quinta-feira, março 11

Nunca, nunca...



Não vou, aqui, dizer-vos, gratuitamente, que o que aconteceu hoje em Madrid é indescritível, inaceitável, cobarde, selvagem. Fazê-lo seria gastar o meu, e o vosso tempo, com o óbvio e o, fácilmente, recompensante.
Este é um momento das perguntas difíceis, e não das respostas fáceis.
O que eu gostava de reflectir, era sobre a mesma dúvida que me ensombrou a consciência aquando do 11 de Setembro. O que leva uma criatura de Deus a cometer um acto desta natureza. E qual o meu quinhão da culpa que escurece parte da minha consciência.
Nós deixamos que decidam por nós que rosto têm estes homens e mulheres. Dão-nos caras de líderes e siglas para odiarmos, mas na realidade são Juans e Carmens, Muhameds e Fátimas, que cometem estas atrocidades. São filhos, mães, irmãos, vizinhos, gente com sonhos de vida, de família, de cidadania. O que os leva a ver a solução, a saída para o seu desespero existencial, num acto que é um fim, sem princípio.
Não podemos cair no mesmo erro que lhes facilita esta carnificina. Para eles nós somos brancos, europeus, cristãos, americanos, espanhóis, anti-árabes. Assim é mais fácil matar. Mas isso não é verdade. Quem morre são também Juans e Carmens, Muhameds e Fátimas. São filhos, mães, irmãos, vizinhos, gente com sonhos de vida, de família, de cidadania. Afinal somos todos iguais.
Eu gostaria de imaginar que vos poderia garantir que, ultrapassa totalmente o meu comportamento existencial, eu ter a capacidade de cometer tal acto. Que nem que a minha tribo sofresse um holocausto, nem que destruíssem a minha aldeia, assassinassem os meus progenitores, violassem as mulheres da minha vida, tirassem o pão da vida da boca esfomeada dos meus filhos, me deixassem sem razão de vida que não a vingança, que eu nunca, nunca …
Agora, aqui, protegido de tudo isso, digo que sim, nunca.

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