quarta-feira, julho 17

Noite de Festa


Inserido no AMOSTRAM’ISSE”– Mostra de Cinema dos Açores, foi exibido o filme Noite de Festa, do micaelense Nuno Costa Santos (em parceria com Tiago de Carvalho e Nuno Simões, como gosta de realçar o autor), em estreia na ilha Terceira, no passado dia 4 de Junho, no Centro Cultural e de Congressos.
Trata-se de um filme que encaixa na área do documentário, embora ficcionado, onde acompanhamos o regresso de Nuno Costa Santos a São Miguel, escritor e guionista a residir em Lisboa, já com vários livros publicados, colaborador assíduo de várias revistas, e já teve também um programa de televisão no Canal Q (“Melancómico”).
Esse regresso tem um motivo: anda à procura dos seus discos de vinil, que tanto influenciaram a sua adolescência, e lhe moldaram mesmo o carácter … Será uma viagem onde se mistura o antigo, o passado e o recente, assim como as novas e desconhecidas realidades da ilha.
De facto, como também refere Nuno Costa Santos algures, as músicas e bandas que ouvimos na adolescência (e pós-adolescência, permitam-me acrescentar) são as mais importantes das nossas vidas, pois é uma fase de definição da nossa identidade e personalidade – e esse é o mote do filme, conjugado com uma análise às diferenças que encontra em São Miguel nos últimos 20 anos, desde que saiu para Lisboa.
O filme consegue passar a sua mensagem, intenção aliás da equipa responsável, partindo de uma história individual, mas com a qual todos se identifiquem – principalmente se pertencem à mesma geração dos realizadores (35-40 anos). E foi o que se passou comigo, vibrando ao ver tantas referências musicais que fazem também parte da minha adolescência, fazendo-me também recordar o que foi sair da ilha para estudar em Lisboa, e o contacto com novas realidades musicais.
Foi maravilhoso ver referências seminais aos The Cure, as capas dos discos de vinil dos Throwing Muses, ouvir música dos Dead Can Dance, e culminar tudo com várias alusões aos Stone Roses… O filme tem uma curiosa frase de Nuno Costa Santos, ao referir-se a essas bandas, “que já ninguém as quer ouvir hoje em dia” – pois felizmente não é verdade, e temos o Optimus Primavera Sound a provar isso mesmo, festival que decorreu recentemente no Porto, onde as bandas que vingaram este ano foram exatamente os My Bloody Valentine, Dead Can Dance e a grande presença e atuação de Nick Cave!


Termino com uma frase de Nuno Costa Santos, num artigo da Azorean Spirit (n.º47), que resume, e como sempre, bem, o essencial do que aqui se disse: “Agora quem diz discos perdidos também diz milagres encontrados. Até já, numa sala de cinema perto de si.»

Miguel Costa



(Outro texto sobre o filme da autoria do terceirense Miguel Costa e publicado no "Diário Insular")

Noite de transgressão

Inspirado no filme Noite de festa de Nuno Costa Santos e (Outros autores)

Noite de Transgressão.

1. Introdução
2.   O meu pai
3.   O Carlos
4.   O Hélder
5.   O Nuno
6.   A Sheila

1.   Introdução

Vi no outro dia o filme do Nuno Costa Santos Noite de Festa.
É um documentário. Normalmente documentário é o nome que se dá a um filme que é mais interessante que a média dos que são feitos para aí, mas que não teve cheta para ser produzido.
Percebo bastante disso, pois a minha vida é ter ideias para as quais ninguém tem dinheiro para produzir.

Mas ficar indiferente a um tipo, que a chegar aos 40, regressa à sua ilha para resgatar os seus discos perdidos é impossível. A música é transversal e universal. Toca a todos. Até a um anormal como eu. Todos nós temos os nossos discos, as nossas músicas. Somos viralmente interseccionados por ritmos, sequências de notas e códigos que de forma um tanto ou quanto estranha nos despertam sensações e emoções.  Talvez por isso seja muito estranho escrever sobre música. Porque não se escreve sobre música, a música é que se escreve. E isso devia chegar.

No caso específico do Nuno e do seu grupo de amigos, não consigo colocar a questão numa estrita procura por discos efectivamente perdidos, embora acredite que existam uns quantos mistérios. Até eu tenho discos do Pascoal em casa.
Porém, creio que a questão passa um pouco por revisitar os sentimentos. Do sentir a música como eles sentiam. É uma viagem emociomusical.

Olhava para o grupo de amigos do Nuno como betos. Já eu, com educação e condições sócio económicas semelhantes, era igualmente beto. Mas eu e os meus amigos éramos betos transgressores.

Enquanto eles deram festas memoráveis com alta música, a que muito poucas fui, pois eram festas de betos, nós não demos festas. Não fizemos amigos para a vida e muito menos perdemos discos que justificam reencontros. Não tínhamos tempo para isso.

Fugir da polícia, ser preso, ir para as urgências do hospital, tentar fazer descarrilar comboios, pegar fogo a carros tomavam muito tempo. Não dava para organizar festas.

Que estupidez.
O que eu não perdi?
Foi o que pensei em alguns momentos do filme.

Hoje, os amigos do Nuno, são homens bem postos, directores disto e aquilo, são artistas, são agricultores de sucesso. São inteligentes, e porque não dizê-lo, bonitos. (Repare-se que quando era um beto transgressor não podia dizer isso). E acima de tudo, são cultos.

Já eu e os meus amigos somos publicitários, prostitutas, pianistas em cabarets, esteticistas, taxistas e cabeleireiras. Somos feios. Não nos damos e não temos nada em comum. Nem uma coisa tão simples e vibrante como a música.

Nasci para ser beto e arruinei o meu destino porque ouvi Doors cedo demais.

Uma vez calhou ser Erik Satie. É claro que não me podia esquecer deste. McCoy Tyner foi outro exemplo de um CD e artista inesquecível que me veio parar aos ouvidos por essa via. Mas o Carlos tem um grande à vontade no Jazz, por isso neste campo é quase nosso senhor. Com ele vieram os clássicos Miles Davis, John Coltrane, Chet Baker, Duke Ellington. Veio também a certeza que o Cole Porter em conjunto com o George e o Ira Gershwin devem ter escrito para aí 90% da história do jazz. 
Mas o facto curioso dos meus discos perdidos com o Hélder, é que eu não tenho discos perdidos com ele ou em casa dele. Os discos perdidos dele estão comigo, em minha casa.

Abria-se de novo a porta para a minha verdadeira natureza eclética. Não se pode renegar ao que somos. Eu nasci no meio da colecção de discos, sem grande lógica, do meu pai e por mais que a insegurança adolescente me quisesse fazer pertencer ao grupo dos mais independentes e alternativos a pirosidade está-me no sangue.

Abria-se de novo a porta para a minha verdadeira natureza eclética. Não se pode renegar ao que somos. Eu nasci no meio da colecção de discos, sem grande lógica, do meu pai e por mais que a insegurança adolescente me quisesse fazer pertencer ao grupo dos mais independentes e alternativos a pirosidade está-me no sangue.



2. O meu Pai

O meu pai era uma besta. Não por me bater, ou tratar particularmente mal. O meu pai era uma besta, como muitas bestas de outros pais, porque não me ligava nenhuma.
Verdade seja dita que se diferenciava das outras bestas por uma questão em particular: era dono de uma discoteca.

Já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca?

Lá em casa havia um Tecnichs SL 1200 e uma colecção interminável de discos.

A besta do meu pai, ao que tenho ideia, não tinha gosto musical. Como boa besta que era, tinha tudo.

Já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo?

Todos os discos do mundo não. Ele tinha todos os discos mainstream.

Mesmo assim, já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo, menos os que o Nuno e os amigos mandavam vir da Contraverso em Lisboa?

Mais velho, também fui muitas vezes à Contraverso comprar discos. Mas não era a mesma coisa. Pelo menos a julgar pela total ausência de relação quando lá ia. Já o Nuno que picava discos pelo telefone, para os encomendar, deve ter ficado no imaginário dos Contraversos.
Mais uma vez se prova que muitas vezes não é o ter à disposição, mas sim o querer ter.

De qualquer das formas, ter à disposição aquela infindável colecção de vinis era qualquer coisa de maravilhoso.
Nesta fase não conhecia nada. Era virgem até às orelhas.
Qual terá sido a sensação de ter ouvido os Sultans of Swing dos Dire Straits pela primeira vez? E o The Wall dos Pink Floyd?
E a discografia completa dos Beatles, descoberta faixa a faixa, música a música?
Os meus amigos ouviam Ana Faria e os Queijinhos frescos e eu já ouvia o Asas e Penas do Jorge Palma ou o Ar de Rock do Rui Veloso.



Qualquer nome que me falassem, sem excepção, estava na colecção de discos do meu pai. Roxy Music, Fleetwod Mac, Bananarama, Supertramp, Police, KC & The Sunshine Band foram os que mais me passaram pelas mãos, mas a lista é interminável.

O meu pai até não ouvia muita música porque era uma besta. Já eu era só uma criança inocente, com muito tempo livre e muitos discos à disposição.
Estava sempre a ouvir e a descobrir coisas novas só por mim. Sem ninguém dizer é bom, é mau, é assim assim. Tal como um virgem que quando perde a virgindade quer lá saber se é bom, ou se é mau. Desde que seja.

3. O Carlos

Já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo, menos os que o Nuno e os amigos mandavam vir da Contraverso em Lisboa?

Seria mesmo sorte ter tantos discos à disposição?

Claro que não.
Eclético demais para se formar um critério e um verdadeiro gosto musical.

A besta do meu pai obrigava-me a trabalhar na discoteca durante o verão. E quanto a isso só posso dizer uma coisa: obrigado besta.

Perder o meu tempo a furar ondas na praia do pópulo e a tentar engatar miúdas com conversas verdadeiramente idiotas, quando podia passar o dia mergulhado em discos?

Era inacreditavelmente má a música que a maioria dos clientes compravam. Artistas dos quais nunca tinha ouvido falar sequer.
Mas eu também não andava longe da mediocridade. A ideia que tenho da altura era que ouvia Madonna e tretas desse género. Agora... agora é giro ouvir o Lucky Star, mas acreditem que na altura era verdadeiramente deprimente.

O Carlos mudou a minha vida musical naquela altura e fez de mim um homenzinho. Ele trabalhava na discoteca e percebia de música. Aliás ainda percebe. E muito.
Sempre que me via a escolher alguns cd’s dizia:
-   Não vais ouvir essa merda, pois não?
E ponha-me na mão outro disco qualquer.


A vida já não era a mesma. Não dizia conversas idiotas durante o dia às miúdas, para ter doutas conversas sobre música à noite. E mais giro, tinha dinheiro para lhes pagar copos.
Aqui que ninguém nos ouve, apenas lê, muito piratiei eu. Bastava que o Carlos me desse uma boa dica que aquilo passava de imediato para uma cassete para estudar em casa.

Congeminámos juntos e telepaticamente uma revolução na discoteca. Só encomendar coisas fixes e obrigar os maus clientes a ouvir boa música.
Não deu certo, basicamente, porque a besta do meu pai, quando via a nota de encomenda, entrava em cena e dizia:
-   Esta merda é para vender discos.
E com razão.
Aqueles que pensávamos serem maus clientes, porque tinham um péssimo gosto, eram no fundo os nossos mecenas. Aqueles que permitiam passarmos tardes a ouvir música e a falar de música. Com um shot ocasional de bagaço, à vez, ali ao lado no Aliança, que para ouvir um bom som tem que ser em etéreo.

4. O Hélder

Paralelamente havia o meu tio Hélder, que era doido na altura, mas que agora já está bom. Como profissão partia carros, casas, dentes, pernas, costelas e comia copos de vidro a olhar fixamente para o DJ do Cheers quando passava música de merda. Era quase sempre.
A primeira vez que coloquei uma cassete no carro dele foi ejectada dois segundos depois e atirada pela janela. Era o The time of my life, do Bill Medley e da Jennifer Warnes.

-   Que merda é esta?

De seguida meteu John Zorn. Que coisa demoníaca era aquela? Jesus nosso senhor.
Não entendi nada. Mas passei a respeitar o gosto musical do meu tio. Merdas daquelas no carro dele não.

Agora digam lá que não é uma sorte para um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo, menos os que o Nuno e os amigos mandavam vir da Contraverso em Lisboa, e ainda por cima tem um tio que atira música de merda pela janela e com a outra mão nos dá um bom punhado de discos vinil, em ótimo estado, com pérolas como o primeiro disco dos Massive Attack, o Blue Lines de 1991, tinha eu uns 16 anos?

Pelo meio, o tal John Zorn, discos do Izumi Kobayashi, Bel Canto, David Sylvian, Nick Cave.  Mas confesso uma coisa, a maioria dos nomes serão tão independentes ou alternativos que nem os consegui reter. Há importações do Japão e bandas que nunca ouvi falar. Aliás, nenhum amigo meu conhece o Heinner Goebbels para além do meu tio, se é que ele existe mesmo. Mas o disco “Der mann im fahrstuhl” é fabuloso.

Como o meu tio era doido, desconfio que ele tinha um amigo que percebia muito de música. De vez em quando ponho a tocar uns quantos discos desconhecidos e são todos eles bons. Sem excepção.

Não foi a influência mais pedagógica porque vendo bem não há qualquer pedagogia em atirar cassetes pela janela fora, muito menos um percurso para chegar ao John Zorn deve ser feito daquela maneira. Mas a atitude, ó meu deus, a atitude rock star decadente e deliquente era música para os meus ouvidos.

O Mick Jagger queria ser como ele e a Bo Derek queria estar com ele.
Eu também queria muito a Bo Derek. Mas primeiro tinha que perceber John Zorn.


5. O Nuno

Foi o papel do Nuno fazer-me perceber John Zorn.
Colega de casa, ele no primeiro ano de economia ou gestão, eu ainda no 12º ou 11º, não me recordo bem.
Do que me lembro é que o Nuno era um paz de alma. Não sei como ele me aturou tanto tempo. A mim, e a cambada de betinhos transgressores que metia dentro de casa a qualquer hora do dia ou da noite.
Apesar das boas influências do meu pai, do Carlos e do Hélder a verdade é que também continuava a ouvir música muito duvidosa. E o pior de tudo é que não tinha qualquer pudor em por Guns’n’Roses a tocar. O que não deve ter sofrido o Nuno.
Mas a verdade é que com a minha idade toda a gente ouvia os Guns’n’Roses e depois os Nirvana. Isso não tinha nada de mal. Éramos pirralhos e era seguro gostar do que todos gostam.

Não tinha nada de mal?
Se tivesses o gosto musical do Nuno deveria ter e muito. Enquanto eu fui a um dos últimos concertos de Nirvana na praça de touros de Cascais, o Nuno já era um Senhor. Já tinha ido ver Einstuerzende Neubauten e Young Gods.
Maravilhavam-me os relatos dos objectos que eram usados para fazer som, dos andaimes em palco, todo um aparato independentista que nada tinha a ver com o Top + que passava na RTP 1 e na minha aparelhagem.
Ele ouvia The Fall, toda aquela onda de Madchester: Happy Mondays, Joy Division, Primal Scream e gostava muito dos United Future Organization. Depois ainda vinham os Cocteau Twins, Stone Roses, os Blur, os Charlatans, e mais os Smiths, e My Bloody Valentine, Pixies. Era uma armada invencível que agora sim, iria mudar a minha vida para sempre.

Porra, como é que o Nuno, só dois anos mais velho que eu, tinha um gosto musical extraordinário com cenas tão fixes e tão cheias de onda e eu ouvia Guns’n’Roses?
Chamei uma data de amigos lá a casa e vendi todos os meus discos de merda. Incluindo o tal de Guns’n’Roses.



Dois, três anos mais tarde, quando o Nuno me comunica que o pai tinha comprado um apartamento e que ele iria sair lá de casa foi um momento triste. O Nuno era o meu ganha pão musical. Podíamos perfeitamente ter mantido uma relação, fosse ela suportada nos discos ou mesmo na nossa simples convivência. Mas eu continuava muito mais motivado em transgredir e a por em risco e minha vida e a vida dos meus amigos fazendo coisas verdadeiramente parvas.
O pai de um amigo meu, que era advogado, ameaçava-o sempre dizendo que a polícia nos andava a vigiar, a ver se ele se portava bem. Anos mais tarde, numa festa devassa, com música péssima, em casa deste meu amigo descobrimos numa gaveta do escritório um envelope e lá dentro estavam fotografias nossas e vários relatórios policiais.
Se eram verdadeiros, ou falsos, não sei. Sei que a festa acabou naquele momento. E devemos ter andado uma semana tipo meninos do coro até voltar a atirar televisões do 14º andar para a rua.
Por melhor banda sonora transgressora que fossem os Clash, não foi, nem era o suficiente para que me deixasse de sentir órfão daquele grande mentor que foi o Nuno.

6.   A Sheila

Mesmo assim o Nuno tinha deixado pistas suficientes para me orientar sozinho. Não deu propriamente a cana, mas deixou muito peixe.
Já na faculdade, tal como qualquer bom português, não aprendi rigorosamente nada, nem fiz grande amizades musicais.
Foi aí que percebi que estas pessoas tão especiais que tinham feito parte da minha vida musical tinham também outra propriedade: eram raras.
Isto fez-me valorizar ainda mais a Sheila quando a conheci.

A Sheila simboliza para mim a música na publicidade, pois foi das pessoas mais versadas na matéria que encontrei. Quando falo dos discos perdidos da Sheila, falo de discos que o mundo perdeu. Anne Shelton, Ink Spots, Lew Stone Band, Lale Anderson, Ray Noble e tantos outros. É impressionante o legado de discos dos anos 20, 30 e 40 que me acompanham até hoje.

Se a tentasse definir diria que a Sheila é uma caralha com um gosto retro kitsch. Aliás, eu próprio não sabia que era retro kitsch até a Sheila me mostrar um punhadinho de músicas compiladas numa banda sonorosa fabulosa: The Singing Detective.

A Sheila ouvia José Cid, Tony de Matos e Vítor Espadinha sem qualquer tipo de vergonha na cara.

Há um pormenor. A Sheila era publicitária.
Um publicitário não se fecha sobre um estilo, um género, moda ou onda.
Se “Dou-te um doce” da Lena D’Água funciona melhor para o anúncio do Corneto do que aquela música muito gira dos Velvet Underground, pois que seja a Lena. Um anúncio de bacalhau prestar-se-á muito melhor a uma música do Quim Barreiros do que Pshyco Killer dos Talking Heads.

Esta é a inabalável despreconceitualização da música que só a publicidade me conseguiu trazer. São todos filhos de Deus. O Pedro Abrunhosa está ali ao lado do Freddie Mercury. É claro que quando abre boca se percebe que o Pedro está fora do seu elemento. Mas se só abrir a boca quando mandamos está por direito próprio naquele eclético grupo que habita o meu imaginário musical.

Foi no momento em que coloquei a tocar Lionel Richie na agência e não fui gozado que percebi que tinha atingido a minha maturidade musical.



Pior ainda quando alguém como o teu director criativo acha graça a quereres colocar uma música de jazz dos anos 20 num filme futurista. Ou que a Rose Marie do Slim Whitman fica genial num filme que retrata uma manifestação violenta.

Pela primeira vez na minha vida o meu gosto musical era uma coisa gira. E eu ganhava dinheiro com isso.

É claro que a musica digital muito me ajudou a expandir conhecimentos. Quando ouvia algo de novo, havia sempre um referência e atrás dessa referência uma outra referência. Pelos vistos há sempre alguém que “samplou” alguém.
É um movimento circular infinito. A música não começa ou acaba. Continua.

Fica apenas a enorme curiosidade sobre o que fará o meu tio Hélder quando partilhar com ele o “Love is strange” da banda sonora do Dirty Dancing no Spotify.
Abençoada era digital.

Agradecimentos
Nuno Costa Santos pelo convite para escrever esta peça.
O meu pai é o António Soares do Rego. O Carlos é o Carlos Pacheco. O Hélder é o Hélder Soares do Rego. O Nuno é o Nuno Alves e a Sheila é a Sheila Redburn Nunes.

Banda Sonora

1. Introdução: Devo - Whip it
2.   O meu pai: Dire Straits - Lions
3.   O Carlos: John Field - Rondo in Eb
4.   O Hélder: Masaru Satoh & His Orchestra - Yojimbo Main Title
5.   O Nuno: Kurr - Seoul
6.   A Sheila: The Teddy Bear’s Picnic - Henry Hall e Val Rosing

Bónus: The Doors - Queen of the Highway

Luís Rego

(Pedi ao Luís Rego para, do ponto de vista dele e do seu grupo de amigos, partisse do filme "Noite de Festa" para falar dos seus discos e do seu mapa musical. O resultado foi esta bela e muito divertida jornada cronística - que emocionada e abetalhadamente agradeço).

segunda-feira, julho 1

Quarta, a partir das 21h30, no Music Box, Lisboa


(Quarta-feira, a partir das 21h30, vai passar no Music Box um filme sobre um crescimento nos Açores.  Parte de uma busca pelos discos perdidos para se transformar numa visita a lugares, memórias e  pessoas  - e a um de arquipélago em movimento e transformação. Estão todos convidados a aparecer).

domingo, junho 30

Homens-minhoca

Há alturas na vida das comunidades em que todos ficam, aparentemente, expostos ao mesmo grande problema, cuja solução parece impossível de se materializar e, curiosamente, sempre que essas ocasiões se manifestam, o poder instituído – sobre quem se julga recair a responsabilidade de lidar com elas – raramente está preparado para o fazer.
Os tempos não estão para os heróis de peito empolado. Aliás, ao contrário da imagem mais romântica do “salvador da pátria” que todos temos, precisamos de homens-minhoca que, ao darem de caras com os obstáculos, os possam contornar sem grande alarido mas, com a firmeza de quererem atingir os objectivos que têm que ser cumpridos e concretizar alguma coisa, num mundo super dinâmico, multifacetado e que, para mal dos nossos pecados, está em constante evolução.
Na verdade, não sei se temos homens destes por cá ou se temos que os “importar”. E, não acreditando que o Governo dos Açores se tenha esquecido das suas importantes funções (se bem que algumas vezes – muitas mais do que as desejáveis – assim nos faça crer), torna-se importante relembrar que nos tempos modernos (tempo nosso também) o “Desenvolvimento” é o grande negócio dos Governos Nacionais. Negócio no qual, no nosso caso, o factor “Regional” obriga a inscrever a importante perspectiva da proximidade, que deve permitir adequar toda e qualquer ajuda externa à complexidade pequenina típica do meio.
Não obstante a maior ou menor ajuda que possamos vir a ter, reflectir sobre o caminho a seguir, contrabalançá-lo com as necessidades de intensidade e capacitação, adoptar ou repudiar medidas mais ou menos disruptivas, torna-se imprescindível para sairmos deste fosso no qual nos encontramos e é tarefa para todos nós ou, pelo menos, para aqueles de nós que forem homens-minhoca!

quinta-feira, junho 27

O Condomínio Feliz



Falei há dias com Fernando Murta Rebelo, o director desta sala de convívio, e ele disse-me que, depois da transmissão deste vídeo, recebeu chamadas de desconhecidos de diversas partes do país, interessados em saber quais os misteriosos motivos para esta comunidade funcionar. Ele respondeu que os motivos não são misteriosos - há apenas uma vontade colectiva dos moradores de que assim seja. Um Portugal no qual acredito e uma peça que me preencheu. 

quinta-feira, junho 20

e chegou o Verão

E, com ele, chega também uma "Infectious passion” for the Azores.


“For the first four nights we stayed at the well-chosen Hotel Terra Nostra Gardens, an elegant art deco inspired gem – and, more importantly, blessed with its own expansive botanical gardens, whose massive refurbishment was one of David’s personal major projects. Working with English arborist Richard Green, he identified and treated around 2,500 trees and planted in excess of 3,000 new trees and shrubs.


O fim da primavera


O dia nasceu soalheiro, apesar do mundo. O verão vai chegando contundente, sem clemência nem bruma, a estas ilhas. E eu, que gosto de manhãs frescas, sinto já saudades da primavera.
 
«Depressa se vai a primavera
choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes»

Matsuo Bashô, in O Gosto Solitário do Orvalho

quarta-feira, junho 19

Vinho de missa

A Diocese de Angra quer produzir o seu próprio vinho de missa. A Cooperativa Vitivínicola do Pico será responsável pela produção deste licoroso que tem características próprias. Depois de certificado, o vinho pode ser exportado.
Uma boa iniciativa para ler e ouvir.

terça-feira, junho 18

Luís Bettencourt


O Luís Gil Bettencourt é um génio musical. O melhor será colocar as coisas assim, desta forma chã, sem barrocos verbais e outros adiamentos. Um talento gigante a tocar guitarra e viola como vi poucos ao vivo.  Composições suas e de gente diversa. Uma vez ouvi-o a, em pouquíssimos segundos, recriar  de uma maneira própria - inventiva, lúdica, orgânica, transcendente - uma canção que acabava de conhecer. Como se estivesse a respirar ou a apertar os atacadores das botas. A canção já não era só de quem a havia desenhado. Era do Luís, da sua verve, da sua entrega, da sua generosidade, do seu egoísmo generoso - como só os artistas maiores conseguem ter. Agora que se está despedir dos palcos (de uma certa maneira de estar nos palcos) convém lembrar esta evidência simples.

Horta, Lajes do Pico, Angra e Ponta Delgada

Hoje, mais de 20 cineclubes do país vão exibir José e Pilar no terceiro aniversário da morte de José Saramago. Os Açores estão incluídos nesta lista.

quinta-feira, junho 13

Memorável


Discurso memorável de Charlie Chaplin, em The Great Dictator. Palavras a que devemos sempre regressar. Para que nunca as esqueçamos.

terça-feira, junho 11

Queijada Branca




Isto é muita arma junta, sim senhor. Mas o prémio vai directo para o nome da operação.

Ainda hei-de processá-lo por causa disso

Admiro esta malta. Anda uma pessoa a fugir destes cidadãos subaquáticos e há quem procure apreciar a sua presença como quem diz olá ao merceeiro. Eu tenho um problema, meus senhores: vi o Jaws. O Spielberg matou o Cousteau que havia em mim.

sexta-feira, junho 7

"A insularidade era um ponto fraco que se transformou numa força"


Entrevista ao P3 com Diana Sousa e Jesse James, fundadores, promotores, pensadores, estrategas e carregadores de latas do festival Walk & Talk. Para ler aqui.

quinta-feira, junho 6

06 de Junho


A RTP/Açores emite esta noite, pelas 20h45, uma grande reportagem de Herberto Gomes sobre o Verão Quente de 75, que culminou com a manifestação de seis de junho, que hoje se comemora, em Ponta Delgada.

quarta-feira, junho 5

O Marginal Ameno


O camarada de blog e amigo (do wall of sound da caipirinha) tem nova aventura blogueira que aqui partilho.

terça-feira, junho 4

Boas notícias

Um regresso aguardado com expectativa e um bom exemplo do que devemos construir em termos de serviços turísticos no ramo da hotelaria. Parabéns!

quinta-feira, maio 23

Perda


(…) Ma liberté / Toi qui m'as fait aimer / Même la solitude / Toi qui m'as fait sourire / Quand je voyais finir / Une belle aventure / Toi qui m'as protégé / Quand j'allais me cacher / Pour soigner mes blessures (…)

domingo, maio 5

engana-me que eu gosto

Engana-me que eu gosto. Engana-me porque já estou farto de tanto dissabor.
Engana-me porque deixei de acreditar nas pessoas. Elas são vazias de vontade. Da vontade necessária, pelo menos.
Engana-me porque sabes que, remetendo a solução lá para bem longe das tuas (nossas) capacidades e linhas de acção, é bem mais fácil continuar a "botar palavra" indiscriminadamente.
Engana-me porque os caminhos para o sucesso nem sempre o trazem para nós.
Engana-me para que eu não consiga perceber que me enganas. Engana-me porque quero!
Porque quero deixar de me procurar enganar.
Quero deixar de pensar que se consegue cultivar nos outros o interesse pelas coisas que têm que ser feitas, verdadeiramente, para que consigamos sair do sítio que todos nos dizem que é o fundo, quando o único fundo é a confusão em que alguns nos conseguem colocar.

"A VII Conferência Anual do Turismo, que decorreu ontem no Funchal, revelou um conjunto de oportunidades e ideias a aproveitar no domínio do mar e deixou a certeza que é esta é uma das portas para a Madeira e o país saírem da crise, a par do desempenho do sector turístico em que está integrado. "O Turismo é a actividade económica nacional que, de momento, apresenta as melhores expectativas de crescimento, as melhores oportunidades de investimento e as melhores pistas para o emprego", sublinhou o secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, no fecho da iniciativa promovida pela delegação regional da Ordem dos Economistas."

quarta-feira, maio 1

Açores em rede

«(…) Que as ilhas sejam um mistério para fora é um problema antigo a ir resolvendo. Mas há outro. Não se transforme o arquipélago em ilhas desconhecidas entre si
Esta passagem faz parte de um texto do Nuno Costa Santos escrito para o Diário de Notícias, num conjunto de crónicas sobre o que seriam os Açores em 2012, a propósito das eleições regionais que decorreram no passado mês de Outubro. É uma imagem inverosímil sobre quem cá habita e olha para dentro e, concomitantemente, para fora. (...)
Para ler na íntegra na edição de Abril do Mundo Açoriano.

quinta-feira, abril 25

Lançamento

Esta noite, dia 25 Abril, pelas 21h00, na sala 2 do Cinesolmar. Com a presença do autor.

sexta-feira, abril 12

10 FEST AÇORES' 13


Foi hoje oficialmente lançado por Filipe Rocha, director executivo da EFTH.

e deixou-nos cheios de água na boca...
 

Entre as várias estrelas, há duas Michelin:
David Foure (Restaurant Aphrodite, Nice) e
Vítor Matos (Hotel Casa da Calçada, Amarante).
Uma menção especial, em jeito de recomendação, para André Magalhães (Restaurante Taberna da Rua das Flores).
E, se quiserem ver como têm evoluído os nossos Chefs, venham no dia 22 de Junho. Eu já reservei.

Antestreia mundial


"La Cage Dorée" em antestreia mundial no 2º dia do Panazorean.

quarta-feira, abril 3

1º Encontro de Associações, Representantes de Pais e Encarregados de Educação de S. Miguel

Caros colegas,


A participação dos pais nas escolas, como espaços de aprendizagem inseridos na sociedade, é um direito e um dever.

Depois de um período em que lutámos para termos o direito de associação e o direito a sermos ouvidos, hoje vivemos um novo desafio: estamos na escola e somos convocados para participar de forma ativa, consciente e empenhada na sua gestão.

E, como parte integrante da comunidade educativa, a nossa ação não pode nem deve limitar-se apenas à colaboração em atividades pontuais da escola devendo, pelo contrário, assumir uma efetiva participação quer no planeamento quer nas atividades de cada estabelecimento de ensino.

Os desafios são grandes e novos. A nossa inexperiência e, por vezes, as dificuldades em nos aceitarem como parceiros, têm constituído um embaraço a que esta caminhada se faça sem sobressaltos e sem desvios para bem dos nossos filhos que são, sem margem para dúvida, o grande motivo deste nosso empenho.

Neste processo tem havido certamente muitos obstáculos. A falta de informação dos pais e a sua inexperiência que tanto pode gerar comportamentos mais abusivos, invasores de outras esferas de competência, como a retração da participação dos pais na escola com receio de outros agentes, constituem alguns deles.

São estas pequenas grandes arestas que pretendemos limar com esta iniciativa.

Dar as mãos e partilhar receios, resolver angústias e corrigir erros, ultrapassar hesitações e encontrar soluções é o único caminho que nos pode fortalecer.

A aceitação de todos – pais, professores, alunos, funcionários e demais atores da escola - é a única via para nos tornarmos comunidade educativa.

A nossa presença na escola é decisiva para a qualidade educativa de todos.

A família é o núcleo central do processo educativo e a escola a sua extensão. Por isso, a família- os pais- têm todo o direito e o dever de participar no espaço que vai dotar os filhos das capacidades e dos ensinamentos necessários para a sua realização pessoal, social e profissional.

É por isso, que este nosso encontro é tão importante. A partilha de experiências entre todas as associações de pais e representantes de encarregados de educação é fundamental. É uma tarefa ambiciosa para a qual estamos todos convocados. A presença de cada um e a partilha da sua experiência fará de nós uma só voz junto de quem decide.

Contamos por isso convosco no dia 13 de Abril na EBJI Roberto Ivens, a partir das duas da tarde.

Vai valer a pena! Confirme a sua presença até ao dia 5 de Abril pelo mail: paisrobertoivens@gmail.com ou telemóvel: 96 90 49 015

A Comissão de Pais EBI Roberto Ivens