terça-feira, agosto 17

MOVIMENTO DAS MARÉS

 

Saigão 1975


Cabul 2021


No Verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o politólogo Francis Fukuyama publicou na revista National Interest um ensaio cujo título, “The End of History?”, prognosticava o happy ending da Guerra Fria e o desmoronar da influência do bloco soviético nos seguintes termos:  

What we may be witnessing is not just the end of the Cold War, or the passing of a particular period of postwar history, but the end of history as such: that is, the end point of mankind's ideological evolution and the universalization of Western liberal democracy as the final form of human government.

O cândido otimismo que ressalta desta declaração, proclamando a irrevogável globalização do modelo político das democracias liberais, seria depois contraditado por Samuel Huntington, antigo professor de Fukuyama em Harvard, num artigo dado à estampa na revista Foreign Affairs (1993), intitulado “The Clash of Civilizations?”, alertando a Nau Catrineta Ocidental para outros escolhos que a esperavam na sua rota em direção ao fim da História. 

A invasão do Koweit e a Guerra do Golfo foram um primeiro sinal, sucedido pela Guerra dos Balcãs, mas nada parecia arrefecer o ecstasy político que caracterizou a civilização ocidental na década de 1990. O termo desta atmosfera fin de siécle, virado o milénio, chegou com estrondo na manhã do dia 11 de setembro de 2001, para surpresa e estupor de quase todos nós, mas não de Samuel Huntington.

Uma fação radical da Civilização Islâmica, entrincheirada nas montanhas do Afeganistão, desencadeou com o seu ataque às Torres Gémeas uma catadupa de conflitos que marcaram as últimas duas décadas e introduziu no vocabulário geopolítico o conceito de non State actor. Quase vinte anos volvidos sobre os primeiros bombardeamentos americanos no Afeganistão, desencadeados a partir da ilha de Diego Garcia (cuja história os açorianos deviam conhecer melhor), a administração de Washington acelera de forma pouco airosa a sua retirada de Cabul, despertando inevitáveis paralelismos com o Vietname e a retirada de Saigão em 1975, como destaca um artigo publicado na edição de ontem no Washington Post.

A decisão estratégica da retirada já tinha sido assumida pela administração Obama, e reiterada pela de Trump, mas calhou a fava ao Presidente Biden e isso não o livra de responsabilidades face à desconcertante rapidez com que os Talibãs reconquistaram as rédeas do poder de um Estado falhado. E, como a culpa não deve morrer solteira, importa lembrar que a NATO e a União Europeia também não ficam favorecidas no retrato.

Vai-se falar muito nos próximos tempos de retrocesso civilizacional – e com razão – mas convém não esquecer que a matriz religiosa e feudal do Afeganistão Talibã é a de uma sociedade tribal on steroids, ou 2.0 (como dizia há momentos um convidado na SIC), que não desdenhará formar alianças com a Federação Russa e a China. A ver vamos. 

Francis Fukuyama tinha razão numa coisa: o ponto de interrogação no final do título do seu ensaio. A História não acaba, as marés é que mudam ... e estão cada vez mais vivas.


   

 





domingo, julho 11

VIDA DE CÃO


JAMIE WYETH, Study of Kleberg (gouache, watercolor and India ink. 1984)

 

Nestes tempos em que tanto se fala de Arte e Cultura nos Açores, uma terra de vacas felizes e agricultores descontentes, lembrei-me de partilhar esta pintura (uma de muitas) que Jamie Wyeth fez do seu Labrador, chamado Kleberg. Não é de estranhar a afinidade do artista com os Labrador Retrievers, uma raça de cães pescadores oriunda da região litoral do nordeste canadiano (Terra Nova e Labrador) que, segundo reza Ernesto do Canto no Arquivo dos Açores, deve o seu nome e “descoberta” (ponho a expressão entre aspas, pois já entrou no Indexdo politicamente incorreto) a um argonauta terceirense chamado João Fernandes Lavrador, que não deve ter sido bem sucedido naquelas paragens gélidas onde há mais vida no mar do que terra para lavrar. Os Esquimós que o digam. Em todo o caso, deixou o seu nome perpetuado na toponímia provincial canadiana e, por tabela, numa das mais amáveis raças caninas à face da terra, o que já não é pouca coisa.

 

Mas, como ia dizendo, Jamie, filho de Andrew e neto de Newell, pertence a uma família de notáveis pintores norte-americanos do Estado do Maine, região organicamente ligada à Acadia, antiga província do Canadá Francês no século XVIII, pelo que não é de admirar a sua afeição aos Labs, como são carinhosamente conhecidos na Nova Inglaterra, pois esta raça ajusta-se como uma luva à matriz histórica e geográfica do Maine, terra de lenhadores e marinheiros, reputados na construção naval e pesca da lagosta, com uma paisagem costeira pontuada de enseadas e centenas de pequenos faróis, que fizeram as delícias de muitos pintores, entre os quais o grande Edward Hopper.

 

Lamento que Jamie Wyeth tivesse escolhido Kleberg, um nome com ressonâncias escandinavas, para o chip veterinário do seu fiel Labrador. Se fosse aberta consulta pública para a reestruturação da sua identidade, à laia de orçamento participativo, votava sem hesitações no nome João Fernandes e já agora, atendendo ao carácter elástico e inclusivo do conceito de Açorianidade, propunha que os Labrador fossem considerados  primos afastados com assento no Conselho da Diáspora, reforçando assim a nossa vertente atlântica e destronando Bo, o falecido cão de água da família presidencial Obama, que até hoje ocupa uma posição proeminente (a par, vá lá, de Cristiano Ronaldo) no trending norte-americano como imagem de marca de Portugal e, também, dos Açores, pois fiquem os leigos sabendo que foi Vasco Bensaude quem deu um contributo decisivo para o registo e reconhecimento internacional da raça “cão de água português”, já que estes cães pescadores eram passageiros frequentes das célebres frotas do bacalhau, onde a família Bensaude detinha interesses no século passado (estranhamente pouco presentes na memória açoriana), e alguém lhe chamou a atenção para o comportamento dos animais a bordo, dizendo que além dos seus reconhecidos predicados marítimos, em matéria de interação social, só lhes faltava era jogarem às cartas com a tripulação .... muita dela açoriana, percorrendo os mesmos mares que João Fernandes Lavrador navegara há quinhentos anos atrás.

 

Nestes tempos em que tanto se fala de ressuscitar a atividade e os transportes marítimos, seria bom que a dotação orçamental para esse setor não fosse sugada pelo cone de aspiração do oceano profundo, sobrando alguns trocos, em jeito de orçamento participativo, para a preservação e estudo dessa memória, que está longe de se resumir à atividade baleeira e deveria alargar-se à pesca do bacalhau e do atum, por exemplo, isto para não falar das companhias de transporte marítimo (antecessoras da SATA) que asseguravam as ligações externas e internas no arquipélago, com particular destaque para a Empresa Insulana de Navegação e os Carregadores Açorianos.  

 

Vitorino Nemésio, que viveu os dias do “São Vapor” e neles escreveu o Corsário das Ilhas, certamente estaria de acordo com a ideia de que esta memória salgada é tão caracteristicamente açoriana como, para usar as suas próprias palavras, "o santo marisco das nossas calhetas"

 

Aprende-se alguma coisa com os cães, mesmo quando eles não são endémicos, mas apenas primos afastados.

 

segunda-feira, janeiro 11

O colapso final

a destruição de Sodoma e Gomorra, John Martin, 1852


Chegados aqui, ao limiar de um novo confinamento geral e ficcional, só os privilegiados vão efectivamente confinar, já pouco mais há a dizer. O espírito pende cansado sobre si próprio e o pensamento é de exaustão e enfado. É como se toda a estupefação e indignação que carregamos, por quase um ano, fizesse desmoronar o corpo sobre o seu próprio peso.

Já não me aflige a derrota da racionalidade. O bom-senso foi a primeira vítima da Covid. Os governos, todos eles, por esse mundo fora, habituados a tomar decisões apenas para os ciclos eleitorais, viciados em mentir, para mentir a seguir, para esconder a mentira anterior, apressam-se a tomar medidas avulsas, incoerentes, genéricas e generalistas, presos que estão no populista e demagógico enredo das sondagens e dos sound bytes das notícias. Não foi o vírus que tomou conta das nossas vidas e as destruiu, foi o medo do vírus, o medo das imagens dos corredores dos hospitais cheios, como se em cada inverno elas não se repetissem, foi o medo das mortes, como se todos os anos não morressem dezenas de idosos abandonados ao frio e à solidão, foi o medo da nossa própria fragilidade e hipocrisia que nos dominou.

Já não me assusta os devastadores impactos económicos e sociais da miopia dos políticos que, a coberto dos epidemiologistas que renegaram todos os mais básicos princípios da ciência, a dúvida, o questionamento permanente, a aversão ao dogma e à fé, a ciência tornou-se numa nova fé, uma nova inquisição, e decidem confinamentos generalizados sem por um segundo pensarem nas pessoas. Assusta-me como os próprios cientistas não foram capazes de compreender que as suas soluções eram abjectas. como não foram capazes de arrepiar caminho, como por estes dias sugeriu um político, e não ir por aí, porque os custos da solução eram mil vezes piores do que o problema. Aflige-me a ditadura da estatística, dos casos por mil habitantes, das mortes por milhão. o ludibriar permanente e manipulador das estatísticas, dos gráficos, das linhas, as ondas, as vagas imaginárias. A vida como abstração matemática, a sacrossanta vida, como se cada vida não fosse, afinal, uma pessoa, uma forma de amor, como se cada vida que juram querer salvar não fosse, afinal, uma vida que precisa de ser vivida. Como se a própria vida, enfim, não fosse por natureza eminentemente periclitante e efémera. Viver mata! E, o que estamos a fazer é condenar a uma morte solitária e fria aqueles que devíamos estar a aquecer no nosso abraço fraterno e a acompanhar nesta sua última caminhada.

Assusta-me a ideia de que a solução para os problemas humanos é a perda de humanidade. A forma como se abdica da essência do ser humano por um conceito clínico de vida, feita apenas de circulação vascular e cerebral, desprovida de sociabilização e afecto, assustam-me estas visões higienizadas do mundo, em que as pessoas são como ratos de laboratório e as terríveis e profundas desigualdades de um mundo onde uns poucos se podem confinar nas suas casas aquecidas e uns muitos se veem forçados ao trabalho ou à pobreza. Assusta-me como deitamos tão fácil  e rapidamente no lixo as nossas liberdades, sem sequer pestanejar nem que por um breve momento de dúvida pelo que de básico e essencial estamos a abdicar e destruir.

Assusta-me, isso sim, as crianças. E, a terrível punição que lhes estamos a impor. O fecho das escolas é uma pena capital no seu futuro, no seu crescimento, nas aprendizagens, nos afectos, é um terramoto brutal e destruidor, enfim, nas suas memórias. E, só Deus e o Futuro saberão o que tudo isto significa no amanhã  destas crianças a quem agora roubamos a infância com o medo não da morte, ou do colapso do Sistema Nacional de Saúde, mas com o medo da próxima sondagem ou do resultado da próxima noite eleitoral. Já o disse e volto a dizer, estamos, vai para um ano, a testar soluções genéricas e manifesta e comprovadamente erradas para um problema que felizmente e sazonalmente aflige pouco mais de 2% da sociedade e, com isso, ao mesmo tempo estamos a destruir, sem dó nem piedade, sem um pingo de fraternidade e solidariedade, os restantes 98%. O problema não é o vírus, nunca foi, o problema fomos sempre nós!