segunda-feira, janeiro 11

O colapso final

a destruição de Sodoma e Gomorra, John Martin, 1852


Chegados aqui, ao limiar de um novo confinamento geral e ficcional, só os privilegiados vão efectivamente confinar, já pouco mais há a dizer. O espírito pende cansado sobre si próprio e o pensamento é de exaustão e enfado. É como se toda a estupefação e indignação que carregamos, por quase um ano, fizesse desmoronar o corpo sobre o seu próprio peso.

Já não me aflige a derrota da racionalidade. O bom-senso foi a primeira vítima da Covid. Os governos, todos eles, por esse mundo fora, habituados a tomar decisões apenas para os ciclos eleitorais, viciados em mentir, para mentir a seguir, para esconder a mentira anterior, apressam-se a tomar medidas avulsas, incoerentes, genéricas e generalistas, presos que estão no populista e demagógico enredo das sondagens e dos sound bytes das notícias. Não foi o vírus que tomou conta das nossas vidas e as destruiu, foi o medo do vírus, o medo das imagens dos corredores dos hospitais cheios, como se em cada inverno elas não se repetissem, foi o medo das mortes, como se todos os anos não morressem dezenas de idosos abandonados ao frio e à solidão, foi o medo da nossa própria fragilidade e hipocrisia que nos dominou.

Já não me assusta os devastadores impactos económicos e sociais da miopia dos políticos que, a coberto dos epidemiologistas que renegaram todos os mais básicos princípios da ciência, a dúvida, o questionamento permanente, a aversão ao dogma e à fé, a ciência tornou-se numa nova fé, uma nova inquisição, e decidem confinamentos generalizados sem por um segundo pensarem nas pessoas. Assusta-me como os próprios cientistas não foram capazes de compreender que as suas soluções eram abjectas. como não foram capazes de arrepiar caminho, como por estes dias sugeriu um político, e não ir por aí, porque os custos da solução eram mil vezes piores do que o problema. Aflige-me a ditadura da estatística, dos casos por mil habitantes, das mortes por milhão. o ludibriar permanente e manipulador das estatísticas, dos gráficos, das linhas, as ondas, as vagas imaginárias. A vida como abstração matemática, a sacrossanta vida, como se cada vida não fosse, afinal, uma pessoa, uma forma de amor, como se cada vida que juram querer salvar não fosse, afinal, uma vida que precisa de ser vivida. Como se a própria vida, enfim, não fosse por natureza eminentemente periclitante e efémera. Viver mata! E, o que estamos a fazer é condenar a uma morte solitária e fria aqueles que devíamos estar a aquecer no nosso abraço fraterno e a acompanhar nesta sua última caminhada.

Assusta-me a ideia de que a solução para os problemas humanos é a perda de humanidade. A forma como se abdica da essência do ser humano por um conceito clínico de vida, feita apenas de circulação vascular e cerebral, desprovida de sociabilização e afecto, assustam-me estas visões higienizadas do mundo, em que as pessoas são como ratos de laboratório e as terríveis e profundas desigualdades de um mundo onde uns poucos se podem confinar nas suas casas aquecidas e uns muitos se veem forçados ao trabalho ou à pobreza. Assusta-me como deitamos tão fácil  e rapidamente no lixo as nossas liberdades, sem sequer pestanejar nem que por um breve momento de dúvida pelo que de básico e essencial estamos a abdicar e destruir.

Assusta-me, isso sim, as crianças. E, a terrível punição que lhes estamos a impor. O fecho das escolas é uma pena capital no seu futuro, no seu crescimento, nas aprendizagens, nos afectos, é um terramoto brutal e destruidor, enfim, nas suas memórias. E, só Deus e o Futuro saberão o que tudo isto significa no amanhã  destas crianças a quem agora roubamos a infância com o medo não da morte, ou do colapso do Sistema Nacional de Saúde, mas com o medo da próxima sondagem ou do resultado da próxima noite eleitoral. Já o disse e volto a dizer, estamos, vai para um ano, a testar soluções genéricas e manifesta e comprovadamente erradas para um problema que felizmente e sazonalmente aflige pouco mais de 2% da sociedade e, com isso, ao mesmo tempo estamos a destruir, sem dó nem piedade, sem um pingo de fraternidade e solidariedade, os restantes 98%. O problema não é o vírus, nunca foi, o problema fomos sempre nós! 

sexta-feira, dezembro 11

O Paradoxo Cesar

 


De uma forma geral, o debate do Programa do Governo, que por estas horas se aproxima do fim, na lowryana cidade da Horta, foi uma penosa via sacra de vacuidade e pobreza, pontuado, aqui e ali, por iguais doses de cinismo e espuma na boca. De facto, das duas principais bancadas, Governo e Direita que o sustenta, o que saiu foi, quase sem excepção, um enorme rol de clichés e de pretensões pueris, vazias de qualquer concretização, calendarização ou objectivo. À imagem, enfim, do texto do próprio documento em discussão. Em harmonia, uma série de rounds de pugilismo político, dignos de um título mundial de pesos mosca. Bastos e Silva, no canto do Governo, foi o campeão desta táctica do soco abaixo da cintura no adversário que já está no chão com o triste e lamentável episódio SATA. E, na frente da bancada do vetusto PPD, Pedro Nascimento Cabral, sempre de faca na liga e mão na anca, qual varina da Ribeira, sempre pronto a enxovalhar o anterior Governo numa obsessão pavloviana com o seu próprio passado de oposição e tão, mas tão pouco com o futuro, o seu, o nosso e o da Região. Falhou, redondamente, a Direita na percepção de que, tomada a posse da governação, o que menos importa aos açorianos é o lavar de roupa suja político dos traumas da anterior maioria. Não se bate em quem já está no chão, fica feio e conspurca. Para além de que, o prazo de validade desse passa culpa, aos olhos do comum eleitor, é tão curto quanto a ponta do fósforo que se apaga à primeira brisa do próprio movimento que o acende.

Do outro lado, o Partido Socialista, sofre de um incurável mal a que chamaria o Paradoxo Cesar. Independentemente da inteligência e boa-vontade de Andreia Cardoso ou Miguel Costa, ou do esforçado empenho da restante bancada, a verdade é que os pesos pesados da sua representação parlamentar são, obviamente, Vasco Cordeiro e, não surpreendentemente, mas infelizmente, Francisco Cesar. Quem, mesmo que de passagem ou nos resumos noticiosos, tenha assistido aos debates não pode deixar de compreender as qualidades tribunícias de ambos e, em particular, de Francisco Cesar. De toda a secção do debate dedicada à pasta do Turismo a melhor intervenção, com mais conteúdo e articulação, foi sem sombra de dúvida aquela que o ex-líder de bancada socialista fez da tribuna. Embora, em face da inanidade da prestação do Secretário da pasta, tal não fosse difícil. Ora é aqui que reside o paradoxo, é que os melhores assets desta bancada parlamentar são exactamente aqueles que pior fazem ao Partido. Embora sejam os deputados mais bem preparados e com maiores qualidades políticas para o cargo são, tragicamente, os que impedem o PS de fazer uma oposição livre das amarras do passado governativo do Partido. E são, também, os que abrem o flanco aos ataques esganiçados da Direita, como se assistiu, à exaustão, nestes longos três dias de penoso combate, perdão, de debate. A mera presença de Vasco Cordeiro, Francisco Cesar e Sérgio Ávila, entre outros representantes da herança governativa do passado, no parlamento regional impossibilita que o foco do debate se fixe no actual Governo, permanecendo, tal como já percebemos que a Direita insistirá, ad nauseam, nos lugares obscuros, nas sobrancerias, nos autoritarismos, prepotências e arbitrariedades e em mais todos os pequenos e grandes erros dos 24 anos de governação do Partido Socialista, numa dolorosa passos-coelhização da vida política regional, que não terá fim enquanto o Partido não fizer essa imperiosa introspecção. O Paradoxo Cesar é essa circunstância inusitada de o melhor que o Partido tem no parlamento regional ser exactamente aquilo que o impedirá de regressar ao poder nos Açores.

sábado, novembro 28

da estagnação como escapatória política

 

The fault, dear Brutus, is not in our stars, but in ourselves.

William Shakespeare, Julius Caesar

Desde o dia 25 de outubro que o Partido Socialista dos Açores vive baloiçado entre um estado semi catatónico, de quem acabou de sair de um desastre rodoviário, e a denegação própria de quem se recusa a reconhecer uma realidade física, concreta e palpável. Perante este tortuoso tumulto interior o Partido, e principalmente a sua direcção, refugiaram-se no discurso da vitória moral, da usurpação do poder, da ilegitimidade parlamentar, da desconsideração institucional, dos “pecados capitais”, do “maior grupo parlamentar” e todo um outro conjunto de argumentários cujo denominador comum, por mais verdadeiros que sejam todos esses raciocínios, é a rejeição do reconhecimento que o cenário político regional mudou diametralmente desde esse dia até à realidade, que temos hoje, das direitas instaladas no poder.

Esta neurose psíquico-politica em que o Partido tem vívido, desde esse dia traumático, tem levado a, por um lado, uma estupefacção silenciosa da sua militância, remetida a uma espectativa hesitante e medrosa e, por outro, ao calculismo egocêntrico e autista da direcção do Partido, cujo distanciamento altivo e cobarde tem levado à renuncia de um prestar de contas lúcido, corajoso e transparente sobre as causas e as consequências políticas desse fatídico dia 25 de outubro.

Recorrentemente, ao longo destes dias, a pergunta mais repetida, quer nos megafones da comunicação social, quer no relativo recato das conversas entre militantes, foi sobre a continuidade, ou não, de Vasco Cordeiro na liderança do Partido. Após se ter confirmado o assumir de Vasco Cordeiro do seu mandato como deputado, eis que esta sexta-feira descobrimos o porquê da sua permanência. Vasco Cordeiro fica para poder assumir, no longínquo mês de julho de 2022, a Presidência do Comité Europeu das Regiões, cujos membros tem necessariamente que ser representantes eleitos de autoridades regionais ou locais.

Pois, a questão que agora se coloca é: quais as consequências para o Partido desta permanência? Em face do cataclismo eleitoral, Vasco Cordeiro e a sua direcção, optam pela continuidade despreocupada, quase ingénua não fora maquiavélica, ou então uma espécie de pausa, como que a pedir um time-out no jogo político, cultivando ainda uma vã esperança de que o adversário possa, por alguma razão, soçobrar a breve trecho, permitindo-se assim a sua sobrevivência institucional para, em última instância, assumir outros voos na rota Estrasburgo – Bruxelas e, também, deixar que a restante direcção possa passear a sua travessia do deserto no confortável regaço da imunidade parlamentar. Esta estagnação, este deixar como está político, fazendo de conta que os resultados eleitorais não representam uma derrota do Partido, querendo-nos fazer acreditar que não houve desgaste, exaustão e censura dos eleitores à governação do Partido, às escolhas individuais e aos desmandos pessoais e colectivos de 24 anos no poder, representa uma condenação do Partido, no médio e no longo prazo, ao cadafalso da irrelevância política. Não querer, por puro calculismo e egoísmo político fazer a devida catarse e a necessária ruptura com os resultados eleitorais e com a realidade do novo panorama político regional representa o total e completo claudicar da ideia de um Partido Socialista honrado nos seus compromissos, verdadeiro nas suas convicções e, acima de tudo, integro e desprendido, pondo sempre na frente da sua actuação política o futuro e os interesses de todos em lugar de apenas uns e dos Açores em lugar dos seus.

Ou Vasco Cordeiro compreende já a sua responsabilidade neste momento e assume-se como agente fundamental dessa ruptura, ou as bases e a militância exigem e demonstram essa verticalidade e essa coragem para cortar com o que de pernicioso existe no seu passado, ou o futuro do Partido Socialista dos Açores é a ruína e a irrelevância por muitos e bons anos, ou, pelo menos, os anos que os açorianos levarem a fartar-se, também, da governação desses que agora se vão apressar a entrincheirar nos imensos palácios do poder e da governação...

sábado, novembro 21

Brevíssimas notas sobre o novo Governo Regional


ou curtas impressões caricaturais sobre o Governo das direitas encostadas…

a)       Presidente do Governo Regional

No seu habitual estilo palavroso, gongórico até, José Manuel Bolieiro, o nosso Boli amigo, apresentou ontem, nas cercanias do Solar da Madre de Deus, nessa mui nobre cidade de Angra do Heroísmo, aquilo a que o próprio chamou de um Governo não “acomodatício” e “transformista” sic. A principal característica de Bolieiro, nestes últimos anos, foi estar quieto, quase escondido, passando pelos pingos da chuva, como uma gata em telhado de zinco quente, de forma que pouco mais lhe conhecermos de acção política do que uma muito alardeada simpatia, a que agora se acrescentou uma denodada capacidade negocial. Temo, tanto pelo claudicar político e ideológico dos Acordos de Governação e de Incidência Parlamentar, como pela constituição do próprio Governo, que tais dotes estejam grandemente inflacionados e que o que fique do novo Presidente do Governo não seja mais do que a retórica barroca de um magistrado frustrado. A herança que ficará deste governo, das direitas regionais, só o futuro dirá e, se lhe não podemos dar o habitual estado de graça, pela voragem sórdida e apressada do seu assalto ao poder, podemos, pelo menos, dar-lhe o regimental benefício da dúvida.

b)      Vice-Presidente

Artur Lima é, por todas as razões e mais alguma, o mais assumidamente transformista dos membros deste governo. Uma verdadeira Belle Dominique da astúcia política, com décadas de travestismo parlamentar no seu currículo. Mas, o facto significativo da orgânica deste governo não é tanto o estatuto de Vice, que se coaduna perfeitamente com a soberba e a panache de Artur Lima, mas o assegurar cumulativo da pasta da Segurança Social, que guarda dentro de si, qual bomba relógio, o ponto fulcral da coligação com o CHEGA!. O cumprimento, ou não, das promessas de ataque, sem dó nem piedade, à “subsidiodependência” são o seguro de vida desta coligação e, muito me espantaria que, no curto prazo, não desse a Artur Lima um achaque de “irrevogabilidade” que fizesse cair esta Gaiola de Malucas que é esta coligação das cinco direitas insulares.

c)       Secretário Regional da Saúde e Desporto

Clélio Meneses fica com a pasta mais efervescente do momento. A gestão da pandemia, até aqui protagonizada por Tiago Lopes e Vasco Cordeiro, tem sido feita na base do pânico e do extremismo ideológico do fascismo sanitário, criando não só profundas feridas sociais, económicas e institucionais, como divergências acentuadas com os principais protagonistas do sector: médicos, enfermeiros, etc. Acresce, que esse era já, cronicamente, um sector profundamente doente, com a gangrena da dívida e das listas de espera a crescer exponencialmente de dia para dia, mais do que qualquer mundana cadeia de transmissão. A promessa, irrealizável, de garantir a formação de médicos especialistas é apenas um exemplo de como a gestão de espectativas é ainda mais importante para estes políticos do que a realidade dos factos e a verdade dos factos é que a região não tem nem competência, nem meios, para formar médicos especialistas.

d)      Secretária Regional da Educação

A grande questão sobre Sofia Ribeiro é há quantos anos não entra numa sala de aula ou corrige um teste? Podemos, de balde, reconhecer-lhe competência e inteligência para desempenhar qualquer cargo, mas ficará sempre a questão se não estaria melhor numa pasta de Relações Exteriores, ou Fundos Europeus, do que a remexer no caldeirão reivindicativo e hiper-sindicalizado do sector da educação. O nome com a pasta é mais um daqueles sinais claros de como este é mais um governo de desenrascanço político-partidário do que verdadeiramente “transformador”. Por outro lado, a colocação de Sofia Ribeiro a número quatro do Governo é mais um tiro no porta-aviões da ambição política de Pedro Nascimento Cabral, a quem calhou a fava de todo este bolo-rei governativo: a liderança da bancada parlamentar.

e)      Secretário Regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública

Num momento como o atual é incompreensível e, até certo ponto, indesculpável a inexistência de uma pasta da Economia. A agregação de Finanças, Planeamento e Administração Pública leva a temer o pior em qualquer uma destas áreas. Que, quer pela sua dimensão gargantuana, como pelos desafios com que estão confrontadas não permitem perspectivar que um secretário, por mais competente que seja ou experiência que tenha possa, de facto, correr a todas as suas solicitações. Joaquim Bastos e Silva é uma figura com provas dadas e craveira intelectual, mas gerir as finanças públicas regionais, ainda por cima herdando a pasta das mãos de alguém como Sérgio Avila e, ao mesmo tempo, levar a cabo a reforma da administração pública regional, que tem o peso que tem na vida dos açorianos, é uma tarefa hercúlea, mesmo para um leitor assíduo do Financial Times.

f)       Secretário Regional da Agricultura e Desenvolvimento Rural

António Ventura é uma figura inenarrável, que representa, neste Governo, o pior que o costumeiro caciquismo político regional tem para oferecer. Talvez por isso Jorge Rita se tenha apressado a vir elogiá-lo publicamente. Aguardo com curiosidade a prometida “digitalização do sector primário”. Por outro lado, reduzir os muitos desafios da transição do sector agrícola da massificação leiteira para outras culturas às suas condições edafoclimáticas é manifestamente pouco, para aquele que é o principal sector da nossa economia. Já agora, edafoclimáticas não leva hífen.

g)       Secretário Regional do Mar e Pescas

Consta que o novo secretário do Mar adormece nos seus próprios julgamentos, nada mais adequado a quem se pretende lançar aos balanços ondulantes do vasto mar açoriano. Que lhe valha Neptuno, parece-me adequado para um monárquico.

h)       Secretária Regional da Cultura, Ciência e Transição Digital

Confesso que devo elogiar a ascensão, finalmente, da Cultura ao estatuto de secretaria, embora o cocktail de Ciência e Transição Digital, ou lá o que isso signifique, deixe um sabor um pouco adstringente. Ficará para ver como se procederá a ligação com a Administração Publica e outras pastas onde essa dita transição é mais premente.

i)        Secretário Regional do Ambiente e Alterações Climáticas

Tirando o facto de ser pupilo de Artur Lima muito pouco há a dizer sobre Alonso Miguel. As alterações climáticas são um dos maiores desafios do nosso tempo e a preservação ambiental uma responsabilidade enorme numa região como a nossa. Esperemos que a ânsia transformista não contamine esta pasta, onde, mais do que transformismo, o que se exige é conservacionismo.

j)        Secretário Regional dos Transportes, Turismo e Energia

A pasta do Turismo foi protagonista de um episódio absolutamente revelador e paradigmático das idiossincrasias e fragilidades deste Governo. Corria o boato que Bolieiro, apesar dos seus dotes oratórios, não estava a conseguir convencer os famosos especialistas, independentes e profissionais liberais a juntarem-se à sua trupe governativa. É preciso perceber que ninguém com carreira e um emprego estável e bem remunerado na privada, ou simplesmente que esteja no seu perfeito juízo, quereria juntar-se a um Governo que deve a sua longevidade a dois ogres do neo-fascismo-luso. De qualquer modo, quando começou a correr o nome de Mota Borges, todos pensámos tratar-se de Alberto Mota Borges. O que, sendo verdade, era uma excelente escolha, não só pelo seu currículo, a sua competência e ética de trabalho, e por ser um conhecedor das áreas que iria tutelar: aviação e turismo. Inclusive a sua fotografia chegou a fazer manchete no jornal, o que só revela que só acredita nos jornais quem nunca leu uma notícia sobre si próprio. Porém, o Mota Borges afinal era o irmão mais novo, o que, apesar da importância da mera existência da pasta, deixou o chamado Trade num desolado emudecimento.  

k)       Secretário Regional da Juventude, Qualificação Profissional e Emprego

A presença de Duarte Freitas neste elenco governativo é-me totalmente incompreensível e só é explicável por uma qualquer praxe de subserviência ao protagonismo partidário do mesmo. O que, levado ao extremo, levaria que Berta Cabral, Costa Neves, Álvaro Dâmaso e todos os outros anteriores líderes do partido na oposição fossem agora premiados e chamados a dar o seu douto e vetusto contributo neste novo ciclo governativo. Bem vistas as coisas, se calhar até dava um governo melhor do que este… Por outro lado, o conteúdo da pasta e tão ilustre figura partidária leva a prever o pior no que toca ao agenciamento de empregos para militantes, jotas e outros apêndices da clique social democrata.

l)        Secretária Regional das Obras Públicas e Comunicações

Ana Carvalho, não obstante a sua fama de competência, vem também na esteira desta desmumificação das relíquias social-democratas de antanho, o que diz tudo sobre a capacidade de Bolieiro, e da sua Gaiola de Malucas, de aliciarem novos quadros técnicos e políticos para a árdua tarefa de governar estes nove bocados de contra maledicência plantados no oceano atlântico.

m)    Subsecretário Regional da Presidência

Por fim, Pedro Faria e Castro, uma simpática figura, que ficará com a difícil incumbência de manter o Nuno Barata bem-disposto ao longo da legislatura, o que não se avizinha ser tarefa fácil.

le jeu sont fait rien ne va plus

domingo, novembro 15

É hora de nos levantarmos…

 

foto Rodrigo Antunes/LUSA

um médico que, de nariz enfiado nos casos, sem conseguir ver para além dos órgãos que possui (…), prolongaria o estado de emergência sanitária até ao fim dos tempos;” Bernard-Henri Lévy

Passado que foi o breve hiato democrático das eleições voltámos, candidamente, ao fascismo sanitário. No final da última semana, o Conselho de Governo regurgitou duas novas medidas ditatoriais, como que a querer marcar em definitivo, no seu epitáfio, a mensagem de que em matéria de autoritarismo covidiano ninguém o ultrapassa. Depois de meses em que nos foi impingida a ideia de que as escolas eram seguras, que as máscaras eram não só imprescindíveis como determinantes para a segurança de professores e alunos, de que todo o universo escolar tinha sido devidamente preparado, setas no chão, filas indianas, regras e mais regrinhas de distanciamento e 20 lavagens da mãos por dia, e que tudo tinha sido acautelado para podermos voltar ao regime presencial. Depois de todos termos finalmente percebido que a escola é um elemento crucial ao bem-estar e ao desenvolvimento das crianças e que estas não são um grupo de risco, eis que a ordem chegou, numa sexta-feira à tarde, de fechar tudo outra vez. Por causa de um ou dois casos em cada escola, num universo de milhares de alunos, de crianças que testaram positivo, sendo que com toda a certeza o contágio se deu em ambiente familiar ou outro que não a escola, o Governo decidiu encerrar, para já, 19 estabelecimentos de ensino na região. Atrelado a isto chegou também a ordem de que quem queira embarcar um avião com destino a estes nove calhaus terá que, impreterivelmente, apresentar um teste negativo à menina do check in.

Depois de umas brevíssimas semanas em que parecia que o SARS-CoV-2 tinha ido de férias para o Douro, enquanto por cá a política se entretinha com os tramites da lotaria eleitoral, na última semana o maroto vírus saltou de uma casa de bonecas para uns quantos restaurantes e dai, num sopro, para a população em geral. Em cerca de pouco mais de quinze dias a região passou de 68, no dia 25 de outubro, para 185 casos ativos, ao dia de hoje. Foi quase como se o vírus estivesse à espera das eleições para apanhar um avião para os Açores…

Perante isto, menos de 200 casos numa população de 250 mil (0,07%), fiéis aos seus galões de Autoridade de Saúde, Tiago Lopes, e Vasco Cordeiro, já agora, decidem determinar mais umas daquelas medidas autoritárias, antidemocráticas, desumanas e inconstitucionais a que já nos habituaram. E, aparentemente agora, com o aval tácito dos Drs. Bolieiro e Maurício, que ninguém lhes viu piar sobre a matéria. Como se já não bastasse a senda persecutória dos governantes da república, que ordenam recolheres obrigatórios e confinamentos como quem escolhe uma gravata, as nossas autoridades locais abraçam-se à arbitrariedade e ao despotismo com a facilidade de um piscar de olhos. António Costa, ainda por cima, com o desplante de nos incutir a nós o ónus da disseminação. A culpa do contágio, diz-nos ele, é nossa, dos cidadãos e das famílias, somos nós que não nos sabemos comportar e não cumprimos as regras. Só faltou o puxão de orelhas e a rabada. Por cá, agora, são as crianças não só as culpadas como, ultrajantemente, as principais penalizadas. Por causa de uma dúzia de casos milhares de crianças são remetidas de novo ao enclausuramento domiciliário. Sem nunca sequer se pensar nos efeitos devastadores que essa medida tem e terá nestes miúdos.

E, da mesma forma que o governo se rege por uma visão desinfetada das nossas vidas insiste, por outro lado, em desrespeitar não só a Constituição, mas também os mais básicos princípios do Estado de Direito Democrático coartando as mais primárias liberdades individuais dos cidadãos. Naquilo que o filósofo italiano Giorgio Agamben alertou como “a tendência de utilizar um estado de exceção como paradigma normal de governo”. Aparentemente não aprenderam nada com os Habeas Corpus que perderam nem com os recursos que lhes foram negados. Cito, livremente, de um dos acórdãos do Tribunal da Relação de Lisboa “a prescrição de atos médicos ou de diagnóstico relativamente a toda ou qualquer pessoa é da exclusiva responsabilidade de um médico e não pode ser realizada por Lei, Resolução, Decreto regulamentar ou qualquer outra via normativa.” O Governo Regional não só tinha conhecimento deste acórdão como, embriagado de autoritarismo, decide conscientemente contra a Constituição a e liberdade dos cidadãos. E, mais uma vez, dado o silêncio dos incumbentes eleitos, nada leva a crer que nesta matéria tão importante algo venha a mudar, provavelmente até tenderá a piorar, com o novo governo das direitas encostadas…

A crise do Covid-19 é um momento determinante nas nossas vidas e será também na história da Humanidade. Este “cisne cinzento” em que vivemos transformou aquilo que em literatura era apenas uma metáfora para a perda da liberdade, A Peste de Camus, para ser uma epidemia real, não já só de um vírus, mas de autoritarismo e de destruição das democracias liberais ocidentais tal como as conhecíamos, como bem explica Ivan Krastev em O Futuro Por Contar. Fechar fronteiras é a mais básica e arcaica das respostas a um mal desconhecido. É o regresso ao mais primordial, animalesco até, instinto de fuga que o medo desperta. E a incapacidade dos governos de saberem ou quererem contrariar esses instintos animais revela o quão frágil é a nossa sociedade, a nossa democracia e as nossas liberdades individuais. E, no fim, será, também, esta deriva que levará ao crescimento e à legitimação dos populismos autoritários e demagógicos, um pouco por toda a Europa, de Orban a André Ventura. A democracia morrerá por dentro, porque os seus principais atores, no momento mais importante, não a souberam ou quiseram defender. Entregámo-nos de livre e espontânea vontade aos dictates das ciências médicas, que não sabem nada de filosofia, ou de história, aceitámos a selvagem desociabilização do confinamento com uma naturalidade abjeta, virámos a cara às profundas desigualdades de um mundo em que se ordena cegamente os mesmos termos arbitrários para quem tem uma casa com piscina e jardim e um ordenado garantido ao final do mês e para quem não tem nada…

O futuro dirá, e em particular os nossos filhos, que são os mais amargamente prejudicados por esta pandemia, que legado estamos a deixar. Se um mundo de isolamento, de aprisionamento, de iniquidade e autoritarismo. Ou, pelo contrário, se no meio desta destruição massiva dos mais importantes valores da nossa civilização, que estamos paulatinamente a assistir, descobriremos a revolta e a força interior para, como nos incentivou Proudhon, deixarmos de estar de joelhos e nos levantarmos…