! Esta direcção do PS não merece, sequer, citar Mário Soares!

#naoanormalidade 

sexta-feira, abril 17

Contos da Loucura Normal

Este era o título, se a memória não me falha, de um filme do século passado que retratava a vida do escritor americano Charles Bukowski, que sempre muito apreciei. E creio ser um bom título, ou epígrafe, se assim o preferirem, para assinalar os textos publicados nestes tempos em que a loucura se tornou o "novo normal". Os diligentes Psicólogos (uma profissão com muito presente e ainda maior futuro) aconselham, numa miríade de spots televisivos, os Dez Mandamentos que devemos cumprir para sobreviver ao isolamento/confinamento social sem queimar os fusíveis. Eu pecador me confesso, desrespeito quase todos eles, nomeadamente o de evitar um overload de informação, pois é difícil resistir à tentação de assistir à História em tempo real. Estou imune às redes sociais, pois não as frequento, mas sou um fiel e atento seguidor do caleidoscópio de canais televisivos, com especial destaque para os briefings diários do Governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, que, em contraste com os do inenarrável inquilino da Casa Branca, Donald Trump, são uma preciosa aula de Ciência Política para quem não se atrapalha com a tele-escola em língua inglesa. Espero que o Partido Democrata tenha uma epifania e o aclame como candidato presidencial às próximas eleições em Novembro. E pronto, por hoje é tudo. Já estava com saudades de escrever um post. Devemos sempre voltar ao sítio onde fomos felizes. Não acreditem em quem diga o contrário. São fake news.

#naoanormalidade


Porquê voltar a uma normalidade que era, ela própria, parte do problema?

quinta-feira, julho 18

R.I.P., André Bradford



"(…)
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

Tabacaria, Fernando Pessoa, 15/1/1928


Até sempre, André, pois, na noosfera, não há Adeus.




Foto "roubada" do Ardemares

sábado, dezembro 29

Nova Aliança!


Muito já se escreveu sobre Pedro Santana Lopes e, mais recentemente, sobre o seu novel partido, que também o é de um número cada vez maior de pessoas. Da esquerda para a direita (por ser assim que nos ensinaram a ler), quase todos já lhe vaticinaram o pior desfecho e, passado tão pouco tempo ainda, já alguns “iluminados” foram obrigados a engolir, se não todo pelo menos em parte, o seu “esclarecido” discurso.

Pedro Santana Lopes saiu sozinho do PSD e pode não conseguir fazer perpetuar os seus desígnios (seus e de muitos outros), mas, por esta altura, já ninguém tem dúvidas que, neste momento e no espectro político-partidário português, é o homem em torno do qual se gera o mais genuíno apoio. Curioso, não é?

Podia, mas acho que não devo, escrever muito mais sobre aquele que considero ser o mais apaixonante tema da atualidade política portuguesa, mas não posso terminar sem dizer que considero irracional criticar o “estado da arte” e, ao mesmo tempo, criticar aqueles que, dentro das metodologias previstas no sistema político em vigor e sem os indesejáveis atropelos de ideologias travessas de outras geografias, ousam, apesar da sua madura idade, arriscar o seu capital e desafiar o status quo.

Por tudo isto e por todo o mais que a distância me impedirá de conhecer, olho para Pedro Santana Lopes e para os seus múltiplos defeitos (são sempre os mais fáceis de identificar) e vejo a inspiração para não nos resignarmos e não desistir da nossa ousadia.

Na Aliança, vejo um grande nome. Inteiro e de declarado compromisso, só pode procurar fazer refletir um dos mais interessantes desafios da humanidade dos nossos dias, a colaboração, que devia servir para habilitar a sociedade a atingir os objetivos que devem ser de todos.

sábado, junho 30

Há palavras que não as pode levar o vento.

Sempre digo que não sou uma pessoa de palavras fáceis.
Todas elas têm (sempre, ou quase sempre) o seu significado e a sua escolha decorre de uma observação silenciosa (mas atenta) da realidade circundante.

As que aqui venho propositadamente guardar da voracidade da espuma dos dias, são as que me inspira esta candidatura do Pedro Nascimento Cabral: contemporânea, mas assente em princípios ideológicos que me são muito próximos e capaz de recuperar, o que na opinião de muitos entendidos na matéria, faz falta à direita do espectro politico açoriano.

"Não sou pelo poder.
Não vou pela sebenta.
A doutrina, apesar de tudo, já não o é.
Acredito na vontade de fazer melhor, transportada apenas pelas pessoas que não se deixam idolatrar.
O futuro começa hoje" (sem . propositadamente também)

sábado, maio 26

A propósito de um “CORPO TRIPLICADO”



1. Regressei ao ARCO 8. Apesar de já lá não ir há muitas luas, foi como lá estivesse estado na noite anterior. Tocou-me a alma. Foi uma grande emoção!
O espaço. A música. As histórias. Os “comebacks”. E a mistura amarela.

2. Revi amigos de quem já tinha saudades, Falamos de turismo. Algumas ideias que esperam melhores dias. Frustrações que um dia desaparecem, não se preocupem.

3. Recolhi ao meu íntimo e secreto desejo de concluir um projeto de longa data. Foi a parte fd***d*.

Enfim, uma triplicação.

Do livro, ainda só me atrevo a percorrer uma rua de “Sentido Único”:
                “Na minha casa não há roupa fora de uso, fotografias antigas, recordações de viagens, revistas desbotadas, recortes de jornais, bilhetes de amor, recibos de compras, artigos decorativos, vasinhos de plantas ou animais de estimação. Livro-me das coisas inúteis como me livro dos amigos hipócritas e dos amantes incompetentes. Sem remorso e sem saudade.”


É coisa para dizer parabéns, Ma-ri-a

terça-feira, fevereiro 6

quarta-feira, janeiro 10

ARIGATO - 10 ANOS DE SUSHI EM PORTUGAL


São boas notícias para os aficionados do peixe cru em arroz avinagrado. 

O sushi, esse grande statement à escala mundial da cultura do país dos samurais, vê-se agora retratado em Portugal pelas mãos de Cristina Cordeiro, jornalista, escritora deliciosa, autora do livro "Manuel António de Vasconcelos: Pioneiro da Arquitectura Modernista" e que, na opinião do DN, “tem uma voz de menina e parece que se espanta a cada frase”.

O livro “ARIGATO 10 ANOS DE SUSHI EM PORTUGAL” da autoria de Cristina Cordeiro, com a fotografia de Ricardo Oliveira Alves e o design de Ivone Ralha, é lançado já no próximo dia 16.

O projeto surgiu a convite do Arigato, que comemora por esta altura dez anos, mas o conceito da obra rapidamente transcendeu a ideia inicial. Ao longo do último ano, Cristina Cordeiro traçou a história da cozinha japonesa em Lisboa desde os longínquos anos 80, tendo entrevistado os pioneiros da restauração nipónica, e construído toda uma narrativa que termina com uma entrevista ao embaixador do Japão e uma cronologia das relações Portugal-Japão, do século XVI até aos nossos dias. 

Uma verdadeira aventura!

terça-feira, agosto 8

Aviso à navegação

A leitura da semana do Reporter X, como de resto toda a opinião do Açoriano Oriental, passou a estar disponível, apenas, para subscritores. A actualização semanal, com direito a links, passa a estar num blog (mesmo aqui ao lado).

sábado, março 25

AÇOREANA DMC - Uma Grande Equipa

Em tempos pensei e escrevi que, por mais anos de vida tivesse e por mais bem sucedida fosse a minha carreira profissional, a vida teria dificuldade de me colocar perante outro desafio e outro projeto tão importantes como foi para mim o reposicionamento do Terra Nostra.

Não me podia ter enganado mais!

Como nem sempre fui esta pessoa sociável que muitos conhecem, com a força inabalável de tudo fazer para, à minha passagem, procurar deixar o mundo um pouco melhor, é importante referir que costumo, e com verdade, atribuir ao Primitivo Marques (a quem fiquei sempre grato) um papel muito importante naquela que considero ter sido uma mudança radical, sobretudo, no que diz respeito ao entendimento do conceito de “comercial”, fazendo com que a desajeitada larva que eu era se tivesse transformado numa ágil borboleta.

Mas o que me enche de alegria e me faz sentir honrado é o facto de muitas pessoas, sobretudo aquelas que melhor conheceram o Rodrigues Carroça, meu pai, dizerem que dele herdei a arte de fazer as pessoas sentirem-se especiais na sua presença. Quando eu era ainda uma criança, vivia (sem saber) fascinado com a gentileza com que o meu pai se dirigia a todas as pessoas com quem ele se cruzava. Era, pois, habitual eu e ele nos perdermos em conversas sobre como iríamos construir, quando eu crescesse, uma organização que teria como único objetivo ajudar todas aquelas pessoas que tivessem dificuldades (fosse no que fosse!), uma espécie de agência de resolução do infortúnio dos amargurados que não sabiam como desenvencilhar-se por entre o mar burocrático que promove o naufrágio dos mais fracos e desprotegidos.

Estive imerso em trabalho árduo durante todo o ano de 2016 e apresentei a nova imagem da Açoreana DMC na BTL, no passado dia 16: um estrondo com réplicas que se fazem sentir por muitos lugares e, julgo que por muito tempo ainda. Foi então que percebi que a minha sensação de realização não se encontra em fazer coisas grandes. Afinal, a minha realização, tanto profissional como pessoal, está em fazer pessoas felizes, algo que quase nunca é tarefa fácil.

Com um agradecimento especial a todos aqueles que ajudaram a dar forma a esta pequena maravilha, fiquem com o filme que mostra como se recria uma marca inspirada numa grande equipa, com pessoas agora mais felizes.


Mais projetos não tardam. Fiquem atentos ao TREMOR e façam o favor de dar largas à vossa imaginação.


P.S. Não podia fazer melhor homenagem ao meu pai. Todos os dias!

sábado, novembro 19

"Sabores do Cozido" - Não é para qualquer um!

Como determina a tradição, depois da remodelação do hotel em 2013, estreou-se hoje mais uma carta “Outono Inverno” no Restaurante Terra Nostra e muitas são as notas interessantes sobre os pratos fantásticos que calarão as bocas dos mais versados conhecedores gastronómicos da praça.

Poderia dedicar esta tosca prosa a tantas e boas iguarias: caso da caldeirada de peixe, da tempura de polvo e do pernil com feijoada (a minha preferida). Mas não! Apetece-me falar dos “sabores do cozido”. Porquê? Porque é um rasgo de génio, algo que parecia impossível, algo que não é para qualquer um!



É verdade que o Mundo evolui (!) porque a humanidade não ficou parada à espera do amanhã. Também não é mentira nenhuma que essa evolução se fez sentir mais nuns sítios do que noutros e quanto maior a dimensão do aglomerado populacional, maior a velocidade e o número de áreas em que ela se manifestava no horizonte global das sociedades.

Se os pré requisitos atrás referidos estão na génese da evolução da nossa espécie, estão na génese também da verdadeira revolução que acontece todos os dias naquele que é um dos grandes, dos maiores, restaurantes de Portugal.

Podem deliciar as vistas com as fotos com que tempero esta pequenina nota (sim, porque o que se passa no Restaurante TN é muito maior), mas se quiserem compreender verdadeiramente o que vos digo, vão ter todos que ir ao Terra Nostra saborear o resultado daquele que foi, tão-somente, um desafio de um amigo, feito ao Chef Luís Pedro, um dos mais revolucionários Chefs dos Açores da atualidade.




Está de parabéns, uma vez mais, toda a equipa do Terra Nostra a quem deixo um abraço, na pessoa do seu Diretor, Simão Markovitch.

quinta-feira, outubro 13

Uma iniciativa com futuro!


Um português que não esperou por D. Sebastião

Não sei se retomo a minha presença por esta casa.
Mas seja como for, não resisto a "postar" um texto de Miguel Sousa Tavares sobre António Guterres, o grande senhor nações unidas (não a tendo visto por aí escrita, posso assumir legitimamente a paternidade da expressão).

"Maior que Portugal", diz Miguel Sousa Tavares:
"Meço a frase com todo o cuidado: António Guterres é um dos raros portugueses de quem eu, convictamente, posso afirmar que é maior do que Portugal. Ele e Mário Soares são os únicos políticos portugueses que, em 40 anos de andanças jornalísticas, vi serem conhecidos e reconhecidos lá fora. O seu extraordinário desempenho na candidatura a secretário-geral da ONU, apesar dos tão invocados esforços diplomáticos e influências movidas, deve-se, única e exclusivamente, ao seu mérito próprio. Ela só foi possível porque, num processo aberto e fundado na qualidade de cada candidato, António Guterres foi, de longe, o melhor. E isso é, desde logo, uma característica que o faz diferente da nossa maneira de ser: ousar bater-se e conseguir triunfar pelo mérito próprio, exclusivamente.
Conheci pessoalmente António Guterres quando ele era líder da oposição socialista ao último governo de Cavaco Silva. Convidou-me para irmos almoçar no seu restaurante favorito, na Praça das Flores, e a partir daí, durante cerca de um ano, almoçávamos uma vez por mês, tendo cada almoço uma espécie de tema predefinido — para o qual ele vinha incrivelmente preparado, documentado e com ideias firmes que queria confrontar com as minhas. Mas, por favor, não façam confusão: eu não sou o arquiteto Saraiva, cuja ideia de jornalismo se resume aos almoços que tem com os políticos para satisfação do ego e memória futura. Detesto almoços de trabalho em geral e almoços com políticos em particular. Mas Guterres era diferente: estava na oposição, tinha vontade de discutir e de se confrontar a si próprio e um genuíno espírito de serviço público que eu nunca antes tinha conhecido. Nunca, em 40 anos de jornalismo, encontrei alguém em Portugal que estivesse mais bem preparado e motivado para governar — e eu sempre pensei e penso que governar Portugal, de acordo com aquilo em que se acredita ser melhor para o país, é o pior emprego que se pode ter.
Então, Guterres foi para primeiro-ministro. E, logicamente, os nossos almoços acabaram: porque ele deixou de ter tempo para isso e porque a natureza da nossa relação mudou necessariamente. Mas um dia telefonou-me para que eu fosse almoçar em São Bento. Foi um almoço estranho, que durou umas quatro horas e em que a maior parte do tempo foi gasta a falar da vida e de assuntos pessoais. Lembro-me de uma frase premonitória que ele disse e que eu retive pela convicção com que foi dita: “Não vou ficar aqui muito tempo e quando sair vou querer dedicar-me a qualquer coisa no domínio internacional, no campo dos direitos humanos ou semelhante.” Saiu com um pretexto absurdo, cansado dos facas longas do PS, da pequena intriga da política e da mesquinhez do país. Não o disse assim exatamente, mas eu sinto que foi isso que pensou quando falou do “pântano”. E eu, que lhe dediquei um livro de crónicas políticas intitulado “Anos Perdidos”, eu, que então não lhe perdoei não ter querido arrostar até ao fim com a luta contra os nossos males mais profundos, enquanto seu admirador pessoal, compreendi bem a sua desistência e, do fundo do coração, desejei-lhe toda a sorte do mundo.
E hoje ele é o secretário-geral do mundo. Não sei se os portugueses se dão bem conta daquilo que António Guterres conseguiu para Portugal. Representa bem mais do que as Bolas de Ouro de Cristiano Ronaldo, o título europeu da Seleção e até o Nobel de Saramago.
Não haverá multidões à sua espera no aeroporto, desfile de vitória até aos jardins do Palácio de Belém, sumidades e autoridades a chegarem-se à frente e a quererem fazer selfies com ele. Mas nos últimos 50 anos, pelo menos, nenhum português nos deu mais motivos de orgulho do que ele. E conseguiu-o através da atividade que o português comum mais gosta de desprezar: a política. Parabéns e obrigado, António Guterres!"
E eu assino por baixo!

quinta-feira, junho 30

MUU COLEÇAM


À venda na MIOLO:

Morada
Rua Pedro Homem, 45
9505-529 Ponta Delgada
São Miguel, Açores

Horário
2ª a 6ª | 10h00 às 18h00
Sábado | 10h00 às 15h00