sexta-feira, maio 1

Lunáticos (!)


Esta semana, à crença de que «a necessidade aguça o engenho», somo a compreensão de que ela, a necessidade, numa feliz expressão atribuída ao génio que foi Platão, é também «a mãe de todas as invenções», sendo que o plural é da minha responsabilidade, por questões que não importa agora aprofundar.

A (im)preparação, ante a surpresa, atrasa a humanidade, mas não a detém(!) e, não sei se bem ou se mal, lá nos vamos conseguindo reinventar, umas vezes pior e, sobretudo, outras vezes melhor.

Aflige-me, no entanto, a ideia de que, tal como o escorpião picou a rã numa conhecida fábula, também esteja na nossa natureza darmos cabo do planeta, nosso hospedeiro, ao mesmo tempo que damos largas aos instintos de sobrevivência da espécie, seja lá o que «sobrevivência da espécie» represente para uma ou outra estirpe.

Para os »marretas« que nunca se rendem ao vírus, a qualquer que seja, venham eles de onde vierem, deixo a recomendação de leitura do livro Lunáticos, de Safi Bahcall.

Não obstante uma determinada sensação de uma vivência sequencial da humanidade, a vida também acontece nas faixas paralelas. São elas que, nas nossas autoestradas, permitem as viragens à direita ou à esquerda e, quando necessário, as inversões de sentido de marcha também.



domingo, abril 26

lamento por Abril...


Não é fácil fazer um diário quando os dias são indistintos. Quando nem o sono nocturno permite separar um dia do outro. Não é fácil compreender a realidade no meio da torrente de notícias, comentários, comentadores, mensagens e posts. Dentro do confinamento somos todos ratos num laboratório, incautos, inocentes, alheios à experiência que se abate sobre nós. Olhando para trás é difícil perceber quando tudo isto começou. De dentro do isolamento não se consegue ver, com clareza, com luz, o dia, o momento exacto, em que a Liberdade nos foi retirada. Em que as rotinas do confinamento nos foram impostas, como algemas. Mas, não foi o vírus a origem de tudo isto. Não foi a doença, não foi a contaminação exponencial. Nem foi o medo, o pânico, que varreu o mundo, como uma labareda fulminante. O que nos enclausurou verdadeiramente foi a normalidade que havia. Foi a vida que tínhamos e para a qual nos querem tão fervorosamente fazer voltar. Este confinamento não começou no vírus, começou no fim das utopias. Começou na forma lenta e gradual em como a ditadura do capital tomou conta das nossas vidas. Foi nas rotinas que nos foram impostas antes deste grande fechamento. No trabalho, no ensino formatado. Na ditadura da beleza e da fama. Na ditadura do dinheiro, do lucro. Fomos nós que nos entregamos de livre vontade à voragem da Banca, dos juros, dos créditos. Na ditadura da ciência que na verdade não sabe nada. A liberdade não nos foi roubada pelo vírus, mas pelos partidos e por todas aquelas eleições em que não fomos votar. Fomos nós que deixamos os partidos saquear a Democracia. A casa da Democracia não é o Parlamento, são as ruas deste país. A Democracia não são os ditames da política partidária. A Democracia não é a vontade dos ditos representantes, principalmente quando estes se distanciam em acções dos princípios e valores da liberdade e se arrogam a si privilégios que negam ao povo. A Democracia não é dar de comer aos sem-abrigo, é tirá-los da rua e devolver-lhes a dignidade. A liberdade não é confinamento, é solidariedade. A liberdade não é isolamento, é abraço. A Democracia é o que se canta nas janelas e varandas deste país. A Liberdade é um homem só no meio da uma avenida vazia carregando ao ombro uma bandeira de Portugal encimada de cravos vermelhos.



sábado, abril 25

CONTOS DA LOUCURA NORMAL #3



Andrew Wyeth, Wood Stove (dry brush in watercolor), 1962 
(Farnsworth Art Museum. Rockland - Maine)


Nestes tempos de confinamento generalizado a expressão anglo-americana Cabin Fever começa a ficar trending nos motores de busca da internet e, segundo o venerável Oxford English Dictionary, designa o seguinte estado de espírito, que passo a citar: Lassitude, irritability, and similar symptoms resulting from long confinement or isolation indoors during the winter.

Para uma criatura atlântico-mediterrânica que vive num arquipélago frequentemente apelidado de “Irlanda subtropical”, onde os Invernos não possuem o rigor extremo que caracteriza regiões como o Alasca, o Minnesota e a maioria das províncias do Canadá, a expressão não faz muito sentido como sinónimo de, usando um plebeísmo, “estou a passar-me dos carretos”, pois se há desejo que ainda guardo na minha bucket list é viver numa log cabin durante duas ou três semanas, não necessariamente no Inverno e, de preferência, no Estado do Maine à beira das águas tranquilas de um lago, quando a foliage season explode numa sinfonia de cores anunciando a chegada do Outono.

Quatro razões concorrem para o conforto de uma log cabin: a madeira como único material de construção; o alpendre mobilado com cadeiras de baloiço; a lareira e chaminé de pedra no centro da casa e, finalmente, a maravilhosa antigualha que se dá pelo nome de fogão a lenha. É essa atmosfera aconchegante que retrata a aguarela de Andrew Wyeth, por muitos considerado o mais americano dos pintores americanos, num interessante contraponto rural ao ambiente de solidão urbana que Edward Hopper, evocado num post anterior da Maria Brandão, soube transpor para a tela como ninguém.

Quando a pandemia passar (ainda tenho alguma fé Iluminista no progresso da ciência) vou de férias para o Maine, se possível num navio mercante com o Lord Jim na bagagem.

sexta-feira, abril 24

Maniqueísmos de ocasião


Os tempos de crise são pródigos em maniqueísmos bacocos. Em Portugal isto tornou-se óbvio com a polémica bizantina em torno da celebração do 25 de Abril. De repente o país acordou dividido entre fascistas e revolucionários, com o acrescento de ridículo de ambos se acusarem mutuamente de perigoso contágio. O que pode o Covid-19 ao pé de uma boa dose de indignação de Facebook? É claro que o 25 de Abril pode e deve ser comemorado, aliás e como o Natal, o 25 de Abril é todos os dias, como bem descobriram os peticionários de uma petição (passe a redundância) para impedir o 25 de Abril, quanta ironia. Mas, também seria razoável que os poderes instituídos entendessem que o que realmente põe em causa a democracia é a desigualdade e a distância de direitos e regalias entre as pessoas. Ao povo restringe-se as liberdades mais básicas como, por exemplo, o luto. Enquanto o Estado se arroga a si o direito de fazer de conta que nada mudou. Se há coisa que esta crise veio demonstrar à saciedade é o enorme fosso que existe neste país entre cidadãos, supostamente iguais. O país dos que tem casas com jardim, internet de banda larga, computadores e tablets, descobertos autorizados e salários por inteiro. E o país dos que por ordem do Estado, mais do que por imposição do vírus, viram as suas vidas despejadas no lixo de um dia para o outro. Mas com esse maniqueísmo ninguém se indigna…

quarta-feira, abril 22

Solidão sobre solidão


Hotel by Railroad, Hopper Meditations, Richard Tuschman, 2013.


Solidão. Alienação. Saudade. Richard Tuschman reinterpretou o universo de Edward Hopper, criando narrativas ficcionais muito próximas do trabalho do pintor americano, numa série intitulada Hopper Meditations. Tuschman combinou digitalmente dioramas do tamanho de casas de bonecas, construídos, pintados e fotografados no seu estúdio, com fotografias de modelos humanos em tamanho natural, fazendo emergir das suas personagens e das suas composições uma complexidade emocional, uma passividade física, um despojamento e uma representação da solidão bastante próximas do original.

A janela como moldura para a vida, o livro ou o cigarro como única parceria, o outro como mera presença física.  A sombra maior do que a luz, a postura corporal tensa, o olhar fixado no intangível, o coração apertado pela fronteira intransponível.

Hopper e Tuschman. Solidão sobre solidão. Assim vivemos nós estes dias. Personagens do nosso diadorama, bonecos de carne e osso, reféns da tecnologia digital, delimitados e suspensos, à espera de um artista que resolva restaurar esta composição.

terça-feira, abril 21

Contos da Loucura Normal #2

“Big Brother”, um termo popularizado entre nós por uma série imbecil de programas televisivos que tiveram início no final do último milénio e alimentaram um voyeurismo coletivo de gosto duvidoso, já faz parte das minhas household memories desde a tenra adolescência, quando li a edição portuguesa (salvo erro, da Ulisseia) do 1984, de George Orwell, que o meu Pai tinha na estante da sua biblioteca. Foi um livro que me marcou muito, a par de outros títulos como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou os Nove Contos, desse genial cometa literário chamado Jerome David Salinger. Mas a narrativa distópica de 1984 e a admirável visão premonitória de George Orwell, que escreveu essa obra em 1949, possuem hoje, mais do que nunca, uma perturbante atualidade, sobretudo quando ouço falar de procedimentos profiláticos de geo-localização conduzidos pelo Estado para controlar a pandemia. Big Brother is watching you! Deus nos livre, diria eu se fosse crente. O Big Brother não é meu brother não, obrigado.



sábado, abril 18

Navegação Avisada é Porto Seguro

Diz que é um «novo normal» que está a chegar.
Algo que não se sabe bem o que será, nem que deuses irá servir.
Digo que se é novo, não é normal. Quando for normal, não será novo.
Por agora, uma certeza: «cautelas e caldos de galinha» podem até ter dado cabo do vírus, mas deram também cabo da vida de muitas pessoas.
Somos todos uns idiotas!

O Socialismo Agiota


Amanhã, o Partido Socialista Português, celebra 47 anos. Num email enviado aos militantes a actual direcção do partido cita um excerto de um discurso de Mário Soares no jantar do seu 80º aniversário: “Sou socialista porque acredito no progresso, incluindo o progresso moral. Porque acredito no desenvolvimento sustentado, com dimensão ecológica e social, nos Direitos Humanos e no Direito Internacional. Sou Socialista porque quero a paz, fundada no respeito pela diversidade dos Povos e das Culturas, no diálogo entre religiões e pessoas, independentemente das suas etnias, crenças, sexos, opções políticas e condições sociais e, finalmente, na Justiça. Para mim, o socialismo é indissociável da liberdade, do respeito pelos outros e pelo que é diferente de nós.”. Por alguma razão, que só o próprio saberá, José Luís Carneiro, o actual Secretário Geral Adjunto do partido decidiu terminar aí a citação. Porque, Soares continuava dizendo: “Sou socialista porque acredito na capacidade humana para transformar as sociedades, de modo a serem mais justas e humanizadas. Sou socialista mas não quero impor o socialismo aos outros, muito menos pela força. Acredito na persuasão e no voto como meio de dirimir pacificamente os conflitos. Sou socialista e a favor do mercado e da livre iniciativa. Mas o mercado não é, para mim, um Deos ex-maquina. Produz injustiças e desigualdades, que cumpre ao Estado corrigir. Por isso, não acredito no neo-liberalismo, como sistema universal, que tem dominado as sociedades, desde o colapso do comunismo e, através da globalização desregulada, está a produzir as maiores desigualdades e muita exploração no interior das sociedades, mesmo as mais desenvolvidas e entre os Estados ricos e pobres.” Hoje, 16 anos passados sobre este discurso, na véspera dos 47 anos do Partido, no epicentro da maior crise económica e social das nossas vidas, importaria, mais do que nunca, em louvor do Socialismo, continuar a citação até ao fim. Salientando, amplificando mesmo, a luta fundamental de todos os verdadeiros socialistas, contra a ditadura dos mercados, o neo-liberalismo selvagem e as múltiplas desigualdades que assolam a Europa e Portugal. Mas não, hoje António Costa, em entrevista ao Expresso, decidiu amplificar o sound byte  agiota criado pelo seu amigo Siza Vieira, e avisa o país de que “os apoios de hoje são os impostos de amanhã”. Não, esta direcção do PS, que acha que se deve apoiar a Banca em vez do Povo. Que se podem injectar directamente milhões de euros na TAP e nos media, mas não nas famílias. Que considera até legítimo reinstituir o serviço militar obrigatório. Esta direcção do PS, não é socialista! Esta direcção do PS não merece, sequer, citar Mário Soares!

#naoanormalidade 

sexta-feira, abril 17

Contos da Loucura Normal

Este era o título, se a memória não me falha, de um filme do século passado que retratava a vida do escritor americano Charles Bukowski, que sempre muito apreciei. E creio ser um bom título, ou epígrafe, se assim o preferirem, para assinalar os textos publicados nestes tempos em que a loucura se tornou o "novo normal". Os diligentes Psicólogos (uma profissão com muito presente e ainda maior futuro) aconselham, numa miríade de spots televisivos, os Dez Mandamentos que devemos cumprir para sobreviver ao isolamento/confinamento social sem queimar os fusíveis. Eu pecador me confesso, desrespeito quase todos eles, nomeadamente o de evitar um overload de informação, pois é difícil resistir à tentação de assistir à História em tempo real. Estou imune às redes sociais, pois não as frequento, mas sou um fiel e atento seguidor do caleidoscópio de canais televisivos, com especial destaque para os briefings diários do Governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, que, em contraste com os do inenarrável inquilino da Casa Branca, Donald Trump, são uma preciosa aula de Ciência Política para quem não se atrapalha com a tele-escola em língua inglesa. Espero que o Partido Democrata tenha uma epifania e o aclame como candidato presidencial às próximas eleições em Novembro. E pronto, por hoje é tudo. Já estava com saudades de escrever um post. Devemos sempre voltar ao sítio onde fomos felizes. Não acreditem em quem diga o contrário. São fake news.

#naoanormalidade


Porquê voltar a uma normalidade que era, ela própria, parte do problema?

quinta-feira, julho 18

R.I.P., André Bradford



"(…)
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

Tabacaria, Fernando Pessoa, 15/1/1928


Até sempre, André, pois, na noosfera, não há Adeus.




Foto "roubada" do Ardemares

sábado, dezembro 29

Nova Aliança!


Muito já se escreveu sobre Pedro Santana Lopes e, mais recentemente, sobre o seu novel partido, que também o é de um número cada vez maior de pessoas. Da esquerda para a direita (por ser assim que nos ensinaram a ler), quase todos já lhe vaticinaram o pior desfecho e, passado tão pouco tempo ainda, já alguns “iluminados” foram obrigados a engolir, se não todo pelo menos em parte, o seu “esclarecido” discurso.

Pedro Santana Lopes saiu sozinho do PSD e pode não conseguir fazer perpetuar os seus desígnios (seus e de muitos outros), mas, por esta altura, já ninguém tem dúvidas que, neste momento e no espectro político-partidário português, é o homem em torno do qual se gera o mais genuíno apoio. Curioso, não é?

Podia, mas acho que não devo, escrever muito mais sobre aquele que considero ser o mais apaixonante tema da atualidade política portuguesa, mas não posso terminar sem dizer que considero irracional criticar o “estado da arte” e, ao mesmo tempo, criticar aqueles que, dentro das metodologias previstas no sistema político em vigor e sem os indesejáveis atropelos de ideologias travessas de outras geografias, ousam, apesar da sua madura idade, arriscar o seu capital e desafiar o status quo.

Por tudo isto e por todo o mais que a distância me impedirá de conhecer, olho para Pedro Santana Lopes e para os seus múltiplos defeitos (são sempre os mais fáceis de identificar) e vejo a inspiração para não nos resignarmos e não desistir da nossa ousadia.

Na Aliança, vejo um grande nome. Inteiro e de declarado compromisso, só pode procurar fazer refletir um dos mais interessantes desafios da humanidade dos nossos dias, a colaboração, que devia servir para habilitar a sociedade a atingir os objetivos que devem ser de todos.

sábado, junho 30

Há palavras que não as pode levar o vento.

Sempre digo que não sou uma pessoa de palavras fáceis.
Todas elas têm (sempre, ou quase sempre) o seu significado e a sua escolha decorre de uma observação silenciosa (mas atenta) da realidade circundante.

As que aqui venho propositadamente guardar da voracidade da espuma dos dias, são as que me inspira esta candidatura do Pedro Nascimento Cabral: contemporânea, mas assente em princípios ideológicos que me são muito próximos e capaz de recuperar, o que na opinião de muitos entendidos na matéria, faz falta à direita do espectro politico açoriano.

"Não sou pelo poder.
Não vou pela sebenta.
A doutrina, apesar de tudo, já não o é.
Acredito na vontade de fazer melhor, transportada apenas pelas pessoas que não se deixam idolatrar.
O futuro começa hoje" (sem . propositadamente também)

sábado, maio 26

A propósito de um “CORPO TRIPLICADO”



1. Regressei ao ARCO 8. Apesar de já lá não ir há muitas luas, foi como lá estivesse estado na noite anterior. Tocou-me a alma. Foi uma grande emoção!
O espaço. A música. As histórias. Os “comebacks”. E a mistura amarela.

2. Revi amigos de quem já tinha saudades, Falamos de turismo. Algumas ideias que esperam melhores dias. Frustrações que um dia desaparecem, não se preocupem.

3. Recolhi ao meu íntimo e secreto desejo de concluir um projeto de longa data. Foi a parte fd***d*.

Enfim, uma triplicação.

Do livro, ainda só me atrevo a percorrer uma rua de “Sentido Único”:
                “Na minha casa não há roupa fora de uso, fotografias antigas, recordações de viagens, revistas desbotadas, recortes de jornais, bilhetes de amor, recibos de compras, artigos decorativos, vasinhos de plantas ou animais de estimação. Livro-me das coisas inúteis como me livro dos amigos hipócritas e dos amantes incompetentes. Sem remorso e sem saudade.”


É coisa para dizer parabéns, Ma-ri-a

terça-feira, fevereiro 6

quarta-feira, janeiro 10

ARIGATO - 10 ANOS DE SUSHI EM PORTUGAL


São boas notícias para os aficionados do peixe cru em arroz avinagrado. 

O sushi, esse grande statement à escala mundial da cultura do país dos samurais, vê-se agora retratado em Portugal pelas mãos de Cristina Cordeiro, jornalista, escritora deliciosa, autora do livro "Manuel António de Vasconcelos: Pioneiro da Arquitectura Modernista" e que, na opinião do DN, “tem uma voz de menina e parece que se espanta a cada frase”.

O livro “ARIGATO 10 ANOS DE SUSHI EM PORTUGAL” da autoria de Cristina Cordeiro, com a fotografia de Ricardo Oliveira Alves e o design de Ivone Ralha, é lançado já no próximo dia 16.

O projeto surgiu a convite do Arigato, que comemora por esta altura dez anos, mas o conceito da obra rapidamente transcendeu a ideia inicial. Ao longo do último ano, Cristina Cordeiro traçou a história da cozinha japonesa em Lisboa desde os longínquos anos 80, tendo entrevistado os pioneiros da restauração nipónica, e construído toda uma narrativa que termina com uma entrevista ao embaixador do Japão e uma cronologia das relações Portugal-Japão, do século XVI até aos nossos dias. 

Uma verdadeira aventura!

terça-feira, agosto 8

Aviso à navegação

A leitura da semana do Reporter X, como de resto toda a opinião do Açoriano Oriental, passou a estar disponível, apenas, para subscritores. A actualização semanal, com direito a links, passa a estar num blog (mesmo aqui ao lado).

sábado, março 25

AÇOREANA DMC - Uma Grande Equipa

Em tempos pensei e escrevi que, por mais anos de vida tivesse e por mais bem sucedida fosse a minha carreira profissional, a vida teria dificuldade de me colocar perante outro desafio e outro projeto tão importantes como foi para mim o reposicionamento do Terra Nostra.

Não me podia ter enganado mais!

Como nem sempre fui esta pessoa sociável que muitos conhecem, com a força inabalável de tudo fazer para, à minha passagem, procurar deixar o mundo um pouco melhor, é importante referir que costumo, e com verdade, atribuir ao Primitivo Marques (a quem fiquei sempre grato) um papel muito importante naquela que considero ter sido uma mudança radical, sobretudo, no que diz respeito ao entendimento do conceito de “comercial”, fazendo com que a desajeitada larva que eu era se tivesse transformado numa ágil borboleta.

Mas o que me enche de alegria e me faz sentir honrado é o facto de muitas pessoas, sobretudo aquelas que melhor conheceram o Rodrigues Carroça, meu pai, dizerem que dele herdei a arte de fazer as pessoas sentirem-se especiais na sua presença. Quando eu era ainda uma criança, vivia (sem saber) fascinado com a gentileza com que o meu pai se dirigia a todas as pessoas com quem ele se cruzava. Era, pois, habitual eu e ele nos perdermos em conversas sobre como iríamos construir, quando eu crescesse, uma organização que teria como único objetivo ajudar todas aquelas pessoas que tivessem dificuldades (fosse no que fosse!), uma espécie de agência de resolução do infortúnio dos amargurados que não sabiam como desenvencilhar-se por entre o mar burocrático que promove o naufrágio dos mais fracos e desprotegidos.

Estive imerso em trabalho árduo durante todo o ano de 2016 e apresentei a nova imagem da Açoreana DMC na BTL, no passado dia 16: um estrondo com réplicas que se fazem sentir por muitos lugares e, julgo que por muito tempo ainda. Foi então que percebi que a minha sensação de realização não se encontra em fazer coisas grandes. Afinal, a minha realização, tanto profissional como pessoal, está em fazer pessoas felizes, algo que quase nunca é tarefa fácil.

Com um agradecimento especial a todos aqueles que ajudaram a dar forma a esta pequena maravilha, fiquem com o filme que mostra como se recria uma marca inspirada numa grande equipa, com pessoas agora mais felizes.


Mais projetos não tardam. Fiquem atentos ao TREMOR e façam o favor de dar largas à vossa imaginação.


P.S. Não podia fazer melhor homenagem ao meu pai. Todos os dias!

sábado, novembro 19

"Sabores do Cozido" - Não é para qualquer um!

Como determina a tradição, depois da remodelação do hotel em 2013, estreou-se hoje mais uma carta “Outono Inverno” no Restaurante Terra Nostra e muitas são as notas interessantes sobre os pratos fantásticos que calarão as bocas dos mais versados conhecedores gastronómicos da praça.

Poderia dedicar esta tosca prosa a tantas e boas iguarias: caso da caldeirada de peixe, da tempura de polvo e do pernil com feijoada (a minha preferida). Mas não! Apetece-me falar dos “sabores do cozido”. Porquê? Porque é um rasgo de génio, algo que parecia impossível, algo que não é para qualquer um!



É verdade que o Mundo evolui (!) porque a humanidade não ficou parada à espera do amanhã. Também não é mentira nenhuma que essa evolução se fez sentir mais nuns sítios do que noutros e quanto maior a dimensão do aglomerado populacional, maior a velocidade e o número de áreas em que ela se manifestava no horizonte global das sociedades.

Se os pré requisitos atrás referidos estão na génese da evolução da nossa espécie, estão na génese também da verdadeira revolução que acontece todos os dias naquele que é um dos grandes, dos maiores, restaurantes de Portugal.

Podem deliciar as vistas com as fotos com que tempero esta pequenina nota (sim, porque o que se passa no Restaurante TN é muito maior), mas se quiserem compreender verdadeiramente o que vos digo, vão ter todos que ir ao Terra Nostra saborear o resultado daquele que foi, tão-somente, um desafio de um amigo, feito ao Chef Luís Pedro, um dos mais revolucionários Chefs dos Açores da atualidade.




Está de parabéns, uma vez mais, toda a equipa do Terra Nostra a quem deixo um abraço, na pessoa do seu Diretor, Simão Markovitch.

quinta-feira, outubro 13

Uma iniciativa com futuro!


Um português que não esperou por D. Sebastião

Não sei se retomo a minha presença por esta casa.
Mas seja como for, não resisto a "postar" um texto de Miguel Sousa Tavares sobre António Guterres, o grande senhor nações unidas (não a tendo visto por aí escrita, posso assumir legitimamente a paternidade da expressão).

"Maior que Portugal", diz Miguel Sousa Tavares:
"Meço a frase com todo o cuidado: António Guterres é um dos raros portugueses de quem eu, convictamente, posso afirmar que é maior do que Portugal. Ele e Mário Soares são os únicos políticos portugueses que, em 40 anos de andanças jornalísticas, vi serem conhecidos e reconhecidos lá fora. O seu extraordinário desempenho na candidatura a secretário-geral da ONU, apesar dos tão invocados esforços diplomáticos e influências movidas, deve-se, única e exclusivamente, ao seu mérito próprio. Ela só foi possível porque, num processo aberto e fundado na qualidade de cada candidato, António Guterres foi, de longe, o melhor. E isso é, desde logo, uma característica que o faz diferente da nossa maneira de ser: ousar bater-se e conseguir triunfar pelo mérito próprio, exclusivamente.
Conheci pessoalmente António Guterres quando ele era líder da oposição socialista ao último governo de Cavaco Silva. Convidou-me para irmos almoçar no seu restaurante favorito, na Praça das Flores, e a partir daí, durante cerca de um ano, almoçávamos uma vez por mês, tendo cada almoço uma espécie de tema predefinido — para o qual ele vinha incrivelmente preparado, documentado e com ideias firmes que queria confrontar com as minhas. Mas, por favor, não façam confusão: eu não sou o arquiteto Saraiva, cuja ideia de jornalismo se resume aos almoços que tem com os políticos para satisfação do ego e memória futura. Detesto almoços de trabalho em geral e almoços com políticos em particular. Mas Guterres era diferente: estava na oposição, tinha vontade de discutir e de se confrontar a si próprio e um genuíno espírito de serviço público que eu nunca antes tinha conhecido. Nunca, em 40 anos de jornalismo, encontrei alguém em Portugal que estivesse mais bem preparado e motivado para governar — e eu sempre pensei e penso que governar Portugal, de acordo com aquilo em que se acredita ser melhor para o país, é o pior emprego que se pode ter.
Então, Guterres foi para primeiro-ministro. E, logicamente, os nossos almoços acabaram: porque ele deixou de ter tempo para isso e porque a natureza da nossa relação mudou necessariamente. Mas um dia telefonou-me para que eu fosse almoçar em São Bento. Foi um almoço estranho, que durou umas quatro horas e em que a maior parte do tempo foi gasta a falar da vida e de assuntos pessoais. Lembro-me de uma frase premonitória que ele disse e que eu retive pela convicção com que foi dita: “Não vou ficar aqui muito tempo e quando sair vou querer dedicar-me a qualquer coisa no domínio internacional, no campo dos direitos humanos ou semelhante.” Saiu com um pretexto absurdo, cansado dos facas longas do PS, da pequena intriga da política e da mesquinhez do país. Não o disse assim exatamente, mas eu sinto que foi isso que pensou quando falou do “pântano”. E eu, que lhe dediquei um livro de crónicas políticas intitulado “Anos Perdidos”, eu, que então não lhe perdoei não ter querido arrostar até ao fim com a luta contra os nossos males mais profundos, enquanto seu admirador pessoal, compreendi bem a sua desistência e, do fundo do coração, desejei-lhe toda a sorte do mundo.
E hoje ele é o secretário-geral do mundo. Não sei se os portugueses se dão bem conta daquilo que António Guterres conseguiu para Portugal. Representa bem mais do que as Bolas de Ouro de Cristiano Ronaldo, o título europeu da Seleção e até o Nobel de Saramago.
Não haverá multidões à sua espera no aeroporto, desfile de vitória até aos jardins do Palácio de Belém, sumidades e autoridades a chegarem-se à frente e a quererem fazer selfies com ele. Mas nos últimos 50 anos, pelo menos, nenhum português nos deu mais motivos de orgulho do que ele. E conseguiu-o através da atividade que o português comum mais gosta de desprezar: a política. Parabéns e obrigado, António Guterres!"
E eu assino por baixo!

quinta-feira, junho 30

MUU COLEÇAM


À venda na MIOLO:

Morada
Rua Pedro Homem, 45
9505-529 Ponta Delgada
São Miguel, Açores

Horário
2ª a 6ª | 10h00 às 18h00
Sábado | 10h00 às 15h00

sexta-feira, novembro 6

12 anos


O :ILHAS faz hoje 12 anos repletos de intermitências. Há a possibilidade de uma terceira vida (3.0) mas ainda discutimos o modelo, cujas negociações serão, muito provavelmente, mais difíceis do que as que visam “assegurar um governo da iniciativa do PS”.

Daremos notícias nos próximos dias (ou semanas). Até já!

terça-feira, setembro 29

15 POEMAS DE AMOR E UM DIVERTIMENTO

É levezinho, mas são 15
É sério, mas diverte
É pequenino, mas é vermelho!

Um vermelho que brota do coração
E, escorreito, vai direito ao peito
Bem sei que é de amigo, o abrigo

Pois, a caminho, digo aos gritos
Se a necessidade aguça o engenho
A angústia liberta o génio

Ah! Bravo rapaz,
Que não nos mate o silêncio!






quarta-feira, setembro 23

Na melhor vontade

Todo o tempo é tempo de mudança. Mesmo o extemporâneo!

É tempo de maré baixa. E o seu vazio coloca agora a nu a impregnada marca de todas aquelas pessoas que nos tocaram, manifestando-se no seu pleno. Mesmo quando só muito mais tarde damos por isso, percebemos que, afinal, incorporamos um conjunto de características dos vários modelos que, consciente ou inconscientemente, resolvemos seguir em determinados momentos e dos quais resultaram a pessoa que julgamos ser.

No entanto, e por muito interessante, segura e desejável que esta calma sedimentação possa parecer, nem sempre o que somos e o que fazemos resulta apenas desta forma diferida de evoluir. Há, também, pela dinâmica que carateriza a nossa existência, pessoas que nos marcam desde o primeiro momento em relacionamentos desassombrados, nos quais o respeito e a confiança mútuos ajudam a trilhar o caminho que, juntos, se faz.

Por outro lado ainda, numa perspetiva mais egocêntrica, o nosso prazo de validade, neste ciclo vicioso que mui habilmente designamos de tempo de vida e que condiciona toda a nossa atuação em relação a tudo em que estamos envolvidos, não é suficiente para determinar, nem mesmo com o enorme conjunto de interseções aleatórias, o resultado desta que é uma equação sui generis.

Muito embora se afigure como uma tarefa praticamente impossível porque a maioria dos adultos considera que os porquês têm idade, há, portanto, a necessidade de encontrar, nesta linha de contínuo longo que é a vida, outras justificações para que algumas pessoas procurem dar o seu contributo de forma incessante, durante toda a sua existência, para causas que, sendo já de muitos, são também por elas eleitas como suas.

Vem esta pequena reflexão a propósito da responsabilidade que é fazermos afirmações mais ou menos perentórias ou, até mesmo e tão somente, termos a coragem de verbalizar os nossos pensamentos. É que a vida, como nós a conhecemos, dá muitas voltas (talvez pelo constante saltitar desta bola a que chamamos Terra) e, não poucas vezes, apanha-nos pelos colarinhos para nos forçar a demonstrar e a pôr à prova as nossas teorias, o que nos deixa com um nó na tripa e aquela dor no baixo ventre.

No dia 30 de Junho de 2010, escrevia, num "Aviso à Navegação", que o Turismo era muito mais do que uma simples atividade económica e interessava a todos, a propósito daquele que considerei ser um importante registo deixado por um dos açorianos que, ao longo dos tempos, mais se entregou a esta causa, quando, numa mensagem perfeitamente atual, afirmava que "precisamos de ser mais criativos (no Turismo)".

Neste momento muito particular da minha carreira profissional, sinto uma (particular também) grande responsabilidade que me impele em direção ao futuro e que me obriga a honrar todos aqueles com quem contracenei e tiveram um papel importante no aludido percurso, pelo exemplo que deram, pelo entusiasmo com que lutaram por aquilo em que acreditavam, pela ajuda e amizade que me dispensaram e pela confiança que sempre em mim depositaram.



Encontro-me, assim, genufletido perante todos aqueles (grandes vultos para mim) que foram importantes nesta minha caminhada e importantes na formação do meu caráter, a aguardar pela sua bênção para a minha próxima missão.

segunda-feira, setembro 14

R.I.P. AJS

Este não é um elogio fúnebre. Este será, antes de qualquer outra coisa, um desabafo que não almejava fazer, mas algo ao qual estou condenado, talvez pelo respeito aos meus princípios edificadores.

No fundo, em mim, há uma descomunal necessidade de partilhar, com tantos quantos lerem esta apologia e não o tenham conhecido, a imagem de um homem (um vulto para mim) que assenta na absoluta naturalidade com que relativizava todas as situações e encaixava todos os desabafos. Um homem que marcou uma inteira geração de profissionais do turismo nos Açores também com a sua imensa capacidade de perdoar, mesmo a todos aqueles que se possam sentir agora magoados com a sua súbita partida.

Em tempos não muito distantes, ouvia um amigo dizer, com muita graça e algum respeito, que tinha sido colega de Fernando Pessoa na McCann. Pois, para mim, ter sido colega de António José Silva não foi menos importante. E, na mesma época, poder partilhar com ele as suas conquistas e ser brindado com o seu sorriso triunfante, foi sempre um acontecimento de rara beleza pelo qual lhe estou desmedidamente grato.


Hoje, o tempo pode não ser de infinita majestade e paz, mas eu continuo a sentir-me, como diz o poeta persa Ferdowsi Tusi no “Livro dos Reis ”, como pó na garra do leão.


terça-feira, junho 23

I Dont Belong Here


A etapa final da peça "I Dont Belong Here" acontece nos Açores a 27 e 28 de junho no Arquipélago - Centro De Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande, e a 4 de julho no Auditorio do Ramo Grande, na Praia da Vitória.

'I Dont Belong Here' é uma coprodução do Teatro Micaelense no âmbito da rede 5 Sentidos com o patrocínio da AMI - Assistência Médica Internacional e do Governo dos Açores através da Direção Regional das Comunidades e da Direção Regional da Cultura.

Os bilhetes estão à venda no Arquipélago (ACAC) e no Teatro Micaelense.

quinta-feira, abril 9

O sectarismo que liquida a memória

Saldanha Sanches foi meu professor. Guardo dele a imagem de um homem livre e desassombrado, independente e de uma integridade de carácter inquebrantável. A sua biografia fala por si. Um professor culto, com sentido pedagógico, que não faltava às aulas, nem a qualquer das suas obrigações lectivas. Usava gravatas roxas com calças verde cana e achava que estava bem. Marimbava-se para estas coisas do “parecer bem”.
Fez-me oral de Direito Fiscal e, a páginas tantas, perguntou-me o que achava que ia acontecer depois do Estado Social. Respondi-lhe que depois do Estado Social era o “estado a que nós chegamos”. Ele fartou-se de rir e, depois de enxugar as lágrimas, olhou para os papéis e balbuciou um “fez a sua oral”. Subiu-me um ponto na nota que eu trazia.
Pois é deste homem que se serve João Taborda da Gama, em artigo publicado hoje no Diário de Notícias, para atacar gratuitamente Sampaio da Nóvoa. O argumento básico e cabotino é que Nóvoa, enquanto presidente do júri que reprovou Saldanha Sanches nas provas de agregação na Faculdade de Direito de Lisboa, teria tido falta de coragem para evitar este desenlace.
Vamos a factos, então. Nóvoa presidiu a esse júri, porque era então o Reitor da Universidade de Lisboa. Não participou na votação, nem podia participar, por não ser da área em questão. Como presidente, dispunha de voto de qualidade (ou de voto de Minerva, como preferem dizer alguns académicos), se esse voto fosse necessário em caso de empate. Acontece que o candidato foi reprovado por seis votos contra três.
A reprovação de Saldanha Sanches foi de uma enorme injustiça. Muitos dos seus pares afirmaram esta injustiça no meio académico e fora dele. Mas esta injustiça só se deveu à elite professoral da Faculdade de Direito de Lisboa, que sempre conviveu mal com certas liberdades e nunca lhe perdoou certas acções, em certos momentos históricos. Esta injustiça não pode ser imputada ao então Reitor. Facto dolosamente omitido e que não interessaria (até porque não se sabe como terá votado ao certo) – não fosse a intenção do argumento do articulista – é que Marcelo Rebelo de Sousa, também presidenciável, fazia parte do júri e era da área.
Não sei se apoio a candidatura de Sampaio da Nóvoa, nem sequer é isto que interessa. Mas não se liquida a memória de ninguém a pretexto de um sectarismo escroque e desonesto.