segunda-feira, abril 24
sexta-feira, março 17
Cimeira das Lajes
quarta-feira, dezembro 7
Portugal 6 - Suíça 1
um excerto da reportagem do jogo, publicada no The Guardian pelo jornalista Jonhatan Wilson:
Santos has the rumpled air of a man who has slept in his car.
He could be Peter Falk playing Columbo
sábado, junho 11
A.M.B. Machado Pires (1942-2022)
Embora a sua partida fosse esperada, custa sempre saber do ponto final. Sobretudo de alguém que, como dizia o meu pai, já não se fabrica.
Quando cheguei à Universidade dos Açores, no Outono de 1982, o Prof. Machado Pires tinha assumido há pouco a Reitoria, sucedendo nesse cargo ao seu fundador, Prof. José Enes.
Foi, em muitos sentidos, o segundo pai da instituição e ao longo do seu reitorado (1982-1995), marcado por eventos dramáticos (incêndio da Reitoria, na sequência da visita presidencial de Mário Soares em 1989) e inúmeras dores de crescimento (aplicação da Lei 108/88 da Autonomia universitária), soube manter íntegra a Universidade dos Açores numa época em que, é bom lembrá-lo, ela não era muito acarinhada por alguns sectores do meio local.
Antes da era Mariano Gago, quando as Humanidades ainda pesavam alguma coisa no mundo académico, assegurou o prestígio e reconhecimento da jovem Universidade açoriana entre as suas congéneres. Primorosamente educado e encantador no trato pessoal, era um comunicador nato (na esteira de Nemésio) que conquistava de imediato os interlocutores.
Nunca se intitulou escritor, mas foi um Príncipe das letras e do pensamento açoriano.
A Universidade - eu incluído - e os Açores ficam a dever-lhe muito.
sexta-feira, maio 27
Mário Mesquita (1950-2022)
Mário Mesquita, que hoje transpôs os “pearly gates” para a grande viagem, afirmou numa das suas últimas entrevistas, ao Jornal de Letras (nº 1325; 14-27 julho 2021) – acredito que no meu necrológio dirão – e dirão bem – faleceu o jornalista Mário Mesquita que, distraído como era, deixou caducar a carteira profissional. Palavras que definem bem o humor seco e a arte do understatement que ele tão bem cultivava.
Não tenho qualquer competência para falar do seu trajeto no jornalismo português do último meio século, e muito menos do contributo que deu para a institucionalização das Ciências da Comunicação no ensino universitário, mas creio sem quaisquer hesitações que ele foi o epítome de uma honrosa tradição da imprensa açoriana que, se algum dia esta terra consagrar ao tema o devido núcleo museológico, espero venha a ter a justiça de lhe reservar aí um lugar de memória.
Sobre as outras latitudes do seu legado cívico, político, intelectual e moral, designadamente a notável coragem e independência que sempre demonstrou, essas ficam no domínio privado daqueles que tiveram o privilégio da sua amizade.
Au revoir, Mário. Deixas uma irremediável saudade.
quarta-feira, abril 27
Viagens de Um Artista Enquanto Jovem
Carlos Carreiro nasceu e cresceu em Ponta Delgada numa família com grande ligação às artes, às letras e às viagens. Recordo, a esse respeito, o seu bisavô, António José Raposo que, em 1857, aos vinte anos, embarcou à aventura num navio mercante, correu mundo e registou a sua passagem pela América do Norte, Madagáscar, China, Macau, Timor, Egipto e Inglaterra, entre outros. De regresso a Ponta Delgada, seis anos mais tarde, estabeleceu-se como fotógrafo e casou-se com uma das filhas de Cândido José Xavier, pintor e cenógrafo responsável pela decoração a fresco de alguns palacetes e pela arte cénica do então recém-inaugurado Teatro Micaelense.
Após várias intersecções que seria exaustivo elencar, embora não possa deixar de mencionar a avó e a mãe do Carlos, Angelina e Ana Vitória, ambas possuidoras de amplas qualidades artísticas, sobretudo no campo da pintura decorativa, e o seu pai, Manuel Carreiro, jornalista, escritor e proprietário do Diário dos Açores, passados cento e cinquenta anos da equação inicial, encontramo-nos, precisamente no Teatro Micaelense, para falarmos de um elemento que surge desse legado: as crónicas de viagem de um artista plástico. E, porque de um artista plástico se trata, aqui analisado na categoria de autor, vou começar por me deter nos aspectos visuais do livro, primeiro com um pequeno aparte a dar nota positiva ao design gráfico do miolo e da capa, fruto da criatividade e apuro do Vítor Marques e do bom gosto da Maria Helena Frias, responsável pela editora Artes e Letras e autora da Nota Editorial.
Ao folhear este Viagens de Um Artista Enquanto Jovem, gesto natural a qualquer apreciador de livros em papel, logo me deixei seduzir pelas ilustrações inéditas, seis no total, e me lembrei da máxima de outro artista plástico com a qual me cruzei na leitura da sua biografia. «Não pinto o que vejo, mas o que vi», dizia repetidas vezes o norueguês Edvard Munch para salientar o peso vital que a profundidade da memória imprime ao transitório e como o transforma em recordação intemporal. Elaboradas em 2021, as ilustrações do Carlos sobre a época em que escreveu as crónicas, há mais de cinquenta anos, são servidas ao leitor sob a forma de referências resgatadas à memória, recordações «sem qualquer ordem ou hierarquia», «fragmentos delirantes», para usar palavras do próprio artista, e podem ser lidas em linha com o que percebemos ser a forma do Carlos absorver informação e manifestar o seu entendimento do mundo, quer através da sua pintura, quer no que agora encontramos por escrito.
Sem querer estabelecer analogias entre a expressão visual e a escrita do Carlos, é impossível não encontrar uma conexão entre as duas, reconhecer uma fórmula comum, um estilo vívido, pormenorizado e satírico e bastante seguro da sua individualidade. Reparem nesta descrição da sua visita a uma mercearia de luxo na 5ª Avenida: «O americano aprecia bastante ofertas de flores e frutos, pelo que se viam nessa mercearia cabazes com pirâmides de toda a espécie de fruta, coberta de celofane, laços coloridos e flores plásticas, pronta a ser oferecida a uma sofisticada dama de peruca loura, que receberá a oferta em robe de plumas, recostada num leito de posições comandadas electricamente, conforme a quantidade de cãezinhos brancos que se enroscam aos seus pés quando ela vê televisão, sugando whisky num copo dourado que toca música quando se inclina». Nem só de tiradas delirantes vive a prosa do Carlos. Pelo contrário. Estas crónicas do jovem artista, escritas entre 1967 e 1970, embora pinceladas com humor, são sobretudo um documento sério, uma montra para um tempo cristalizado no nosso imaginário colectivo, um tempo de rapidíssima mutação social e cultural, um tempo de utopias, de slogans grafitados por todo o lado, de liberdade de costumes, de revolução sexual, da pílula, da minissaia. Fora da ilha plácida e ruminante e do cinzentismo da cidade do Porto, onde habitava, há todo um mundo a cores que o autor nos descreve com a espontaneidade e o entusiasmo próprios da sua idade e de quem descobre «outras realidades no mundo que não têm nada a ver com os bailes do Clube Micaelense, nem com as aulas de moral do Padre Rebelo no Liceu de Ponta Delgada, até mesmo com as aulas de dança do Sr. José Bento ou as coroações do Espírito Santo.»
Uma imensa curiosidade, viagens com a família ao norte da Europa na infância e juventude, livros, discos, revistas, cinema, dois anos em Direito e outros tantos em Belas Artes, são componentes essenciais da formação do Carlos, e permitem-lhe experimentar o novo perfume do Velho Continente e «o futuro que se adivinha na América» com um espírito altamente observador e crítico, assim como ter maturidade suficiente para tudo assimilar e expor ao leitor com singularidade, fluidez e convicção. Declarações como as que escreveu no catálogo da sua primeira exposição em Ponta Delgada, em 1968: «Eu pinto só para mim e não tenho a preocupação de fazer o que se convencionou chamar arte de vanguarda (…) Hás de vir ver a minha exposição se tiveres interesse…» e, no ano seguinte, em Amesterdão a propósito de uma visita guiada de meia-hora ao Rijksmuseum: «Como eu não estava interessado em andar a correr no museu a ouvir explicações convencionais que não ensinam nada, pelo menos a mim, desliguei-me do rebanho e fui ver à minha maneira», concorrem para nos dar uma boa chave de leitura e para traçar o retrato de um artista/autor bastante autocentrado, com um posicionamento artístico e humano que foge a convenções ou inibições de qualquer espécie.
Sendo certo que a crónica é um género que promove o encontro do autor com o leitor num registo mais descontraído e familiar, não é menos certo que a visão do primeiro se encontre, aqui, exacerbada, quer pela naturalidade do discurso, algumas vezes próximo da oralidade, quer pela intensidade da personalidade do Carlos Carreiro, ou, se quisermos, da marca Carlos Carreiro, já bastante definida apesar dos seus vinte e poucos anos. O Carlos pinta para si, fala para si, escreve para si. Pensa pela sua cabeça. O roteiro é dele, a opinião é dele, a linguagem é dele, o sentido estético é dele. Não há qualquer dúvida quanto a essa abordagem. É, pois, à sua maneira, que nos conduz através de Paris, Nova Iorque, Amesterdão, Londres e Filadélfia, impondo uma visão abrangente que oscila, de um modo geral, entre o deslumbre e a crítica feroz.
Se Paris é «a todo o momento um espectáculo, a Cidade-Luz, a mais bela do mundo» que fica «no coração, no cérebro e nos olhos» com as galerias, «as montras, o movimento, os parisienses, as figuras exóticas», é também motivo de saturação por, ao fim de uns dias, se encontrar «sempre os mesmos nas ruas, como que ensaiados e vestidos para representar no palco (…) para turista ver». Se Nova Iorque é «inesperada, radiante, resplandecente, viva de cor e luz de amor e paz», «deliciosamente louca», o principal exemplo do novo mundo Pop, é também a cidade dos «longos bancos de jardim, repletos de farrapos humanos, figuras escanzeladas (…) expectantes da morte como única libertação». Se Amesterdão é «cheia de requintes, como uma velha dama carregada de rendas e jóias», um lugar «tão poético» que «até parece cenário montado», é também a cidade das «insólitas» ruas «de casas de tolerância, onde mulheres estão expostas sentadas nas montras em trajos reduzidos, como presunto ou carne para consumo no talho». Se Londres é «uma urbe majestosa (…) que transpira «dignidade e solidez», «loucura e excentricidade», por onde circulam belas e requintadas «mulheres com casacos até ao bico do pé e chapéus enormes à gaúcho», é também o lugar onde «qualquer saloio pode chegar (…), ir a Carnaby Street e, em menos de uma hora, sair de lá como «um hippie inconfundível, desde a cabeleira postiça ao traje». Se Filadélfia é «lindíssima» com os «mais belos exemplos» de edifícios «dos estilos colonial e neoclássico», em harmonia com outros de traçado nórdico e arranha-céus, é também tão postiça como o Independence Hall, «uma casa sem qualquer interesse, restaurada e toda pintadinha de fresco, onde só é da época de George Washington uma cadeira e um tinteiro».
Para além de considerações generalistas sobre a envolvência espacial e social, a automatização, a moda, a mulher, os hippies, a condição dos negros, a guerra do Vietname, a homossexualidade, a ciência, o cinema, a literatura, assim como de relatos cintilantes sobre espectáculos de música e de teatro, transversal a todas as cidades um único ponto ressalta: o magnetismo dos museus e galerias de arte, fonte de deslumbramento e emoção, de descoberta e «certificação» de conhecimentos. Do Louvre ao Guggenheim, das obras clássicas às emergentes da cultura Pop, nada escapa ao crivo do artista, nada foge ao seu ângulo de análise entusiástica, nem os muitos que aplaude, nem os poucos que vilipendia. Para o Carlos, o museu é «o organismo cultural com maior força e importância junto do Homem», um lugar de consolo, quase sempre adjectivado como «deslumbrante». A sensação de deslumbre, de plenitude do Homem perante a Arte, transborda das páginas de Viagens de Um Artista Enquanto Jovem, de tal maneira que o leitor se sente recompensado pela partilha do autor, no fundo, por poder usufruir no conforto do seu sofá desta experiência, uma verdadeira visita guiada. O Carlos leva-nos pelas salas de alguns dos museus mais importantes do mundo e, com ele, entendemos o «espírito austero» da escola alemã, o carácter «explosivo» da espanhola, a «cortesia e poesia» da francesa, a «falta de interesse e vulgaridade» da inglesa, com ele acompanhamos o «refinamento de cor e luz» de Degas, emocionamo-nos com o «calor humano e sensualismo» de Renoir, ficamos sem palavras em frente à «etérea memória» do nevoeiro matinal dos Nenúfares de Monet, e comparamos a representação do «Homem na sua aflitiva solidão» em Rembrandt, Giacometti e Bacon. Com ele mergulhamos, sobretudo, num turbilhão de impressões sobre os contemporâneos, na «excentricidade e imaginação diabólica» de Salvador Dalí, no «realismo fotográfico» de Gerard Richter, nas «esculturas orgânicas» de Henry Moore e Hans Arp, na «pintura de impacto» de Roy Lichtenstein e na espiral do «castelo fantástico» de Frank Lloyd Wright.
Apesar contarem mais de cinquenta anos, as crónicas do Carlos, segundo o autor «mais impressões de um pintor do que de um jornalista», continuam frescas, dinâmicas e actuais. Têm, no entanto, uma particularidade diacrónica que gostaria de salientar, por me parecer curiosa e sintomática da época em que foram escritas: ao longo das duzentas páginas deste livro, há uma única referência a uma artista plástica, a escultora inglesa Barbara Hepworth, ficando de fora nomes tão importantes como Méret Oppenheim, Georgia O’ Keefe, Lee Bontecou e Louise Bourgeois, talvez por estas e outras artistas mulheres não estarem devidamente representadas nos museus que o Carlos visitou, algo que, em tempos mais recentes e um pouco por todo o mundo, tem vindo a ser corrigido, através da reformulação das colecções e atribuição de mais espaço expositivo ao sexo feminino.
Termino com uma palavra de imenso respeito pelo prefácio. Escrito pelo Carlos Riley com a sabedoria e a elegância que lhe são características, resulta numa peça fundamental para o leitor, pela síntese que apresenta do autor, do tempo e do modo como surge este livro.
Apresentação @ Teatro Micaelense, 23.04.2022
terça-feira, agosto 17
MOVIMENTO DAS MARÉS
Saigão 1975
No Verão de 1989, meses antes da queda do Muro de Berlim, o politólogo Francis Fukuyama publicou na revista National Interest um ensaio cujo título, “The End of History?”, prognosticava o happy ending da Guerra Fria e o desmoronar da influência do bloco soviético nos seguintes termos:
What we may be witnessing is not just the end of the Cold War, or the passing of a particular period of postwar history, but the end of history as such: that is, the end point of mankind's ideological evolution and the universalization of Western liberal democracy as the final form of human government.
O cândido otimismo que ressalta desta declaração, proclamando a irrevogável globalização do modelo político das democracias liberais, seria depois contraditado por Samuel Huntington, antigo professor de Fukuyama em Harvard, num artigo dado à estampa na revista Foreign Affairs (1993), intitulado “The Clash of Civilizations?”, alertando a Nau Catrineta Ocidental para outros escolhos que a esperavam na sua rota em direção ao fim da História.
A invasão do Koweit e a Guerra do Golfo foram um primeiro sinal, sucedido pela Guerra dos Balcãs, mas nada parecia arrefecer o ecstasy político que caracterizou a civilização ocidental na década de 1990. O termo desta atmosfera fin de siécle, virado o milénio, chegou com estrondo na manhã do dia 11 de setembro de 2001, para surpresa e estupor de quase todos nós, mas não de Samuel Huntington.
Uma fação radical da Civilização Islâmica, entrincheirada nas montanhas do Afeganistão, desencadeou com o seu ataque às Torres Gémeas uma catadupa de conflitos que marcaram as últimas duas décadas e introduziu no vocabulário geopolítico o conceito de non State actor. Quase vinte anos volvidos sobre os primeiros bombardeamentos americanos no Afeganistão, desencadeados a partir da ilha de Diego Garcia (cuja história os açorianos deviam conhecer melhor), a administração de Washington acelera de forma pouco airosa a sua retirada de Cabul, despertando inevitáveis paralelismos com o Vietname e a retirada de Saigão em 1975, como destaca um artigo publicado na edição de ontem no Washington Post.
A decisão estratégica da retirada já tinha sido assumida pela administração Obama, e reiterada pela de Trump, mas calhou a fava ao Presidente Biden e isso não o livra de responsabilidades face à desconcertante rapidez com que os Talibãs reconquistaram as rédeas do poder de um Estado falhado. E, como a culpa não deve morrer solteira, importa lembrar que a NATO e a União Europeia também não ficam favorecidas no retrato.
Vai-se falar muito nos próximos tempos de retrocesso civilizacional – e com razão – mas convém não esquecer que a matriz religiosa e feudal do Afeganistão Talibã é a de uma sociedade tribal on steroids, ou 2.0 (como dizia há momentos um convidado na SIC), que não desdenhará formar alianças com a Federação Russa e a China. A ver vamos.
Francis Fukuyama tinha razão numa coisa: o ponto de interrogação no final do título do seu ensaio. A História não acaba, as marés é que mudam ... e estão cada vez mais vivas.
domingo, julho 11
VIDA DE CÃO
JAMIE WYETH, Study of Kleberg (gouache, watercolor and India ink. 1984)
Nestes tempos em que tanto se fala de Arte e Cultura nos Açores, uma terra de vacas felizes e agricultores descontentes, lembrei-me de partilhar esta pintura (uma de muitas) que Jamie Wyeth fez do seu Labrador, chamado Kleberg. Não é de estranhar a afinidade do artista com os Labrador Retrievers, uma raça de cães pescadores oriunda da região litoral do nordeste canadiano (Terra Nova e Labrador) que, segundo reza Ernesto do Canto no Arquivo dos Açores, deve o seu nome e “descoberta” (ponho a expressão entre aspas, pois já entrou no Indexdo politicamente incorreto) a um argonauta terceirense chamado João Fernandes Lavrador, que não deve ter sido bem sucedido naquelas paragens gélidas onde há mais vida no mar do que terra para lavrar. Os Esquimós que o digam. Em todo o caso, deixou o seu nome perpetuado na toponímia provincial canadiana e, por tabela, numa das mais amáveis raças caninas à face da terra, o que já não é pouca coisa.
Mas, como ia dizendo, Jamie, filho de Andrew e neto de Newell, pertence a uma família de notáveis pintores norte-americanos do Estado do Maine, região organicamente ligada à Acadia, antiga província do Canadá Francês no século XVIII, pelo que não é de admirar a sua afeição aos Labs, como são carinhosamente conhecidos na Nova Inglaterra, pois esta raça ajusta-se como uma luva à matriz histórica e geográfica do Maine, terra de lenhadores e marinheiros, reputados na construção naval e pesca da lagosta, com uma paisagem costeira pontuada de enseadas e centenas de pequenos faróis, que fizeram as delícias de muitos pintores, entre os quais o grande Edward Hopper.
Lamento que Jamie Wyeth tivesse escolhido Kleberg, um nome com ressonâncias escandinavas, para o chip veterinário do seu fiel Labrador. Se fosse aberta consulta pública para a reestruturação da sua identidade, à laia de orçamento participativo, votava sem hesitações no nome João Fernandes e já agora, atendendo ao carácter elástico e inclusivo do conceito de Açorianidade, propunha que os Labrador fossem considerados primos afastados com assento no Conselho da Diáspora, reforçando assim a nossa vertente atlântica e destronando Bo, o falecido cão de água da família presidencial Obama, que até hoje ocupa uma posição proeminente (a par, vá lá, de Cristiano Ronaldo) no trending norte-americano como imagem de marca de Portugal e, também, dos Açores, pois fiquem os leigos sabendo que foi Vasco Bensaude quem deu um contributo decisivo para o registo e reconhecimento internacional da raça “cão de água português”, já que estes cães pescadores eram passageiros frequentes das célebres frotas do bacalhau, onde a família Bensaude detinha interesses no século passado (estranhamente pouco presentes na memória açoriana), e alguém lhe chamou a atenção para o comportamento dos animais a bordo, dizendo que além dos seus reconhecidos predicados marítimos, em matéria de interação social, só lhes faltava era jogarem às cartas com a tripulação .... muita dela açoriana, percorrendo os mesmos mares que João Fernandes Lavrador navegara há quinhentos anos atrás.
Nestes tempos em que tanto se fala de ressuscitar a atividade e os transportes marítimos, seria bom que a dotação orçamental para esse setor não fosse sugada pelo cone de aspiração do oceano profundo, sobrando alguns trocos, em jeito de orçamento participativo, para a preservação e estudo dessa memória, que está longe de se resumir à atividade baleeira e deveria alargar-se à pesca do bacalhau e do atum, por exemplo, isto para não falar das companhias de transporte marítimo (antecessoras da SATA) que asseguravam as ligações externas e internas no arquipélago, com particular destaque para a Empresa Insulana de Navegação e os Carregadores Açorianos.
Vitorino Nemésio, que viveu os dias do “São Vapor” e neles escreveu o Corsário das Ilhas, certamente estaria de acordo com a ideia de que esta memória salgada é tão caracteristicamente açoriana como, para usar as suas próprias palavras, "o santo marisco das nossas calhetas".
Aprende-se alguma coisa com os cães, mesmo quando eles não são endémicos, mas apenas primos afastados.
segunda-feira, maio 31
sexta-feira, abril 9
BorderCrossings
Hoje com o Açoriano Oriental, Vamberto Freitas lê Pedro Arruda (nascido e criado no :ILHAS) 😎
terça-feira, abril 6
segunda-feira, janeiro 11
O colapso final
Chegados aqui, ao limiar de um novo confinamento geral e ficcional, só os privilegiados vão efectivamente confinar, já pouco mais há a dizer. O espírito pende cansado sobre si próprio e o pensamento é de exaustão e enfado. É como se toda a estupefação e indignação que carregamos, por quase um ano, fizesse desmoronar o corpo sobre o seu próprio peso.
Já não me aflige a derrota da racionalidade. O bom-senso foi a primeira vítima da Covid. Os governos, todos eles, por esse mundo fora, habituados a tomar decisões apenas para os ciclos eleitorais, viciados em mentir, para mentir a seguir, para esconder a mentira anterior, apressam-se a tomar medidas avulsas, incoerentes, genéricas e generalistas, presos que estão no populista e demagógico enredo das sondagens e dos sound bytes das notícias. Não foi o vírus que tomou conta das nossas vidas e as destruiu, foi o medo do vírus, o medo das imagens dos corredores dos hospitais cheios, como se em cada inverno elas não se repetissem, foi o medo das mortes, como se todos os anos não morressem dezenas de idosos abandonados ao frio e à solidão, foi o medo da nossa própria fragilidade e hipocrisia que nos dominou.
Já não me assusta os devastadores impactos económicos e sociais da miopia dos políticos que, a coberto dos epidemiologistas que renegaram todos os mais básicos princípios da ciência, a dúvida, o questionamento permanente, a aversão ao dogma e à fé, a ciência tornou-se numa nova fé, uma nova inquisição, e decidem confinamentos generalizados sem por um segundo pensarem nas pessoas. Assusta-me como os próprios cientistas não foram capazes de compreender que as suas soluções eram abjectas. como não foram capazes de arrepiar caminho, como por estes dias sugeriu um político, e não ir por aí, porque os custos da solução eram mil vezes piores do que o problema. Aflige-me a ditadura da estatística, dos casos por mil habitantes, das mortes por milhão. o ludibriar permanente e manipulador das estatísticas, dos gráficos, das linhas, as ondas, as vagas imaginárias. A vida como abstração matemática, a sacrossanta vida, como se cada vida não fosse, afinal, uma pessoa, uma forma de amor, como se cada vida que juram querer salvar não fosse, afinal, uma vida que precisa de ser vivida. Como se a própria vida, enfim, não fosse por natureza eminentemente periclitante e efémera. Viver mata! E, o que estamos a fazer é condenar a uma morte solitária e fria aqueles que devíamos estar a aquecer no nosso abraço fraterno e a acompanhar nesta sua última caminhada.
Assusta-me a ideia de que a solução para os problemas humanos é a perda de humanidade. A forma como se abdica da essência do ser humano por um conceito clínico de vida, feita apenas de circulação vascular e cerebral, desprovida de sociabilização e afecto, assustam-me estas visões higienizadas do mundo, em que as pessoas são como ratos de laboratório e as terríveis e profundas desigualdades de um mundo onde uns poucos se podem confinar nas suas casas aquecidas e uns muitos se veem forçados ao trabalho ou à pobreza. Assusta-me como deitamos tão fácil e rapidamente no lixo as nossas liberdades, sem sequer pestanejar nem que por um breve momento de dúvida pelo que de básico e essencial estamos a abdicar e destruir.
Assusta-me, isso sim, as crianças. E, a terrível punição que lhes estamos a impor. O fecho das escolas é uma pena capital no seu futuro, no seu crescimento, nas aprendizagens, nos afectos, é um terramoto brutal e destruidor, enfim, nas suas memórias. E, só Deus e o Futuro saberão o que tudo isto significa no amanhã destas crianças a quem agora roubamos a infância com o medo não da morte, ou do colapso do Sistema Nacional de Saúde, mas com o medo da próxima sondagem ou do resultado da próxima noite eleitoral. Já o disse e volto a dizer, estamos, vai para um ano, a testar soluções genéricas e manifesta e comprovadamente erradas para um problema que felizmente e sazonalmente aflige pouco mais de 2% da sociedade e, com isso, ao mesmo tempo estamos a destruir, sem dó nem piedade, sem um pingo de fraternidade e solidariedade, os restantes 98%. O problema não é o vírus, nunca foi, o problema fomos sempre nós!
sexta-feira, dezembro 11
O Paradoxo Cesar
De uma forma geral, o debate do Programa do Governo, que por estas horas se aproxima do fim, na lowryana cidade da Horta, foi uma penosa via sacra de vacuidade e pobreza, pontuado, aqui e ali, por iguais doses de cinismo e espuma na boca. De facto, das duas principais bancadas, Governo e Direita que o sustenta, o que saiu foi, quase sem excepção, um enorme rol de clichés e de pretensões pueris, vazias de qualquer concretização, calendarização ou objectivo. À imagem, enfim, do texto do próprio documento em discussão. Em harmonia, uma série de rounds de pugilismo político, dignos de um título mundial de pesos mosca. Bastos e Silva, no canto do Governo, foi o campeão desta táctica do soco abaixo da cintura no adversário que já está no chão com o triste e lamentável episódio SATA. E, na frente da bancada do vetusto PPD, Pedro Nascimento Cabral, sempre de faca na liga e mão na anca, qual varina da Ribeira, sempre pronto a enxovalhar o anterior Governo numa obsessão pavloviana com o seu próprio passado de oposição e tão, mas tão pouco com o futuro, o seu, o nosso e o da Região. Falhou, redondamente, a Direita na percepção de que, tomada a posse da governação, o que menos importa aos açorianos é o lavar de roupa suja político dos traumas da anterior maioria. Não se bate em quem já está no chão, fica feio e conspurca. Para além de que, o prazo de validade desse passa culpa, aos olhos do comum eleitor, é tão curto quanto a ponta do fósforo que se apaga à primeira brisa do próprio movimento que o acende.
Do outro lado, o Partido
Socialista, sofre de um incurável mal a que chamaria o Paradoxo Cesar. Independentemente
da inteligência e boa-vontade de Andreia Cardoso ou Miguel Costa, ou do
esforçado empenho da restante bancada, a verdade é que os pesos pesados da sua
representação parlamentar são, obviamente, Vasco Cordeiro e, não surpreendentemente,
mas infelizmente, Francisco Cesar. Quem, mesmo que de passagem ou nos resumos noticiosos,
tenha assistido aos debates não pode deixar de compreender as qualidades
tribunícias de ambos e, em particular, de Francisco Cesar. De toda a secção do
debate dedicada à pasta do Turismo a melhor intervenção, com mais conteúdo e
articulação, foi sem sombra de dúvida aquela que o ex-líder de bancada socialista
fez da tribuna. Embora, em face da inanidade da prestação do Secretário da
pasta, tal não fosse difícil. Ora é aqui que reside o paradoxo, é que os
melhores assets desta bancada parlamentar são exactamente aqueles que pior
fazem ao Partido. Embora sejam os deputados mais bem preparados e com maiores
qualidades políticas para o cargo são, tragicamente, os que impedem o PS de
fazer uma oposição livre das amarras do passado governativo do Partido. E são,
também, os que abrem o flanco aos ataques esganiçados da Direita, como se assistiu,
à exaustão, nestes longos três dias de penoso combate, perdão, de debate. A
mera presença de Vasco Cordeiro, Francisco Cesar e Sérgio Ávila, entre outros
representantes da herança governativa do passado, no parlamento regional impossibilita
que o foco do debate se fixe no actual Governo, permanecendo, tal como já percebemos
que a Direita insistirá, ad nauseam, nos lugares obscuros, nas sobrancerias,
nos autoritarismos, prepotências e arbitrariedades e em mais todos os pequenos
e grandes erros dos 24 anos de governação do Partido Socialista, numa dolorosa
passos-coelhização da vida política regional, que não terá fim enquanto o Partido
não fizer essa imperiosa introspecção. O Paradoxo Cesar é essa circunstância
inusitada de o melhor que o Partido tem no parlamento regional ser exactamente aquilo
que o impedirá de regressar ao poder nos Açores.
sábado, novembro 28
da estagnação como escapatória política
“The fault, dear Brutus, is not in our stars, but in ourselves.”
William Shakespeare, Julius Caesar
Desde o dia 25
de outubro que o Partido Socialista dos Açores vive baloiçado entre um estado
semi catatónico, de quem acabou de sair de um desastre rodoviário, e a denegação
própria de quem se recusa a reconhecer uma realidade física, concreta e
palpável. Perante este tortuoso tumulto interior o Partido, e principalmente a sua
direcção, refugiaram-se no discurso da vitória moral, da usurpação do poder, da
ilegitimidade parlamentar, da desconsideração institucional, dos “pecados
capitais”, do “maior grupo parlamentar” e todo um outro conjunto de
argumentários cujo denominador comum, por mais verdadeiros que sejam todos esses
raciocínios, é a rejeição do reconhecimento que o cenário político regional
mudou diametralmente desde esse dia até à realidade, que temos hoje, das direitas
instaladas no poder.
Esta neurose psíquico-politica
em que o Partido tem vívido, desde esse dia traumático, tem levado a, por um
lado, uma estupefacção silenciosa da sua militância, remetida a uma espectativa
hesitante e medrosa e, por outro, ao calculismo egocêntrico e autista da
direcção do Partido, cujo distanciamento altivo e cobarde tem levado à renuncia
de um prestar de contas lúcido, corajoso e transparente sobre as causas e as
consequências políticas desse fatídico dia 25 de outubro.
Recorrentemente,
ao longo destes dias, a pergunta mais repetida, quer nos megafones da
comunicação social, quer no relativo recato das conversas entre militantes, foi
sobre a continuidade, ou não, de Vasco Cordeiro na liderança do Partido. Após se
ter confirmado o assumir de Vasco Cordeiro do seu mandato como deputado, eis
que esta sexta-feira descobrimos o porquê da sua permanência. Vasco Cordeiro
fica para poder assumir, no longínquo mês de julho de 2022, a Presidência do
Comité Europeu das Regiões, cujos membros tem necessariamente que ser
representantes eleitos de autoridades regionais ou locais.
Pois, a questão
que agora se coloca é: quais as consequências para o Partido desta permanência?
Em face do cataclismo eleitoral, Vasco Cordeiro e a sua direcção, optam pela
continuidade despreocupada, quase ingénua não fora maquiavélica, ou então uma espécie de pausa, como que a pedir um time-out no jogo
político, cultivando ainda uma vã esperança de que o adversário possa, por
alguma razão, soçobrar a breve trecho, permitindo-se assim a sua sobrevivência institucional
para, em última instância, assumir outros voos na rota Estrasburgo – Bruxelas e,
também, deixar que a restante direcção possa passear a sua travessia do deserto
no confortável regaço da imunidade parlamentar. Esta estagnação, este deixar
como está político, fazendo de conta que os resultados eleitorais não representam
uma derrota do Partido, querendo-nos fazer acreditar que não houve desgaste,
exaustão e censura dos eleitores à governação do Partido, às escolhas
individuais e aos desmandos pessoais e colectivos de 24 anos no poder, representa
uma condenação do Partido, no médio e no longo prazo, ao cadafalso da irrelevância
política. Não querer, por puro calculismo e egoísmo político fazer a devida
catarse e a necessária ruptura com os resultados eleitorais e com a realidade
do novo panorama político regional representa o total e completo claudicar da
ideia de um Partido Socialista honrado nos seus compromissos, verdadeiro nas
suas convicções e, acima de tudo, integro e desprendido, pondo sempre na frente
da sua actuação política o futuro e os interesses de todos em lugar de apenas
uns e dos Açores em lugar dos seus.
Ou Vasco
Cordeiro compreende já a sua responsabilidade neste momento e assume-se como agente
fundamental dessa ruptura, ou as bases e a militância exigem e demonstram essa
verticalidade e essa coragem para cortar com o que de pernicioso existe no seu passado,
ou o futuro do Partido Socialista dos Açores é a ruína e a irrelevância por
muitos e bons anos, ou, pelo menos, os anos que os açorianos levarem a
fartar-se, também, da governação desses que agora se vão apressar a entrincheirar nos
imensos palácios do poder e da governação...
sábado, novembro 21
Brevíssimas notas sobre o novo Governo Regional
ou curtas impressões caricaturais sobre o Governo das direitas encostadas…
a) Presidente do Governo Regional
No seu habitual estilo palavroso, gongórico até, José Manuel Bolieiro, o nosso Boli amigo, apresentou ontem, nas cercanias do Solar da Madre de Deus, nessa mui nobre cidade de Angra do Heroísmo, aquilo a que o próprio chamou de um Governo não “acomodatício” e “transformista” sic. A principal característica de Bolieiro, nestes últimos anos, foi estar quieto, quase escondido, passando pelos pingos da chuva, como uma gata em telhado de zinco quente, de forma que pouco mais lhe conhecermos de acção política do que uma muito alardeada simpatia, a que agora se acrescentou uma denodada capacidade negocial. Temo, tanto pelo claudicar político e ideológico dos Acordos de Governação e de Incidência Parlamentar, como pela constituição do próprio Governo, que tais dotes estejam grandemente inflacionados e que o que fique do novo Presidente do Governo não seja mais do que a retórica barroca de um magistrado frustrado. A herança que ficará deste governo, das direitas regionais, só o futuro dirá e, se lhe não podemos dar o habitual estado de graça, pela voragem sórdida e apressada do seu assalto ao poder, podemos, pelo menos, dar-lhe o regimental benefício da dúvida.
b) Vice-Presidente
Artur Lima é, por todas as razões e mais alguma, o mais assumidamente transformista dos membros deste governo. Uma verdadeira Belle Dominique da astúcia política, com décadas de travestismo parlamentar no seu currículo. Mas, o facto significativo da orgânica deste governo não é tanto o estatuto de Vice, que se coaduna perfeitamente com a soberba e a panache de Artur Lima, mas o assegurar cumulativo da pasta da Segurança Social, que guarda dentro de si, qual bomba relógio, o ponto fulcral da coligação com o CHEGA!. O cumprimento, ou não, das promessas de ataque, sem dó nem piedade, à “subsidiodependência” são o seguro de vida desta coligação e, muito me espantaria que, no curto prazo, não desse a Artur Lima um achaque de “irrevogabilidade” que fizesse cair esta Gaiola de Malucas que é esta coligação das cinco direitas insulares.
c) Secretário Regional da Saúde e Desporto
Clélio Meneses fica com a pasta mais efervescente do momento. A gestão da pandemia, até aqui protagonizada por Tiago Lopes e Vasco Cordeiro, tem sido feita na base do pânico e do extremismo ideológico do fascismo sanitário, criando não só profundas feridas sociais, económicas e institucionais, como divergências acentuadas com os principais protagonistas do sector: médicos, enfermeiros, etc. Acresce, que esse era já, cronicamente, um sector profundamente doente, com a gangrena da dívida e das listas de espera a crescer exponencialmente de dia para dia, mais do que qualquer mundana cadeia de transmissão. A promessa, irrealizável, de garantir a formação de médicos especialistas é apenas um exemplo de como a gestão de espectativas é ainda mais importante para estes políticos do que a realidade dos factos e a verdade dos factos é que a região não tem nem competência, nem meios, para formar médicos especialistas.
d) Secretária Regional da Educação
A grande questão sobre Sofia Ribeiro é há quantos anos não entra numa sala de aula ou corrige um teste? Podemos, de balde, reconhecer-lhe competência e inteligência para desempenhar qualquer cargo, mas ficará sempre a questão se não estaria melhor numa pasta de Relações Exteriores, ou Fundos Europeus, do que a remexer no caldeirão reivindicativo e hiper-sindicalizado do sector da educação. O nome com a pasta é mais um daqueles sinais claros de como este é mais um governo de desenrascanço político-partidário do que verdadeiramente “transformador”. Por outro lado, a colocação de Sofia Ribeiro a número quatro do Governo é mais um tiro no porta-aviões da ambição política de Pedro Nascimento Cabral, a quem calhou a fava de todo este bolo-rei governativo: a liderança da bancada parlamentar.
e) Secretário Regional das Finanças, Planeamento e Administração
Pública
Num momento como o atual é incompreensível e, até certo ponto, indesculpável a inexistência de uma pasta da Economia. A agregação de Finanças, Planeamento e Administração Pública leva a temer o pior em qualquer uma destas áreas. Que, quer pela sua dimensão gargantuana, como pelos desafios com que estão confrontadas não permitem perspectivar que um secretário, por mais competente que seja ou experiência que tenha possa, de facto, correr a todas as suas solicitações. Joaquim Bastos e Silva é uma figura com provas dadas e craveira intelectual, mas gerir as finanças públicas regionais, ainda por cima herdando a pasta das mãos de alguém como Sérgio Avila e, ao mesmo tempo, levar a cabo a reforma da administração pública regional, que tem o peso que tem na vida dos açorianos, é uma tarefa hercúlea, mesmo para um leitor assíduo do Financial Times.
f) Secretário Regional da Agricultura e Desenvolvimento
Rural
António Ventura é uma figura inenarrável, que representa, neste Governo, o pior que o costumeiro caciquismo político regional tem para oferecer. Talvez por isso Jorge Rita se tenha apressado a vir elogiá-lo publicamente. Aguardo com curiosidade a prometida “digitalização do sector primário”. Por outro lado, reduzir os muitos desafios da transição do sector agrícola da massificação leiteira para outras culturas às suas condições edafoclimáticas é manifestamente pouco, para aquele que é o principal sector da nossa economia. Já agora, edafoclimáticas não leva hífen.
g) Secretário Regional do Mar e Pescas
Consta que o novo secretário do Mar adormece nos seus próprios julgamentos, nada mais adequado a quem se pretende lançar aos balanços ondulantes do vasto mar açoriano. Que lhe valha Neptuno, parece-me adequado para um monárquico.
h) Secretária Regional da Cultura, Ciência e
Transição Digital
Confesso que devo elogiar a ascensão, finalmente, da Cultura ao estatuto de secretaria, embora o cocktail de Ciência e Transição Digital, ou lá o que isso signifique, deixe um sabor um pouco adstringente. Ficará para ver como se procederá a ligação com a Administração Publica e outras pastas onde essa dita transição é mais premente.
i) Secretário Regional do Ambiente e Alterações
Climáticas
Tirando o facto de ser pupilo de Artur Lima muito pouco há a dizer sobre Alonso Miguel. As alterações climáticas são um dos maiores desafios do nosso tempo e a preservação ambiental uma responsabilidade enorme numa região como a nossa. Esperemos que a ânsia transformista não contamine esta pasta, onde, mais do que transformismo, o que se exige é conservacionismo.
j) Secretário Regional dos Transportes, Turismo e
Energia
A pasta do Turismo foi protagonista de um episódio absolutamente revelador e paradigmático das idiossincrasias e fragilidades deste Governo. Corria o boato que Bolieiro, apesar dos seus dotes oratórios, não estava a conseguir convencer os famosos especialistas, independentes e profissionais liberais a juntarem-se à sua trupe governativa. É preciso perceber que ninguém com carreira e um emprego estável e bem remunerado na privada, ou simplesmente que esteja no seu perfeito juízo, quereria juntar-se a um Governo que deve a sua longevidade a dois ogres do neo-fascismo-luso. De qualquer modo, quando começou a correr o nome de Mota Borges, todos pensámos tratar-se de Alberto Mota Borges. O que, sendo verdade, era uma excelente escolha, não só pelo seu currículo, a sua competência e ética de trabalho, e por ser um conhecedor das áreas que iria tutelar: aviação e turismo. Inclusive a sua fotografia chegou a fazer manchete no jornal, o que só revela que só acredita nos jornais quem nunca leu uma notícia sobre si próprio. Porém, o Mota Borges afinal era o irmão mais novo, o que, apesar da importância da mera existência da pasta, deixou o chamado Trade num desolado emudecimento.
k) Secretário Regional da Juventude, Qualificação
Profissional e Emprego
A presença de Duarte Freitas neste elenco governativo é-me totalmente incompreensível e só é explicável por uma qualquer praxe de subserviência ao protagonismo partidário do mesmo. O que, levado ao extremo, levaria que Berta Cabral, Costa Neves, Álvaro Dâmaso e todos os outros anteriores líderes do partido na oposição fossem agora premiados e chamados a dar o seu douto e vetusto contributo neste novo ciclo governativo. Bem vistas as coisas, se calhar até dava um governo melhor do que este… Por outro lado, o conteúdo da pasta e tão ilustre figura partidária leva a prever o pior no que toca ao agenciamento de empregos para militantes, jotas e outros apêndices da clique social democrata.
l) Secretária Regional das Obras Públicas e Comunicações
Ana Carvalho, não obstante a sua fama de competência, vem também na esteira desta desmumificação das relíquias social-democratas de antanho, o que diz tudo sobre a capacidade de Bolieiro, e da sua Gaiola de Malucas, de aliciarem novos quadros técnicos e políticos para a árdua tarefa de governar estes nove bocados de contra maledicência plantados no oceano atlântico.
m) Subsecretário Regional da Presidência
Por fim, Pedro Faria e Castro, uma simpática figura, que ficará com a difícil incumbência de manter o Nuno Barata bem-disposto ao longo da legislatura, o que não se avizinha ser tarefa fácil.
le jeu sont fait rien ne va plus
domingo, novembro 15
É hora de nos levantarmos…
“um médico que, de nariz enfiado nos casos, sem conseguir
ver para além dos órgãos que possui (…), prolongaria o estado de emergência
sanitária até ao fim dos tempos;” Bernard-Henri Lévy
Passado que foi o breve hiato democrático das eleições
voltámos, candidamente, ao fascismo sanitário. No final da última semana, o
Conselho de Governo regurgitou duas novas medidas ditatoriais, como que a
querer marcar em definitivo, no seu epitáfio, a mensagem de que em matéria de autoritarismo
covidiano ninguém o ultrapassa. Depois de meses em que nos foi impingida a
ideia de que as escolas eram seguras, que as máscaras eram não só
imprescindíveis como determinantes para a segurança de professores e alunos, de
que todo o universo escolar tinha sido devidamente preparado, setas no chão,
filas indianas, regras e mais regrinhas de distanciamento e 20 lavagens da mãos
por dia, e que tudo tinha sido acautelado para podermos voltar ao regime
presencial. Depois de todos termos finalmente percebido que a escola é um
elemento crucial ao bem-estar e ao desenvolvimento das crianças e que estas não
são um grupo de risco, eis que a ordem chegou, numa sexta-feira à tarde, de
fechar tudo outra vez. Por causa de um ou dois casos em cada escola, num
universo de milhares de alunos, de crianças que testaram positivo, sendo que
com toda a certeza o contágio se deu em ambiente familiar ou outro que não a
escola, o Governo decidiu encerrar, para já, 19 estabelecimentos de ensino na
região. Atrelado a isto chegou também a ordem de que quem queira embarcar um
avião com destino a estes nove calhaus terá que, impreterivelmente, apresentar
um teste negativo à menina do check in.
Depois de umas brevíssimas semanas em que parecia que o
SARS-CoV-2 tinha ido de férias para o Douro, enquanto por cá a política se
entretinha com os tramites da lotaria eleitoral, na última semana o maroto
vírus saltou de uma casa de bonecas para uns quantos restaurantes e dai, num
sopro, para a população em geral. Em cerca de pouco mais de quinze dias a
região passou de 68, no dia 25 de outubro, para 185 casos ativos, ao dia de
hoje. Foi quase como se o vírus estivesse à espera das eleições para apanhar um
avião para os Açores…
Perante isto, menos de 200 casos numa população de 250 mil (0,07%),
fiéis aos seus galões de Autoridade de Saúde, Tiago Lopes, e Vasco Cordeiro, já
agora, decidem determinar mais umas daquelas medidas autoritárias, antidemocráticas,
desumanas e inconstitucionais a que já nos habituaram. E, aparentemente agora,
com o aval tácito dos Drs. Bolieiro e Maurício, que ninguém lhes viu piar sobre
a matéria. Como se já não bastasse a senda persecutória dos governantes da república,
que ordenam recolheres obrigatórios e confinamentos como quem escolhe uma
gravata, as nossas autoridades locais abraçam-se à arbitrariedade e ao
despotismo com a facilidade de um piscar de olhos. António Costa, ainda por
cima, com o desplante de nos incutir a nós o ónus da disseminação. A culpa do
contágio, diz-nos ele, é nossa, dos cidadãos e das famílias, somos nós que não
nos sabemos comportar e não cumprimos as regras. Só faltou o puxão de orelhas e
a rabada. Por cá, agora, são as crianças não só as culpadas como,
ultrajantemente, as principais penalizadas. Por causa de uma dúzia de casos
milhares de crianças são remetidas de novo ao enclausuramento domiciliário. Sem
nunca sequer se pensar nos efeitos devastadores que essa medida tem e terá nestes
miúdos.
E, da mesma forma que o governo se rege por uma visão desinfetada
das nossas vidas insiste, por outro lado, em desrespeitar não só a Constituição,
mas também os mais básicos princípios do Estado de Direito Democrático
coartando as mais primárias liberdades individuais dos cidadãos. Naquilo que o
filósofo italiano Giorgio Agamben alertou como “a tendência de utilizar um
estado de exceção como paradigma normal de governo”. Aparentemente não
aprenderam nada com os Habeas Corpus que perderam nem com os recursos que lhes
foram negados. Cito, livremente, de um dos acórdãos do Tribunal da Relação de
Lisboa “a prescrição de atos médicos ou de diagnóstico relativamente a toda
ou qualquer pessoa é da exclusiva responsabilidade de um médico e não pode ser
realizada por Lei, Resolução, Decreto regulamentar ou qualquer outra via
normativa.” O Governo Regional não só tinha conhecimento deste acórdão como,
embriagado de autoritarismo, decide conscientemente contra a Constituição a e
liberdade dos cidadãos. E, mais uma vez, dado o silêncio dos incumbentes
eleitos, nada leva a crer que nesta matéria tão importante algo venha a mudar,
provavelmente até tenderá a piorar, com o novo governo das direitas encostadas…
A crise do Covid-19 é um momento determinante nas nossas
vidas e será também na história da Humanidade. Este “cisne cinzento” em que
vivemos transformou aquilo que em literatura era apenas uma metáfora para a
perda da liberdade, A Peste de Camus, para ser uma epidemia real, não já só de
um vírus, mas de autoritarismo e de destruição das democracias liberais
ocidentais tal como as conhecíamos, como bem explica Ivan Krastev em O Futuro
Por Contar. Fechar fronteiras é a mais básica e arcaica das respostas a um mal
desconhecido. É o regresso ao mais primordial, animalesco até, instinto de fuga
que o medo desperta. E a incapacidade dos governos de saberem ou quererem contrariar
esses instintos animais revela o quão frágil é a nossa sociedade, a nossa
democracia e as nossas liberdades individuais. E, no fim, será, também, esta
deriva que levará ao crescimento e à legitimação dos populismos autoritários e
demagógicos, um pouco por toda a Europa, de Orban a André Ventura. A democracia
morrerá por dentro, porque os seus principais atores, no momento mais
importante, não a souberam ou quiseram defender. Entregámo-nos de livre e espontânea
vontade aos dictates das ciências médicas, que não sabem nada de filosofia, ou
de história, aceitámos a selvagem desociabilização do confinamento com uma
naturalidade abjeta, virámos a cara às profundas desigualdades de um mundo em
que se ordena cegamente os mesmos termos arbitrários para quem tem uma casa com
piscina e jardim e um ordenado garantido ao final do mês e para quem não tem
nada…
O futuro dirá, e em particular os nossos filhos, que são os mais amargamente prejudicados por esta pandemia, que legado estamos a deixar. Se um mundo de isolamento, de aprisionamento, de iniquidade e autoritarismo. Ou, pelo contrário, se no meio desta destruição massiva dos mais importantes valores da nossa civilização, que estamos paulatinamente a assistir, descobriremos a revolta e a força interior para, como nos incentivou Proudhon, deixarmos de estar de joelhos e nos levantarmos…
terça-feira, novembro 10
E agora PS?
Os Açores são, por natureza, uma região conservadora. Talvez seja pela força do mar, do isolamento, da distância ou do sopro agreste dos ventos do Inverno e dos sulcos vincados do solo montanhoso das ilhas, feitos de grotas e ribeiros e escarpados veios vulcânicos. Ou, talvez, de séculos de luta contra esses mesmos elementos e da dependência dos senhores, dos donos das terras, do morgadio e da subserviência umbilical à voz do patrão. Do Divino e do Sr. Padre e das sopas de cavalo cansado depois da jorna de pé descalço pelas canadas de cascalho fino e a bênção do padrinho e o sonho americano, lá longe nas New Bedfords e Fall Rivers de abundância. Talvez seja disso tudo e de sermos ilhas cujos sonhos estão limitados por água por todos os lados apenas com mar como horizonte. Ao longo da história foram poucos os progressistas que vingaram nesta terra, nem mesmo nesse período áureo do Liberalismo insular. E, é talvez paradigmático que o Santo Antero se tenha acabado, com dois tiros no céu da boca, sentado num banco, vencido da vida, no Campo de São Francisco, no cinzento dia de 11 de Setembro de 1891.
Nas ilhas, toda a segunda metade do século vinte foi marcada pelo conservadorismo e nem o 25 de Abril conseguiu incutir liberdade nas mentes fechadas e suspeitosas destes ilhéus. Se não era já o atavismo intrínseco das gentes era o medo dos comunistas, a quem era preciso dar sovas no aeroporto e incendiar as casas e atirar carros da ponta da doca. A dificuldade de implementação dos ideários socialistas nas ilhas deveu-se não só à inexistência de uma classe operária per si como, também, à mentalidade do agradecimento. A mentalidade do assalariado rural, que o leva a agradecer ao senhor da terra deixar-lhe cultivá-la, da empregada de casa que se consola com comida e um tecto e trata os senhores timidamente por menino e menina. E, o facto é que, em grande medida, essa mentalidade ainda hoje existe. Com o 25 de Abril, nada disto mudou. A única diferença foi que a máquina da autonomia mota-amarelista se substituiu ao morgadio e criou uma vasta plebe de funcionalismo público que passou a ver nos directores e secretários regionais o émulo burocrático dos Câmaras e dos Cabrais e outros sobrenomes que tais…
Como tenho dito sobejas vezes, Carlos Cesar não ganhou as eleições de 96 por ser uma águia política. Cesar saiu vitorioso dessas eleições, com um empate de mandatos, porque as pessoas estavam fartas do mota-amarelismo, ainda para mais porque, nessas eleições, este era servido em versão requentada. O que se passou em 25 de Outubro passado é muito similar, foi pelo cansaço e pela incapacidade de perceber esse sentimento que o PS, tal como o PSD antes, soçobrou. Mas, a verdade é que nem os socialistas conseguiram alterar o conservadorismo mental dos açorianos. Não conseguiram desagrilhoar as esperanças e as vontades e a voz aprisionada das pessoas que se vestiram de socialismo, como quem veste um xaile para ir de romaria, no dia seguinte à queda do mota-amarelismo, tal como agora o irão fazer, sacudindo o mofo do fato conservador, para na próxima semana se apresentarem na reunião de zoom do serviço cantando loas à nova primavera florida da AD açoriana. Os Açores são, foram e serão sempre conservadores. E o PS do culto autonomista e do autoritarismosinho e da incontida arrogância tem imensa culpa nisso. Só que agora, quem manda é a coligação das direitas enlaçadas…
E agora PS? A sensação que perpassa pelas mentes socialistas neste momento é como a de uma gravidez abortada. Havia um plano gizado, que preparava o partido para lá de 2024, mais quatro anos de Vasco Cordeiro, Chico Cesar engatilhado e aguentar até lá, só que esse plano falhou. Pior, falhou com estrondo. O estrondo de menos 5 deputados e uma Gaiola de Malucas de direita com uma maioria parlamentar. A culpa do que se passou não é do Nuno Barata, ou do maquiavelismo dos irmãos Nascimento Cabral, nem sequer do travestismo do Arturito da terceira. A culpa desta debacle eleitoral, que deixou campo aberto para que Marcelo desse o golpe de misericórdia via embaixador Catarino, a culpa, dizia eu, foi exclusivamente do Partido Socialista e é essa catarse que é imperioso fazer agora. Neste momento, e mesmo correndo o risco de o partido ficar órfão, Vasco Cordeiro terá de se afastar e fazer a sua travessia do deserto até às europeias de 24. Ser líder da oposição exige agilidade e jogo de cintura e, principalmente, capacidade de decisão rápida. Vasco Cordeiro tem muitas qualidades, mas nenhuma das anteriores. O partido tem que rapidamente perceber que o seu papel neste momento é liderar a oposição e não deixar, como já deixou, esse papel nas mãos do Bloco de Esquerda, que ontem instou, e bem, o Sr. Representante da República a tornar públicos esses ditos acordos escritos que mais ninguém ainda viu a não ser ele. E ainda dizem que isto é uma democracia e que quem manda é o povo. O partido não precisa de uma choradeira trumpiana sobre legitimidades estatutárias entre parlamentos e dignatários da república. O partido precisa de fazer política e fazê-la na oposição. O partido precisa de, na sua nova liderança, mais do que encontrar um líder sebastiânico, que o salve da presente orfandade, fazer valer o valor do seu vasto capital de experiência governativa para constituir uma equipa dirigente, quase como um governo sombra, que possa não só compensar as claras fragilidades do seu grupo parlamentar, como, pasta a passa, dossier a dossier, fazer a fiscalização e a oposição constante a uma coligação de direitas que passada a epifania do ódio ao PS não terá mais cola que a una nessa imensa crise que ai vêm. Internamente é, também, imperioso que o partido faça as pazes com o seu passado. Isso passa pela alteração da norma estatutária que dá poderes executivos ao Presidente Honorário, retirando-lhe as competências que detém na Comissão Regional e na Mesa do Congresso, deixando-o apenas como honorário. Passa também por Francisco Cesar e Sérgio Avila reconhecerem que foi em São Miguel e na Terceira que o partido foi mais fortemente penalizado, tanto em perda de votos como de mandatos. Francisco Cesar é uma jovem promessa política, mas para efectivar esse capital terá de se saber autonomizar da figura opressiva do pai e demonstrar, mais do que qualquer outro, que esse capital político é legitimamente seu e não apenas uma emanação da autoridade paterna. Isso passa por fazer, também ele, a sua travessia do deserto, deixando o secretariado de ilha e, obviamente, a liderança do grupo parlamentar, quem sabe até por passar um período na capital, junto de Pedro Nuno Santos. Só assim se poderá revitalizar a democracia interna e a liberdade de pensamento do partido, que serão para o futuro fundamentais à sua vitalidade. Não o fazer já é hipotecar não só as próximas eleições autárquicas como dar por certo um novo ciclo de 20 e tal anos de políticas reaccionárias no arquipélago e um longo deserto de oposição tão ou mais doloroso do que aquele vivido até a semana passada pelo PPD/PSD.
Se a liderança não o souber, ou quiser, fazer é bom que a militância o faça, porque o amanhã já é tarde e para a frente é que é caminho…
domingo, novembro 8
A Gaiola das Malucas
Se a apresentação da Aliança Democrática Açoriana já fazia lembrar a Gaiola das Malucas, a confirmação do apoio parlamentar do CHEGA! e da Iniciativa Liberal ainda tornou esta gaiola mais histérica, insana e colorida. Para quem não viu, La Cage aux Folles é um divertidíssimo filme franco-italiano, de 1978, que conta as aventuras de um casal homossexual, dono de uma discoteca drag na atribulada e glamourosa Saint Tropez dos inícios de oitenta. Por cá Bolieiro é Renato, o dono da boite, Artur Lima é Albin/Zaza, travesti e principal atracção do estabelecimento, secundado pela piriquete Estevão que vem na esteira a segurar as plumas e as lantejoulas no desequilíbrio dos tacões altos. Quais três amigos, para usar o adjectivo de escolha de Bolieiro, escanchados na mesma cela, cujos estribos são a curvatura útil de IL e CHEGA!.
Não me passaria pela cabeça pôr em causa a legitimidade democrática do casamento de conveniência destas cinco direitas (embora mais à frente possa debater a questão do posicionamento da IL no compasso ideológico…). O contar dos votos é a única legitimidade necessária em democracia e, logo no dia 25 de Outubro, se percebeu que este era um cenário não só possível como, até, o mais provável.
Mas, alguns aspectos fundamentais, nesta nova solução governativa regional, causam-me alguma, para não dizer muita, angústia. Em primeiro lugar, o casamento em si e com ênfase reforçada no aspecto da conveniência. Não há, como é francamente percetível, absolutamente nada que ligue estes nubentes. Ao longo dos anos, estes três partidos, foram dizendo uns dos outros o que Maomé não disse do toucinho. E, o caso mais extremo é mesmo o CDS de Artur Lima, que sempre preferiu andar aos beijos na boca ao PS a dar a mão ao PSD. O próprio facto singelo de os três partidos serem incapazes de apresentar um esboço que seja do suposto acordo que firmaram, que indique quais as linhas programáticas e de actuação do seu governo, mostra bem como é frágil este pré-acordo nupcial. Temo, que a própria lua-de-mel seja passada em discussões sobre a casa de que sogros vão passar o seu primeiro natal juntos (se a Covid deixar..). Mas, enfim…
Depois, e este é o aspecto mais grave, a ligeireza, a facilidade e a desvergonha com que, ébrios pela sede de poder, partidos ditos democráticos venderam a alma ao fascismo com a rapidez e o estrondo de um relâmpago numa noite de estio. Trazer para a esfera de influência governativa o CHEGA! é abrir os portões de uma barragem cujo diluvio terá consequências imprevisíveis. Podendo mesmo colocar em causa a solidez e o futuro do regime. Há, a este respeito, uma nota importante. Simpatizar, ou não, com o regime venezuelano não é propriamente a mesma coisa que propor uma revisão constitucional que visa acabar com a Terceira República. Muito menos é aceitável que se queira culpar a geringonça por se assentir negociar com uma força política que é anti-humanista, racista, xenófoba, autoritária e, o mais grave de tudo, anti-autonomista. Aliás, ou muito me engano ou o verniz desta frágil cristaleira governativa vai estalar exatamente nas exigências do CHEGA! que, não só são inexequíveis, como vão contra os interesses da própria coligação. Uma redução de deputados, numa região arquipelágica como os Açores, é uma autêntica miragem no deserto. Qualquer método que se use irá prejudicar ou as ilhas maiores ou as mais pequenas, já para não dizer que coloca em sério risco a elegibilidade dos partidos mais pequenos, basta lembrar a composição da nossa assembleia antes do círculo de compensação. Quanto à redução do RSI é não só uma proposta irrealista, surrealista mesmo, diria eu, dado o momento de grave crise economia e social que vivemos, como vai potencialmente destruir o tecido social de muitas freguesias açorianas, nomeadamente algumas onde o PSD tem forte implementação, como é o triste e já famoso caso de Rabo de Peixe, a freguesia mais pobre da Europa. Quem me dera ser uma mosca para assistir ao Carlos Furtado a ir ao Bairro do Caranguejo anunciar o fim do Rendimento Social de Inserção. Basta imaginar…
Relativamente à Iniciativa Liberal, confesso, desde já, a minha surpresa por este desfecho. Num tempo político em que as dicotomias entre direita e esquerda são cada vez menos uma preocupação dos eleitores, o facto de a Iniciativa Liberal ter caído do muro para o lado da direita é colocar-se a si um rótulo que será, no futuro, muito difícil de tirar. Por mais que se agite o esfregão de aço e se gaste frascos de detergente a IL açoriana perdeu a sua capacidade de ser fiel da balança e de conquistar, pela equidistância das duas bancadas ideológicas, autonomia de fiscalização, reivindicação e propositura e perdeu, também, o reconhecimento de um eleitorado que acredita em causas e não em guerras e arranjinhos político-partidários. Por mais que o objectivo de retirar o PS do poder, aliás o ódio ao PS é a única cola que une estes cinco partidos, por mais que fosse uma ambição legítima, a forma como foi feito e o grupo de interesses que foi preciso unir, para não dizer os sapos políticos que foi preciso engolir, terá sempre tendência para esvaziar o potencial de crescimento da IL no futuro, tornando-a numa força política personalista, centrada na imagem do seu líder, o meu querido amigo Nuno Barata, o que, julgo eu, não só vai contra a matriz ideológica da IL como, até, à sua pratica política, veja-se a atitude, nobre, de Carlos Guimarães Pinto na noite das últimas legislativas nacionais.
E as pessoas? Pergunta quem sobreviveu até aqui. Bem, nós, os eleitores, os que votam e os que não votam, cidadãos do dia-a-dia, para usar uma expressão americana, pagadores de impostos e cumpridores de confinamentos e recolheres obrigatórios ficamos a braços com uma sociedade profundamente polarizada e crispada. De um lado uma máquina partidária e governativa em estado de choque e do outro um bando de exércitos sequiosos de derrubar do poder instalado e substituí-lo por si próprios. A forma como esta transição for feita, talvez mesmo mais do que as escolhas políticas ou pessoais, ditará tudo sobre o futuro da região nos próximos anos e, nunca é de mais dizê-lo, é bom que todos tenhamos consciência que estes são tempos, pela gravidade e profundidade da crise que vivemos, de união fraternal e não de ódio fratricida. No meio, sempre no meio, é que se encontra a virtude e será na escolha entre a destruição do passado ou no aproveitar do que de bom e menos bom foi feito que se verá a nobreza de carácter e a firmeza de princípios de quem agora chega aos destinos da região.
Apenas um de entre tantos exemplos. Depois de tudo o que Paulo Estevão disse sobre o GACS será interessante perceber qual será a escolha deste governo relativamente ao futuro do mesmo. Apagá-lo. Melhorá-lo, fazê-lo evoluir como instrumento de informação e de apoio a uma comunicação social livre e plurar, comunicação social essa que está nos cuidados intensivos e em fase terminal, ou pelo contrário, qual Golem segurando o precioso anel, vai antes exponenciar a sua vertente de propaganda ofuscando assim uma sociedade que vai precisar, mais do que nunca, de pensamento livre…
Depois, ainda há o PS mas, isso
fica para mais tarde…
quarta-feira, outubro 28
A Autonomia no seu Labirinto
André Ventura é muitas coisas, mas se há dom que não creio que tenha são poderes premonitórios. No entanto, foi dele a declaração que adivinhou o resultado das eleições de Domingo passado. “Um terramoto”! Se calhar mesmo, um verdadeiro abalo tectónico na tessitura político-partidária da região.
Para o PS e para Vasco Cordeiro estas eleições começaram, provavelmente, a ser perdidas em 2012. A verdade é que Vasco Cordeiro nunca conseguiu afirmar plenamente uma identidade própria dentro do projecto socialista, tanto no Governo, como no próprio partido. A herança Cesarista, que no partido nem herança foi, mas antes uma presença e um dominio constante, nunca permitiram que Vasco Cordeiro marcasse uma liderança, uma estratégia e uma personalidade própria que lhe possibilitasse autonomizar a sua governação dos 24 anos de governação socialista. Isto pode parecer incongruente, mas essa ligeira nuance, a governação e o partido de Vasco Cordeiro, teria feito, certamente, toda a diferença. O PS e a governação socialista foram sempre de Carlos Cesar e nunca de Vasco Cordeiro. Isso viu-se na longevidade de Sérgio Ávila, na omnipresença de Carlos Cesar, na incompreensível e absurda telenovela da “Casa da Autonomia” e da sua Estrutura de Missão comandada à tripa forra por Luísa Cesar e na ascensão e autoridade desenfreada de Francisco Cesar. Ao mesmo tempo, causa igual tristeza e estranheza a forma como Vasco Cordeiro foi, sucessivamente, triturando figuras com gabarito, validade intelectual e política, competência e projecção na sociedade açoriana. Desde os Governos, às listas de deputados, às empresas públicas e tantos outros cargos com maior ou menor visibilidade, a fúria autofágica de Vasco Cordeiro criou um imenso exército de descontentes e de ressentimentos. Assim de cabeça lembro-me de nomes como Fagundes Duarte, Piedade Lalanda, Luís Cabral, Nuno Domingues, Pilar Damião, João Roque Filipe, Nuno Mendes, Miguel Cymbron, António Gomes de Menezes, Fausto Brito e Abreu. E, mais recentemente, os casos de Filipe Macedo ou da limpeza nas listas de deputados, que correu, sem apelo nem agravo, com Renata Botelho, Graça Silva e Sónia Nicolau, sem que se soubesse da mais pálida justificação. Ao mesmo tempo, que uma série de outras figuras eram candidamente protegidas e apaparicadas, fossem quais fossem, e foram muitas, as asneiras, para usar um termo suave, que cometessem. De que, para mim, o caso mais dramático e paradigmático foi a dupla Vitor Fraga e Francisco Coelho. Um mistério que só possivelmente a história elucidará…
O caso das listas de deputados merece um breve comentário. Não sei porque cargas de água criou-se uma ideia de que as ditas listas, em lugar de serem feitas por pessoas competentes, sejam militantes ou independentes, têm de ser espelhos mais ou menos turvos da diversidade geográfica e socioprofissional das ilhas. Em lugar de ter um grupo coeso de políticos, as listas de deputados tornaram-se numa sopa da pedra, feita de personalidades avulsas, cuja mais valia política é a fama na junta, no clube de futebol, na agremiação e no café da freguesia ou até, como nesta última, no Youtube… o resultado final e mesmo contando os lambe-botas e os vira-casacas são grupos parlamentares de fraquíssima qualidade, como é agora o caso do futuro grupo parlamentar do PS. Embora, diga-se que, neste particular, o PSD é igual…
Se juntarmos a isto tudo a Governação errante, os dossiers polémicos, as suspeições judiciárias e, piece de resistance, a debacle da SATA, ou a malfadada Covid, tudo estava lá para pressupor que a noite de 25 seria amarga para o PS, embora, nem mesmo eu acreditasse que podia ser tão amarga. Vasco Cordeiro chega assim ao seu último mandato, se é que o vai ser, e para usar a imagem do timoneiro, que ele próprio escolheu, como um naufrago, desidratado e andrajoso, lançado sobre a areia da praia, arfando por água, sombra e cuidado. Com menos 5 deputados, sem tábua de salvação à esquerda e com a direita enraivecida e salivante, silvando como hienas, pelo sangue socialista, as hipóteses de formar um governo estável são praticamente nulas. Tirando, obviamente, a possibilidade de, humildemente, propor um entendimento ao centro. Um governo de Bloco Central, com Bolieiro a Vice-presidente, mais uma ou duas pastas para o PSD, inclusive dando-lhes a presidência da ALRAA e estendendo esse entendimento à sociedade civil, numa grande coligação autonómica para navegar essa imensa tempestade económica e social que aí vem. Se qualquer dos protagonistas ou dos partidos que estão neste momento na contenda puser, de facto, os interesses da região à frente dos do seu partido ou dos seus pessoais, era isto que devia fazer. E daqui a quatro anos, queira Deus já sem Covid, quem tiver as melhores unhas tocará sozinho a guitarra. Qualquer tentativa de governar isolado ou em coligações negativas morrerá à primeira dificuldade que, ou muito me engano, será já a breve trecho com o borregar da SATA…
Quanto à suposta maioria de direita a verdade é que ela não existe. O que há, neste novo quadro parlamentar, é uma maioria anti-PS. Sendo que, para além disso, o CHEGA não é de direita. O CHEGA é de extrema direita! E, embora seja aceitável a sua presença no parlamento, é a vontade de 5% dos eleitores, não é já, de forma alguma, admissível que os restantes partidos se aproveitem do CHEGA, legitimando com esse gesto o fascismo latente do partido do Dr. Ventura, para assaltar o poder. Por outro lado, embora muitas das suas principais figuras venham do CDS e do PSD, é um erro pensar que a Iniciativa Liberal encaixa nas visões tradicionais de esquerda e direita. Tal como, também tenha as minhas duvidas, que o PAN possa ser entendido como um partido de esquerda. A haver um entendimento das direitas, não será uma maioria, nem tão pouco uma geringonça, será antes uma coligação negativa com o único intuito de tirar o PS do poder e acabar, de uma vez por todas, com o reinado da família Cesar. Embora, neste último particular, eu até possa estar de acordo com a necessidade política desse culminar, essa não será certamente a forma correcta de o fazer e seria, proverbialmente, deitar fora a região com a água do banho…
Quem tem, neste momento, a responsabilidade de fazer as pazes com o seu passado, deixando no passado o que lá deve estar, com o que de bom e de mau as suas lideranças tiveram, é o próprio Partido Socialista. Há uma democracia interna para conquistar dentro do Partido Socialista dos Açores, e essa libertação, se não for iniciada pela liderança tem que o ser pela militância. Figuras como Cristina Calisto, Rodrigo Oliveira, ou mesmo Andreia Cardoso, são hoje esperanças para um futuro PS, que seja mais solidário, mais aberto e mais justo.
Esperemos para ver. Os próximos tempos
políticos destas nove ilhas serão certamente duros, mas indubitavelmente interessantes. Viva a
Democracia! E, agora mais do que nunca, Viva o PS!


















