Para memória presente (e futura), o relembrar (todos os anos) do epicentro de uma transformação transnacional, simbolicamente - Made in Azores, cujos efeitos ecoam até à actualidade (com consequências gravosas e cada vez mais imprevisíveis).
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sábado, março 16
domingo, abril 26
lamento por Abril...
Não é fácil fazer um diário quando os dias são indistintos. Quando
nem o sono nocturno permite separar um dia do outro. Não é fácil compreender a
realidade no meio da torrente de notícias, comentários, comentadores, mensagens e posts. Dentro do confinamento somos todos ratos num laboratório,
incautos, inocentes, alheios à experiência que se abate sobre nós. Olhando para
trás é difícil perceber quando tudo isto começou. De dentro do isolamento não
se consegue ver, com clareza, com luz, o dia, o momento exacto, em que a
Liberdade nos foi retirada. Em que as rotinas do confinamento nos foram
impostas, como algemas. Mas, não foi o vírus a origem de tudo isto. Não foi a
doença, não foi a contaminação exponencial. Nem foi o medo, o pânico, que
varreu o mundo, como uma labareda fulminante. O que nos enclausurou
verdadeiramente foi a normalidade que havia. Foi a vida que tínhamos e para a
qual nos querem tão fervorosamente fazer voltar. Este confinamento não começou
no vírus, começou no fim das utopias. Começou na forma lenta e gradual em como
a ditadura do capital tomou conta das nossas vidas. Foi nas rotinas que nos
foram impostas antes deste grande fechamento. No trabalho, no ensino formatado.
Na ditadura da beleza e da fama. Na ditadura do dinheiro, do lucro. Fomos nós
que nos entregamos de livre vontade à voragem da Banca, dos juros, dos
créditos. Na ditadura da ciência que na verdade não sabe nada. A liberdade não
nos foi roubada pelo vírus, mas pelos partidos e por todas aquelas eleições em
que não fomos votar. Fomos nós que deixamos os partidos saquear a Democracia. A
casa da Democracia não é o Parlamento, são as ruas deste país. A Democracia não
são os ditames da política partidária. A Democracia não é a vontade dos ditos
representantes, principalmente quando estes se distanciam em acções dos
princípios e valores da liberdade e se arrogam a si privilégios que negam ao
povo. A Democracia não é dar de comer aos sem-abrigo, é tirá-los da rua e
devolver-lhes a dignidade. A liberdade não é confinamento, é solidariedade. A liberdade
não é isolamento, é abraço. A Democracia é o que se canta nas janelas e
varandas deste país. A Liberdade é um homem só no meio da uma avenida vazia
carregando ao ombro uma bandeira de Portugal encimada de cravos vermelhos.
sexta-feira, abril 24
Maniqueísmos de ocasião
Os tempos de crise são pródigos em maniqueísmos bacocos. Em Portugal
isto tornou-se óbvio com a polémica bizantina em torno da celebração do 25 de
Abril. De repente o país acordou dividido entre fascistas e revolucionários,
com o acrescento de ridículo de ambos se acusarem mutuamente de perigoso
contágio. O que pode o Covid-19 ao pé de uma boa dose de indignação de Facebook?
É claro que o 25 de Abril pode e deve ser comemorado, aliás e como o Natal, o
25 de Abril é todos os dias, como bem descobriram os peticionários de uma
petição (passe a redundância) para impedir o 25 de Abril, quanta ironia. Mas,
também seria razoável que os poderes instituídos entendessem que o que
realmente põe em causa a democracia é a desigualdade e a distância de direitos
e regalias entre as pessoas. Ao povo restringe-se as liberdades mais básicas
como, por exemplo, o luto. Enquanto o Estado se arroga a si o direito de fazer
de conta que nada mudou. Se há coisa que esta crise veio demonstrar à saciedade
é o enorme fosso que existe neste país entre cidadãos, supostamente iguais. O país
dos que tem casas com jardim, internet de banda larga, computadores e tablets,
descobertos autorizados e salários por inteiro. E o país dos que por ordem do
Estado, mais do que por imposição do vírus, viram as suas vidas despejadas no
lixo de um dia para o outro. Mas com esse maniqueísmo ninguém se indigna…
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