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segunda-feira, janeiro 11

O colapso final

a destruição de Sodoma e Gomorra, John Martin, 1852


Chegados aqui, ao limiar de um novo confinamento geral e ficcional, só os privilegiados vão efectivamente confinar, já pouco mais há a dizer. O espírito pende cansado sobre si próprio e o pensamento é de exaustão e enfado. É como se toda a estupefação e indignação que carregamos, por quase um ano, fizesse desmoronar o corpo sobre o seu próprio peso.

Já não me aflige a derrota da racionalidade. O bom-senso foi a primeira vítima da Covid. Os governos, todos eles, por esse mundo fora, habituados a tomar decisões apenas para os ciclos eleitorais, viciados em mentir, para mentir a seguir, para esconder a mentira anterior, apressam-se a tomar medidas avulsas, incoerentes, genéricas e generalistas, presos que estão no populista e demagógico enredo das sondagens e dos sound bytes das notícias. Não foi o vírus que tomou conta das nossas vidas e as destruiu, foi o medo do vírus, o medo das imagens dos corredores dos hospitais cheios, como se em cada inverno elas não se repetissem, foi o medo das mortes, como se todos os anos não morressem dezenas de idosos abandonados ao frio e à solidão, foi o medo da nossa própria fragilidade e hipocrisia que nos dominou.

Já não me assusta os devastadores impactos económicos e sociais da miopia dos políticos que, a coberto dos epidemiologistas que renegaram todos os mais básicos princípios da ciência, a dúvida, o questionamento permanente, a aversão ao dogma e à fé, a ciência tornou-se numa nova fé, uma nova inquisição, e decidem confinamentos generalizados sem por um segundo pensarem nas pessoas. Assusta-me como os próprios cientistas não foram capazes de compreender que as suas soluções eram abjectas. como não foram capazes de arrepiar caminho, como por estes dias sugeriu um político, e não ir por aí, porque os custos da solução eram mil vezes piores do que o problema. Aflige-me a ditadura da estatística, dos casos por mil habitantes, das mortes por milhão. o ludibriar permanente e manipulador das estatísticas, dos gráficos, das linhas, as ondas, as vagas imaginárias. A vida como abstração matemática, a sacrossanta vida, como se cada vida não fosse, afinal, uma pessoa, uma forma de amor, como se cada vida que juram querer salvar não fosse, afinal, uma vida que precisa de ser vivida. Como se a própria vida, enfim, não fosse por natureza eminentemente periclitante e efémera. Viver mata! E, o que estamos a fazer é condenar a uma morte solitária e fria aqueles que devíamos estar a aquecer no nosso abraço fraterno e a acompanhar nesta sua última caminhada.

Assusta-me a ideia de que a solução para os problemas humanos é a perda de humanidade. A forma como se abdica da essência do ser humano por um conceito clínico de vida, feita apenas de circulação vascular e cerebral, desprovida de sociabilização e afecto, assustam-me estas visões higienizadas do mundo, em que as pessoas são como ratos de laboratório e as terríveis e profundas desigualdades de um mundo onde uns poucos se podem confinar nas suas casas aquecidas e uns muitos se veem forçados ao trabalho ou à pobreza. Assusta-me como deitamos tão fácil  e rapidamente no lixo as nossas liberdades, sem sequer pestanejar nem que por um breve momento de dúvida pelo que de básico e essencial estamos a abdicar e destruir.

Assusta-me, isso sim, as crianças. E, a terrível punição que lhes estamos a impor. O fecho das escolas é uma pena capital no seu futuro, no seu crescimento, nas aprendizagens, nos afectos, é um terramoto brutal e destruidor, enfim, nas suas memórias. E, só Deus e o Futuro saberão o que tudo isto significa no amanhã  destas crianças a quem agora roubamos a infância com o medo não da morte, ou do colapso do Sistema Nacional de Saúde, mas com o medo da próxima sondagem ou do resultado da próxima noite eleitoral. Já o disse e volto a dizer, estamos, vai para um ano, a testar soluções genéricas e manifesta e comprovadamente erradas para um problema que felizmente e sazonalmente aflige pouco mais de 2% da sociedade e, com isso, ao mesmo tempo estamos a destruir, sem dó nem piedade, sem um pingo de fraternidade e solidariedade, os restantes 98%. O problema não é o vírus, nunca foi, o problema fomos sempre nós! 

domingo, novembro 15

É hora de nos levantarmos…

 

foto Rodrigo Antunes/LUSA

um médico que, de nariz enfiado nos casos, sem conseguir ver para além dos órgãos que possui (…), prolongaria o estado de emergência sanitária até ao fim dos tempos;” Bernard-Henri Lévy

Passado que foi o breve hiato democrático das eleições voltámos, candidamente, ao fascismo sanitário. No final da última semana, o Conselho de Governo regurgitou duas novas medidas ditatoriais, como que a querer marcar em definitivo, no seu epitáfio, a mensagem de que em matéria de autoritarismo covidiano ninguém o ultrapassa. Depois de meses em que nos foi impingida a ideia de que as escolas eram seguras, que as máscaras eram não só imprescindíveis como determinantes para a segurança de professores e alunos, de que todo o universo escolar tinha sido devidamente preparado, setas no chão, filas indianas, regras e mais regrinhas de distanciamento e 20 lavagens da mãos por dia, e que tudo tinha sido acautelado para podermos voltar ao regime presencial. Depois de todos termos finalmente percebido que a escola é um elemento crucial ao bem-estar e ao desenvolvimento das crianças e que estas não são um grupo de risco, eis que a ordem chegou, numa sexta-feira à tarde, de fechar tudo outra vez. Por causa de um ou dois casos em cada escola, num universo de milhares de alunos, de crianças que testaram positivo, sendo que com toda a certeza o contágio se deu em ambiente familiar ou outro que não a escola, o Governo decidiu encerrar, para já, 19 estabelecimentos de ensino na região. Atrelado a isto chegou também a ordem de que quem queira embarcar um avião com destino a estes nove calhaus terá que, impreterivelmente, apresentar um teste negativo à menina do check in.

Depois de umas brevíssimas semanas em que parecia que o SARS-CoV-2 tinha ido de férias para o Douro, enquanto por cá a política se entretinha com os tramites da lotaria eleitoral, na última semana o maroto vírus saltou de uma casa de bonecas para uns quantos restaurantes e dai, num sopro, para a população em geral. Em cerca de pouco mais de quinze dias a região passou de 68, no dia 25 de outubro, para 185 casos ativos, ao dia de hoje. Foi quase como se o vírus estivesse à espera das eleições para apanhar um avião para os Açores…

Perante isto, menos de 200 casos numa população de 250 mil (0,07%), fiéis aos seus galões de Autoridade de Saúde, Tiago Lopes, e Vasco Cordeiro, já agora, decidem determinar mais umas daquelas medidas autoritárias, antidemocráticas, desumanas e inconstitucionais a que já nos habituaram. E, aparentemente agora, com o aval tácito dos Drs. Bolieiro e Maurício, que ninguém lhes viu piar sobre a matéria. Como se já não bastasse a senda persecutória dos governantes da república, que ordenam recolheres obrigatórios e confinamentos como quem escolhe uma gravata, as nossas autoridades locais abraçam-se à arbitrariedade e ao despotismo com a facilidade de um piscar de olhos. António Costa, ainda por cima, com o desplante de nos incutir a nós o ónus da disseminação. A culpa do contágio, diz-nos ele, é nossa, dos cidadãos e das famílias, somos nós que não nos sabemos comportar e não cumprimos as regras. Só faltou o puxão de orelhas e a rabada. Por cá, agora, são as crianças não só as culpadas como, ultrajantemente, as principais penalizadas. Por causa de uma dúzia de casos milhares de crianças são remetidas de novo ao enclausuramento domiciliário. Sem nunca sequer se pensar nos efeitos devastadores que essa medida tem e terá nestes miúdos.

E, da mesma forma que o governo se rege por uma visão desinfetada das nossas vidas insiste, por outro lado, em desrespeitar não só a Constituição, mas também os mais básicos princípios do Estado de Direito Democrático coartando as mais primárias liberdades individuais dos cidadãos. Naquilo que o filósofo italiano Giorgio Agamben alertou como “a tendência de utilizar um estado de exceção como paradigma normal de governo”. Aparentemente não aprenderam nada com os Habeas Corpus que perderam nem com os recursos que lhes foram negados. Cito, livremente, de um dos acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa “a prescrição de atos médicos ou de diagnóstico relativamente a toda ou qualquer pessoa é da exclusiva responsabilidade de um médico e não pode ser realizada por Lei, Resolução, Decreto regulamentar ou qualquer outra via normativa.” O Governo Regional não só tinha conhecimento deste acórdão como, embriagado de autoritarismo, decide conscientemente contra a Constituição a e liberdade dos cidadãos. E, mais uma vez, dado o silêncio dos incumbentes eleitos, nada leva a crer que nesta matéria tão importante algo venha a mudar, provavelmente até tenderá a piorar, com o novo governo das direitas encostadas…

A crise do Covid-19 é um momento determinante nas nossas vidas e será também na história da Humanidade. Este “cisne cinzento” em que vivemos transformou aquilo que em literatura era apenas uma metáfora para a perda da liberdade, A Peste de Camus, para ser uma epidemia real, não já só de um vírus, mas de autoritarismo e de destruição das democracias liberais ocidentais tal como as conhecíamos, como bem explica Ivan Krastev em O Futuro Por Contar. Fechar fronteiras é a mais básica e arcaica das respostas a um mal desconhecido. É o regresso ao mais primordial, animalesco até, instinto de fuga que o medo desperta. E a incapacidade dos governos de saberem ou quererem contrariar esses instintos animais revela o quão frágil é a nossa sociedade, a nossa democracia e as nossas liberdades individuais. E, no fim, será, também, esta deriva que levará ao crescimento e à legitimação dos populismos autoritários e demagógicos, um pouco por toda a Europa, de Orban a André Ventura. A democracia morrerá por dentro, porque os seus principais atores, no momento mais importante, não a souberam ou quiseram defender. Entregámo-nos de livre e espontânea vontade aos dictates das ciências médicas, que não sabem nada de filosofia, ou de história, aceitámos a selvagem desociabilização do confinamento com uma naturalidade abjeta, virámos a cara às profundas desigualdades de um mundo em que se ordena cegamente os mesmos termos arbitrários para quem tem uma casa com piscina e jardim e um ordenado garantido ao final do mês e para quem não tem nada…

O futuro dirá, e em particular os nossos filhos, que são os mais amargamente prejudicados por esta pandemia, que legado estamos a deixar. Se um mundo de isolamento, de aprisionamento, de iniquidade e autoritarismo. Ou, pelo contrário, se no meio desta destruição massiva dos mais importantes valores da nossa civilização, que estamos paulatinamente a assistir, descobriremos a revolta e a força interior para, como nos incentivou Proudhon, deixarmos de estar de joelhos e nos levantarmos…

quarta-feira, outubro 28

A Autonomia no seu Labirinto

 

foto André Kosters/Lusa

André Ventura é muitas coisas, mas se há dom que não creio que tenha são poderes premonitórios. No entanto, foi dele a declaração que adivinhou o resultado das eleições de Domingo passado. “Um terramoto”! Se calhar mesmo, um verdadeiro abalo tectónico na tessitura político-partidária da região.

Para o PS e para Vasco Cordeiro estas eleições começaram, provavelmente, a ser perdidas em 2012. A verdade é que Vasco Cordeiro nunca conseguiu afirmar plenamente uma identidade própria dentro do projecto socialista, tanto no Governo, como no próprio partido. A herança Cesarista, que no partido nem herança foi, mas antes uma presença e um dominio constante, nunca permitiram que Vasco Cordeiro marcasse uma liderança, uma estratégia e uma personalidade própria que lhe possibilitasse autonomizar a sua governação dos 24 anos de governação socialista. Isto pode parecer incongruente, mas essa ligeira nuance, a governação e o partido de Vasco Cordeiro, teria feito, certamente, toda a diferença. O PS e a governação socialista foram sempre de Carlos Cesar e nunca de Vasco Cordeiro. Isso viu-se na longevidade de Sérgio Ávila, na omnipresença de Carlos Cesar, na incompreensível e absurda telenovela da “Casa da Autonomia” e da sua Estrutura de Missão comandada à tripa forra por Luísa Cesar e na ascensão e autoridade desenfreada de Francisco Cesar. Ao mesmo tempo, causa igual tristeza e estranheza a forma como Vasco Cordeiro foi, sucessivamente, triturando figuras com gabarito, validade intelectual e política, competência e projecção na sociedade açoriana. Desde os Governos, às listas de deputados, às empresas públicas e tantos outros cargos com maior ou menor visibilidade, a fúria autofágica de Vasco Cordeiro criou um imenso exército de descontentes e de ressentimentos. Assim de cabeça lembro-me de nomes como Fagundes Duarte, Piedade Lalanda, Luís Cabral, Nuno Domingues, Pilar Damião, João Roque Filipe, Nuno Mendes, Miguel Cymbron, António Gomes de Menezes, Fausto Brito e Abreu. E, mais recentemente, os casos de Filipe Macedo ou da limpeza nas listas de deputados, que correu, sem apelo nem agravo, com Renata Botelho, Graça Silva e Sónia Nicolau, sem que se soubesse da mais pálida justificação. Ao mesmo tempo, que uma série de outras figuras eram candidamente protegidas e apaparicadas, fossem quais fossem, e foram muitas, as asneiras, para usar um termo suave, que cometessem. De que, para mim, o caso mais dramático e paradigmático foi a dupla Vitor Fraga e Francisco Coelho. Um mistério que só possivelmente a história elucidará…

O caso das listas de deputados merece um breve comentário. Não sei porque cargas de água criou-se uma ideia de que as ditas listas, em lugar de serem feitas por pessoas competentes, sejam militantes ou independentes, têm de ser espelhos mais ou menos turvos da diversidade geográfica e socioprofissional das ilhas. Em lugar de ter um grupo coeso de políticos, as listas de deputados tornaram-se numa sopa da pedra, feita de personalidades avulsas, cuja mais valia política é a fama na junta, no clube de futebol, na agremiação e no café da freguesia ou até, como nesta última, no Youtube… o resultado final e mesmo contando os lambe-botas e os vira-casacas são grupos parlamentares de fraquíssima qualidade, como é agora o caso do futuro grupo parlamentar do PS. Embora, diga-se que, neste particular, o PSD é igual…

Se juntarmos a isto tudo a Governação errante, os dossiers polémicos, as suspeições judiciárias e, piece de resistance, a debacle da SATA, ou a malfadada Covid, tudo estava lá para pressupor que a noite de 25 seria amarga para o PS, embora, nem mesmo eu acreditasse que podia ser tão amarga. Vasco Cordeiro chega assim ao seu último mandato, se é que o vai ser, e para usar a imagem do timoneiro, que ele próprio escolheu, como um naufrago, desidratado e andrajoso, lançado sobre a areia da praia, arfando por água, sombra e cuidado. Com menos 5 deputados, sem tábua de salvação à esquerda e com a direita enraivecida e salivante, silvando como hienas, pelo sangue socialista, as hipóteses de formar um governo estável são praticamente nulas. Tirando, obviamente, a possibilidade de, humildemente, propor um entendimento ao centro. Um governo de Bloco Central, com Bolieiro a Vice-presidente, mais uma ou duas pastas para o PSD, inclusive dando-lhes a presidência da ALRAA e estendendo esse entendimento à sociedade civil, numa grande coligação autonómica para navegar essa imensa tempestade económica e social que aí vem. Se qualquer dos protagonistas ou dos partidos que estão neste momento na contenda puser, de facto, os interesses da região à frente dos do seu partido ou dos seus pessoais, era isto que devia fazer. E daqui a quatro anos, queira Deus já sem Covid, quem tiver as melhores unhas tocará sozinho a guitarra. Qualquer tentativa de governar isolado ou em coligações negativas morrerá à primeira dificuldade que, ou muito me engano, será já a breve trecho com o borregar da SATA…

Quanto à suposta maioria de direita a verdade é que ela não existe. O que há, neste novo quadro parlamentar, é uma maioria anti-PS. Sendo que, para além disso, o CHEGA não é de direita. O CHEGA é de extrema direita! E, embora seja aceitável a sua presença no parlamento, é a vontade de 5% dos eleitores, não é já, de forma alguma, admissível que os restantes partidos se aproveitem do CHEGA, legitimando com esse gesto o fascismo latente do partido do Dr. Ventura, para assaltar o poder. Por outro lado, embora muitas das suas principais figuras venham do CDS e do PSD, é um erro pensar que a Iniciativa Liberal encaixa nas visões tradicionais de esquerda e direita. Tal como, também tenha as minhas duvidas, que o PAN possa ser entendido como um partido de esquerda. A haver um entendimento das direitas, não será uma maioria, nem tão pouco uma geringonça, será antes uma coligação negativa com o único intuito de tirar o PS do poder e acabar, de uma vez por todas, com o reinado da família Cesar. Embora, neste último particular, eu até possa estar de acordo com a necessidade política desse culminar, essa não será certamente a forma correcta de o fazer e seria, proverbialmente, deitar fora a região com a água do banho…

Quem tem, neste momento, a responsabilidade de fazer as pazes com o seu passado, deixando no passado o que lá deve estar, com o que de bom e de mau as suas lideranças tiveram, é o próprio Partido Socialista. Há uma democracia interna para conquistar dentro do Partido Socialista dos Açores, e essa libertação, se não for iniciada pela liderança tem que o ser pela militância. Figuras como Cristina Calisto, Rodrigo Oliveira, ou mesmo Andreia Cardoso, são hoje esperanças para um futuro PS, que seja mais solidário, mais aberto e mais justo.

Esperemos para ver. Os próximos tempos políticos destas nove ilhas serão certamente duros, mas indubitavelmente interessantes. Viva a Democracia! E, agora mais do que nunca, Viva o PS!

quinta-feira, outubro 1

a pandemia real


Ainda sobre esta traiçoeira estratégia de fazer depender o voto da gestão da pandemia vale a pena reter uma mensagem. Há poucos dias, no programa Linha da Frente, da RTP, a jornalista Mafalda Gameiro assinou uma reportagem impressionante intitulada “quando o açúcar amarga”. A reportagem foca-se no caso de Tiago, um jovem funcionário administrativo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a ganhar o salário mínimo e na sua luta contra a obesidade. Tiago tem 40 anos, um metro e sessenta e oito e pesa 134 Kg. Ao longo da reportagem somos confrontados com a descrição dos anos de comportamentos aditivos do Tiago, a má alimentação, o historial familiar de obesidade, a diabetes tipo II, a dependência do açúcar, que funciona como calmante, os alimentos processados, as 90 gr por dia, 630 por semana, de consumo de açúcar, o índice de 24.5 de gordura visceral do Tiago quando o nível máximo recomendado é 12… A reportagem conta-nos a história da tentativa de Tiago de mudar a sua vida, a consulta na nutricionista, o ginásio, as mudanças nos hábitos alimentares e conta também a história dessa desintoxicação, da irritabilidade, da ansiedade. E explica, com clarividência, como a nossa sociedade está armadilhada pelo tráfico dessa droga chamada açúcar. A diferença exorbitante no preço entre alimentos ditos “saudáveis” e os outros. 1 pacote de massa integral: 1,49€; um pacote de massa corrente: 0,39€! A extrema dificuldade em encontrar alimentos “limpos” de sacarose e outros derivados. A inteligibilidade dos rótulos, que são feitos para não poderem ser traduzidos, reduzindo a percetibilidade ao máximo, quando deveria ser o contrário e de como a indústria se acantonou no vício para produzir lucros. Em Portugal o consumo médio diário de açúcar e de 85 gr quando o consumo recomendado pela OMS é de 25 gr. Em Portugal, ainda, 90% das crianças e jovens consomem açúcar excessivamente! Apesar de tudo isto o esforço de Tiago é recompensado, ao fim de 6 semanas emagreceu 8 Kg. Mas então, o desastre acontece. Em Março a histeria da Covid leva ao confinamento. Tiago, considerado grupo de risco devido à diabetes e hipertensão é forçado a ficar em casa. Perde o subsídio de alimentação, o ordenado é reduzido para 500€, desses 300€ são para renda da casa, mais as despesas correntes, luz, água, comunicações, restam-lhe pouco mais de 100€ por mês para alimentação. Tudo vai por água abaixo. Seis meses depois Tiago abandonou a dieta e voltou a ganhar 10 Kg. Esta é a verdadeira realidade da luta contra a pandemia. Esta é a vida real, de quem anda na rua e trabalha e vê a sua vida destruída pelos desmandos do Estado. Esta é a dor de uma pessoa, longe dos gráficos do telejornal e dos sermões altivos dos apresentadores e dos primeiros-ministros ou dos jovens aprendizes de feiticeiros e candidatos a mais um mandato no parlamento regional. Isto é o que a gestão da pandemia, a luta contra a Covid, fez à vida das pessoas…

quarta-feira, setembro 30

a pandemia como estandarte eleitoral

 


Muito haveria a dizer sobre o debate da RTP-A de ontem e mesmo sobre os outros 8 debates anteriores, a começar, desde logo, por essa autêntica farsa insultuosa dos cabeças de lista por São Miguel não terem marcado presença, quando os próprios debates foram anunciados e promovidos pela RTP-A como sendo com os cabeças de lista por ilha, tal como foram os anteriores 8, e como deveria inevitavelmente de ser. Um momento que ficará na história como pináculo do desrespeito pela democracia, o regime parlamentar e a inteligência do povo açoriano. Mas, foquemo-nos no momento final, na fantabulástica declaração de apelo ao voto de Francisco Cesar. Nesses curtos segundos de retórica televisiva o secretário coordenador de ilha do PS, ex-líder da bancada parlamentar, número cinco da lista, suposto futuro secretário regional da economia, com tutela do turismo, e putativo candidato a líder do PS-A e a Presidente do Governo, reduziu 24 anos de governação e de propositura de mais 4, aos seis meses de gestão da pandemia. Para Francisco Cesar a razão para se votar no PS-A é “porque o Governo do PS foi eficiente no combate à pandemia”. Esta eleitoralização da doença, da dor, do medo é, também ela, mais do que um insulto, uma manipulação pérfida e maquiavélica da luta política e da transparência democrática. Já todos tínhamos intuído que seria este o caminho que o PS quereria percorrer, os sinais estavam todos lá, desde os idos de Março, e foram-se adensando à medida que o tempo ia e for passando até chegarmos ao dia 25. E, é precisamente por isso que é preciso desmascarar e combater esta estratégia. O PS-A e Vasco Cordeiro deveriam apresentar-se a estas eleições como o partido e o líder melhor preparado para continuar a governar os Açores num esforço para equilibrar o crescimento económico com a sustentabilidade e o desenvolvimento social. Criando riqueza e sabendo redistribui-la em benefício das populações, do Corvo a Santa Maria. Em lugar disso, o PS-A, opta por se agarrar à narrativa pandémica, pontilhada de pânicos, receios e outras veladas ameaças, querendo ser o contraponto para uma doença que ele próprio criou. À cabeça é preciso dizer, de forma clara e corajosa, que o PS-A e Vasco Cordeiro não geriram bem a pandemia. Limitaram-se a impor o pânico e o fascismo sanitário, destruindo com isso a economia e fazendo ao mesmo tempo retroceder em décadas a mentalidade e a abertura da sociedade açoriana. Por outro lado, a resposta à catástrofe económica, sempre a reboque de Lisboa, de mão esperançosamente estendida à espera das bem-aventuranças de Bruxelas, demonstrou à saciedade como o único objectivo das medidas era eleitoral e não um verdadeiro auxílio a empresas e trabalhadores. Mas, se o argumento pandémico é mesmo o estandarte eleitoral que o PS-A quer utilizar analisemos então a prestação do partido e da sua governação neste âmbito. Nos Açores as principais causas de morte são as doenças cárdio-vasculares (45,7%) e os tumores (24,5%). A montante destas causas de morte estão duas explicações profundas nomeadamente a diabetes e a obesidade. Ora os Açores têm não só 70% da população com excesso de peso como apresentam a pior incidência de morte por diabetes de todas as regiões da Europa, 74 por cada 100 mil habitantes, uma verdadeira epidemia contra a qual em 24 anos de governação muito pouco ou quase nada tem sido feito, nem consta que a Autoridade de Saúde a isto tenha dado relevância! Bastava isto para se perceber que em matéria de pandemias o PS-A tem tudo menos um bom registo governativo… Custa-me dizer isto e custa-me dizê-lo com esta brutalidade mas este PS, com esta estratégia, não merece ganhar estas eleições e, o pior, é que os outros partidos também não. Para usar um slogan antigo – “merecíamos políticos melhores”…


domingo, setembro 6

a epistemologia dos factos


Não o posso confirmar com absoluta certeza, mas das muitas coisas que a Covid nos levou, a primeira talvez tenha sido a ponderação e o bom-senso. Uma mistura abanada de desconhecimento e medo transformaram-nos a todos em pólos opostos de um yin-yang de palpites, convicções de rede social e certezas assertivíssimas à lá Rodrigo Guedes de Carvalho. De um lado os paladinos do bem, os arautos da Saúde Pública, as Autoridades magnânimas e infalíveis que defendem o bem e a Vida, excepto dos velhinhos, coitados, largados ao fétido abandono de lares como o de Reguengos ou o do Nordeste. Do outro nós, cidadãos, mais ou menos remediados, mais ou menos instruídos, mas que por termos dúvidas, por não aceitarmos os “factos” ou por vermos a vida a desaparecer-nos debaixo dos pés, fazemos perguntas e somos, por isso, imediata e inapelavelmente apelidados de Trumps e Bolsonaros. Algures, entre o começo disto tudo e agora o bom-senso desapareceu. A ponderação deu lugar ao autoritarismo arrogante e o diálogo, o debate de ideias, foi totalmente obliterado pela ditadura da bipolarização ideológica dos paladinos do fascismo higienista. Ou estás comigo ou és um Trump ou, pior, um Bolsonaro. Isto porque a tentativa de exposição ao ridículo sempre foi uma boa forma de bulliyng, principalmente porque nos poupa de pensar numa argumentação. Ou então é apenas pelo facto de Stefan Lofven ou Anders Tegnell serem nomes mais difíceis de pronunciar e personalidades menos conhecidas do cidadão comum. Já agora, os dois senhores são o Primeiro-ministro e o epidemiologista chefe da Suécia, um país com o qual é sempre mais difícil fazer chacota. Mas há um outro problema nesta táctica política da banalização do adversário. É que, a ciência não se faz com certezas, mas com hipóteses, e aquilo que é facto num dia pode já não o ser no seguinte. Veja-se o caso das máscaras, que primeiro eram contraproducentes e desnecessárias e que depois se tornaram obrigatórias. Mesmo depois dos imensos alertas de médicos e especialistas para os perigos do seu uso continuado, da sua inutilidade e até o malefício do uso em espaços abertos, as máscaras tornaram-se indispensáveis e imprescindíveis e preparamo-nos para torturar milhares de miúdos, e outros habitantes do Universo escolar, com o uso diário de máscaras entre 6 a 8 horas por dia, isto apesar de haver um consenso mundial de que as crianças e jovens não constituem um grupo de risco e de que o uso de máscaras pode ter consequências nefastas na oxigenação do cérebro e na concentração. Hoje, o mundo está dividido em dois tipos de idiotas: os que usam as máscaras e os outros, nós, iguais idiotas, que usamos as máscaras mesmo sabendo que são idiotas, as máscaras e nós com elas. Isto, é um facto! Como todos os epidemiologistas tem dito a análise de uma pandemia só se faz no fim, mas a mim o que me incomoda é essa confiança cega no “prá frente é que é caminho” mesmo quando não se conhece o que está à frente e, pior, quando o que fica para trás é um estranho e doloroso odor a terra queimada.  

terça-feira, agosto 25

Autoridade Regional da Vergonha

 

Suponho que deva começar por confessar, em jeito de declaração de intenções, a minha absoluta falta de simpatia por rallies e pelo desporto automóvel em geral. Tenho com os automóveis uma relação puramente utilitária pelo que a realização ou não do rally é-me totalmente indiferente. Mas, no entanto, a verdadeira telenovela em que se transformou o evento, neste pandemico ano de 2020, tem aspectos dignos de ressalva. Desde o início que me parecia perfeitamente claro que em face da pandemia e, ou melhor, em face do autoritarismo cego da autoridade de saúde (passe o pleonasmo), era ridículo sequer ponderar a realização da prova. Aliás, em face das limitações impostas a tantas outras actividades, desde a cultura a outras modalidades desportivas e a tantos sectores da economia essa noção, que andaram meses a debater e a analisar, de que o rally açoriano se deveria realizar era um verdadeiro insulto ao sacrifício e à desgraça de milhares de pessoas que desde Março viram as suas vidas devastadas, não tanto pelo vírus mas pela arbitrariedade das decisões da ditadura sanitária. De igual modo o é o avança e recua e avança de novo da festa brava terceirense, pela qual, diga-se, nutro, agora sim, filial simpatia. O que tudo isto vem demonstrar, com límpida claridade, é o populismo e o eleitoralismo com que o SARS-CoV-2 tem vindo a ser tratado na região. Desde Março a região contabilizou pouco mais de 200 casos de infecção o que equivale a 0,08% da população (e se lhe juntarmos os perigosíssimos turistas a percentagem é ainda mais pequena), destes contabilizam-se cerca de 150 recuperados e, infeliz e fatidicamente, embora se calhar seria bom também aqui uma auditoria da Ordem dos Médicos, cerca de 14 óbitos num lar de idosos do Nordeste. Mas, por cá, a Ordem não se quer meter nessas coisas. O que estes números demonstram, e seria também interessante ter uma noção da percentagem de resultados positivos por número de testes realizados, é que estamos perante uma pandemia de pânico gerida por decretos governamentais e não perante uma real e efectiva ameaça de saúde pública. O conceito, aliás, de saúde publica é uma abstracção manipulada pelo governo a seu belo prazer. Veja-se o exemplo de uma suposta cadeia de transmissão local que existiria em São Miguel provocada pelos comportamentos hedonistas de uns quantos jovens rebeldes que entretidos entre banhos de mar e copos cuspiam vírus pela noite dentro nos bares da ilha. Ao ponto do Governo ter decretado o seu encerramento forçado às dez da noite para, pasme-se, nunca mais se ouvir falar sequer de um caso positivo dessa gravíssima cadeia de transmissão. Segundo os comunicados oficiais, desde o passado dia 11 de Agosto, dia em que o Governo Regional anunciou a existência dessa cadeia de transmissão local e decretou as medidas para a sua contenção, foram feitos na região 19103 testes, destes 17 foram positivos, repito: dezassete positivos num total de dezanove mil cento e três testes! Dos 17 e de acordo com o próprio Governo Regional apenas 4, repito quatro, são casos relacionados com essa cadeia de transmissão local. O que isto demonstra é que hoje, dia 25 de Agosto, precisamente 14 dias, o famoso período de incubação, desde que foi ordenada por decreto a existência de uma cadeia de transmissão local e que por causa disso dezenas, para não dizer centenas de negócios e milhares de vidas foram autoritariamente suspensas e despoticamente subvertidas por causa de apenas quatro pessoas infectadas e uma taxa de testes positivos de 0,02%. E tudo porque o Governo encontrou no medo e, pior, na manipulação do medo uma forma segura de ganhar eleições. O que estamos a viver hoje nos Açores não é política, nem é ciência. O que estamos a viver é só e apenas uma vergonha.

sábado, junho 6

diário da descontaminação

E eis que ao octogésimo segundo dia o bicho deixou de constar da folha estatística diária. Naturalmente que ele ainda anda por aí, silencioso e invisível, assintomático, como se usa agora dizer. Mas, como não dá positivo nos testes a região soergue-se em júbilo, como se o próprio Jesus tivesse descido à terra. Nas redes sociais, nas capas dos jornais, nas infelizes composições laudatórias com que os partidos tentam tirar partido da insignificância do número e nessa idiótica viagem que o hiperativo e sempre sorridente presidente Marcelo decidiu fazer, de relâmpago, à décima ilha, para compor, ainda mais, o ramalhete mediático da sua permanente campanha eleitoral. Todos se extasiam em orgulho insular e autonómico. Depois do “orgulhosamente sós” e do “queremos isto tudo fechado” agora temos o “somos os primeiros” da corrida ao casos zero. Perdoem-me que não acompanhe o coro histriónico de contentamento, mas para mim é-me difícil acompanhar o jubilo. Daqui, do fundo do poço, é difícil ver o regozijo. Perante o imparável e crescente avolumar da pobreza, das falências, do desemprego, do dantesco inferno económico e social que estamos, e que vamos por muitos anos, viver é difícil considerar que, 160 casos depois, possa haver grandes alegrias no simples facto de haver uma folha limpa no relatório diário do laboratório de análises. E, esse é talvez o maior drama desta crise, a miopia. Desde o seu início que as Autoridades olharam para o Covid-19 como um problema exclusivamente clínico, ignorando os multifacetados impactos da pandemia, e das suas acções enquanto decisores políticos, no conjunto da sociedade e da economia. O vírus, mais do que um problema sanitário, era um problema comunitário, como muitos se irão agora aperceber, da forma mais dolorosa possível, quando a grande curva da depressão económica se agigantar sobre as nossas vidas, sem remédio que a achate. Mas, aos políticos, que no final do dia são sempre os principais responsáveis, por mais que digam que o inimigo veio de fora, tentando esconder o simples facto de que o vírus não toma decisões, aos políticos, dizia eu, interessa apenas o espírito do momento, a espuma do dia, o que importa agora é cavalgar a folha limpa da descontaminação. Só assim se explica que os mesmos que há pouco mais de quinze dias zurziam os tribunais porque haviam aberto a porta do nosso santuário insular à peste estrangeira, sejam agora os maiores promotores da descovidização à força de prémios fajutos de associações questionáveis. No meu tempo, estes pueris galardões custavam dois mil e quinhentos euros e, se na altura já era duvidoso o racional do dispêndio de euros, agora então, que não existem mercados, tal não passa da mais básica e condenável campanha política interna. A dura realidade é que, como recentemente se viu numa sondagem, mais de 60% dos portugueses não vão fazer férias fora de casa e, para contrariar isto, não há nem teste nem best que nos valha… 


quarta-feira, junho 3

Processo de Covidização em curso...

Para muita gente, por esse mundo fora, esta grande crise do Covid tem potenciado o ensejo de um radical cambio civilizacional. Há como que um desejo latente e profundo de que a humanidade se possa regenerar, possamos salvar o planeta, criar prosperidade para todos e inventar uma nova utopia social de alegria, paz e amor. De repente, no abrir de portas do desconfinamento surgimos todos na rua com o discurso da Miss Universo. Cerca de 200 anos depois do alvor da Revolução Industrial acordamos todos a citar Engels e Marx e a pugnar por um mundo onde o capital não seja a força maior da opressão do homem. E assim vamos, em busca das novas Itakas do bem-estar e da redistribuição equitativa da riqueza. Remediados de todo o mundo uni-vos, contra os Gates, Bezos e Zuckerbergs da vida marchar, marchar! O problema é que nem o mundo se transforma com tanta facilidade, nem tudo o que conquistamos com o desarolhar do capitalismo ocidental é, necessariamente, mau. Atente-se, por exemplo, o caso do Turismo. O Turismo foi, indiscutivelmente, uma das grandes conquistas civilizacionais do mundo moderno. Se as Descobertas deram novos mundos ao Mundo, o Turismo deu Mundo às pessoas e deu pessoas a esses muitos mundos que compõem o nosso Mundo. Podemos argumentar, e serei sempre o primeiro a defender esse argumento, que muito de pernicioso adveio das actividades ligadas ao Turismo: a massificação, a poluição, a gentrificação, a disneyficação, entre muitos outros palavrões sinónimos da desregulamentação e alienação global provocada pela voragem desenfreada do Turismo selvagem, feito de turistas, passe a redundância, em vez de viajantes. Mas, como disse Santo Agostinho, “o mundo é um livro e aqueles que não viajam leem apenas a primeira página.” E nada promoveu mais a verdadeira democratização desse conhecimento do que a Indústria do Turismo. Desde as primeiras linhas de caminho de ferro de 1800 aos luxuosos long range da Emirates a circulação, mais ou menos acessível, de pessoas pelo mundo todo foi um dos mais importantes fenómenos culturais da modernidade. A democratização das viagens trouxe conhecimento, abriu horizontes e, fundamentalmente, criou uma globalização de empatias e de afectos humanos, para contrabalançar a essa outra globalização, a globalização fria e repugnante do vil metal. Só que, de um dia para o outro, o Covid-19 destruiu tudo isso. Aeroportos fechados, milhares de aviões no chão, companhias aéreas falidas ou em vias disso, ao que acresce a estúpida tendência de querer transformar hotéis em enfermarias e restaurantes em cantinas de hospital, com seis desinfecções por dia, ditaram a morte do Turismo tal como o conhecíamos. Neste momento, há duas forças em conflito na batalha pela “nova normalidade” do Turismo: de um lado os que procuram, a todo o custo, retomar, reabrir, repor, custe o que custar, sem demoras e sem, principalmente, ponderação e bom senso. O exemplo mais paradigmático desta corrente é a aviação, que contra qualquer grama de sensatez e, até, ao arrepio da espectativa dos próprios passageiros, procura, à força, encher novamente aviões. Do outro lado estão os novos nacionalistas, defensores do fecho total das fronteiras, e os puristas da new-age, que advogam um regresso ao paleolítico humano, feito de vestes de cânhamo e psicadélicas viagens espirituais pelo Éter da nova eco-globalização. Resta saber se, no meio deste yin-yang conceptual, o simples gesto e o prazer íntimo de viajar, de absorver o mundo com os nossos próprios corpos e emoções, se conseguirá salvar. Resta saber se o mundo que aí vem será feito de e com pessoas, ou, apenas, de autómatos mascarados, desinfetados e devidamente posicionados nos 2 metros de distância. Como diz a outra senhora – festejem os golos, mas baixinho…


quarta-feira, maio 27

Tudo mudou



Olho pela janela, na direcção do mar, o céu azul, o sol pálido da luz da manhã, quase que não se vêem as cinzas do mundo que acabou de desabar. Quase se diria que nada mudou. A esta hora estaríamos a terminar o serviço dos pequenos almoços, os hóspedes fariam perguntas sobre os trilhos, as distâncias, um miradouro, um restaurante, o melhor peixe. Terminaríamos o serviço dos quartos, a ronda pelos emails, os pedidos de reservas, que agora não são mais do que repetidos alertas vermelhos de cancelamentos, cancelamentos, cancelamentos. Perguntas que se transformaram em pedidos de informação, se há voos, se estamos abertos, explicações sobre as restrições, as quarentenas, tentativas frustradas de traduzir para inglês portarias que nem em português são inteligíveis. Orientações descabidas de Autoridades que não sabem, ou não querem perceber, que o Turismo é a arte de bem receber e não a da Xenofobia. Que um hotel não é uma enfermaria. Que para fazer um almoço é preciso vender cinco. Que não há açorianos suficientes para encher os hotéis de São Miguel e que os continentais, que eles enxotam são, sempre foram, o nosso principal mercado emissor. E, quanto mais tarde se aperceberem disso, já todos foram para o Algarve, para o Gêres ou para o sudoeste Alentejano. Mas, tal como os “apoios” do Governo, também o sol é enganador e o mar sem ondas esconde a verdadeira tempestade. O Mundo todo à nossa volta mudou, mesmo que no covil do desespero alguns queiram, à força, regressar a essa errónea “nova normalidade”.

segunda-feira, maio 25

Manual de Simpatia


Voltemos, então, às metáforas bélicas. Nesta primeira grande-guerra do Covid, a primeira vítima, passe a repetição, foi o Turismo. Qual soldado raso de infantaria, o Turismo foi o primeiro na linha de fogo. Companhias aéreas, agências de viagens, hotéis, alojamentos, animação, restaurantes, tuk-tukes, e tantas outras actividades conexas, foram os primeiros a ser lançados na trincheira do confinamento e a sofrer o ataque, inclemente, dos obuses do distanciamento social. Neste admiravelmente asséptico “novo normal”, a Indústria da Hospitalidade é, ela própria, uma impossibilidade, um anacronismo, para o qual olharemos com saudade ou estranheza. Num tempo que nos obriga a andar de cara tapada, uma actividade cuja mercadoria é o sorriso, cuja moeda de troca é a cortesia, não tem, digamos assim, viabilidade económica.

Mas, seria injusto apontar culpas directas a um determinado governo pelo súbito colapso desta Indústria. Não foi só um ou outro Estado, ou região, que se fechou sobre si próprio. Foram todos os países ocidentais que, de um dia para o outro, suspenderam aquilo que era o oxigénio do turismo mundial – a livre circulação de pessoas. Porém, há, obviamente, diferenças, nuances, de país para país, de região para região, quer no grau de preocupação, como na rapidez do auxílio ou, até, na atitude geral para com a necessidade, para não dizer a vontade, de reinventar o sector.

O caso dos Açores é particularmente paradigmático de como o autismo do governo cavou, ainda mais fundo, a sepultura do Turismo. Fechados na sua bolha de preocupação clínica, obcecados pela demanda de cobrir as ilhas num imenso manto de descontaminação, Presidente do Governo e Autoridade de Saúde, tudo fizeram para fechar, isolar e desinfectar os Açores do perigo estrangeiro. Encerramento de aeroportos, cancelamento de voos, quarentenas obrigatórias, quarentenas “voluntárias”, e até, cúmulo dos cúmulos, apelos abertos e sem vergonha a que “as pessoas não se desloquem à região”! Como se já não fosse bastante, para a eutanásia do sector, a inadequação, insuficiência e, até mesmo, a clara injustiça dos parcos apoios de Estado, que em muitos casos mais não eram do que certidões de óbito encapotadas, o último prego no caixão foi, de facto, a forma como, com cada palavra e cada gesto, os responsáveis políticos regionais, foram regando a semente xenófoba que medra, mais ou menos timidamente, dentro de cada açoriano.

No que concerne aos apoios, desde o seu início se percebeu que não passavam de um eufemismo, para não dizer um logro. Pensos rápidos para tratar uma gangrena. A tentativa, desesperada, de conter os despedimentos, com layoffs, e só até ao final do ano, não visa proteger trabalhadores ou apoiar empregadores, busca apenas garrotar as estatísticas do desemprego até depois das eleições. Para além de que esquece todos os outros imensos custos mensais que sobrecarregam as empresas, como, por exemplo, a conta da EDA que nos Açores chega a ser obscena. Ou os custos de manutenção. Nestas ilhas em que a humidade se mede em metros cúbicos e não em percentagem, bastam dois dias de porta encerrada para crescer cabelo nas paredes de uma casa. Experimentem abrir uma porta no Nordeste depois de três meses fechada, a humidade entra-vos pelas narinas como uma má anfetamina. Por outro lado, incentivar o crédito a empresas já de si endividadas ou, cereja em cima do bolo, limitar os apoios a um critério de ausência de dívidas ao Estado, são tudo provas de como a última das preocupações deste governo, desde o Palácio de Santana ao Alto das Covas, é ajudar o Sector do Turismo. E, nem vale sequer a pena falar do Edifício CTT, onde, em total alheamento da realidade em que estamos metidos, a Secretária da Energia, (que certamente não leu a entrevista do Jorge Rebelo de Almeida ao Negócios, anunciando o cancelamento do investimento do Grupo Vila Galé no antigo Hospital de Ponta Delgada...) andava, ainda na semana passada, pasme-se, a enviar emails ao Trade, perdoem o jargão, a pedir contributos para um manual de boas práticas, enquanto todo o resto do país, Madeira na frente, já se prepara para abrir, se é que já não abriu, ao Turismo.

No entanto, o mais grave disto tudo, como se tudo isto não fosse já suficientemente dramático, é, sem margem para dúvidas, esse sentimento generalizado que se disseminou pela população, sustentado pelo discurso e acção do governo, de repulsa, renuncia e pura antipatia para com os que são de fora, e que extravasa de cada comentário a favor do isolamento geográfico das ilhas, como se este fosse, em si mesmo, uma vantagem e não a fatalidade que realmente é. Numa região que até há pouco mais de 20 anos vivia enclausurada nos seus xailes negros, numa região que, mesmo entre si, gosta de alimentar o odiozinho de ilha para ilha, numa região onde até há tão pouco tempo o exemplo máximo de bom atendimento num restaurante era o “vás comê e vás gostá”(!), nesta região, a postura conjunta da tríade Autoridade de Saúde, políticos e (perdoa-lhe Senhor que ele não sabe o que diz) Cónego Borges, em toda esta birra das ligações com o continente, deu cabo, quem sabe se por muitos e bons anos, daquilo que é o bem mais precioso de um Destino, e não, não estou a falar das belezas naturais ou da sustentabilidadezinha, estou a referir-me à arte de bem receber, a pura, simples e genuína, afabilidade. Aquilo que é, afinal, o ouro de qualquer Destino – a simpatia.

A simpatia, a hospitalidade e o bem receber, não se recupera com carimbos sanitários, nem com luvas de plica e máscaras comunitárias, nem com vídeos pseudocómicos com a Teresa Guilherme, nem sequer com anúncios empacotados em aviões da Ryanair à saída de Ringway. Ninguém quer ir a onde não será bem-vindo. E, foi essa mensagem – não queremos cá ninguém! – que andaram, Vasco Cordeiro, Tiago Lopes, até José Manuel Bolieiro, a passar durante estes dois meses e meio, mais o próximo que aí vem até ao início de Julho. A minha falecida avó, costumava dizer que "era preciso uma vida para se construir um 'bom nome', mas que bastava um dia para o perder". Aos Açores bastou um vírus com nome de cerveja. Que Deus lhes perdoe, a mim falta-me a paz de espírito para perdoar…

sábado, maio 23

Do desconfinamento


Num artigo, na revista Scientific American, sobre a evolução da pandemia de Covid-19, a epidemiologista e bióloga evolucionista da universidade de Chicago Sarah Cobey declara que “a questão sobre como a pandemia se desenrolará é pelo menos 50% científica e outros 50% social e política”. No fundo, o que a ciência e a história de passadas pandemias nos dizem é que na inexistência de uma vacina ou, havendo uma, da vacinação massiva dos 8 biliões de seres humanos do planeta, o vírus irá tornar-se endémico, circulando e infectando pessoas sazonalmente. Perante isto, a abordagem ao vírus depende, em igual medida, dos avanços científicos, quer na criação de uma vacina como, e mais importante, no desenvolvimento de medicamentos antivirais, que permitam o tratamento, bem-sucedido, dos infectados. Como, também, dos comportamentos sociais e das opções políticas. Neste aspecto, a questão do sucesso das medidas de confinamento, como forma de ganhar tempo, depende, em grande medida, do momento em que são impostas, pelos decisores políticos, e da sua aceitação e cumprimento, pela população. No mesmo artigo, é admitido que as medidas de confinamento foram mal sucedidas na Europa, ao contrário do que aconteceu em Hong Kong e na Coreia do Sul, porque foram impostas tarde de mais. Ainda sobre medidas de confinamento, Anders Tegnell, o já famoso epidemiologista sueco, em resposta a uma pergunta de Fareed Zakaria sobre se a opção da Suécia de não impor o confinamento tinha sido por razões económicas, Tegnell respondeu, peremptoriamente, que não, que essa opção era apenas baseada na percepção de que quaisquer medidas que fossem tomadas, para controlar a epidemia, teriam que ser sustentáveis no tempo, uma vez que a epidemia iria, como se pode constatar, prolongar por tempo indeterminado. Tegnell é também extremamente explícito na afirmação de que o seu papel é apenas de conselho, são os políticos que tomam as decisões, e não ele. Nesta altura de mais ou menos desconfinamentos, vale apena pensar sobre estas questões, agora que somos todos “suecos”. O confinamento e, por maioria de razão, o isolamento ou, no caso açoriano, o grande fechamento das 9 ilhas, não são um tratamento, são apenas medidas profiláticas, que teriam, tem, necessariamente que ser tomadas por um curto espaço de tempo, sob pena de, como se constata, os seus efeitos psicossociais e económicos serem ainda mais devastadores do que a, felizmente baixa, taxa de letalidade do vírus. O confinamento não é mais do que uma medida para conter a infecção permitindo, no entretanto, que os sistemas de saúde, as organizações políticas e a sociedade, como um todo, se possam preparar para a fase de disseminação da epidemia. Nos Açores, ao fim de praticamente dois meses e meio de confinamento, não temos qualquer informação sobre como o nosso sistema regional de saúde se apetrechou para efectivamente “combater o vírus”, essa expressão que tantos os políticos como a Autoridade de Saúde, essa entidade abstracta e de pulloveres coloridos, tanto gostam de usar. Não sabemos se foram montados hospitais de campanha para tratamento exclusivo dos infectados, libertando assim os hospitais para o seu funcionamento normal. Não sabemos se estamos devidamente capacitados em matéria de equipamentos de protecção, medicamentos, testes ou outros materiais imprescindíveis para o rastreamento e tratamento de pessoas infectadas. Nem sequer sabemos que medidas especificas foram tomadas para os grupos de risco, nomeadamente idosos, em especial os lares. Apenas sabemos que tivemos 146 casos confirmados de Covid-19 e 16 óbitos, sendo estes últimos praticamente todos num lar de idosos no Nordeste. No entanto, ao mesmo tempo e agora que vamos tateando no ar, vendados e a medo, o caminho do desconfinamento, conseguimos todos pressentir que há um outro inimigo, igualmente invisível e mortal, a crescer exponencialmente por entre os interstícios do nosso tecido social e económico, o vírus da brutal crise económica em que o confinamento nos mergulhou e do qual a morte por eutanásia governativa do sector do Turismo é apenas uma pequena parte, embora a que tem, para já, maior visibilidade e peso. E, pressentimos, igualmente, que, para esse outro vírus, para essa outra crise, do chamado “novo normal”, o Governo dos Açores, continua a não ter nem puta ideia do que fazer, só que agora com a agravante de que já não há “isolamento profiláctico”, seja ele voluntário ou não, que o ampare…  

sábado, maio 16

Equivalente ao espaço entre as orelhas...




Ao nosso redor o Mundo todo está a desabar. Por força dos múltiplos confinamentos, isolamentos e tantos outros ditames da ditadura sanitária, a Economia, desde a mercearia de bairro à grande empresa multinacional, travou a fundo, projectando-nos violentamente pelo para-brisas, em direcção ao asfalto, como passageiros sem cinto, no lugar do morto, de um carro na iminência de colisão. Lay-off, desemprego, brutal perda de rendimentos e ausência absoluta de verdadeiras ajudas de Estado, transformaram-nos em meros corpos ensanguentados, entre metal retorcido, num acidente de estrada. No meio desta dantesca realidade, o PS Açores decidiu fazer humor, publicitando nas redes sociais, com bonomia e um sorriso, pequenos memes sobre distanciamento social. Confortavelmente abancados nos seus salários em dia, os jovens assessores da vida partidária, (muitos deles transitaram directamente dos recreios dos liceus para os corredores do poder) entretiveram-se a plagiar imagens anedóticas, para ensinar os açorianos a distanciarem-se convenientemente uns dos outros, com ícones da vida insular como vacas, queijos, hortênsias e atuns. Esta palermice do PS-A é triste e insultuosa, desde logo porque o PS-A não é uma associação de estudantes, nem um grupo de comediantes, numa qualquer sala das Produções Fictícias, à espera de se transformar nos Gato Fedorento, até porque, para isso é preciso talento. O PS-A é um partido político e é o partido que governa os Açores. A exigência de consideração, seriedade e de responsabilidade perante o momento que vivemos é ainda maior para o Partido Socialista dos Açores. O partido que suporta o Governo da região, no momento mais dramático das nossas vidas, não se pode comportar como um adolescente imberbe, fazendo pouco das centenas de pessoas que viram as vidas suspensas, ou até totalmente destruídas, por esta crise e, imperdoavelmente, das dezenas de outras que perderam entes queridos nesta pandemia. Esta idiotice é inadmissível porque não há piada, não há humor, não há sequer um pingo de riso no confinamento forçado e no espectro fúnebre da pobreza que paira hoje, como uma guilhotina, sobre a população. Esta verdadeira marie-anttoinetice é, também, um insulto parvo e é-o porque trata os açorianos como imbecis que precisam de desenhos para compreender a ideia de distanciamento social e este é, provavelmente, o aspecto mais grave de toda este lamentável episódio. É que, a ser assim, os responsáveis do PS-A, desde os seus jovens criativos, aos seus históricos militantes, passando por “ilustres” dirigentes, não percebem que se existem hoje nos Açores cidadãos que precisem deste tipo de mensagem para compreender a gravidade do momento ou a seriedade das medidas a adoptar, tal só se pode ficar a dever, única e exclusivamente, ao total e absoluto falhanço das politicas educativas, sociais e económicas do próprio PS-A que, ao fim de 25 anos de poder, o tempo de uma geração, não conseguiu puxar para cima uma grande fatia da população dos Açores, seja nos índices de pobreza como no nível de escolaridade, ou na civilidade própria da mais básica cidadania. Estes memes, estúpidos e fúteis, são como Nero, tocando a sua lira, enquanto Roma ardia…

Slogans for the 21st Century


Douglas Coupland

sábado, maio 9

O Sindrome Nanni Moretti


Como vários epidemiologistas têm dito só saberemos a real dimensão e extensão da pandemia do Covid-19 quando esta terminar. Só aí se poderá fazer o balanço exacto dos infectados, dos mortos, dos que escaparam ao vírus. Porém, muito para lá da universalização da vacina e da OMS declarar o fim oficial da pandemia, as ondas de choque sociais, económicas e políticas desta crise far-se-ão sentir ainda, por muito tempo, como ecos de um vasto cataclismo. Se a caracterização correcta da crise social e económica levará décadas, as crises políticas provocadas pela “guerra” ao Covid-19, como gostam de dizer os políticos, são já, de certa maneira, claras. Uma das principais consequências desta crise na política europeia foi a forma como tornou evidente a incapacidade dos vários governos em tomar decisões políticas com base em ideologias e em colocar em primeiro lugar, não os seus, mas os interesses das comunidades. Com mais ou menos pequenas alterações a resposta dos vários governos europeus foi ceder à pressão popular e científica com a adopção de medidas de fascismo sanitário. Nem por um segundo os governos hesitaram na aceitação deste caminho autoritário e a grande massa dos cidadãos, levados pelo medo, aceitaram de livre e espontânea vontade esta via. Perante a necessidade de medidas imediatas, não se esperaria que houvesse lugar a referendos sobre a resposta ao Covid-19, mas seria legítimo esperar que os diferentes governos reagissem conforme as suas diferentes colocações no espectro político e isto, tendo em conta a resposta autoritária, é tanto mais grave nos governos ditos socialistas. A necessária ponderação entre os valores da saúde pública e a defesa dos direitos, liberdades e garantias era um imperativo ético e moral, particularmente, para os governos emanados destes partidos. Se as ciências médicas recomendavam uma resposta alicerçada maioritariamente no distanciamento social e no confinamento o dever dos governos socialistas era encontrar o necessário equilíbrio entre estas respostas e a defesa da liberdade e a garantia das protecções sociais que defendessem os mais fracos e desprotegidos dos efeitos cegos destas medidas. Aquilo a que estamos a assistir é a forma como o súbito confinamento, seguido de um desconfinamento hesitante, estão, em conjunto, a destruir a economia e o tecido social das nossas comunidades. Isto porque a verdade é que esta crise não atinge todos da mesma maneira. Há, desde logo, um fosso profundo entre sector público e sector privado. Entre ricos e pobres. Entre população rural e urbana. Entre o interior, desertificado e envelhecido, e o litoral. E o que se exigia a governos ditos socialistas eram respostas que minimizassem estas diferenças, que atenuassem os efeitos devastadores do combate à crise nos mais fracos e desprotegidos. Pelo contrário, o que assistimos é a uma governação imediatista e mediatizada tomada apenas por respostas impulsivas e avulsas. E, se as medidas de saúde pública são claramente autoritárias, as medidas económicas são fundamentalmente não-sociais. É caso para citar Nanni Moretti e, olhando para António Costa e, já agora, para Vasco Cordeiro, e pedir encarecidamente – façam alguma coisa de esquerda.

sexta-feira, maio 1

Sobre a desumanização


Ontem, já mesmo no final da sua longa entrevista à RTP, em que explanou os detalhes deste falacioso desconfinamento, António Costa declarou, com ar blasé, que o chamado Estado de Calamidade, que vigorará a partir das zero horas de Domingo, durará por tempo indeterminado. Com absoluta indiferença e com uma naturalidade apavorante, o Primeiro-ministro deixou escapar a grande verdade escondida desta pandemia: a completa e absoluta desumanização das nossas vidas está aí para ficar. Isto, a que chamam de “novo normal”, é o tempo do medo e do autoritarismo. Também, já há dias que um vídeo, de uma participante no Prós e Contras, supostamente com uma mensagem de responsabilização dos cidadãos face ao vírus, anda a causar furor nas redes sociais. Na verdade, o que transparece dessas declarações é a frieza desumana como as ditas ciências da vida olham para os Seres Humanos. Aos olhos da medicina não somos mais do que portadores da doença, cada um de nós é um Uber da contaminação, um aspersor de contágios, que nos saem pela boca, e que urge deter, confinar, isolar e mascarar. Ao medo, os Governos, que sem vergonha se declaram socialistas, alcandorados nas reuniões do Infarmed e na opinião avalizada de médicos, farmacêuticos, virologistas, matemáticos e todo um outro arsenal de doutos cientistas e Autoridades Sanitárias, responderam com choque e pavor. Com um regresso inexplicável à idade das trevas e a um incompreensível e inadmissível fascismo higiénico. Ao ponto de, a partir da próxima semana, as crianças, de todos os graus de ensino, das afortunadas e descontaminadas ilhas de Santa Maria, Flores e Corvo poderem regressar à escola, mas desde que devidamente mascaradas, desinfectadas e impedidas de ver os sorrisos umas das outras. Nas creches, as educadoras terão que cuidar dos mais pequenos de máscara, se calhar de luvas, coartando-se assim o acesso ao mais importante de qualquer cuidado, o calor humano. Tudo para que os pais, remetidos ao teletrabalho não tenham que as/os ter em casa. Também por tempo indeterminado aqueles de entre nós que mais precisam de apoio e de cuidado, os mais idosos, os doentes crónicos, terão de permanecer confinados, em isolamento profilático, dizem eles, quando na verdade o que querem dizer é abandonados e sós. Nos transportes públicos haverá multas para quem não usar máscara, enquanto eles, os privilegiados, continuarão nos seus carros topo de gama, quem sabe se com motorista, a olhar por detrás dos vidros fumados a queda no abismo da multidão dos desprotegidos, os que ficaram sem trabalho, os que viram os seus negócios fechados, os que foram deixados à sua sorte, os que perderam tudo. Entretanto, os Governos, apelidando-se desavergonhadamente de socialistas, o que dizem fazer é salvaguardar a sacrossanta “saúde pública”, o que nos querem fazer crer é que estão a salvar vidas. Mas, que vidas são essas que dizem proteger? Que Vida é essa se lhe retiram a mínima réstia de Dignidade? O que fica da Vida se lhe proibirem o afecto, o abraço? Que vida pode haver sem direito à Liberdade, sem Fraternidade, sem o dever primeiro e fundamental da Solidariedade? Durante séculos, milénios até, milhões de pessoas deram as suas Vidas por estes valores. Que sociedade somos nós hoje, que largamos mãos deles, que socialistas são estes que, em prol da ditadura das estatísticas e das curvas e do número de camas e ventiladores disponíveis nas UCI, governam sem honrar estes valores? Onde nos devíamos juntar para proteger e cuidar, afastamos. Onde devíamos compreender e ajudar, isolamos. Quando devíamos pedir ajuda, fechamos fronteiras. Tudo em nome do superior interesse dessa concepção abstrata chamada Saúde Pública. Um dia, saberemos que as vítimas deste vírus não foram os mortos, foi a nossa própria humanidade.

domingo, abril 26

lamento por Abril...


Não é fácil fazer um diário quando os dias são indistintos. Quando nem o sono nocturno permite separar um dia do outro. Não é fácil compreender a realidade no meio da torrente de notícias, comentários, comentadores, mensagens e posts. Dentro do confinamento somos todos ratos num laboratório, incautos, inocentes, alheios à experiência que se abate sobre nós. Olhando para trás é difícil perceber quando tudo isto começou. De dentro do isolamento não se consegue ver, com clareza, com luz, o dia, o momento exacto, em que a Liberdade nos foi retirada. Em que as rotinas do confinamento nos foram impostas, como algemas. Mas, não foi o vírus a origem de tudo isto. Não foi a doença, não foi a contaminação exponencial. Nem foi o medo, o pânico, que varreu o mundo, como uma labareda fulminante. O que nos enclausurou verdadeiramente foi a normalidade que havia. Foi a vida que tínhamos e para a qual nos querem tão fervorosamente fazer voltar. Este confinamento não começou no vírus, começou no fim das utopias. Começou na forma lenta e gradual em como a ditadura do capital tomou conta das nossas vidas. Foi nas rotinas que nos foram impostas antes deste grande fechamento. No trabalho, no ensino formatado. Na ditadura da beleza e da fama. Na ditadura do dinheiro, do lucro. Fomos nós que nos entregamos de livre vontade à voragem da Banca, dos juros, dos créditos. Na ditadura da ciência que na verdade não sabe nada. A liberdade não nos foi roubada pelo vírus, mas pelos partidos e por todas aquelas eleições em que não fomos votar. Fomos nós que deixamos os partidos saquear a Democracia. A casa da Democracia não é o Parlamento, são as ruas deste país. A Democracia não são os ditames da política partidária. A Democracia não é a vontade dos ditos representantes, principalmente quando estes se distanciam em acções dos princípios e valores da liberdade e se arrogam a si privilégios que negam ao povo. A Democracia não é dar de comer aos sem-abrigo, é tirá-los da rua e devolver-lhes a dignidade. A liberdade não é confinamento, é solidariedade. A liberdade não é isolamento, é abraço. A Democracia é o que se canta nas janelas e varandas deste país. A Liberdade é um homem só no meio da uma avenida vazia carregando ao ombro uma bandeira de Portugal encimada de cravos vermelhos.



sexta-feira, abril 24

Maniqueísmos de ocasião


Os tempos de crise são pródigos em maniqueísmos bacocos. Em Portugal isto tornou-se óbvio com a polémica bizantina em torno da celebração do 25 de Abril. De repente o país acordou dividido entre fascistas e revolucionários, com o acrescento de ridículo de ambos se acusarem mutuamente de perigoso contágio. O que pode o Covid-19 ao pé de uma boa dose de indignação de Facebook? É claro que o 25 de Abril pode e deve ser comemorado, aliás e como o Natal, o 25 de Abril é todos os dias, como bem descobriram os peticionários de uma petição (passe a redundância) para impedir o 25 de Abril, quanta ironia. Mas, também seria razoável que os poderes instituídos entendessem que o que realmente põe em causa a democracia é a desigualdade e a distância de direitos e regalias entre as pessoas. Ao povo restringe-se as liberdades mais básicas como, por exemplo, o luto. Enquanto o Estado se arroga a si o direito de fazer de conta que nada mudou. Se há coisa que esta crise veio demonstrar à saciedade é o enorme fosso que existe neste país entre cidadãos, supostamente iguais. O país dos que tem casas com jardim, internet de banda larga, computadores e tablets, descobertos autorizados e salários por inteiro. E o país dos que por ordem do Estado, mais do que por imposição do vírus, viram as suas vidas despejadas no lixo de um dia para o outro. Mas com esse maniqueísmo ninguém se indigna…