sábado, junho 11

A.M.B. Machado Pires (1942-2022)

 



Embora a sua partida fosse esperada, custa sempre saber do ponto final. Sobretudo de alguém que, como dizia o meu pai, já não se fabrica.

 

Quando cheguei à Universidade dos Açores, no Outono de 1982, o Prof. Machado Pires tinha assumido há pouco a Reitoria, sucedendo nesse cargo ao seu fundador, Prof. José Enes. 

 

Foi, em muitos sentidos, o segundo pai da instituição e ao longo do seu reitorado (1982-1995), marcado por eventos dramáticos (incêndio da Reitoria, na sequência da visita presidencial de  Mário Soares em 1989) e inúmeras dores de crescimento (aplicação da Lei 108/88 da Autonomia universitária), soube manter íntegra a Universidade dos Açores numa época em que, é bom lembrá-lo, ela não era muito acarinhada por alguns sectores do meio local.

 

Antes da era Mariano Gago, quando as Humanidades ainda pesavam alguma coisa no mundo académico, assegurou o prestígio e reconhecimento da jovem Universidade açoriana entre as suas congéneres. Primorosamente educado e encantador no trato pessoal, era um comunicador nato (na esteira de Nemésio) que conquistava de imediato os interlocutores. 

 

Nunca se intitulou escritor, mas foi um Príncipe das letras e do pensamento açoriano.


A Universidade - eu incluído - e os Açores ficam a dever-lhe muito.

 

 

 

 

sexta-feira, maio 27

Mário Mesquita (1950-2022)

 



Mário Mesquita, que hoje transpôs os “pearly gates” para a grande viagem, afirmou numa das suas últimas entrevistas, ao Jornal de Letras (nº 1325; 14-27 julho 2021) – acredito que no meu necrológio dirão – e dirão bem – faleceu o jornalista Mário Mesquita que, distraído como era, deixou caducar a carteira profissional.  Palavras que definem bem o humor seco e a arte do understatement que ele tão bem cultivava. 

 

Não tenho qualquer competência para falar do seu trajeto no  jornalismo português do último meio século, e muito menos do contributo que deu para a institucionalização das Ciências da Comunicação no ensino universitário, mas creio sem quaisquer hesitações que ele foi o epítome de uma honrosa tradição da imprensa açoriana que, se algum dia esta terra consagrar ao tema o devido núcleo museológico, espero venha a ter a justiça de lhe reservar aí um lugar de memória.

 

Sobre as outras latitudes do seu legado cívico, político, intelectual e moral, designadamente a notável coragem independência que sempre demonstrou, essas ficam no domínio privado daqueles que tiveram o privilégio da sua amizade. 

 

 

Au revoir, Mário. Deixas uma irremediável saudade.

 

 

quarta-feira, abril 27

Viagens de Um Artista Enquanto Jovem


O Despertar do Pintor, 2007.

Carlos Carreiro nasceu e cresceu em Ponta Delgada numa família com grande ligação às artes, às letras e às viagens. Recordo, a esse respeito, o seu bisavô, António José Raposo que, em 1857, aos vinte anos, embarcou à aventura num navio mercante, correu mundo e registou a sua passagem pela América do Norte, Madagáscar, China, Macau, Timor, Egipto e Inglaterra, entre outros. De regresso a Ponta Delgada, seis anos mais tarde, estabeleceu-se como fotógrafo e casou-se com uma das filhas de Cândido José Xavier, pintor e cenógrafo responsável pela decoração a fresco de alguns palacetes e pela arte cénica do então recém-inaugurado Teatro Micaelense.

Após várias intersecções que seria exaustivo elencar, embora não possa deixar de mencionar a avó e a mãe do Carlos, Angelina e Ana Vitória, ambas possuidoras de amplas qualidades artísticas, sobretudo no campo da pintura decorativa, e o seu pai, Manuel Carreiro, jornalista, escritor e proprietário do Diário dos Açores, passados cento e cinquenta anos da equação inicial, encontramo-nos, precisamente no Teatro Micaelense, para falarmos de um elemento que surge desse legado: as crónicas de viagem de um artista plástico. E, porque de um artista plástico se trata, aqui analisado na categoria de autor, vou começar por me deter nos aspectos visuais do livro, primeiro com um pequeno aparte a dar nota positiva ao design gráfico do miolo e da capa, fruto da criatividade e apuro do Vítor Marques e do bom gosto da Maria Helena Frias, responsável pela editora Artes e Letras e autora da Nota Editorial.

Ao folhear este Viagens de Um Artista Enquanto Jovem, gesto natural a qualquer apreciador de livros em papel, logo me deixei seduzir pelas ilustrações inéditas, seis no total, e me lembrei da máxima de outro artista plástico com a qual me cruzei na leitura da sua biografia. «Não pinto o que vejo, mas o que vi», dizia repetidas vezes o norueguês Edvard Munch para salientar o peso vital que a profundidade da memória imprime ao transitório e como o transforma em recordação intemporal. Elaboradas em 2021, as ilustrações do Carlos sobre a época em que escreveu as crónicas, há mais de cinquenta anos, são servidas ao leitor sob a forma de referências resgatadas à memória, recordações «sem qualquer ordem ou hierarquia», «fragmentos delirantes», para usar palavras do próprio artista, e podem ser lidas em linha com o que percebemos ser a forma do Carlos absorver informação e manifestar o seu entendimento do mundo, quer através da sua pintura, quer no que agora encontramos por escrito.

Sem querer estabelecer analogias entre a expressão visual e a escrita do Carlos, é impossível não encontrar uma conexão entre as duas, reconhecer uma fórmula comum, um estilo vívido, pormenorizado e satírico e bastante seguro da sua individualidade. Reparem nesta descrição da sua visita a uma mercearia  de luxo na 5ª Avenida: «O americano aprecia bastante ofertas de flores e frutos, pelo que se viam nessa mercearia cabazes com pirâmides de toda a espécie de fruta, coberta de celofane, laços coloridos e flores plásticas, pronta a ser oferecida a uma sofisticada dama de peruca loura, que receberá a oferta em robe de plumas, recostada num leito de posições comandadas electricamente, conforme a quantidade de cãezinhos brancos que se enroscam aos seus pés quando ela vê televisão, sugando whisky num copo dourado que toca música quando se inclina». Nem só de tiradas delirantes vive a prosa do Carlos. Pelo contrário. Estas crónicas do jovem artista, escritas entre 1967 e 1970, embora pinceladas com humor, são sobretudo um documento sério, uma montra para um tempo cristalizado no nosso imaginário colectivo, um tempo de rapidíssima mutação social e cultural, um tempo de utopias, de slogans grafitados por todo o lado, de liberdade de costumes, de revolução sexual, da pílula, da minissaia. Fora da ilha plácida e ruminante e do cinzentismo da cidade do Porto, onde habitava, há todo um mundo a cores que o autor nos descreve com a espontaneidade e o entusiasmo próprios da sua idade e de quem descobre «outras realidades no mundo que não têm nada a ver com os bailes do Clube Micaelense, nem com as aulas de moral do Padre Rebelo no Liceu de Ponta Delgada, até mesmo com as aulas de dança do Sr. José Bento ou as coroações do Espírito Santo.»

Uma imensa curiosidade, viagens com a família ao norte da Europa na infância e juventude, livros, discos, revistas, cinema, dois anos em Direito e outros tantos em Belas Artes, são componentes essenciais da formação do Carlos, e permitem-lhe experimentar o novo perfume do Velho Continente e «o futuro que se adivinha na América» com um espírito altamente observador e crítico, assim como ter maturidade suficiente para tudo assimilar e expor ao leitor com singularidade, fluidez e convicção. Declarações como as que escreveu no catálogo da sua primeira exposição em Ponta Delgada, em 1968: «Eu pinto só para mim e não tenho a preocupação de fazer o que se convencionou chamar arte de vanguarda (…) Hás de vir ver a minha exposição se tiveres interesse…» e, no ano seguinte, em Amesterdão a propósito de uma visita guiada de meia-hora ao Rijksmuseum: «Como eu não estava interessado em andar a correr no museu a ouvir explicações convencionais que não ensinam nada, pelo menos a mim, desliguei-me do rebanho e fui ver à minha maneira», concorrem para nos dar uma boa chave de leitura e para traçar o retrato de um artista/autor bastante autocentrado, com um posicionamento artístico e humano que foge a convenções ou inibições de qualquer espécie.  

Sendo certo que a crónica é um género que promove o encontro do autor com o leitor num registo mais descontraído e familiar, não é menos certo que a visão do primeiro se encontre, aqui, exacerbada, quer pela naturalidade do discurso, algumas vezes próximo da oralidade, quer pela intensidade da personalidade do Carlos Carreiro, ou, se quisermos, da marca Carlos Carreiro, já bastante definida apesar dos seus vinte e poucos anos. O Carlos pinta para si, fala para si, escreve para si. Pensa pela sua cabeça. O roteiro é dele, a opinião é dele, a linguagem é dele, o sentido estético é dele. Não há qualquer dúvida quanto a essa abordagem. É, pois, à sua maneira, que nos conduz através de Paris, Nova Iorque, Amesterdão, Londres e Filadélfia, impondo uma visão abrangente que oscila, de um modo geral, entre o deslumbre e a crítica feroz.

Se Paris é «a todo o momento um espectáculo, a Cidade-Luz, a mais bela do mundo» que fica «no coração, no cérebro e nos olhos» com as galerias, «as montras, o movimento, os parisienses, as figuras exóticas», é também motivo de saturação por, ao fim de uns dias, se encontrar «sempre os mesmos nas ruas, como que ensaiados e vestidos para representar no palco (…) para turista ver». Se Nova Iorque é «inesperada, radiante, resplandecente, viva de cor e luz de amor e paz», «deliciosamente louca», o principal exemplo do novo mundo Pop, é também a cidade dos «longos bancos de jardim, repletos de farrapos humanos, figuras escanzeladas (…) expectantes da morte como única libertação». Se Amesterdão é «cheia de requintes, como uma velha dama carregada de rendas e jóias», um lugar «tão poético» que «até parece cenário montado», é também a cidade das «insólitas» ruas «de casas de tolerância, onde mulheres estão expostas sentadas nas montras em trajos reduzidos, como presunto ou carne para consumo no talho». Se Londres é «uma urbe majestosa (…) que transpira «dignidade e solidez», «loucura e excentricidade», por onde circulam belas e requintadas «mulheres com casacos até ao bico do pé e chapéus enormes à gaúcho», é também o lugar onde «qualquer saloio pode chegar (…), ir a Carnaby Street e, em menos de uma hora, sair de lá como «um hippie inconfundível, desde a cabeleira postiça ao traje». Se Filadélfia é «lindíssima» com os «mais belos exemplos» de edifícios «dos estilos colonial e neoclássico», em harmonia com outros de traçado nórdico e arranha-céus, é também tão postiça como o Independence Hall, «uma casa sem qualquer interesse, restaurada e toda pintadinha de fresco, onde só é da época de George Washington uma cadeira e um tinteiro».

Para além de considerações generalistas sobre a envolvência espacial e social, a automatização, a moda, a mulher, os hippies, a condição dos negros, a guerra do Vietname, a homossexualidade, a ciência, o cinema, a literatura, assim como de relatos cintilantes sobre espectáculos de música e de teatro, transversal a todas as cidades um único ponto ressalta: o magnetismo dos museus e galerias de arte, fonte de deslumbramento e emoção, de descoberta e «certificação» de conhecimentos. Do Louvre ao Guggenheim, das obras clássicas às emergentes da cultura Pop, nada escapa ao crivo do artista, nada foge ao seu ângulo de análise entusiástica, nem os muitos que aplaude, nem os poucos que vilipendia. Para o Carlos, o museu é «o organismo cultural com maior força e importância junto do Homem», um lugar de consolo, quase sempre adjectivado como «deslumbrante». A sensação de deslumbre, de plenitude do Homem perante a Arte, transborda das páginas de Viagens de Um Artista Enquanto Jovem, de tal maneira que o leitor se sente recompensado pela partilha do autor, no fundo, por poder usufruir no conforto do seu sofá desta experiência, uma verdadeira visita guiada. O Carlos leva-nos pelas salas de alguns dos museus mais importantes do mundo e, com ele, entendemos o «espírito austero» da escola alemã, o carácter «explosivo» da espanhola, a «cortesia e poesia» da francesa, a «falta de interesse e vulgaridade» da inglesa, com ele acompanhamos o «refinamento de cor e luz» de Degas, emocionamo-nos com o «calor humano e sensualismo» de Renoir, ficamos sem palavras em frente à «etérea memória» do nevoeiro matinal dos Nenúfares de Monet, e comparamos a representação do «Homem na sua aflitiva solidão» em Rembrandt, Giacometti e Bacon.  Com ele mergulhamos, sobretudo, num turbilhão de impressões sobre os contemporâneos, na «excentricidade e imaginação diabólica» de Salvador Dalí, no «realismo fotográfico» de Gerard Richter, nas «esculturas orgânicas» de Henry Moore e Hans Arp, na «pintura de impacto» de Roy Lichtenstein e na espiral do «castelo fantástico» de Frank Lloyd Wright.

Apesar contarem mais de cinquenta anos, as crónicas do Carlos, segundo o autor «mais impressões de um pintor do que de um jornalista», continuam frescas, dinâmicas e actuais. Têm, no entanto, uma particularidade diacrónica que gostaria de salientar, por me parecer curiosa e sintomática da época em que foram escritas: ao longo das duzentas páginas deste livro, há uma única referência a uma artista plástica, a escultora inglesa Barbara Hepworth, ficando de fora nomes tão importantes como Méret Oppenheim, Georgia O’ Keefe, Lee Bontecou e Louise Bourgeois, talvez por estas e outras artistas mulheres não estarem devidamente representadas nos museus que o Carlos visitou, algo que, em tempos mais recentes e um pouco por todo o mundo, tem vindo a ser corrigido, através da reformulação das colecções e atribuição de mais espaço expositivo ao sexo feminino.

Termino com uma palavra de imenso respeito pelo prefácio. Escrito pelo Carlos Riley com a sabedoria e a elegância que lhe são características, resulta numa peça fundamental para o leitor, pela síntese que apresenta do autor, do tempo e do modo como surge este livro.

 

Apresentação @ Teatro Micaelense, 23.04.2022

terça-feira, agosto 17

MOVIMENTO DAS MARÉS

 

Saigão 1975


Cabul 2021


No Verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o politólogo Francis Fukuyama publicou na revista National Interest um ensaio cujo título, “The End of History?”, prognosticava o happy ending da Guerra Fria e o desmoronar da influência do bloco soviético nos seguintes termos:  

What we may be witnessing is not just the end of the Cold War, or the passing of a particular period of postwar history, but the end of history as such: that is, the end point of mankind's ideological evolution and the universalization of Western liberal democracy as the final form of human government.

O cândido otimismo que ressalta desta declaração, proclamando a irrevogável globalização do modelo político das democracias liberais, seria depois contraditado por Samuel Huntington, antigo professor de Fukuyama em Harvard, num artigo dado à estampa na revista Foreign Affairs (1993), intitulado “The Clash of Civilizations?”, alertando a Nau Catrineta Ocidental para outros escolhos que a esperavam na sua rota em direção ao fim da História. 

A invasão do Koweit e a Guerra do Golfo foram um primeiro sinal, sucedido pela Guerra dos Balcãs, mas nada parecia arrefecer o ecstasy político que caracterizou a civilização ocidental na década de 1990. O termo desta atmosfera fin de siécle, virado o milénio, chegou com estrondo na manhã do dia 11 de setembro de 2001, para surpresa e estupor de quase todos nós, mas não de Samuel Huntington.

Uma fação radical da Civilização Islâmica, entrincheirada nas montanhas do Afeganistão, desencadeou com o seu ataque às Torres Gémeas uma catadupa de conflitos que marcaram as últimas duas décadas e introduziu no vocabulário geopolítico o conceito de non State actor. Quase vinte anos volvidos sobre os primeiros bombardeamentos americanos no Afeganistão, desencadeados a partir da ilha de Diego Garcia (cuja história os açorianos deviam conhecer melhor), a administração de Washington acelera de forma pouco airosa a sua retirada de Cabul, despertando inevitáveis paralelismos com o Vietname e a retirada de Saigão em 1975, como destaca um artigo publicado na edição de ontem no Washington Post.

A decisão estratégica da retirada já tinha sido assumida pela administração Obama, e reiterada pela de Trump, mas calhou a fava ao Presidente Biden e isso não o livra de responsabilidades face à desconcertante rapidez com que os Talibãs reconquistaram as rédeas do poder de um Estado falhado. E, como a culpa não deve morrer solteira, importa lembrar que a NATO e a União Europeia também não ficam favorecidas no retrato.

Vai-se falar muito nos próximos tempos de retrocesso civilizacional – e com razão – mas convém não esquecer que a matriz religiosa e feudal do Afeganistão Talibã é a de uma sociedade tribal on steroids, ou 2.0 (como dizia há momentos um convidado na SIC), que não desdenhará formar alianças com a Federação Russa e a China. A ver vamos. 

Francis Fukuyama tinha razão numa coisa: o ponto de interrogação no final do título do seu ensaio. A História não acaba, as marés é que mudam ... e estão cada vez mais vivas.


   

 





domingo, julho 11

VIDA DE CÃO


JAMIE WYETH, Study of Kleberg (gouache, watercolor and India ink. 1984)

 

Nestes tempos em que tanto se fala de Arte e Cultura nos Açores, uma terra de vacas felizes e agricultores descontentes, lembrei-me de partilhar esta pintura (uma de muitas) que Jamie Wyeth fez do seu Labrador, chamado Kleberg. Não é de estranhar a afinidade do artista com os Labrador Retrievers, uma raça de cães pescadores oriunda da região litoral do nordeste canadiano (Terra Nova e Labrador) que, segundo reza Ernesto do Canto no Arquivo dos Açores, deve o seu nome e “descoberta” (ponho a expressão entre aspas, pois já entrou no Indexdo politicamente incorreto) a um argonauta terceirense chamado João Fernandes Lavrador, que não deve ter sido bem sucedido naquelas paragens gélidas onde há mais vida no mar do que terra para lavrar. Os Esquimós que o digam. Em todo o caso, deixou o seu nome perpetuado na toponímia provincial canadiana e, por tabela, numa das mais amáveis raças caninas à face da terra, o que já não é pouca coisa.

 

Mas, como ia dizendo, Jamie, filho de Andrew e neto de Newell, pertence a uma família de notáveis pintores norte-americanos do Estado do Maine, região organicamente ligada à Acadia, antiga província do Canadá Francês no século XVIII, pelo que não é de admirar a sua afeição aos Labs, como são carinhosamente conhecidos na Nova Inglaterra, pois esta raça ajusta-se como uma luva à matriz histórica e geográfica do Maine, terra de lenhadores e marinheiros, reputados na construção naval e pesca da lagosta, com uma paisagem costeira pontuada de enseadas e centenas de pequenos faróis, que fizeram as delícias de muitos pintores, entre os quais o grande Edward Hopper.

 

Lamento que Jamie Wyeth tivesse escolhido Kleberg, um nome com ressonâncias escandinavas, para o chip veterinário do seu fiel Labrador. Se fosse aberta consulta pública para a reestruturação da sua identidade, à laia de orçamento participativo, votava sem hesitações no nome João Fernandes e já agora, atendendo ao carácter elástico e inclusivo do conceito de Açorianidade, propunha que os Labrador fossem considerados  primos afastados com assento no Conselho da Diáspora, reforçando assim a nossa vertente atlântica e destronando Bo, o falecido cão de água da família presidencial Obama, que até hoje ocupa uma posição proeminente (a par, vá lá, de Cristiano Ronaldo) no trending norte-americano como imagem de marca de Portugal e, também, dos Açores, pois fiquem os leigos sabendo que foi Vasco Bensaude quem deu um contributo decisivo para o registo e reconhecimento internacional da raça “cão de água português”, já que estes cães pescadores eram passageiros frequentes das célebres frotas do bacalhau, onde a família Bensaude detinha interesses no século passado (estranhamente pouco presentes na memória açoriana), e alguém lhe chamou a atenção para o comportamento dos animais a bordo, dizendo que além dos seus reconhecidos predicados marítimos, em matéria de interação social, só lhes faltava era jogarem às cartas com a tripulação .... muita dela açoriana, percorrendo os mesmos mares que João Fernandes Lavrador navegara há quinhentos anos atrás.

 

Nestes tempos em que tanto se fala de ressuscitar a atividade e os transportes marítimos, seria bom que a dotação orçamental para esse setor não fosse sugada pelo cone de aspiração do oceano profundo, sobrando alguns trocos, em jeito de orçamento participativo, para a preservação e estudo dessa memória, que está longe de se resumir à atividade baleeira e deveria alargar-se à pesca do bacalhau e do atum, por exemplo, isto para não falar das companhias de transporte marítimo (antecessoras da SATA) que asseguravam as ligações externas e internas no arquipélago, com particular destaque para a Empresa Insulana de Navegação e os Carregadores Açorianos.  

 

Vitorino Nemésio, que viveu os dias do “São Vapor” e neles escreveu o Corsário das Ilhas, certamente estaria de acordo com a ideia de que esta memória salgada é tão caracteristicamente açoriana como, para usar as suas próprias palavras, "o santo marisco das nossas calhetas"

 

Aprende-se alguma coisa com os cães, mesmo quando eles não são endémicos, mas apenas primos afastados.