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terça-feira, janeiro 19

Não existem varinhas mágicas




Pico do Ferro - Furnas, Jan'09

Nunca como agora se investiu tanto na preservação e na valorização ambiental nos Açores. Simultaneamente, nunca como agora a pressão em torno de áreas sensíveis foi tão evidente. Se no passado a sensibilização para o espaço que nos rodeia passava relativamente despercebido, ignorado ou mesmo menosprezado, nunca a atenção em prol da defesa da causa ambiental esteve, como agora, na ordem do dia.

Mesmo e apesar de algumas melhorias, quer no espaço físico, quer nas mentalidades - fruto das inúmeras campanhas institucionais em torno da sensibilização para a necessidade de Reduzir, Reutilizar e Reciclar, sob responsabilidade governamental e de várias entidades privadas, nomeadamente, de associações ambientais, de Ecotecas e das Escolas - assistimos, ininterruptamente, a quem transgrida (in)conscientemente o espaço físico que nos circunda.

Vem isto a propósito da visita que o grupo parlamentar do Partido Socialista efectuou, na semana passada, às obras na Bacia Hidrográfica da Lagoa das Furnas, na margem da lagoa e nos terrenos, junto ao Pico do Ferro, onde decorre a acção mais significativa de toda esta vasta intervenção – a reflorestação não integral de 300 hectares com cerca de 18000 plantas, de 15 espécies, 9 das quais endémicas. A área de intervencionada é muito significativa, do ponto de vista do território, constituindo, para o Secretário Regional do Ambiente, "(...) a intervenção mais profunda em termos de alteração do uso do solo que já se fez no arquipélago (...)". O investimento global, no final deste processo de médio/longo prazo, é de cerca de 20 milhões de euros.

Neste momento combate-se os malefícios de décadas de sobreexploração agrícola junto à Lagoa das Furnas, desbrava-se terreno nunca dantes explorado, no que respeita a experiências no campo florestal, e estudam-se "alternativas à monocultura da vaca nos Açores, bem como à monocultura florestal da criptoméria", por intermédio do Laboratório de Paisagem gerido pela SPRAçores nos terrenos recentemente adquiridos.

A situação exige rigor e trabalho árduo, não vamos lá com "varinhas mágicas", nem com "milagres", como aferiu, na altura, o responsável pelo Ambiente. O processo de recuperação da Lagoa irá processar-se num tempo próprio e com este conjunto de acções integradas é pretendido "não só mitigar os efeitos de processos poluentes, como reverter a tendência de degradação da qualidade da água". Um trabalho em curso que espero, e esperamos todos, colha bons frutos.

* Publicado na edição de 12/01/10 do AO
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quinta-feira, dezembro 31

Confiança


Praia Sta. Bárbara - Ribeira Grande Foto Francisco Botelho

No final de cada ano desfragmentamos a memória dos assuntos que compõem a nossa agenda - mediática, política e mundana. Televisões, jornais e revistas fazem o balanço do ano que agora termina. Os comentadores de serviço falam da prestação dos eleitos, dos maiores feitos científicos, culturais e desportivos. Por esta altura surgem igualmente os inefáveis vídeos de gafes e de apanhados e o habitual slideshow com as imagens emblemáticas do ano. Barack Obama estará em muitas mas a Crise será uma senão mesmo a figura do ano.

Nós por cá teremos de fazer referência, óbvia, numa "selecção" assumidamente pessoal: às eleições que este ano levaram o país três vezes às urnas, em que os eleitores demonstraram que são capazes de discernir o acto a sufrágio; a nomeação de Gabriela Canavilhas para Ministra da Cultura. Uma "perda" para a região mas um ganho muito positivo para o todo nacional, com claros resultados já amplamente aplaudidos; o chumbo na Assembleia Legislativa Regional do diploma que pretendia a legalização da sorte de varas na Região; a chegada dos novos aviões Q200 que deram assim início à renovação da frota da SATA Air Açores; ao "falhanço" da conferência de Copenhaga; ao acordo entre o Governo Regional e os Estaleiros de Viana de Castelo no processo de construção dos navios Atlântida e Anticiclone; à tempestade que por estes dias assola as ilhas, e o país, e que muitos estragos já provocou, com particular violência nas freguesias de Agualva, Quatro Ribeiras e Vila Nova, na ilha Terceira...

E a Crise e o Desemprego?! Ninguém no seu bom senso deseja a quem quer que seja que a Crise lhe bata à porta. Houve quem quisesse uma Crise a toda a força para justificar uma posição político-partidária. No entanto, quem gere os destinos dos Açores age ou tem agido em conformidade com as dificuldades sentidas por todos os Açorianos que têm sido, directa e indirectamente, atingidos pelo desemprego ou por situações de carência. Não podemos ser hipócritas e afirmar que todos vão voltar a ter emprego amanhã, nem que a situação que vivemos será resolúvel como por magia. Fazer com que os efeitos da crise sejam mais ténues nos Açores ou desejar que a mesma não se prolongue indefinidamente revela, isso sim, responsabilidade e sentido de estado. E tenta, por essa via, induzir confiança nos cidadãos, na medida em que muito desta Crise se demonstra pelo recuo do índice de confiança dos consumidores. Isto apesar do relatório trimestral da Comissão Europeia, publicado em Dezembro, ter posto fim à recessão na Zona Euro.

"Sorrir" é fácil. Governar é bem mais delicado do que isso. Já vivemos dias melhores, é certo, mas há que ter confiança. Um bom ano para tod@s!


* Publicado na edição de 29/12/09 do AO
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sexta-feira, dezembro 18

Trabalho em rede


Foto Net-Map @ Visual Complexity

Em Ponta Delgada deu-se início ao processo de restituição de um Cineclube à cidade. Tempos houve em que a necessidade o justificou. Por motivos que não cabe aqui explicar, este encerrou a sua actividade. Mais recentemente, por acasos e causalidades momentâneas, podemos considerar que tal deixou de se justificar. Hoje por razões, que nem só a crise explica, muitos clamam a sua existência.

Pertenci a um núcleo que, durante alguns anos, promoveu o cinema nas suas várias vertentes, em São Miguel. A reabilitação do cineclube na cidade e na ilha - pois defendo que não podemos circunscrever a acção do mesmo ao perímetro urbano - é uma ideia antiga, mas que toma forma só agora, sobretudo por questões de ordem técnica, bem como, é certo, pela conjugação de vontades várias.

Com este exemplo gostaria de chamar a vossa atenção para a necessidade e o incremento que deve ter, independentemente dos sectores de actividade, o trabalho em parceria ou em rede. Não só o espaço físico que nos rodeia é finito e escasso, os recursos financeiros também são. Multiplicar infra-estruturas sem planear o seu funcionamento futuro revela-se como um risco especulativo, e se em alguns casos ele é controlado, noutros é contraproducente e irresponsável.

Faço minhas as palavras do presidente do Governo dos Açores quando declara “a absoluta necessidade de as Instituições Particulares de Solidariedade Social, as Casas do Povo, os centros paroquiais e as Misericórdias actuarem cada vez mais em rede” (...) “que os Açores não são uma região rica e que não é possível dotar cada infra-estrutura de toda a panóplia de equipamentos” e “que todas essas instituições devem ter a capacidade de comunicarem entre si, de aproveitar recursos comuns e de partilhar experiências e públicos destinatários”, reforçando, por esta via, a ideia de articulação, como meio de melhorar a eficiência das instituições públicas e privadas na área social.

A acção política não acaba na obra e muito menos no acto da inauguração. No entanto, há quem não pense assim e governe a cogitar o retrato.


* Publicado na edição de 15/12/09 do AO
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sexta-feira, dezembro 4

Cultura de Desenvolvimento


BPARAH | Inês Lobo Arquitectos

A Cultura tem vindo a gizar, com rigor e a necessária ambição, uma presença cada vez mais significativa na orientação estratégica dos e para os Açores.

No Plano e Orçamento para 2010 o Governo dos Açores afectou cerca de 22,5 milhões de euros na defesa do património e no apoio às actividades culturais no arquipélago. Um aumento de 25,83% em relação a 2009.

Este investimento significativo encontra a sua maior expressão nos inúmeros projectos em obra, contidos no programa de defesa e valorização do património arquitectónico e cultural, com destaque para: a empreitada de construção da nova Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo; o Arquipélago - Centro de Arte Contemporânea, na Ribeira Grande; a ampliação do Museu da Graciosa; a construção do Centro Cultural Multiusos no Corvo; a finalização da reconversão do Recolhimento de Santa Bárbara e as intervenções museográficas e a manutenção, que se impõe, de todos os Museus da Região. Em 2010 dá-se início ao período de Comemorações do Centenário da República, com um vasto programa comemorativo em todas as ilhas, com particular relevância na criação da Casa Manuel de Arriaga, na Horta. Uma obra cujo processo museológico está em preparação e cuja repercussão não se esgota no carácter simbólico da sua concretização.

A aposta formativa e na criatividade, bem como, na promoção exterior do tecido cultural insular estão igualmente presentes no documento agora aprovado. Destaco, naturalmente, o programa de Bolsas de Formação e Criação Artística recentemente introduzido, bem como, a aposta continuada das dinâmicas de proximidade pedagógica, casos da Rede de Leitura Pública, da Lira Açoriana, do projecto da Orquestra Francisco de Lacerda e do projecto pioneiro do Museu Móvel (afecto ao Museu Carlos Machado) que foi, por estes dias, distinguido com um prémio da Associação Portuguesa de Museologia para o melhor serviço de extensão cultural.

A Cultura é um sector de importância fulcral como “factor intangível de desenvolvimento” (Carlos L. Medeiros, «Cultura, Factor de Criação de Riqueza», UCP, Lisboa, 2008), e a aposta continuada, nesta área, segue esta mesma estratégia como vector basilar na formação, valorização e estímulo da sociedade açoriana.


* Publicado na edição de 01/12/09 do AO
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sexta-feira, novembro 20

Eficiência energética


Foto Francisco Botelho

Na recente visita governamental ao Grupo Ocidental ficámos a saber, por revelação do Secretário Regional do Ambiente, Álamo Menezes, que, em Outubro deste ano, a ilha das Flores esteve 12 dias a funcionar exclusivamente com recurso a energias renováveis, numa situação inédita a nível nacional e que nos deixa a todos, acredito, orgulhosos. As Flores, a par com São Miguel, são as ilhas dos Açores onde a taxa de penetração das renováveis tem, neste momento, maior incidência, se bem que existam características endógenas favoráveis para que, a curto prazo, a contribuição das energias renováveis na produção de energia eléctrica no arquipélago passe de 28% para 75%, até 2018.

A estratégia governamental visa alcançar uma maior eficiência energética nas ilhas e maximizar o aproveitamento das energias renováveis na produção de electricidade, quer por intermédio da certificação energética dos imóveis e equipamentos, que passa a ser obrigatória já em 2010 nos Açores, quer por intermédio da introdução da tarifa bi-horária e de contadores inteligentes. Nesta medida, deu recentemente entrada no Parlamento Regional a revisão do PROENERGIA, cujo incentivo aos investidores passa agora pela redução do limite do investimento mínimo exigido aos particulares e às empresas, na alteração do limite máximo do apoio e pela criação recente do sistema de registo de microgeração, que vem permitir que o cliente da EDA possa, simultaneamente, produzir para auto-consumo e por via do seu excedente energético alimentar a rede pública.

Os Açores são precursores no plano nacional e o Governo Regional está ciente da importância que se nos coloca, sobretudo, ao nível da procura de uma maior competitividade económica, através da redução da factura energética. Este é um “desafio global” e os Açores estão bem posicionados para o alcançar.

Isto apesar de anteontem e na “véspera” da próxima conferência climática da ONU, marcada para Dezembro, em Copenhaga, Barack Obama e outros líderes mundiais terem manifestado a intenção de atrasar até 2010, ou até para mais tarde, a concretização de um acordo vinculativo sólido com vista à negociação do sucessor para o Protocolo de Quioto. Será que o planeta pode dar-se ao luxo de ficar “em espera”?


* Publicado na edição de 17/11/09 do AO
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domingo, outubro 25

Simulacros e eufemismos


Carlos Carreiro - Exposição "Ponta Delgada, Obviamente!", Out'09

Regresso à coluna depois de uma interrupção forçada devido à directiva da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a qual não foi aplicada por todos os órgãos de comunicação (regionais e nacionais). A sua aplicação é uma forte condicionante a quem colabora e na prática não garante a isenção pretendida, porque a opinião político-partidária não está vedada, neste caso, apenas e somente, aos candidatos. Porém, esta foi a opção deste jornal que respeito, mas com a qual não estive nem estou de acordo. Adiante.

A semana que passou e, mesmo esta, têm sido pródigas em análises e comentários aos resultados eleitorais do passado dia 11 de Outubro. Há quem tenha vaticinado vitórias a priori sem esperar pelo fecho das urnas. Deu-se mal. Ou fez com que isso fosse relativizado, através da singularidade e personalização do acto e circunscrevendo os Açores à sua maior cidade. É uma interpretação altruísta daquilo a que chamam desenvolvimento harmónico ou quando isso não dá jeito o melhor é fingir que não é nada connosco. Uma posição em claro contrapondo com a visão clarividente de Ângelo Correia, em entrevista ao DN, que diz o seguinte: «Não posso falar em nome dos outros. Mas se fosse líder sentia-me demitido na noite das eleições autárquicas». Isto quando questionado sobre a sua percepção do resultado eleitoral nas autárquicas, e após o que acontecera nas legislativas. Elucidativo?! Muito.

Os dias têm também sido pródigos em aspectos laterais sob o signo do simulacro. A forma pela qual foi tornado pública a revindicação estatutária de um deputado da Assembleia Legislativa Regional dos Açores em nada contribuiu para o elevar da disputa político-partidária. Bem pelo contrário. Esvaziou-a de significado. E foi reduzida ao ridículo. É caso para se dizer que sem os medium não haveria message.

Ps Ao ler o editorial de domingo do Açoriano Oriental dei com uma referência explícita “a guerras dos Museus”. Será importante aqui referir que ao dar-se conta da existência de alguma “guerra” convém não esquecer quem é que aqui é o agressor. Outra leitura que faço é a de que a mesma referência bélica vem dar razão àqueles que verbalizam que há jornalistas que gostam de sangue. Não em sentido literal, é certo! Mas por vezes fica-me a dúvida.


* Publicado na edição de 20/10/09 do AO
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sexta-feira, outubro 2

Graciosa, uma escolha entre o já e o agora


Sta. Cruz da Graciosa, Ago'09

Graciosa. Situada num dos "extremos" do arquipélago é, desde há 35 anos, paragem obrigatória, em Agosto, para o retiro familiar.

Anos houve em que permanecia quase um mês. Hoje os dias são apressados sem, no entanto, perderem o carácter precioso. Por regra, opto pelos dias imediatamente após as festividades da ilha. Prefiro-a "calma". Entendo o cerne das "festas" mas procuro - e esta é, reconheço, uma posição egoísta com aqueles que lá habitam - um espaço tranquilo, sem corrupios... sem "pressas", como isso não fosse já possível.

Naqueles dias sinto uma nostalgia latente e contemplo de forma romântica uma paisagem feita de memórias. A ilha está diferente. Para melhor, dizem-me. Não duvido. Hoje a insularidade vive-se de forma descontinuada graças às melhorias nas comunicações e na rede de transportes (marítimos e terrestres). A coesão que se impõe - em ilhas como a Graciosa - é um imperativo. E o "estar melhor" não significa que está tudo feito. O desafio futuro que se coloca, no curto prazo, passa, fatalmente, pelo continuado envelhecimento populacional e pela fixação de jovens na ilha. E estas questões são transversais a todo o espectro político...

A aposta e a iniciativa na Graciosa têm sido promovidas na sua esmagadora maioria, honra lhe seja feita, pelo Governo dos Açores. A autarquia assiste impávida. Um exemplo concreto: a Graciosa não tem, hoje, um sistema de recolha selectiva dos resíduos, a não ser vidro, isto apesar de ter sido classificada, muito recentemente, pela Unesco como - Reserva da Biosfera (num processo igualmente promovido pelo Governo). É admissível que tal aconteça?! Não. Entretanto, a solução está encontrada e já foi adjudicada pela Secretaria do Ambiente que irá proceder ao lançamento da empreitada de uma central de resíduos, até final de 2009. Esta é, na sua essência, uma competência camarária mas que aqui se mostrou incapaz ou insensível a uma problemática que está para além da ordem do dia.

Quando o PS/Açores enuncia que vencer a Câmara de Santa Cruz da Graciosa é um "grande objectivo" dí-lo com convicção, pois acredita que é possível vencer para mudar o concelho e a ilha, retirando-o do conformismo e do anacronismo a que tem sido sujeito pela gestão laranja.


* Crónica escrita em Agosto para o AO (mas não publicada), cuja colaboração está suspensa está ao próximo dia 11.10.09
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sexta-feira, agosto 7

Actos que fazem toda a “diferença”


[foto] Parque eólico de Torres do Canto, Pico | Portal das Energias Renováveis

O Verão nos Açores (em São Miguel, pelo menos!) não está para isso. São as mudanças climáticas, dizem-nos. Isto apesar da recusa de determinados “cépticos” perante os cenários “apocalípticos” de alguns - poucos, lunáticos e fanáticos - ambientalistas (!). É, digamos, uma avaliação “simplex” (sem nada de substantivo para discussão, ao contrário da medida propriamente dita).

Por estes dias a leitura é mais diversificada e no contacto imediato com o número estival da revista INTELLIGENT LIFE cheguei ao livro “Sustainable Energy - Without the Hot Air” de David J.C. MacKay, um físico de Cambridge que nos faz de forma escorreita, e rigorosa, uma abordagem à discussão emergente sobre a alternativa energética consubstanciada através das energias renováveis face à energia fóssil que hoje consumimos (e que muito tem contribuído para as mudanças climáticas induzidas, sobretudo através do aumento do nível de CO2 na atmosfera).

Através deste “olhar” é possível vislumbrarmos os números e os actos que fazem a “diferença”, na luta desigual contra o desperdício, e sobre o “papel” que cada um de nós tem nesta longa caminhada para a eficiência energética que é, ou será no futuro próximo, uma das “formas” mais rentáveis de energia renovável. Ao contrário do que se possa pensar, e fazer, David MacKay afirma que a tão propalada “máxima” - “Every little helps!”, é um mito. Pois, na sua perspectiva, “If everyone does a little, we’ll achieve only a little”. Basilar. E, a título de exemplo, dá-nos o da campanha em Inglaterra para desligar os carregadores de telemóveis, para demonstrar que não é por aqui que chegamos lá, ironizando que tal prática é, ou seria, o equivalente a “salvar o Titanic com uma colher de chá”. De qualquer modo, devemos sempre desligar todos os nossos aparelhos domésticos depois de utilizados e nunca permitir que fiquem em “standby”...

Nesta “urgência” em substituirmos as energias fósseis por renováveis o autor deixa-nos uma mensagem contundente e realista, isto porque, para mantermos os níveis actuais de consumo (leia-se conforto) dificilmente o faremos “somente” com energias verdes (e com isso não exclui o uso da energia nuclear). Uma pequena “provocação”. Apesar do carácter “informal” está por demais evidenciada a “urgência” da temática e a importância de agirmos “já”, na medida em que o tempo do “desenvolvimento sustentável” já era! Estaremos perante mais uma “verdade inconveniente”?!


* Edição de 04/08/09 do AO
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domingo, julho 26

Cultura, género maior


[foto] "Anagrama", 2009 | Daniel Oliveira

O índice de actividade cultural dita “erudita”, entre nós, tem estado “elevado”. Esse facto, graças à actividade programática, sobretudo, de privados e das instituições tuteladas pelo Governo Regional, faz com que Ponta Delgada se posicione a um nível equivalente ao de algumas cidades nacionais de média dimensão. Se por um lado é verdade que a actividade tem sido mais intensa, por outro, não é menos verdade que não é fácil ser-se actor, mesmo que secundário, neste filme.

As dificuldades financeiras inerentes ao sector, fruto das suas idiossincrasias e, sobretudo, da “escala” e dos “números” torna difícil a sustentabilidade de alguns projectos e iniciativas. Não obstante todas estas questões, o facto é que o apelo à criatividade e à dinamização cultural, por parte da Direcção Regional da Cultura, tem sido contínuo e sofreu, inclusive, um aumento orçamental. Em 2009 esse valor é superior em 2,6% relativamente a 2008, sendo que a Cultura nos Açores detém 2.03% do orçamento regional. O que não deixa de se constituir como um dado muito importante e que atesta o empenho governamental na promoção da Cultura dos Açores no Mundo (alguns exemplos desta dinâmica: representação na Arco, em Madrid; pavilhão na Feira do Livro de Lisboa e a representação da Azores Film Commission, no Festival de Cannes). Não posso, igualmente, deixar de referenciar algumas iniciativas recentes, de enorme relevância cultural, como o programa Câmara Clara dedicado aos Açores (emitido a 12.07.09 pela RTP2); o Ciclo de Cinema - Jazz no Colégio, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada; a exposição “Peças Soltas” de Ana Vieira, na Galeria Fonseca Macedo e o concerto magistral de Philippe Jaroussky, inserido na temporada MusicAtlântico, na Igreja do Colégio, ao qual ninguém ficou indiferente.

A “cultura erudita” pode, de facto, “acontecer em qualquer parte”, como referiu depreciativamente a presidente do município de Ponta Delgada, mas o facto “dela” acontecer entre nós, é algo que não deve, nem pode ser menosprezado, na medida em que a Cultura se consubstancia como um factor capital do nosso desenvolvimento. E talvez, por isso, este “género” seja considerado “menor”, por alguma oposição, sendo que é, muitas das vezes, omitido e minorado. Esse, felizmente, não é o entendimento da maioria.


* Edição de 21/07/09 do AO
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terça-feira, julho 14

Rigor

[foto] Rita Dourado

O apoio à cultura deve ser tido como algo legitimado e não como se de uma esmola se tratasse, como que a esconder uma posição de subserviência, perante a qual o destinatário da “oferenda” tem de retribuir através de uma “participação cívica”, que se revele descontextualizada e, sobretudo, forçada.

Vem isto a propósito dos apoios atribuídos pela CMPD aos agentes culturais do concelho, num total de 23, entre grupos folclóricos e bandas filarmónicas, no montante de 1.3 milhões de euros atribuídos ao longo dos últimos oito anos, o que é, verdade seja dita, muito pouco. Isto se comparado com os apoios executados anualmente pela Presidência do Governo/Direcção Regional da Cultura, num investimento de mais de 4 milhões de euros, numa aposta continuada a várias centenas de agentes culturais independentes e associativos nos Açores, dando, por essa via, lugar a uma estratégia fundamental para o enriquecimento cultural da Região e para a valorização do tecido social açoriano e aos quais é exigido o bom cumprimento dos objectivos a que se propõem.

A justificação camarária de que “sem o contributo dos agentes culturais Ponta Delgada não seria a mesma” é a prova flagrante da ineficácia do município. Isto porque parte significativa dos eventos promovidos pela gestão camarária peca por nivelar por baixo e reduzir-se a factores meramente populistas, sem um olhar qualitativo ou inovador.

Quando a assessoria camarária refere “falta de vontade e inércia” da Direcção Regional da Cultura e questiona em concreto o “papel social” do Museu Carlos Machado ignora, claramente, o facto de este ser uma instituição ímpar na cidade e o único museu da cidade (o que talvez não acontecesse caso fizesse parte da “tutela” camarária), cuja administração recente tem revelado um trabalho notável, quer seja na procura de novas formas de aproximação ao público, quer também na tentativa de conquista do mesmo. É disso exemplo o projecto Museu Móvel – símbolo do encontro que o Museu tem promovido com as populações da ilha, saindo dos muros do Convento que lhe servem de guarda. A demora das obras de requalificação, que decorrem a bom ritmo, não pode servir de argumento de laxismo. Sendo, ao contrário do que se pensa, sinónimo de rigor e de exigência.

PS: como nota de utilidade pública deixo aqui 2 horários de funcionamento que atestam a verdade que se impõe: Museu Carlos Machado 3ª a 6ª das 10h00/12h30 - 14h00/17h30 e sábados e domingos das 14h00/17h30 (encerra 2ªs e feriados) Centro Municipal de Cultura 2ª a 6ª das 08h30/12h30-13h30/16h30 (encerra sábados, domingos e feriados, informação obtida telefonicamente)


* Edição de 07/07/09 do AO
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terça-feira, junho 30

Uma nova cultura de mobilidade



A propósito da discussão na Assembleia Regional sobre a proposta do PS para implementar o “passe social” no transporte colectivo rodoviário de passageiros, nos Açores, assistiu-se a uma tentativa de relativizar aquilo que na essência é uma medida simples mas cuja aplicação irá ter um impacto significativo junto de quem anda diariamente de autocarro e que dele depende para “laborar”.

Aníbal Pires fala de “desinformação”, na sua crónica n’ A União, e em plenário insinuou “desonestidade” do Grupo Parlamentar do PS - talvez por isso terá votado favoravelmente a proposta (!). O PSD - vazio de conteúdo - absteve-se arrogantemente, como lhes convém. Os restantes partidos votaram, naturalmente, a favor. A implementação desta medida será seguida atenta e persistentemente pelo PS, pugnando, em defesa dos açorianos, que dela dependem, para que seja uma realidade a curto prazo. E para que, como referiu, e bem, o presidente do governo, há poucos dias, se crie “uma nova cultura de mobilidade, particularmente nos ambientes urbanos, onde a circulação a pé, de bicicleta, em transportes colectivos, ou o uso de motorizada ou ciclomotor, devem constituir alternativas atractivas”.

Em ilhas como as nossas bastará que se dê primazia ao planeamento urbano, e se abandone a irracionalidade desenfreada da especulação imobiliária, prevalecendo, em muitas das novas edificações da malha urbana, um alheamento em apetrechá-las de uma ligação à rede de transportes públicos, em detrimento do uso “preferencial” pelo automóvel, evidenciando-se, desta forma, uma ausência de “integração” na urbe, com a formação de “guetos”.

Ponta Delgada é disso exemplo e evidencia um claro desajustamento no uso dos transportes públicos, a que nem os Minibus escapam, na medida em que são ineficientes na forma como foram promovidos, ou seja, como alternativa ao trânsito automóvel do centro histórico da cidade. O carro prevalece e as políticas recentes apontam no sentido contrário daquilo que seria desejável. As intenções da Agenda 21, na construção de um desenvolvimento sustentável para Ponta Delgada, consubstanciam um exercício de cosmética, numa cidade que se expande em formato “sobredimensionado” e pejado de automóveis. É um caso flagrante de “habilidade social”. Ponta Delgada merece Viver Melhor.


* Edição de 23/06/09 do AO
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quarta-feira, fevereiro 25

ArCo'09

Os Açores participaram, pela segunda vez, na Feira de Arte Contemporânea de Madrid por intermédio da Galeria Fonseca Macedo, naquela que é considerada uma das mais importantes feiras de arte contemporânea europeias, e que decorreu de 11 a 16 de Fevereiro. A primeira representação aconteceu em 2006, enquanto que 2009 marcou o regresso da galeria à ArCo e que no seu momento inaugural contou com a presença da Directora Regional da Cultura, Gabriela Canavilhas, conferindo ao evento a importância que dele importa reproduzir.

Num universo de 200 galerias e 2000 artistas a participação portuguesa quedou-se pela presença de 12 galerias e cerca de uma centena de artistas portugueses. A Fonseca Macedo participou num programa designado por ArCo 40 cujas condições obrigavam à apresentação de um máximo de três artistas com obras criadas nos últimos três anos. Neste sentido, a representação artística da galeria no certame recaiu sobre Augusto Alves da Silva e Maria José Cavaco, ambos artistas residentes da instituição.

Esta 28ª edição da ArCo ficou marcada pelo ambiente de recessão económica internacional e cujo sentimento de apreensão foi transmitido pela directora da feira, em declarações ao El País, ao referir que "teriam de trabalhar o dobro para conseguir metade dos resultados de antes." Um mal generalizado e que reflecte a retracção do mercado.

A presença da galeria poderá ser considerada como de assaz positiva, sendo de destacar a atenção exercida sob o trabalho de Maria José Cavaco cuja obra exposta para além de ter sido parcialmente adquirida foi amplamente elogiada. A consistente internacionalização das artes plásticas e dos artistas regionais é uma prática que carece de uma substancial sustentação, programação e apoio condizentes, de modo a que este investimento seja efectivamente rentabilizado e como estímulo interno a um progressivo incremento artístico criativo.

Como nota final gostaria de reforçar os meus parabéns à persistência profissional da galeria Fonseca Macedo, ao empenho irrepreensível de Maria José Cavaco e ao apoio institucional da Região na percussão de mais-valias criativas num mercado artístico globalizado e muito competitivo.


* edição de 17/02/09 do AO
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*** Imagem X Galeria Fonseca Macedo

quarta-feira, fevereiro 4

Miudezas

A reportagem que foi capa do Açoriano Oriental do passado sábado abordava um assunto que não é uma novidade para ninguém: a falta de apoios privados no sector cultural. Este é um problema antigo, que se apresenta agora com sintomas agudizados pela conjuntura económica actual e cujo diagnóstico é por todos conhecido. Não discuto os critérios que estão na génese da construção do artigo em destaque, mas existem algumas questões com as quais não concordo, nomeadamente, com a assumpção do todo cultural pela análise de um dos seus apêndices. Como ponto de partida, foi referenciado o relatório do Instituto Nacional de Estatística relativo ao consumo cultural e ao lazer em 2007, o qual coloca os Açores numa posição confortável: um quarto lugar em sete possíveis, revelando que os açorianos gastaram em média cerca de € 875 em fruição cultural diversa. No artigo em questão, confunde-se a promoção de espectáculos ao vivo e similares (em especial ao ar livre) com os verificados em salas de espectáculos e não existe qualquer menção àquilo que podemos designar por ‘alta cultura’ (concertos eruditos, museus e galerias de arte, por exemplo), consubstanciando-se somente a opinião em práticas comerciais e recreativas que, per si, não constituem a imagem de um todo. Nada tenho contra uma visão mercantilista da coisa cultural, mas outra coisa será basear nesse paradigma toda a acção do meio. Uma e outra são em regra antagónicas e apontam para objectivos diferenciados. E, ao contrário do que foi dito, as pessoas habituaram-se a pagar pelos espectáculos a que assistem. Ao mesmo tempo não compreendo o teor da notícia, em que se defende que, por um lado, a crise pode colocar em risco a oferta cultural mas em que, por outro lado, os empresários entrevistados dizem ser possível realizar espectáculos sem apoios oficiais (!). Há, no mínimo, um contra-senso e são dados contributos pouco esclarecidos relativamente a um sector importante na dinamização sócio-cultural das ilhas.

* edição de 03/02/09 do AO
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*** Imagem X TM/Fernando Resendes

quarta-feira, janeiro 7

Ódio

O ano terminou e começa em Guerra. Apesar da expectável invasão terrestre da Faixa de Gaza por Israel, esta incursão sobrecarrega negativa e incomensuravelmente a agenda deste início de 2009, num ano de expectativas moderadas e que se quer (ou que muitos querem) de crise e de pessimismo.

Esta é a maior operação militar israelita na Faixa de Gaza desde 1967, numa acção tida como defensiva por Israel e uma resposta aos ataques de rockets perpetrados pelo Hamas. O fosso bélico entre ambas as forças em disputa é abissal, sendo quem mais sofre neste(s) conflito(s) são civis, pelo que podemos estar perante a iminência de uma ampla tragédia humanitária. Não obstante, a intensa pressão diplomática internacional, muitas dúvidas se levantam quanto à duração da operação militar em curso e na resolução pacífica do conflito. Alguém terá de mediar o extremar de ambas as facções, pois há a questão social inerente e perante a qual ninguém pode e deve ficar indiferente, apesar da banalidade com que encaramos a violência das imagens que nos chegam à hora de jantar... No momento em que escrevo estas linhas, Israel acaba de rejeitar os apelos dos diplomatas europeus, de visita a Jerusalém. Um mau prenúncio.

No eclodir desta guerra, sem fim aparente, está o facto de Israel ter declarado Gaza como uma "entidade hostil" e o reconhecimento do Hamas, não como uma entidade governativa, mas sim como uma organização terrorista. O entendimento, como já vimos, prevê-se difícil. A situação naquela zona do globo progride sob o espectro da guerra e na luta pelo controle de territórios estratégicos. Os interesses sobrepõem-se à razão e o Médio Oriente afigura-se, uma vez mais, como um imenso barril de pólvora alimentado por ódios culturais de índole religiosa. Os Estados Unidos, os “mediadores” desta crise, mantêm, na véspera da entrada em cena do novo player, um silêncio ensurdecedor, cuja omissão poderá apenas significar o seu agreement.

O directo televisivo de Gaza não é um simulacro e pouco ou nada tem de optimista. O Ódio tem um perigoso poder de atracção...


* edição de 06/01/09 do AO
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quarta-feira, dezembro 24

O tempo não volta para trás

Altura para balanços, repensar o ano, e vislumbrar o que ficou feito e o muito que ficou por realizar. No final deste ano político o discurso fica indubitavelmente avalizado pela crise ou pelas repercussões de uma crise financeira cuja extensão ainda não vislumbramos na sua plenitude mas cujo déficit de liquidez tornou visíveis as fragilidades do sistema bancário. E, por arrastamento, da economia real.

Numa conjuntura menos favorável há quem daí tente auferir dividendos e os rentabilize politicamente, numa lógica de capitalização selvagem. Noutro sentido, e contrariando esta deriva, é tempo de induzir confiança, delimitar os discursos e juízos catastrofistas, assumindo uma atitude ponderada e realista. Independentemente do melindre da situação global actual, temos de olhar o futuro com ânimo e perspectivar soluções de combate a estes tempos de incerteza, com uma certeza porém – estamos perante uma época em mudança e a situação futura dificilmente encontrará paralelo com o tempo passado. O paradigma futuro será de adaptação a novas realidades quer do foro económico quer civilizacional. Podemos eventualmente elaborar um cenário hipotético e efectuar um paralelismo com a “emergência planetária” que vivemos - será este o aviso de que necessitamos para alterar procedimentos e práticas insustentáveis?! Parece-me que sim (e com esta posição não pretendo ser apocalíptico, é quanto a mim uma convicção construtiva).

O Natal está associado a um tempo religioso, do reencontro das famílias, à solidariedade e à reflexão. Paralelamente, não podemos omitir que esta época tem agregado um forte lado mercantilista, de consumo desenfreado e de excesso(s). Pelo que não é despiciendo recordar que estes são bons momentos para colocar em prática alguns procedimentos ambientais. Nessa medida, proponho uma visita ao site da Quercus, onde podem encontrar algumas sugestões de fácil implementação, por forma a concretizarmos um Natal mais ecológico, contribuindo, desta forma, para um ambiente mais protegido e equilibrado.

O Planeta agradece. E o tempo como já sabemos não volta para trás...


* edição de 23/12/08 do AO
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quarta-feira, dezembro 10

“Montra” Subterrânea *

Foi ontem inaugurado, em pleno Dia das Montras, o novo parque de estacionamento da Avenida Marginal de Ponta Delgada, tendo sido descrito, aquando do arranque das obras, como “complementar” ao das Portas do Mar.

A política de revitalização do centro histórico desenvolvida pela edilidade, quer através do programa Reviva, quer do Plano de Mobilidade, é, a múltiplos níveis, questionável. Senão vejamos: o programa Reviva propõe uma redução dos custos de construção, reconstrução, alteração, ampliação, demolição e conservação de edifícios (entre outros) que visam a recuperação e reconversão urbanística de edificações no centro histórico, delimitado entre a Rua Eng.º José Cordeiro, a nascente, a Rua Teófilo de Braga, a poente, e a Rua da Arquinha, no seu perímetro máximo, a norte, abrangendo, assim, uma área indubitavelmente extensa. Sendo que, paralelamente, licencia(ou) um número desmesurado de empreendimentos urbanos na cintura periférica da cidade, dando lugar a uma deslocalização das populações, a uma construção suburbana massificada, assistindo-se, por essa via, ao continuado esvaziamento do referido centro histórico. Esta situação é na sua génese antagónica. A Câmara não assume que o centro histórico está moribundo e que isso ainda não é um problema mas, simultaneamente, promove a sua revitalização (!).

O denominado Plano de Mobilidade previa parques na periferia da cidade que nunca aconteceram e o transporte dos seus utentes, até ao “centro”, por minibus. A rede de minibus nunca cumpriu esse propósito, sendo que é a única rede efectiva de transporte urbano em Ponta Delgada, mas não totalmente eficaz. Pelo facto de não ser um serviço contínuo, com horários alargados pela noite, fins-de-semana e feriados, pelo insuficiente número de autocarros e de não existirem faixas dedicadas ou corredores para os transportes públicos. Não obstante, é uma medida popular e de sucesso comprovado, mas que tem de ser aperfeiçoada. Os parques existentes resolvem, em parte, o problema, mas não retiram o excesso de tráfego automóvel do centro histórico, sufocando-o e conferindo-lhe uma existência pouco qualificada. A construção do novo parque na avenida marginal devia ter coexistido com o das Portas do Mar, mas a razão de existir não pode ser vendida como o vector principal para a revitalização do centro e do comércio histórico que o habita.

A glória noticiosa é fugaz, a obra fica.


* edição de 09/12/08 do AO
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sexta-feira, novembro 28

Ambiente e Energia *

Numa acção promovida pela associação cívica Forum Açoriano decorreu, no passado sábado, uma conferência subordinada ao tema “Ambiente e Energia”, que teve como oradores João do Nascimento Baptista (director-geral, ELECPOR), Fausto Brito e Abreu (assessor do secretário de Estado do Ambiente) e Francisco Botelho (administrador/EDA). A anteceder a referida conferência foi efectuada uma visita às instalações da SOGEO e da Central do Salto do Cabrito, na Ribeira Grande.

Em tempo de incertezas, a crise persiste e não é somente de natureza económica mas de paradigma de viabilidade do planeta e do homem enquanto espécie. Nesta medida a pertinência desta conferência impõe-se pela importância do tema e da reflexão que decorre, actualmente, em termos mundiais, ao nível cientifico e político, e que foi transcrita para o grande público através do livro e do documentário - Uma verdade inconveniente (An inconvenient truth) - do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore.

Através de três abordagens distintas ficamos com uma noção abrangente daquilo que tem sido a política ambiental em torno da emergência energética, do papel de Portugal no plano europeu e mundial, sobretudo através da concretização do Bali Road Map que define o calendário na luta contra as alterações climáticas no mundo pós-Quioto até à conferência de Copenhaga, em 2009. Por fim, uma comunicação com enfoque no panorama regional através da intervenção elucidativa do Engº Francisco Botelho, o qual revelou os avanços significativos na área das energias renováveis e dos objectivos a que a Região se propõe no médio prazo, ao nível da produção eléctrica, passando dos actuais 28% para 75%, em 2018. Um valor ambicioso mas concretizável. Senão vejamos, se cada família nos Açores substituísse uma lâmpada incandescente de 100W por uma lâmpada de 20W compacta, para além de reduzir as emissões de CO2, a Região reduziria cerca de 9 MW de potência, o que equivale a um valor superior à ponta máxima anual em muitas das ilhas dos Açores.

Através deste exemplo, podemos vislumbrar aquilo que cada um de nós poderá contribuir, de forma decisiva, para a eficiência energética (Nega Watt) que se pretende atingir, sendo que essa eficácia será, muito provavelmente, uma das melhores formas de “energia renovável”.


* edição de 25/11/08 do AO
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quarta-feira, novembro 12

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Blogs: relevância irrelevante? *

Os blogs existem há uns bons anos, mas só há cerca de 5/6 anos é que tiveram algum impacto em Portugal… Nos Açores, foram algo que aconteceu de forma dispersa, tal como as ilhas, mas nos últimos anos o fenómeno tem vindo a crescer gradualmente, se bem que não com a qualidade desejável, mas o seu número aumentou exponencialmente.

O blog :ILHAS é uma das plataformas mais antigas no chamado blogarquipélago e faz esta semana cinco anos de emissões. No início, as dúvidas para a implementação do projecto eram mais que muitas, mas com o passar do tempo essas dissiparam-se (tinham mais que ver com o carácter efémero do fenómeno em termos nacionais), para dar corpo a outras questões, sobretudo a nível da qualidade de conteúdos e do alcance dos mesmos. Se nos EUA alguns blogs rivalizam com alguma da imprensa tradicional e são eles próprios fonte de informação, como garante comunicacional e de opinião (o acompanhamento da noite eleitoral do passado dia 4 de Novembro é disso um bom exemplo), em Portugal, e nos Açores em particular, os blogs ainda não atingiram um patamar de respeitabilidade que possa fazer deles referências comunicacionais.

Os blogs não pretendem sobrepor-se aos media tradicionais. O blogger não é um jornalista, na medida em que não é um profissional (se bem que os haja!) encartado, nem está submetido às lógicas da imparcialidade e de um padrão ético. Aliás, os jornalistas são, simultaneamente, um dos maiores "clientes" da blogosfera e um dos seus maiores críticos, sobretudo pelo carácter anónimo com o qual muitos bloggers estão conotados - mas esse é um lado que pouco ou nada importa. Não obstante as questões de pormenor, os blogs são, hoje em dia, um barómetro indispensável desta nossa existência mundana.


* edição de 11/11/08 do AO
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quarta-feira, outubro 29

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Pragas *

1. Foram introduzidas plantas invasoras nos jardins das Portas do Mar (Título e capa deste jornal na sua edição de 14.10.08). Percebo que este seja um problema e que o mesmo seja de fácil resolução (no jardim das Portas do Mar, entenda-se!). Não compreendo a repercussão e a amplificação mediática que obteve. Ainda bem que existem associações ambientais atentas para este tipo de aspectos e com um forte carácter interventivo. Se existem problemas de plantas infestantes em vários pontos da ilha o mesmo não se verifica num espaço contido e delimitado e que tendo sido identificado será rapidamente erradicado como foi prontamente anunciado. Gostaria de ver amplificado este tipo de discurso quanto a outro tipo de pragas que copulam na cidade de Ponta Delgada e restante ilha e que de pouco têm de autóctones e cujo nível de poluição (visual, sonora e atmosférica) estão muito para além do recomendado. Falo de inusitados desportos automobilizados que durante o fim-de-semana invadem o espaço público da cidade e da ilha, sem que as mais comuns regras de civilidade sejam cumpridas. É óbvio que existem excepções, mas por uns menos capazes pagam os outros. Sinto que o desprezo pelo que de melhor temos na ilha seja um capricho garantido à partida e que a contínua degradação ambiental não seja devidamente tida em consideração e é ostensivamente desvalorizada em prol de um egoísmo fortuito e passageiro. Uma pequena curiosidade: assistimos diariamente às reclamações da população quanto à subida ou descida dos preços dos combustíveis, mas relativamente a estes desportos parece não existir qualquer tipo de “contestação”. Prioridades?! Pode ser que dê um motivo de reportagem à Teresa Nóbrega. Mais civismo e menos ruído, precisa-se!

2. O Presidente da República acaba de vetar a revisão do Estatuto Político-Administrativo dos Açores. Nada de verdadeiramente surpreendente. Gostaria apenas de imaginar a condução deste dossier caso o mesmo tivesse tido outros protagonistas insulares. A discussão jurídica continua intrincada aos gabinetes, à porta fechada, distante da maioria e processada através de um complexo linguajar constitucional. Haverá outra forma?!


* edição de 28/10/08 do AO
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quarta-feira, outubro 8

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Ideal Cultural *

Faltam menos de três semanas para as eleições regionais e o ruído adensa-se. Na essência, as ideias são o suporte ao programa eleitoral de cada partido, mas as propostas são, em regra, um dos últimos elementos públicos de algo que se pretende amplamente discutido. O que nem sempre acontece…

O ideal cultural parece ser algo distante na maioria dos programas a sufrágio, sendo que ocupa um dos últimos lugares dos índices. Mas, e apesar disso, é um ponto importante ao qual devemos todos atribuir a maior importância. Deixando de lado alguns comentários e críticas injustas quanto aos custos despesistas de que são acusados criadores e gestores da coisa cultural, certo é que a cultura é um elemento reprodutivo em termos económicos e pode ser potenciado em diversos sectores da sociedade, que não apenas o do espectáculo. É algo que pode e deve ser articulado com o ambiente, o turismo e o artesanato, só para dar alguns exemplos. Muitas das vezes sinto que falta respeito pelos agentes de Cultura. E isso tem de ser alterado.

Nos últimos anos temos vindo a assistir a um forte investimento cultural ao nível dos equipamentos culturais no arquipélago. Um investimento importante e necessário, tendo em conta a carência de condições técnicas para o desenvolvimento de determinadas propostas - a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, o Museu Carlos Machado, o Coliseu e o Teatro Micaelense são disso bom exemplo. Um dos desafios que se colocam ao próximo Governo dos Açores será a humanização e a dotação de recursos técnicos, financeiros e programáticos para a prossecução de um serviço cultural articulado a nível regional. Parece utópico. Mas com a ambição necessária terá o futuro que lhe quisermos atribuir.

PS: Na página 64 do programa eleitoral do PSD consta a seguinte proposta: “Colocar a Região na agenda cultural nacional, promovendo uma candidatura dos Açores a Capital Nacional da Cultura já em 2010”. Muito bem se essa mesma ideia não tivesse sido gerada por um grupo de pessoas, há já alguns anos, e que se organizaram em blogue. Coincidências há muitas. Umas maiores do que outras.

* edição de 01/10/08 do AO
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